{"id":54,"date":"2007-09-28T23:25:13","date_gmt":"2007-09-29T02:25:13","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/sobre-o-mundo-e-o-tempo-que-temos"},"modified":"2007-09-28T23:25:13","modified_gmt":"2007-09-29T02:25:13","slug":"sobre-o-mundo-e-o-tempo-que-temos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/sobre-o-mundo-e-o-tempo-que-temos\/","title":{"rendered":"Sobre o mundo e o tempo que temos"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/ferias.gif\" align=\"right\" \/><font size=\"3\">Por <b>Lucia Malla<\/b>, do blog <a href=\"http:\/\/umamallapelomundo.blogspot.com\" target=\"_blank\"><b>Uma Malla pelo mundo<\/b><\/a><\/font><\/p>\n<p>Meu amigo Marmota h\u00e1 alguns dias veio com essa proposta para mim pelo MSN: \u201cAh, voc\u00ea n\u00e3o quer escrever um post pro meu blog? O tema \u00e9 o seu predileto: viagens.\u201d Ao ouvir a palavra m\u00e1gica, nem cogitei n\u00e3o aceitar o desafio. Afinal, depois da minha <a href=\"http:\/\/www.marmota.org\/blog\/2006\/02\/01\/1470\/\" target=\"_blank\"><b>estr\u00e9ia esquec\u00edvel<\/b><\/a> no antigo endere\u00e7o do blog dele (o texto foi uma experimenta\u00e7\u00e3o maiones\u00edstica), percebi uma chance de me redimir, falando daquilo que mais gosto. Dessa vez, n\u00e3o decepcionaria Marmota.<\/p>\n<p>\u00c9 claro, a conversa no MSN n\u00e3o parou por a\u00ed. Logo perguntei o por qu\u00ea do texto, ao que o Marmota respondeu: \u201cVou tirar f\u00e9rias e quero publicar textos dos amigos nesse per\u00edodo\u201d.  \u201cVai viajar?\u201d, perguntei curiosa. \u201cSim. Vou voltar a alguns lugares que adorei na Europa.\u201d<\/p>\n<p>Voltar a lugares marcantes. \u00c9 interessante que Marmota tenha se decidido a fazer isso, porque em minha fome de novos lugares, raramente volto a lugares que n\u00e3o sejam os \u00f3bvios (a casa dos meus pais, amigos queridos, a minha casa, etc.). N\u00e3o \u00e9 por mal, eu gosto de reencontrar pessoas, mas se abstrairmos as mesmas da equa\u00e7\u00e3o, em geral, quero conhecer novas paragens. Buscar o desconhecido para torn\u00e1-lo mem\u00f3ria \u00e9 uma constante t\u00e3o presente nas minhas viagens, que me peguei, depois de desligar o MSN, admirando a coragem do Marmota em fazer o oposto: renovar a mem\u00f3ria vivida. E pensando nos lugares que eu realmente gostaria de voltar.<\/p>\n<p>Mas antes explico. Eu acho o mundo muito grande e a vida muito curta para tantos lugares legais que existem. Mesmo se eu viver por 100 anos, n\u00e3o vai dar tempo de visitar\/conhecer todos os recantos que eu quero (sonhar n\u00e3o custa nada). Esse \u00e9 um fato \u00f3bvio, uma realidade \u201cdolorosa\u201d com a qual convivo dentro de mim. Sofro da s\u00edndrome do \u201ceu-nunca-fui-quero-conhecer-pelo-menos-uma-vez-na-vida\u201d \u2013 deve haver um nome mais chique para isso em medicin\u00eas. \u00c9 uma esp\u00e9cie de ansiedade cr\u00f4nica pelas esquinas novas do mundo, uma tend\u00eancia bastante involunt\u00e1ria em escolher viajar para onde nunca fui antes. A condi\u00e7\u00e3o pode ser frustrante se mal-administrada porque, bem, n\u00e3o podemos conhecer o mundo todo mesmo.