{"id":549,"date":"2007-04-30T14:27:01","date_gmt":"2007-04-30T17:27:01","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/sobre-o-planeta-foston"},"modified":"2007-04-30T14:27:01","modified_gmt":"2007-04-30T17:27:01","slug":"sobre-o-planeta-foston","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/sobre-o-planeta-foston\/","title":{"rendered":"Sobre o planeta Foston"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/pedra.gif\" align=\"right\" \/><b>Salvador (BA)<\/b> &#8211; Em um certo dia de janeiro, \u00e9poca em que este blog parava de pensar por conta pr\u00f3pria e reproduzia textos descompromissados de amigos ou sob a licen\u00e7a Creative Commons, surgiu um problema. Republiquei um texto voltado para um aspecto do comportamento humano e, de prop\u00f3sito, usava como pano de fundo um elemento que desperta paix\u00f5es. Poderia ser sobre o mundo fashion, o mundo do futebol, o mundo das religi\u00f5es&#8230; Optou pelo mundo dos carros modificados.<\/p>\n<p>Alguns apaixonados por tuning encontraram o texto e ficaram ofendidos. N\u00e3o entenderam que era uma opini\u00e3o sobre pessoas, e n\u00e3o uma cr\u00edtica a paix\u00e3o pelos autom\u00f3veis &#8211; que, conv\u00e9m ressaltar, \u00e9 admir\u00e1vel e merece total considera\u00e7\u00e3o. Na pr\u00e1tica, eles apenas refor\u00e7aram a id\u00e9ia do texto e escreveram toda sorte de barbaridades &#8211; amea\u00e7as que certamente jamais fariam se estivessem pessoalmente.<\/p>\n<p>Em situa\u00e7\u00f5es como essa, onde os &#8220;trolls&#8221; aparecem em massa ou mesmo falta o m\u00ednimo de respeito humano, o melhor a fazer \u00e9 tirar o problema do ar e deixar os esquentadinhos irem embora para o reino encantado do belel\u00e9u. Mas aquela discuss\u00e3o sobre aspectos do comportamento humano, objetivo original texto, n\u00e3o poderia se perder no \u00e9ter. Por isso, o pano de fundo foi modificado.<\/p>\n<p>O texto a seguir foi livremente inspirado nas teorias maion\u00e9sicas de <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Douglas_Adams\" target=\"_blank\"><b>Douglas Adams<\/b><\/a>, uma das in\u00fameras prefer\u00eancias que divido com o <a href=\"http:\/\/www.pontomidia.com.br\/ricardo\" target=\"_blank\"><b>Ricardo Ara\u00fajo<\/b><\/a>. O nome \u00e9 uma id\u00e9ia de um outro amigo, o William Bertolo, que descobriu dia desses esta sensacional marca de produtos eletro-eletr\u00f4nicos. A premissa do &#8220;planeta Foston&#8221;, dependendo do meu pique (e do gosto popular), pode at\u00e9 aparecer outras vezes. Vamos ver o que acontece.<\/p>\n<p>De qualquer forma, a id\u00e9ia nunca foi questionar ou provocar nenhuma das nossas grandes paix\u00f5es, mas sim encarar rela\u00e7\u00f5es humanas com um tom de brincadeira. Por isso, o meu desejo: divirtam-se, e sigam alimentando seus amores, sejam eles materiais, intang\u00edveis ou do sexo oposto. Enfim, n\u00e3o leve a s\u00e9rio tudo que encontrar na Internet. Melhor ainda: n\u00e3o leve a vida t\u00e3o a s\u00e9rio.