{"id":81,"date":"2010-08-16T20:51:36","date_gmt":"2010-08-16T20:51:36","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/papel-e-tinta"},"modified":"2010-08-16T20:51:36","modified_gmt":"2010-08-16T20:51:36","slug":"papel-e-tinta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/papel-e-tinta\/","title":{"rendered":"Papel e tinta"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/plantao.jpg\" align=\"right\" \/>H\u00e1 algumas semanas, durante o Semin\u00e1rio Internacional de Jornalismo Online, realizado na C\u00e1sper L\u00edbero, ouvi uma frase do professor Fernando Firmino, da UEPB, que estuda o uso de tecnologias m\u00f3veis no jornalismo: &#8220;n\u00e3o existe um dispositivo que possamos dizer pr\u00f3prio do jornalismo&#8221;. No mesmo instante, fiz um complemento despretensioso no Twitter. &#8220;Na verdade, tem: papel e tinta&#8221;.<\/p>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 deve imaginar que, em 140 caracteres ou menos, n\u00e3o d\u00e1 pra explicar o que &#8220;papel e tinta&#8221; querem dizer. A jornalista Elisangela Roxo, surpresa, refez a pergunta duas vezes: &#8220;papel e tinta foram pensados para o jornalismo?! \u00c9 isso mesmo?! Mas jornalismo n\u00e3o \u00e9 um conceito preso a plataformas!&#8221;. Nem mesmo um bate-papo no intervalo do evento foi suficiente para traduzir o meu ponto de vista&#8230;<\/p>\n<p>Mas enfim. Minha observa\u00e7\u00e3o poderia come\u00e7ar com a pr\u00f3pria origem dos primeiros registros hist\u00f3ricos, que s\u00f3 se tornaram objeto de estudo a partir da escrita. Se durante s\u00e9culos a necessidade de propagar informa\u00e7\u00f5es sempre demandou bons contadores de hist\u00f3ria, e aqui poder\u00edamos lembrar do teatro grego ou dos trovadores da Idade M\u00e9dia, outras civiliza\u00e7\u00f5es antigas, como a Roma Antiga ou a China, j\u00e1 usavam a m\u00eddia impressa. <\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 objetivo desse texto fazer um minucioso levantamento hist\u00f3rico dos \u00faltimos 500 anos. A quest\u00e3o aqui \u00e9: de l\u00e1 para c\u00e1, &#8220;papel e tinta&#8221; representa o \u00fanico suporte pensado exatamente para fins de distribui\u00e7\u00e3o e armazenamento de informa\u00e7\u00e3o, antes mesmo da m\u00e1quina de Gutemberg em 1447. As tecnologias que surgiram depois foram apropriadas para a comunica\u00e7\u00e3o, dando sentido a id\u00e9ia de que, realmente, jornalismo independe de plataformas.<\/p>\n<p><b>A &#8220;internet vitoriana&#8221;<\/b><\/p>\n<p>Em 1998, o jornalista ingl\u00eas publicou, em um livro, a hist\u00f3ria de uma rede de informa\u00e7\u00f5es constru\u00edda ap\u00f3s o homem estudar diversas aplica\u00e7\u00f5es para a eletricidade. Em 1828, um experimento do f\u00edsico Joseph Henry constatou que um eletro\u00edm\u00e3 poderia acionar uma sineta \u00e0 dist\u00e2ncia. Mais tarde, em 1838, Samuel Morse testava, com sucesso, o primeiro tel\u00e9grafo el\u00e9trico.<\/p>\n<p>Standage definiu a rede telegr\u00e1fica como sendo a &#8220;internet vitoriana&#8221;, sendo muito feliz ao constatar que o impacto social da transmiss\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es revela in\u00fameras similaridades com a rede do nosso tempo: imediatismo, mensagens codificadas, bate-papo entre namorados, consolida\u00e7\u00e3o de uma subcultura, crimes, tentativas governamentais de regulamenta\u00e7\u00e3o, entre outras situa\u00e7\u00f5es marcadas por esperan\u00e7as, medos e desconhecimentos&#8230;<\/p>\n<p>Repare que &#8220;papel e tinta&#8221;, nesse contexto, pode ser substitu\u00eddo por &#8220;eletricidade e fios&#8221;, tecnologias que n\u00e3o foram pensadas para o jornalismo mas foram apropriadas adequadamente &#8211; como bem disse o professor Fernando Firmino. Vou mais longe ao abusar um pouco da palavra &#8220;converg\u00eancia&#8221; (e pe\u00e7o desculpas ao lan\u00e7ar m\u00e3o de um termo que adora querer explicar tudo), usando-a como uma esp\u00e9cie de &#8220;cola&#8221; para juntar evolu\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas na ind\u00fastria da m\u00eddia (que come\u00e7ou com papel e tinta), inform\u00e1tica, eletr\u00f4nica e telecomunica\u00e7\u00f5es (que come\u00e7ou com o tel\u00e9grafo).<\/p>\n<p><b>O &#8220;fim&#8221; do papel e tinta<\/b><\/p>\n<p>Lembrei desse di\u00e1logo quando soube esses dias que o Jornal do Brasil, o primeiro a experimentar a web nos anos 90 ao reproduzir seu conte\u00fado na rede, ir\u00e1 &#8220;descontinuar&#8221; a vers\u00e3o impressa, apostando tudo no online. N\u00e3o ser\u00e1 o primeiro peri\u00f3dico a fazer isso: em novembro de 2001, A Gazeta Esportiva publicou sua \u00faltima edi\u00e7\u00e3o no papel, mantendo seu legado no portal Gazeta Esportiva Net.<\/p>\n<p>Sabemos que, nos dois casos, quest\u00f5es administrativas sobressaem a qualquer debate relacionado ao aproveitamento de novas tecnologias. De qualquer forma, \u00e9 comum aproveitarmos a apari\u00e7\u00e3o de dispositivos &#8220;convergentes&#8221; para dizer, sem pensar muito, que &#8220;estas traquitanas v\u00e3o sustentar o jornalismo no futuro&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 um exerc\u00edcio fascinante (e muitas vezes com resultados engra\u00e7ad\u00edssimos) tentar prever o futuro, por exemplo, do papel e da tinta. Cauteloso, tomo emprestada uma frase do Tiago Doria, <a href=\"http:\/\/www.tiagodoria.ig.com.br\/2010\/08\/16\/be-a-ba-da-tecnologia\" target=\"_blank\">pin\u00e7ada daqui<\/a>: &#8220;muitas respostas para problemas atuais podem estar no passado&#8221;. Ou ainda a observa\u00e7\u00e3o de Standage: podemos esperar as mesmas rea\u00e7\u00f5es que vimos com o tel\u00e9grafo (ou do papel e tinta) diante de qualquer inven\u00e7\u00e3o que apare\u00e7a no s\u00e9culo XXI, pois s\u00e3o consequ\u00eancias naturais da natureza humana, e n\u00e3o da tecnologia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 algumas semanas, durante o Semin\u00e1rio Internacional de Jornalismo Online, realizado na C\u00e1sper L\u00edbero, ouvi uma frase do professor Fernando Firmino, da UEPB, que estuda o uso de tecnologias m\u00f3veis no jornalismo: &#8220;n\u00e3o existe um dispositivo que possamos dizer pr\u00f3prio do jornalismo&#8221;. 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