{"id":857,"date":"2005-12-27T01:29:27","date_gmt":"2005-12-27T04:29:27","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/nova-carta-romantica-do-papai-noel"},"modified":"2005-12-27T01:29:27","modified_gmt":"2005-12-27T04:29:27","slug":"nova-carta-romantica-do-papai-noel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/nova-carta-romantica-do-papai-noel\/","title":{"rendered":"Nova carta (rom\u00e2ntica) do Papai Noel"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/e-fimdeano.gif\" align=\"right\">J\u00e1 est\u00e1 enchendo o saco. Em 2003, fui <a href=\"\/blog\/2003\/12\/25\/789\/\" target=\"_blank\"><b>surpreendido<\/b><\/a> por uma mensagem do Papai Noel, explicando meu complicado segundo semestre. Ano passado, o velho batuta <a href=\"\/blog\/2004\/12\/27\/1141\/\" target=\"_blank\"><b>mandou outro e-mail<\/b><\/a>, desta vez para explicar um curioso cart\u00e3o prateado em japon\u00eas. Esse ano o bonach\u00e3o barbudo despirocou. Aproveitou sua experi\u00eancia em seu mundo distante e abstrato para falar de&#8230; amor. Mas que gordo metido!<\/p>\n<p>&#8212; original message &#8212;<br \/>\nFrom: Papai Noel &lt;santaclaus@laponia.gov&gt;<br \/>\nFecha: 26\/12\/2005 12:34:56<br \/>\nTo: Andr\u00e9 Marmota &lt;uma@igualaquinzequilos.com&gt;<br \/>\nSubject: Feliz Natal<\/p>\n<p>Ho ho ho! Mais uma vez, um feliz Natal para voc\u00ea, meu jovem redator de cora\u00e7\u00e3o duro!<\/p>\n<p>Definitivamente, estou a cada ano mais impressionado com a falta de sensibilidade humana. Digo isso pela quantidade de cartas cada vez menor&#8230; E quando aparecem, s\u00e3o puramente materialistas. Querem dinheiro, ou qualquer coisa que lembre esse monte de papel sujo que enlouquece os homens. Felizmente, o mundo est\u00e1 cheio de gente feliz, com pedidos mais humanos. Como o seu, no ano passado, estampado naquele seu site bacana: &#8220;Papai Noel, o de sempre: uma namorada&#8221;. Lembra disso?<\/p>\n<p>Ahhhh, meu jovem&#8230; S\u00e3o pedidos assim que ainda motivam esse pobre velho cansado durante o ano. Sim, porque a f\u00e1brica de brinquedos j\u00e1 est\u00e1 terceirizada: meu envolvimento \u00e9 puramente log\u00edstico e limitado \u00e0s \u00faltimas semanas do ano. No resto do tempo, saio em busca desses bens intang\u00edveis. Especialmente para os bons meninos, que cuidam bem dos presentes. Ou aqueles que insistem no mesmo pedido anos a fio, como voc\u00ea.<\/p>\n<p>Ora, ora. Tratei de rodar o mundo em busca de um par para ti. Percorri terra e ar, mas foi do mar que ela surgiu. Com um brilho radiante nos olhos, muita dedica\u00e7\u00e3o e determina\u00e7\u00e3o&#8230; Muitas qualidades, e uma pitada dessa coisa inexplic\u00e1vel, uma das poucas que emerge da terra dos sonhos e ainda vinga em alguns cantos desse mundo c\u00e3o: essa coisa chamada amor.<\/p>\n<p>Naquele instante, meu nobre redator de cora\u00e7\u00e3o duro, ignorei seus conceitos e me alimentei de tudo quanto foi metaf\u00edsico e tresloucado. Nesse ambiente, qualquer defini\u00e7\u00e3o \u00e9 v\u00e1lida. Amor \u00e9 um sorriso espont\u00e2neo e sincero. Amor \u00e9 banho de chuva com direito a arco-\u00edris no horizonte. Amor \u00e9 magia radiante saltando de uma imensa cartola. Amor \u00e9 serenata e coral de vozes na janela. Amor \u00e9 bolo de cenoura com cobertura de chocolate. Amor \u00e9 bola de neve rolando morro abaixo. Amor \u00e9 uma geladeira carregada de keep cooler. Amor \u00e9 paix\u00e3o, tes\u00e3o, fric\u00e7\u00e3o, tens\u00e3o, emo\u00e7\u00e3o, fixa\u00e7\u00e3o, sab\u00e3o, mel\u00e3o, feij\u00e3o&#8230; Qualquer coisa que mexa com os seus sentidos.