{"id":755,"date":"2004-06-22T15:05:45","date_gmt":"2004-06-22T18:05:45","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/bloom-o-que"},"modified":"2004-06-22T15:05:45","modified_gmt":"2004-06-22T18:05:45","slug":"bloom-o-que","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/bloom-o-que\/","title":{"rendered":"Bloom o qu\u00ea?"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/fiquepordentro.gif\" align=\"right\">Uma das piores sensa\u00e7\u00f5es que o ser humano pode sentir resume-se na frase &#8220;como sou ignorante&#8221;, que normalmente aparece, entre outras situa\u00e7\u00f5es, diante de um assunto em que todos a sua frente parecem dominar.<\/p>\n<p>Foi assim semana passada, no centen\u00e1rio do Bloomsday, comemorado no mundo todo &#8211; em S\u00e3o Paulo, o <a href=\"http:\/\/www.finnegans.com.br\" target=\"_blank\"><b>Finnegan&#8217;s Pub<\/b><\/a> re\u00fane celebrantes todo sagrado 16 de junho h\u00e1 quase vinte anos. Vem da\u00ed a pergunta concebida pela minha trivial e reconhecida ignor\u00e2ncia: o que vem a ser o tal Bloomsday?<\/p>\n<p>Pois o dia 16 de junho de 1904 \u00e9 uma data importante para milh\u00f5es de entusiastas da literatura nos quatro cantos do planeta. Tudo por conta de figuras como Leopold Bloom (que emprestou seu nome \u00e0 tal data), Molly Bloom, Stephen Dedalus e Nora Barnacle, que ouviu de seu futuro marido uma frase que, em tese, eu tamb\u00e9m deveria conhecer: &#8220;Voc\u00ea fez de mim um homem!&#8221;.<\/p>\n<p>A trupe acima protagoniza o romance <i>Ulisses<\/i>, do escritor irland\u00eas James Joyce (o marido de Nora), publicado em 1922. Pelo que apurei, s\u00e3o quase mil p\u00e1ginas de um texto excessivamente herm\u00e9tico, enigm\u00e1tico e repleto de neologismos &#8211; ao definir sua obra prima, Joyce veio com essa: &#8220;I&#8217;ve put in so many enigmas and puzzles that it will keep the professors busy for centuries&#8221;.<\/p>\n<p>Mais do que isso: a hist\u00f3ria toda, que se passa nas ruas de Dublin, acontece no tal 16 de junho de 1904. Mil p\u00e1ginas para descrever uma cidade e contar a hist\u00f3ria de um \u00fanico dia, tenha d\u00f3! Seja sincero: independente do seu grau de envolvimento com a literatura, voc\u00ea teria coragem de ler algo assim sem saber do que se trata? Eu n\u00e3o.<\/p>\n<p>Pois vejam voc\u00eas: <i>Ulisses<\/i> se tornou um \u00edcone universal, a ponto de ser lembrado anualmente nessa esp\u00e9cie de &#8220;dia mundial da literatura moderna&#8221;, tanto em Dublin (onde as festas pelo <a href=\"http:\/\/www.rejoycedublin2004.com\" target=\"_blank\"><b>centen\u00e1rio<\/b><\/a> v\u00e3o durar at\u00e9 agosto) como em S\u00e3o Paulo, ou T\u00f3quio, ou San Francisco&#8230; Sabe o que \u00e9 mais engra\u00e7ado? \u00c9 gente demais que, tenho absoluta certeza, deseja &#8220;feliz Bloomsday&#8221; sem nunca ter lido, digerido ou entendido nada do que James Joyce escreveu!<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o importa. Minha ignor\u00e2ncia n\u00e3o chega ao ponto de discordar do <a href=\"http:\/\/tartorres.weblogger.com\" target=\"_blank\"><b>Tarc\u00edsio Torres<\/b><\/a>, que fez um paralelo entre <i>Ulisses<\/i> e os blogs: &#8220;Joyce transformou a vida de um homem comum numa grande epop\u00e9ia modernista. Desde ent\u00e3o, o escritor \u00e9 considerado c\u00e9lebre por conseguir representar a vida comum com bastante honestidade. E tem tudo a ver com os blogs, n\u00e3o? Essa coisa de transformar o simples no aut\u00eantico, digno de ser publicado, n\u00e3o acham?&#8221;.<\/p>\n<p>Longe de me sentir um &#8220;escritor&#8221; depois dessa, mesmo j\u00e1 conhecendo o significado do Bloomsday &#8211; e descobrindo com o <a href=\"http:\/\/www.liberallibertariolibertino.blogspot.com\" target=\"_blank\"><b>Alexandre Cruz Almeida<\/b><\/a> uma boa raz\u00e3o para se juntar a massa que entende do riscado: \u00e9 melhor comemorar algo que s\u00f3 existiu na cabe\u00e7a de James Joyce a perder tempo com datas mercantilistas, como o dia dos namorados, ou patriotadas de car\u00e1ter duvidoso como o sete de setembro. &#8220;Ou ser\u00e1 que D.Pedro disse mesmo Independ\u00eancia ou Morte \u00e0s margens do Ipiranga?&#8221;, pergunta ele.<\/p>\n<p>E j\u00e1 que voc\u00ea chegou at\u00e9 aqui, saiba mais esta: al\u00e9m de ser um folcl\u00f3rico personagem irland\u00eas, o nome Finnegans tamb\u00e9m est\u00e1 no t\u00edtulo de outra grande obra prima de James Joyce que eu nunca vou ler: <i>Finnegan&#8217;s Wake<\/i>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma das piores sensa\u00e7\u00f5es que o ser humano pode sentir resume-se na frase &#8220;como sou ignorante&#8221;, que normalmente aparece, entre outras situa\u00e7\u00f5es, diante de um assunto em que todos a sua frente parecem dominar. 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