{"id":523,"date":"2007-04-06T14:07:13","date_gmt":"2007-04-06T17:07:13","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/o-velho-barreiro-e-o-guardiao-da-meia-noite"},"modified":"2007-04-06T14:07:13","modified_gmt":"2007-04-06T17:07:13","slug":"o-velho-barreiro-e-o-guardiao-da-meia-noite","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/o-velho-barreiro-e-o-guardiao-da-meia-noite\/","title":{"rendered":"O velho barreiro e o Guardi\u00e3o da meia-noite"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/backfut.gif\" align=\"right\" \/>Posso ser um adulto velho, bobo e quadrado. Mas acreditem: tenho orgulho em dizer que j\u00e1 participei de passeios inesquec\u00edveis &#8211; apesar de achar que estou velho, bobo e quadrado demais para fazer coisas assim outra vez. Minha aventura inesquec\u00edvel foi na Semana Santa de 1998, \u00e9poca em que ainda n\u00e3o com\u00edamos (muita) carne vermelha na sexta-feira.<\/p>\n<p>Minha amiga Ros\u00e2ngela conhecia uma cidade diferente, perdida no meio do nada. S\u00e3o Jos\u00e9 do Barreiro fica a aproximadamente 270 km de S\u00e3o Paulo, pr\u00f3ximo da divisa do estado do Rio de Janeiro. Seu tamanho e formato lembram muito Tubiacanga, aquela cidadela da novela Fera Ferida (onde Raimundo Flamel ati\u00e7ou a cobi\u00e7a dos poderosos). Mas enfim. Esta \u00e9 real, e est\u00e1 encostada no Parque Nacional da Serra da Bocaina &#8211; que abrange ainda as cidades de Formoso, Silveiras, Bananal, Ubatuba, Areias, Parati e Angra dos Reis.<\/p>\n<div align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/mapa1506.gif\" alt=\"Mapinha resumido da regi\u00e3o, desenhado no PaintBrush\" \/><\/div>\n<p>Em 10 de abril de 1998, uma sexta-feira, fizemos uma caravana at\u00e9 esta simp\u00e1tica cidade: no Marmoturbo estavam eu, Ricardo Osiro &#8211; que esqueceu a carteira e embarcou sem um tost\u00e3o furado &#8211; e meu irm\u00e3o Daniel. Ros\u00e2ngela dirigia seu Gol branco ao lado da prima Tha\u00eds. E um casal de amigos, Edinho e S\u00f4nia, vinham logo atr\u00e1s num fusca 1968 rebaixado.<\/p>\n<p>Chegamos na confort\u00e1vel pousada da Dona Maria por volta das onze da manh\u00e3. Meia hora depois j\u00e1 conhec\u00edamos toda a cidade &#8211; mal deu tempo de digerir o PF com tuba\u00edna do almo\u00e7o. N\u00e3o t\u00ednhamos tempo a perder: perto dali, em Formoso, estava o &#8220;cachoeir\u00e3o&#8221;, uma das atra\u00e7\u00f5es do local. Saltos, duchas e banhos \u00e0 tarde toda. Na volta ao QG, fomos surpreendidos pela prociss\u00e3o da Paix\u00e3o de Cristo. Ainda com os cabelos molhados, acompanhamos a celebra\u00e7\u00e3o num barzinho em frente \u00e0 Igreja. Com cerveja (eu pedi Coca) e uma por\u00e7\u00e3o de salame.<\/p>\n<p>Nessa altura do campeonato, j\u00e1 hav\u00edamos rebatizado a cidade para S\u00e3o Jos\u00e9 do Velho Barreiro. Na manh\u00e3 de s\u00e1bado, j\u00e1 s\u00f3brios, os viajantes contrataram o servi\u00e7o de uma caminhonete, entre as muitas que se oferecem para subir a serra da Bocaina. A id\u00e9ia era encontrar alguma que cobrasse menos de R$ 150. Fechamos uma por R$ 100. No caminho, constatamos que at\u00e9 o pobre Marmoturbo seria capaz de fazer a trilha&#8230; Mas tudo bem: foi engra\u00e7ado cantar e gritar em cima de uma D-20.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/sjbarreiro0408.jpg\" align=\"right\" alt=\"eu j\u00e1 fui magro!