{"id":795,"date":"2004-09-22T18:51:45","date_gmt":"2004-09-22T21:51:45","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/a-loira-da-poltrona-ao-lado"},"modified":"2004-09-22T18:51:45","modified_gmt":"2004-09-22T21:51:45","slug":"a-loira-da-poltrona-ao-lado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/a-loira-da-poltrona-ao-lado\/","title":{"rendered":"A loira da poltrona ao lado"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/pedra.gif\" align=\"right\">Existem oportunidades na vida que n\u00e3o devem ser desperdi\u00e7adas, sob pena de jamais se repetirem nesta encarna\u00e7\u00e3o. Castigo merecido diante do despreparo, da falta de ast\u00facia e coragem. Situa\u00e7\u00f5es que servem como li\u00e7\u00e3o: a pr\u00f3xima vez ser\u00e1 muito diferente desta. Por isso mesmo, fa\u00e7a diferente tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Dito isso, vamos aos fatos, que acontece com todo ser humano ao menos uma vez &#8211; por essa raz\u00e3o, decidi come\u00e7ar pela &#8220;moral da hist\u00f3ria&#8221;. Dia desses peguei um \u00f4nibus intermunicipal. Daqueles que saem da esta\u00e7\u00e3o rodovi\u00e1ria, param em dois ou tr\u00eas pontos estrat\u00e9gicos no caminho e seguem viagem por uma ou duas horas at\u00e9 o destino final. Ali\u00e1s, muitas vezes esse tipo de coletivo \u00e9 t\u00e3o ou mais confort\u00e1vel que os ditos &#8220;executivos&#8221;, que fazem linhas mais longas &#8211; os desprez\u00edveis Greenbus da Penha, entre S\u00e3o Paulo e Porto Alegre, s\u00e3o exemplo de como um \u00f4nibus n\u00e3o deve ser.<\/p>\n<p>Mas voltando. Quando o dito cujo partiu, a poltrona ao meu lado estava vazia. &#8220;Antes s\u00f3 do que mal acompanhado&#8221;, pensei. Mas logo na primeira parada, acontece aquilo que, em sua cabe\u00e7a, s\u00f3 seria poss\u00edvel naquelas com\u00e9dias rom\u00e2nticas inglesas: a vaga \u00e9 ocupada por uma mulher.<\/p>\n<p>Quer dizer, &#8220;mulher&#8221;, na defini\u00e7\u00e3o original, voc\u00ea encontra v\u00e1rias todos os dias. Aquela n\u00e3o. Loira. Olhos claros. Corpo escultural. N\u00e3o mais que 23 anos. Cham\u00e1-la simplesmente de &#8220;mulher&#8221; seria um tremendo desrespeito. Tudo bem, provavelmente levaria horas para enumerar adjetivos condizentes.<\/p>\n<p>O que voc\u00ea faria se estivesse no meu lugar? Provavelmente tentaria puxar algum assunto, demonstraria simpatia, deixaria seu telefone e contaria com a a\u00e7\u00e3o do destino para prolongar a conversa outra hora. &#8220;Vamos, seu jornalista in\u00fatil. Um assunto. N\u00e3o vale clima, futebol ou alguma pergunta imbecil&#8221;. N\u00e3o adiantou o esfor\u00e7o. Surgiram coisas como &#8220;voc\u00ea vem sempre aqui?&#8221; ou &#8220;viu o Inter ontem?&#8221;. Estava me sentindo o pr\u00f3prio Homer Simpson.<\/p>\n<p>Quando voltei a si, percebi que ela estava acompanhada. Uma amiga, sentada no banco de tr\u00e1s. Ao lado dela, um tiozinho gordo &#8211; devia estar louca para que a viagem terminasse logo. &#8220;Hmmmm, e se eu oferecesse o meu lugar para ela?&#8221;, imaginei, na tentativa de arrancar-lhe um sorriso ap\u00f3s uma boa a\u00e7\u00e3o. &#8220;N\u00e3o. A feiosinha vai agradecer, a loira n\u00e3o vai olhar para a sua cara e voc\u00ea ficar\u00e1 atr\u00e1s das duas, sem qualquer chance&#8221;. Devo admitir que meu lado diab\u00f3lico falou mais alto. At\u00e9 porque, normalmente, quem fica ao lado do tioz\u00e3o corpulento sou eu.<\/p>\n<p>A cada quil\u00f4metro percorrido pelo \u00f4nibus, minha agonia aumentava. &#8220;Posso perguntar se ela faz faculdade. Mas assim, sem pretexto algum? U\u00e9, melhor do que um oi, sou o Andr\u00e9 e sou legal, e voc\u00ea? Ah, quer saber? Vira macho e chute o balde! Diga logo alguma coisa rom\u00e2ntica! Fale que ela \u00e9 a azeitona da sua empada e pe\u00e7a em casamento. Na lata. E se ela n\u00e3o gostar? Pode me dar um tapa na cara! J\u00e1 sei. Vou perguntar as horas. N\u00e3o, n\u00e3o, faz mais sentido perguntar quanto tempo leva. Mas a\u00ed eu teria que perguntar se ela vem sempre aqui&#8230; Cacete, como eu sou burro!&#8221;<\/p>\n<p>Meu sil\u00eancio levou tanto tempo que minha musa cansou de esperar. Sempre que isso acontece, existem duas possibilidades: ou ela toma as r\u00e9deas da situa\u00e7\u00e3o e puxa o assunto, ou cai em sono profundo at\u00e9 o final do trajeto. Acredito que voc\u00ea j\u00e1 saiba qual dessas op\u00e7\u00f5es ela escolheu.<\/p>\n<p>&#8220;Ainda resta uma esperan\u00e7a: a sa\u00edda&#8221;, pensei, avaliando novamente as parcas chances que ainda mantinha. &#8220;Quando ela desembarcar na rodovi\u00e1ria, agrade\u00e7o a ela por viajar comigo, e digo que dificilmente conseguirei viajar com algu\u00e9m t\u00e3o maravilhoso ao lado. Perfeito&#8221;. Assim, foi a minha vez de cochilar e aguardar, como quem n\u00e3o quer nada, a &#8220;hora certa&#8221; de agir.<\/p>\n<p>Acordei com o frear do \u00f4nibus, que encostou para alguns passageiros descerem logo na entrada da cidade. Abri melhor os olhos e&#8230; A poltrona ao lado estava vazia! Como assim? Onde foi parar a mulher da minha vida? Nova arregalada e l\u00e1 estava ela, carregando sua bolsa pelo corredor. Estava indo embora para casa. Para sempre.<\/p>\n<p>A loira da poltrona ao lado deixou comigo valiosos ensinamentos. Dedique-se naquilo que realmente deseja, deixe seu objetivo claro desde o primeiro instante, n\u00e3o tenha medo de errar e nem sempre confie no seu &#8220;feeling&#8221;, pois sua hora certa pode ser tarde demais.<\/p>\n<p>Deixou tamb\u00e9m uma pedra. Bem grande.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existem oportunidades na vida que n\u00e3o devem ser desperdi\u00e7adas, sob pena de jamais se repetirem nesta encarna\u00e7\u00e3o. Castigo merecido diante do despreparo, da falta de ast\u00facia e coragem. Situa\u00e7\u00f5es que servem como li\u00e7\u00e3o: a pr\u00f3xima vez ser\u00e1 muito diferente desta. Por isso mesmo, fa\u00e7a diferente tamb\u00e9m. 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