<\/p>\n<div align=\"center\">***<\/div>\n<p>O planeta Terra, nossa gal\u00e1xia, tudo que o homem conhece ou define como &#8220;exist\u00eancia&#8221;&#8230; Enfim, \u00e9 uma parcela insignificante do Universo. Se o compararmos ao sistema rodovi\u00e1rio brasileiro, a Via L\u00e1ctea pode ser considerada uma pequena estrada vicinal, que margeia o Rio Iconha e contorna o Monte Agh\u00e1, seguindo por um manguezal at\u00e9 chegar no per\u00edmetro urbano da Vila da Barra de Itapemirim, no Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p>Mas essa \u00e9 uma compara\u00e7\u00e3o pouco relevante. O fato \u00e9 que, h\u00e1 alguns anos-luz da Terra, praticamente em outra dimens\u00e3o do espa\u00e7o-tempo cont\u00ednuo, existe um planeta chamado Foston. Est\u00e1 perdido no meio da gal\u00e1xia ZX-8147, orbitando ao redor de uma estrela de magnitude cinco.<\/p>\n<p>Culturalmente, os habitantes de Foston a batizaram Alussa. Os astr\u00f4nomos locais acreditam que Foston \u00e9 o \u00fanico planeta do chamado &#8220;sistema alussiano&#8221; onde existe vida inteligente. O Imperador Zukkofriedski VII chegou a assinar uma nova pol\u00edtica de fomento \u00e0 explora\u00e7\u00e3o intergal\u00e1ctica para tirar a d\u00favida, mas a recess\u00e3o econ\u00f4mica colocou seu ousado plano na gaveta.<\/p>\n<p>Mas essa \u00e9 uma informa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o vem ao caso. \u00c9 importante destacar que os fostonianos apresentam apar\u00eancia human\u00f3ide, com algumas diferen\u00e7as na textura e tonalidades de cor da pele. Al\u00e9m disso, diferente da Terra, o planeta n\u00e3o possui o que chamamos &#8220;movimento de rota\u00e7\u00e3o&#8221;. Isso quer dizer que Alussa ilumina, permanentemente, uma \u00fanica face de Foston.<\/p>\n<p>Isso mexe diretamente com sua geografia econ\u00f4mica. Praias artificiais foram estrat\u00e9gicamente posicionadas nos meridianos que correspondem ao nosso in\u00edcio da manh\u00e3 e ao final de tarde. Grandes conglomerados e usinas de energia fotot\u00e9rmica est\u00e3o centrados no meridiano do meio-dia. Uma das principais atra\u00e7\u00f5es tur\u00edsticas do planeta \u00e9 o famoso trem panor\u00e2mico transparente, onde \u00e9 poss\u00edvel simular o ocaso e alvorada. Batizado de Expresso E-cuador.<\/p>\n<p>Mas isso \u00e9 apenas uma grande coincid\u00eancia. Evidentemente, os mega-centros de lazer e divertimento est\u00e3o na face &#8220;noturna&#8221; de Foston. Como tamb\u00e9m est\u00e3o ali a maior movimenta\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, a maior fonte de empregos  e as taxas mais altas de criminalidade. Bares e restaurantes vivem lotados &#8211; at\u00e9 porque, a \u00fanica forma de separar o dia da noite \u00e9 o deslocamento. As baladas s\u00f3 n\u00e3o s\u00e3o mais fervilhantes por uma inexplic\u00e1vel raz\u00e3o gen\u00e9tica: em Foston, existem mais seres machos do que f\u00eameas. Al\u00e9m de uma parcela de seres adstringentes.<\/p>\n<p>Diante desse quadro, os fostonianos tiveram que se adaptar, como descrevem os cientistas sociais do planeta em seus documentos eletr\u00f4nicos digitalizados em m\u00eddias p\u00fablicas. Como o Imp\u00e9rio permite a circula\u00e7\u00e3o de espa\u00e7onaves particulares apenas em vias autorizadas &#8211; o que n\u00e3o \u00e9 o caso das \u00e1reas de burburinho, os nativos precisaram de sapatos com jato de hidrog\u00eanio ou pranchas de flutua\u00e7\u00e3o magn\u00e9tica, al\u00e9m de vestes fosforecentes para chamar a aten\u00e7\u00e3o e driblar as esteiras rolantes. A altitude e a velocidade proporcionados por estes artif\u00edcios encantam as mo\u00e7as: \u00e9 comum encontrar casais flutuando na atmosfera rarefeita de Foston enquanto n\u00e3o est\u00e3o em algum balc\u00e3o ou mesa de bar tomando Aguardente Janx ou Dinamite Pangal\u00e1ctica &#8211; as bebidas mais populares do espa\u00e7o.