<\/p>\n<p>Parece o presente perfeito, n\u00e3o \u00e9 mesmo? \u00c9, meu rapaz, eu sei. Errei no pacote. Exagerei na dosagem. Mandei entregar o tal do amor e acabou vindo tudo aquilo que muitas vezes \u00e9 intercambi\u00e1vel, mas pode causar efeitos colaterais imprevis\u00edveis e alucin\u00f3genos. Transforma pessoas normais e equilibradas em seres obcecados, que se agarram em fetiches, acreditam na paradoxal alegria do sofrimento, tornam-se viciadas em algo que deveria provocar prazer ou al\u00edvio, mas que acaba em uma irreconhec\u00edvel destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pois ent\u00e3o, a\u00ed vem voc\u00ea me dizer: Papai Noel, n\u00e3o d\u00e1 para chamar isso de amor. Ora, seu escrivinhador teimoso de cora\u00e7\u00e3o duro&#8230; N\u00e3o h\u00e1 uma defini\u00e7\u00e3o clara sobre o que \u00e9 esse tal de amor, e nunca vai existir. A humanidade tola pode reunir toda sorte de soci\u00f3logos, fil\u00f3sofos, poetas e afins, e nenhum deles vai conseguir explicar, impedir ou controlar seus semelhantes a amar sem pensar. A sofrer diante da necessidade de amar demais mas criar esse desequil\u00edbrio que tanto incomoda voc\u00ea. Ou pior: amar algu\u00e9m que n\u00e3o lhe corresponde.<\/p>\n<p>A limita\u00e7\u00e3o do homem jamais vai interpretar esse sentimento &#8211; que, como te disse, pode ser qualquer coisa. Amor \u00e9 uma estaca encravada no cora\u00e7\u00e3o. Amor \u00e9 uma boneca de porcelana que jogaram na sua m\u00e3o, ou centenas de pratos sobre estacas finas na sua frente, e voc\u00ea n\u00e3o pode deix\u00e1-los cair. Amor \u00e9 um buraco aberto de qualquer jeito no tempo e no espa\u00e7o. Amor \u00e9 triste, verdadeiro, de intensidade vari\u00e1vel e constantemente reciclado. Amor \u00e9 gripe, que deixa o enfermo numa longa quarentena e, meses depois, volta com toda for\u00e7a mesmo depois do tratamento.<\/p>\n<p>Acho que voc\u00ea j\u00e1 entendeu: poderia ficar muito mais tempo tentando amolecer voc\u00ea, mas enfim. N\u00e3o vai adiantar nada. Voc\u00ea \u00e9 mais teimoso que a mais obstinada das mulheres apaixonadas, e acredito ter entendido a sua defini\u00e7\u00e3o pura e simples da palavra. Amor \u00e9 um substantivo abstrato que indica a a\u00e7\u00e3o embutida no verbo amar, cuja \u00fanica conjuga\u00e7\u00e3o poss\u00edvel \u00e9 a primeira pessoa do plural no futuro do presente.<\/p>\n<p>Estou certo? Bom, resumidamente, voc\u00ea s\u00f3 vai conviver em paz com algu\u00e9m que preencha aqueles seus pr\u00e9-requisitos b\u00e1sicos &#8211; morar perto, n\u00e3o ser de aqu\u00e1rio, essas coisas &#8211; mas que, fundamentalmente, n\u00e3o siga ao p\u00e9 da letra o que diz seu cora\u00e7\u00e3o. Algu\u00e9m que tenha prud\u00eancia, racionalidade, tempo e paci\u00eancia para imaginar situa\u00e7\u00f5es como &#8220;n\u00f3s iremos&#8221;, &#8220;n\u00f3s faremos&#8221;, &#8220;n\u00f3s decidiremos&#8221;, entre outros, sem que isso provoque n\u00e1useas ou ferimentos. Tudo bem, meu caro. Mantenha a sua defini\u00e7\u00e3o e fa\u00e7a feliz a mulher que, do jeito dela, vai entender e respeitar isso em ti.<\/p>\n<p>Enfim, para te tranquilizar nessa virada do ano: aquele pacote que voc\u00ea devolveu com tristeza j\u00e1 foi reciclado e enviado para outro destinat\u00e1rio. Sem grandes modifica\u00e7\u00f5es: \u00e9 o mesmo amor cego e entusiasmado, de corpo e alma, sem muitos limites&#8230; Tudo aquilo que voc\u00ea j\u00e1 se cansou outrora, mas que ainda deixa muitas crian\u00e7as felizes.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 espetacular? Em um ano cheio de encontros tempestuosos, seu fim vir\u00e1 com uma brisa suave para todos! Tenho certeza de que voc\u00ea vai comemorar a perman\u00eancia da felicidade, independente daquilo que voc\u00ea chama de amor! Mas n\u00e3o v\u00e1 desdenhar, espalhando por a\u00ed que &#8220;j\u00e1 viu esse filme antes&#8221;. Nunca subestime o poder do destino: sua companhia perfeita pode viver do outro lado do mundo, mas tamb\u00e9m pode ser aquela que est\u00e1 h\u00e1 anos na frente do seu nariz!<\/p>\n<p>E, para n\u00e3o perder o costume, feliz fim de Natal! Ho ho ho!<\/p>\n<p>Papai Noel<br \/>\nhttp:\/\/www.northpole.com<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 est\u00e1 enchendo o saco. 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