<\/p>\n<p>De tal forma que toda vez que sonho em viajar, a vulga s\u00edndrome ataca, e a prefer\u00eancia sempre recai para um lugar novo. \u00c9 claro, tenho uma lista de <b>destinos \u201cpriorit\u00e1rios\u201d<\/b> (que s\u00f3 cresce&#8230;). S\u00e3o imprescind\u00edveis no sentido mais profundo da minha paix\u00e3o por lugares e motiva\u00e7\u00e3o para eles n\u00e3o falta nunca \u2013 falta apenas a dicotomia tempo\/dinheiro. Os desertos da Nam\u00edbia, os vulc\u00f5es do Kamchatka, da Isl\u00e2ndia, mergulhar em Fiji, ver as montanhas do Nepal e as constru\u00e7\u00f5es de Bras\u00edlia est\u00e3o nesse bolo. Depois dos priorit\u00e1rios, v\u00eam os que eu chamo de <b>destinos \u201ccolaterais\u201d<\/b>, aqueles que eu quero conhecer mas aguardo uma desculpa (geralmente esfarrapada) para ir \u2013 um congresso ou uma visita a um amigo que se mudou para l\u00e1, por exemplo. Destinos que n\u00e3o s\u00e3o alvo absoluto dos meus sonhos e leituras, mas se vierem, bem, n\u00e3o vou desperdi\u00e7\u00e1-los. Portugal e Recife s\u00e3o bons exemplos nesse caso.<\/p>\n<p>Mas depois da conversa com o Marmota, eis que decidi fazer a lista dos lugares onde quero voltar. Buscar a mem\u00f3ria vivida. E outro dilema surgiu. Um lugar \u00e9, por defini\u00e7\u00e3o, algo est\u00e1tico, mas as circunst\u00e2ncias que a intera\u00e7\u00e3o humana e\/ou biol\u00f3gica geram o tornam organismos din\u00e2micos, com vida pr\u00f3pria. E n\u00f3s, viajantes, somos como \u201cfofoqueiros\u201d do planeta. Por onde passamos, vemos, fotografamos, depois contamos pros amigos, parentes, escrevemos cartas, postamos em blogs, compartilhamos aquela vida t\u00e3o particular da cidade-organismo com o mundo. Sem pedir licen\u00e7a ao lugar: papparazzicamente. O Rio de hoje n\u00e3o \u00e9 o Rio do Pan e n\u00e3o ser\u00e1 o Rio do carnaval do ano que vem. Detalhes far\u00e3o a sutil diferen\u00e7a, e cada lugar que a gente visita \u00e9 uma fotografia est\u00e1tica de um momento determinado, e o lugar uma semana depois provavelmente n\u00e3o ser\u00e1 mais o mesmo. As cidades escorrem pelos dedos no momento em que voc\u00ea as deixa para tr\u00e1s: elas se remodelam, adaptam-se e est\u00e3o sempre de cara nova, por menores que sejam, mesmo \u00e0quelas que parecem paradas no tempo, como <a href=\"http:\/\/umamallapelomundo.blogspot.com\/2005\/08\/nos-confins-de-caixa-prego.html\" target=\"_blank\">Caixa-Prego<\/a>.<\/p>\n<p>E temos que nos conformar com isso. A melhor terapia viajante para a mal-fadada s\u00edndrome que falei acima \u00e9 encarar a realidade: voc\u00ea nunca conhecer\u00e1 plenamente nenhum lugar do mundo. Seja porque voc\u00ea n\u00e3o ter\u00e1 tempo para conhec\u00ea-lo, seja porque voc\u00ea n\u00e3o conseguir\u00e1 vivenci\u00e1-lo em sua plenitude por todo o tempo.<\/p>\n<p>A mem\u00f3ria vivida \u00e9 ef\u00eamera. N\u00e3o d\u00e1 para a gente reviver. Estamos sempre acrescentando novas perspectivas, informa\u00e7\u00f5es, emo\u00e7\u00f5es, e com isso modificando-a. De repente, ent\u00e3o, fiquei feliz pelo Marmota: ele faz como eu, busca o desconhecido para adicion\u00e1-lo \u00e0 mem\u00f3ria. Apenas o faz de uma forma sistem\u00e1tica, mais estat\u00edstica: aumenta o n\u00famero de repeti\u00e7\u00f5es, voltando aos lugares e criando uma imagem muito mais completa. Dando robustez \u00e0 mem\u00f3ria resultante.<\/p>\n<p>E uma mem\u00f3ria robusta de um lugar \u00e9, parafraseando o Poetinha, infinita enquanto dura.<\/p>\n<p><i>Enquanto Marmota lamenta o quase-fim de sua jornada, a s\u00e9rie <b>Col\u00f4nia de F\u00e9rias<\/b> apresenta textos gentilmente preparados por seus amigos,fomentando nossa necessidade em preservar tudo aquilo que gostamos.<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Lucia Malla, do blog Uma Malla pelo mundo Meu amigo Marmota h\u00e1 alguns dias veio com essa proposta para mim pelo MSN: \u201cAh, voc\u00ea n\u00e3o quer escrever um post pro meu blog? 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