<\/p>\n<p>Para tornar o pequeno v\u00f4o nos arredores uma experi\u00eancia ainda mais inesquec\u00edvel, os fostonianos desenvolvem novos apetrechos. Players ultrafinos acoplados ao cinto emitem sons agrad\u00e1veis a um raio de no m\u00e1ximo cinco metros. \u00d3culos anti-radia\u00e7\u00e3o, constantemente usados na outra face de Foston, s\u00e3o adaptados para conter a ilumina\u00e7\u00e3o intermitente das roupas. Vers\u00f5es mais atuais ainda trazem um dispositivo de aproxima\u00e7\u00e3o \u00f3ptica, perfeito para observar a paisagem com mais detalhes.<\/p>\n<p>Mas estas s\u00e3o apenas algumas das in\u00fameras op\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis nas melhores casas do ramo. Como s\u00e3o equipamentos caros, a recess\u00e3o econ\u00f4mica (sempre ela) faz com que boa parte dos jovens prefiram guardar suas poucas lascas fostonianas &#8211; &#8220;e eu uma pedra&#8221;, dir\u00edam os terr\u00e1queos. Outros, impulsionados por toda sorte de publicidade virtual espalhadas pela superf\u00edcie de Foston, n\u00e3o querem saber: fazem o que pode para entrar na moda. Aos poucos, surgiu uma legi\u00e3o de apaixonados por novidades tecnol\u00f3gicas. Ao mesmo tempo, fostonianos pouco abastados iam atr\u00e1s da brincadeira, mesmo sem saber o porqu\u00ea.<\/p>\n<p>Membros do Bluc &#8211; sigla que quer dizer &#8220;conselho dos moradores do quadrante F do lado escuro de Foston&#8221;, alheios ao que, na Terra, chamamos de &#8220;sentimentos&#8221;, dizem que tais artif\u00edcios podem ser considerados um modismo perigoso, alimentando a desigualdade econ\u00f4mica e social, al\u00e9m de atrapalhar a circula\u00e7\u00e3o dos moradores das redondezas.<\/p>\n<p>Para o Imp\u00e9rio Fostoniano, n\u00e3o h\u00e1 problema: cada um faz o que quiser com suas lascas, desde que a paz, a ordem e a circula\u00e7\u00e3o intensa de bens de consumo permane\u00e7am nos dois lados do planeta. Resta aos membros do Bluc aprender a conviver com a novidade e aceit\u00e1-las.<\/p>\n<p>Ou torcer para os engenheiros biotecnol\u00f3gicos de Foston descobrirem o elemento pluricelular em seu complexo organismo, permitindo a concep\u00e7\u00e3o de f\u00eameas em maior quantidade.<\/p>\n<p>Mas tudo isso, \u00e9 claro, nada tem a ver com a nossa humilde realidade terr\u00e1quea.<\/p>\n<div align=\"center\">***<\/div>\n<p>Desta vez, fiz o que pude para que nenhum alien\u00edgena de Foston fique ofendido. Longe de mim provoc\u00e1-los e, de repente, incitar o fim do mundo.<\/p>\n<p><i>(Postado em 06\/03\/2005, bem antes do &#8220;irm\u00e3o&#8221; de Foston <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha\/ciencia\/ult306u16346.shtml\" target=\"_blank\"><b>ser descoberto<\/b><\/a>.)<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Salvador (BA) &#8211; Em um certo dia de janeiro, \u00e9poca em que este blog parava de pensar por conta pr\u00f3pria e reproduzia textos descompromissados de amigos ou sob a licen\u00e7a Creative Commons, surgiu um problema. 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