\" \/>No parque, uma caminhada longa revela a Cachoeira de Sto. Izidro, a maior atra\u00e7\u00e3o daquele peda\u00e7o da Bocaina. Visual deslumbrante, devidamente aproveitado por horas &#8211; a base de \u00e1gua mineral e amendoim japon\u00eas. Na sa\u00edda, um susto: estava munido da boa e velha VHS-C quando escorreguei numa pedra. Fiquei desequilibrado, encharcado e com o p\u00e9 ralado. Felizmente a c\u00e2mera se salvou.<\/p>\n<p>Mas a idiotice maior foi ter deixado c\u00e2mera e m\u00e1quina fotogr\u00e1fica na pens\u00e3o da Dona Maria naquela noite. Assim, a parte mais inacredit\u00e1vel daquela maratona est\u00e1 registrada apenas na mem\u00f3ria de quem esteve l\u00e1. E conheceu o Guardi\u00e3o da meia-noite.<\/p>\n<p>A id\u00e9ia foi do Robson, irm\u00e3o da Ros\u00e2ngela, que apareceu em S\u00e3o Jos\u00e9 do Barreiro com um primo de Resende. Os dois nos convidaram para conhecer um lugar alternativo, diferente de tudo que existe no mundo. Topamos, claro. Por volta das oito da noite, atalhamos por uma estrada de terra at\u00e9 Penedo &#8211; arriscando a cantoria de Bohemia Rhapsody. J\u00e1 na cidade, mais algumas voltas por caminhos que jamais saberia percorrer novamente. Finalmente, chegamos na bocada: um casebre de madeira, com um &#8220;puxadinho&#8221; que lembra um galp\u00e3o interditado.<\/p>\n<p>Ao botar os p\u00e9s naquela espelunca, chegamos a conclus\u00e3o de que era mesmo um bar. Tinha mesinhas, balc\u00e3o e Doors como trilha sonora. Mas n\u00e3o era s\u00f3. A ilumina\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria dava tons sombrios aquele barraco de ch\u00e3o batido. Em todo lugar, inscri\u00e7\u00f5es dos visitantes: nomes talhados nas paredes, rabiscos de caneta e l\u00edquido corretivo no forro das mesas (datadas de oitenta e cacetada).<\/p>\n<p>Num dos cantos havia uma esp\u00e9cie de &#8220;altar&#8221; simb\u00f3lico. Na verdade, um ajuntamento de entulho. Objetos variados deixados pelos visitantes &#8211; garrafas pet, caixas de cigarro, uma cabe\u00e7a de boneca&#8230; Mais uma forma de dizer &#8220;estive nessa encrenca&#8221;. No outro canto, perto do \u00fanico banheiro, um sof\u00e1 afundado. Em cima dele, um vira-lata. Outros bichos n\u00e3o-identificados circulavam ali perto.  Definitivamente, era um lugar bastante r\u00fastico. Pra n\u00e3o dizer assustador.<\/p>\n<p>Fomos apresentados \u00e0 dona do estabelecimento. Uma velha hippie, que lembra a Madame Min. Toda faceira, veio explicando a origem do nome Guardi\u00e3o. &#8220;Est\u00e3o vendo aquela janela?&#8221;, perguntou, apontando para um buraco na parede de madeira. &#8220;\u00c9 a nossa janela ecol\u00f3gica. Dali \u00e9 poss\u00edvel ver o Guardi\u00e3o com os seus pr\u00f3prios olhos&#8221;, revelou a tia bemloca, enquanto tirava n\u00e3o sei de onde um envelope pardo, contendo fotografias de uma \u00e1rvore.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 muito tempo, essa que \u00e9 a \u00fanica \u00e1rvore em todo o campo, tinha a forma da cabe\u00e7a de um guardi\u00e3o medieval, vejam&#8221;, desenhando, com seus dedos enrugados, olhos e boca sobre a imagem. &#8220;At\u00e9 hoje ela \u00e9 preservada, e passa por sucessivas metamorfoses, sempre influenciado pela natureza&#8221;, dizia. Mudou para bruxo, mago, e naquele dia, a \u00e1rvore tinha o formato do Bidu, o cachorro da Turma da M\u00f4nica.