{"id":767,"date":"2004-07-13T15:36:29","date_gmt":"2004-07-13T18:36:29","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/o-diogomainardismo"},"modified":"2004-07-13T15:36:29","modified_gmt":"2004-07-13T18:36:29","slug":"o-diogomainardismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/o-diogomainardismo\/","title":{"rendered":"O diogomainardismo"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/plantao.jpg\" align=\"right\">Divagava esses dias sobre <a href=\"\/blog\/index.php?p=976\" target=\"_blank\"><b>compara\u00e7\u00f5es a Diogo Mainardi<\/b><\/a>, coisas como &#8220;ele quer ser Diogo mainardi&#8221;, &#8220;fui xingado de Diogo Mainardi&#8221;, &#8220;n\u00e3o quero perder tempo discordando da maioria e arrumar futricas&#8221;. Enfim.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria foi adiante: o colunista ratificou, na edi\u00e7\u00e3o da <a href=\"http:\/\/vejaonline.abril.com.br\" target=\"_blank\"><b>revista Veja<\/b><\/a> do \u00faltimo dia 15 de junho, a cria\u00e7\u00e3o de um novo verbete: o &#8220;diogomainardismo&#8221;. Algo como &#8220;ato ou efeito de fazer barulho e instigar pessoas concatenando palavras de forma discut\u00edvel&#8221;. Veja voc\u00ea mesmo.<\/p>\n<p><i>Virei um insulto. Tutty Vasques assinalou o fato. Quando os leitores querem insult\u00e1-lo por causa de um artigo, j\u00e1 n\u00e3o ofendem sua m\u00e3e, como antes, mas o comparam a mim. Chamam-no de Diogo Mainardi. Assim como o termo malufismo ganhou a conota\u00e7\u00e3o de desvio de dinheiro p\u00fablico, diogomainardismo pode ser definido como uma difama\u00e7\u00e3o espalhafatosa na tentativa de chamar aten\u00e7\u00e3o. Foi com esse significado nada lisonjeiro que meu nome entrou para o dicion\u00e1rio. Acompanhado por adjetivos como derrotista, frustrado, invejoso, eg\u00f3latra, leviano, oportunista, mal-humorado. Pouco importa que eu n\u00e3o me reconhe\u00e7a na descri\u00e7\u00e3o. Diogo Mainardi se tornou uma entidade maior do que eu. Como Pel\u00e9, posso come\u00e7ar a falar a meu respeito na terceira pessoa.<\/p>\n<p>O ep\u00edteto Diogo Mainardi \u00e9 aplicado a qualquer coitado que reclame publicamente de alguma coisa. Do jornalista que denuncia nossa falta de jeito para o cinema ao blogueiro adolescente que se recusa a gostar de uma determinada banda musical. Em geral, trata-se de gente inofensiva que se limita a soltar um coment\u00e1rio gratuito sobre um tema desimportante. Basta pouco para estimular a ultrajante compara\u00e7\u00e3o. Atribu\u00edram-me o monop\u00f3lio do protesto. Desse modo, qualquer um que proteste \u00e9 automaticamente associado a mim, com tudo o que isso tem de negativo. Os brasileiros sempre preferiram o conchavo e o corporativismo \u00e0 discuss\u00e3o e \u00e0 insubordina\u00e7\u00e3o. Apesar dessa nossa propens\u00e3o \u00e0 canalhice, tivemos grandes contestadores no passado, sobretudo na imprensa. Aparentemente n\u00e3o sobrou nenhum. Ou melhor, s\u00f3 sobrei eu, um palerma, uma caricatura grosseira de quem me precedeu.<\/p>\n<p>Pelas contas de Tutty Vasques, 96% dos cariocas cassariam meu visto e me mandariam embora do Rio de Janeiro. Certamente os mesmos 96% que apoiavam Lula no come\u00e7o do mandato. A elei\u00e7\u00e3o de Lula representou o triunfo do diogomainardismo. Peguei no p\u00e9 do presidente desde os primeiros tempos, para contrastar a euforia plebiscit\u00e1ria que se formou ao seu redor. Agora a euforia passou. As pessoas se encheram de Lula e, conseq\u00fcentemente, encheram-se de mim, identificando-me como uma esp\u00e9cie de parasita do insucesso petista. Cresci como um verme solit\u00e1rio na barriga do governo, alimentando-me da figura de bom selvagem de Lula, com seu palavreado prim\u00e1rio e sua malandragem brasileira. Quando Lula acabou, acabei junto. Virei um palavr\u00e3o. Daqui a alguns anos, por sorte, ningu\u00e9m mais se lembrar\u00e1 de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Claro que ser identificado como \u00fanico opositor do Brasil me envaidece. Claro tamb\u00e9m que n\u00e3o \u00e9 bom para o pa\u00eds. A identidade cultural brasileira n\u00e3o se baseou em id\u00e9ias, mas em um ou dois acordes de viol\u00e3o. A falta de id\u00e9ias n\u00e3o criou o h\u00e1bito da contraposi\u00e7\u00e3o, da reivindica\u00e7\u00e3o, da argumenta\u00e7\u00e3o. Quem n\u00e3o est\u00e1 acostumado a argumentar \u00e9 facilmente enganado. Por isso o Brasil n\u00e3o funciona. Porque a gente forma espontaneamente maiorias bovinas de 96%. Cultura n\u00e3o \u00e9 rebolar na rua. Cultura \u00e9 reclamar, achincalhar, protestar, caluniar. Lamento muito que meu nome seja usado para ofender os mais inconformados. Se algu\u00e9m o chamar de Diogo Mainardi, por\u00e9m, n\u00e3o se desespere. Eu j\u00e1 fui comparado at\u00e9 a Aracy de Almeida.<\/i><\/p>\n<p>Legal. Mas continuo na minha, longe de diogomainardismos&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Divagava esses dias sobre compara\u00e7\u00f5es a Diogo Mainardi, coisas como &#8220;ele quer ser Diogo mainardi&#8221;, &#8220;fui xingado de Diogo Mainardi&#8221;, &#8220;n\u00e3o quero perder tempo discordando da maioria e arrumar futricas&#8221;. Enfim. A hist\u00f3ria foi adiante: o colunista ratificou, na edi\u00e7\u00e3o da revista Veja do \u00faltimo dia 15 de junho, a cria\u00e7\u00e3o de um novo verbete: [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[21],"tags":[],"class_list":["post-767","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-plantao-marmota"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/767","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=767"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/767\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=767"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=767"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=767"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}