<\/p>\n<p>E eu, que estava s\u00f3brio, fui obrigado a admitir: avistava mesmo o Bidu atrav\u00e9s da tal janela ecol\u00f3gica. Que merda!<\/p>\n<p>A doidona seguiu com as principais atra\u00e7\u00f5es do Guardi\u00e3o. Duas bebidas especiais da casa, preparadas pela pr\u00f3pria bruxa, resumem o fasc\u00ednio que atrai tanta gente \u00e0quele ponto in\u00f3spito do planeta. Uma chama-se &#8220;retet\u00e9u&#8221;, bebida gelada composta por vinho e ervas arom\u00e1ticas (entenda o que quiser). A outra \u00e9 o &#8220;pau de \u00edndio&#8221;, uma forte xaropada afrodis\u00edaca. Voc\u00ea pode optar pela minidose, dose ou overdose. De brinde, a risada maquiav\u00e9lica da vov\u00f3.<\/p>\n<p>Eram quatro da manh\u00e3 e a magia do Guardi\u00e3o j\u00e1 havia contaminado a maioria. Depois de uma dose de retet\u00e9u, Ricardo Osiro ficou absolutamente doid\u00e3o. Foi encontrado algumas horas depois deitado em cima do Marmoturbo. Tha\u00eds e Ros\u00e2ngela mandaram algumas doses de pau de \u00edndio. A primeira vomitou em todos os lugares poss\u00edveis, inclusive dentro do Marmoturbo. J\u00e1 a Ros\u00e2ngela estava bem &#8211; tanto que me arrastou pra algum canto pra explicar os efeitos da bebida. Seu irm\u00e3o e o primo foi encontrado algum tempo depois, na beira do mesmo rio onde lavei o tapete do carro, na companhia de duas mo\u00e7as da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>A manh\u00e3 de domingo j\u00e1 batia forte em nossa cara quando dirigia, completamente sonado, pela via Dutra. Perto de Queluz, e completamente sem dinheiro, enxergo de relance uma placa: ped\u00e1gio a 1km. &#8220;Esse n\u00e3o paga, vai em frente&#8221;, gritou algu\u00e9m no amontoado banco de tr\u00e1s. Mais alguns metros e outra placa: autom\u00f3veis R$ 3,30. Parei no acostamento e gritei: &#8220;preciso dessa grana, e agora&#8221;. N\u00e3o me perguntem nem como o dinheiro apareceu, nem como chegamos \u00e0 pens\u00e3o: dormi praticamente o percurso todo.<\/p>\n<p>Aqueles que conseguiram dormir por poucas horas naquela manh\u00e3 levantaram-se dispostos a voltar ao &#8220;cachoeir\u00e3o&#8221; do primeiro dia. Os que n\u00e3o puderam tiveram que ir do mesmo jeito. Depois de mais \u00e1gua gelada, sem dinheiro para comer &#8211; e sem caixas eletr\u00f4nicos em S\u00e3o Jos\u00e9 do Barreiro, s\u00f3 nos restava arrumar as malas, pagamos a velha Maria com cheque voltamos para casa. Completamente alterados e com uma conclus\u00e3o evidente: o universo \u00e9 dividido em duas partes. O Guardi\u00e3o da meia-noite e o resto.<\/p>\n<p>Devo dizer que, dependendo da semana, tudo que eu queria era fugir pra um lugar desses.<\/p>\n<p><i>(Postado em 04\/08\/2005)<\/i><\/p>\n<p><b>Leia tamb\u00e9m: <a href=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/o-retorno-ao-guardiao-da-meia-noite\/\">O retorno ao Guardi\u00e3o da meia-noite (janeiro de 2008)<\/a><\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Posso ser um adulto velho, bobo e quadrado. Mas acreditem: tenho orgulho em dizer que j\u00e1 participei de passeios inesquec\u00edveis &#8211; apesar de achar que estou velho, bobo e quadrado demais para fazer coisas assim outra vez. 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