{"id":501,"date":"2008-02-16T23:50:28","date_gmt":"2008-02-17T02:50:28","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/jubileu-de-prata-do-buraco-do-marmota"},"modified":"2008-02-16T23:50:28","modified_gmt":"2008-02-17T02:50:28","slug":"jubileu-de-prata-do-buraco-do-marmota","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/jubileu-de-prata-do-buraco-do-marmota\/","title":{"rendered":"Jubileu de prata do Buraco do Marmota"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/backfut.gif\" align=\"right\" \/>Meus primeiros anos de vida foram de uma intensidade \u00edmpar: foram muitas as casas onde morei (incluindo Bauru, minha cidade natal), sempre acompanhando a expans\u00e3o da telefonia em S\u00e3o Paulo com meu pai, que no final dos anos 70, era um dos montadores da Ericsson prestando servi\u00e7os para a Telesp em todo o estado. J\u00e1 no come\u00e7o dos anos 80, o jovem casal ga\u00facho e seu filho rechonchudo reconheceram: era hora de parar com o desbravamento e fixar moradia na capital.<\/p>\n<p>Mas era dif\u00edcil sair do aluguel. Meu primeiro endere\u00e7o na cidade de S\u00e3o Paulo foi &#8211; pasmem &#8211; na Rua Aurora, em 1979. Nossa renda familiar garantia o aluguel de um cub\u00edculo com quarto e sala, carpete com cores vivas e m\u00f3veis cafonas. N\u00e3o consigo acreditar quando minha m\u00e3e conta que brincava comigo em plena Pra\u00e7a Princesa Isabel, perto da est\u00e1tua do Duque de Caxias e da antiga rodovi\u00e1ria&#8230;<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o mudou no ano seguinte, quando finalmente conseguimos um apartamento maior na Aclima\u00e7\u00e3o. Quer dizer, &#8220;maior&#8221; \u00e9 for\u00e7a de express\u00e3o. Aquele cantinho no edif\u00edcio Caet\u00e9s, n\u00famero 130 da Jos\u00e9 Get\u00falio, tinha dois dormit\u00f3rios acanhados, uma cozinha mais t\u00edmida ainda e um banheiro que fazia as vezes da \u00e1rea de servi\u00e7o. Minhas primeiras boas lembran\u00e7as da inf\u00e2ncia moram ali at\u00e9 hoje, e n\u00e3o duvido que meus pais guardam um carinho especial por aquele pedacinho.<\/p>\n<p>S\u00f3 que ainda sent\u00edamos o impacto do aluguel. Para piorar, meu pai teimou em ver meu irm\u00e3o mais novo nascer no Rio Grande do Sul, ao lado da fam\u00edlia, o que consumiu preciosas economias. Quando voltou da quer\u00eancia, no final de 1982, percebeu que sua renda familiar ainda n\u00e3o era suficiente para comprar um im\u00f3vel na regi\u00e3o central da cidade. Assim, ficou tentado a procurar as oportunidades da periferia.<\/p>\n<p>Conheceu ent\u00e3o um bairro promissor e com alto potencial de crescimento: o Itaim Paulista, distrito de S\u00e3o Miguel, no extremo leste da capital. A primeira incurs\u00e3o foi no casamento de um colega de empresa, o Severino. Minha m\u00e3e se assusta at\u00e9 hoje quando puxa da mem\u00f3ria o trajeto e os perrengues daquela noite esquisita. A segunda viagem at\u00e9 aquela lonjura foi direto para a imobili\u00e1ria.<\/p>\n<p>Acostumado com apartamentos, tratou de fechar neg\u00f3cio no primeiro empreendimento que viu. Apartamentos pronto para morar a poucos metros da  Marechal Tito, a estrada velha S\u00e3o Paulo Rio. Era indiscutivelmente barato: meu pai tratou de pagar alguns mil cruzeiros de entrada e dividir com a esposa, o filho rechonchudo e o rec\u00e9m nascido a expectativa pela mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>Dias depois, um problema. O corretor entrou em contato para dizer &#8220;n\u00e3o sei o qu\u00ea n\u00e3o sei o qu\u00ea seu ot\u00e1rio n\u00e3o sei o qu\u00ea n\u00e3o sei o qu\u00ea da construtora n\u00e3o sei o qu\u00ea n\u00e3o sei o qu\u00ea miou o neg\u00f3cio&#8221;. Imagine o nervosismo ap\u00f3s rasparmos a conta banc\u00e1ria para dar entrada em um lar doce lar inexistente. Mais algum tempo e a imobili\u00e1ria apresentou uma alternativa, um pouquinho mais cara: um conjunto de 23 casas, em uma \u00e1rea mais alta e extremamente tranquila. Ruas fechadas e lazer garantido para a garotada.<\/p>\n<p>Sem muita escolha, meu pai topou o neg\u00f3cio. Escolheu a casa n\u00famero seis. Os corretores sacanas ainda ofereceram, pouco antes da mudan\u00e7a, a casa dois, que era maior e mais cara, por\u00e9m compat\u00edvel com o or\u00e7amento. Ainda irritado, meu pai ignorou totalmente a proposta. Mas a essa altura, era o m\u00e1ximo de arrependimento que poderia ter.<\/p>\n<p>No fim de semana do carnaval de 1983, dia 12 de fevereiro, meu pai contratou uma kombi picape branca para levar todas as tralhas da Aclima\u00e7\u00e3o para o Itaim Paulista. Era pouca coisa, heran\u00e7a da era n\u00f4made: fog\u00e3o Semer, geladeira Climax, TV Mistubishi da Copa de 82, aparelho de som National, alguns m\u00f3veis de madeira que meu pai fez durante longas tardes&#8230; Coube tudo naquela ca\u00e7ambinha. Melhor assim, deve ter sido f\u00e1cil descarregar&#8230;<\/p>\n<p>A primeira lembran\u00e7a que tenho da minha casa nova foi do len\u00e7ol rosa florido no colch\u00e3o estendido na sala, onde dormi com meus pais enquanto assist\u00edamos a desfiles de escolas de samba na TV. Do meu primeiro dia de aula no pr\u00e9-prim\u00e1rio, do meu irm\u00e3o correndo de andador no quintal aberto, das brincadeiras de pega-pega e queimada com as crian\u00e7as da rua, dos sacos de cimento, blocos, latas de tinta e telhas Brasilit das in\u00fameras obras transformadoras, das fugas na delegacia atr\u00e1s da rua e das viagens que me acostumei a fazer para conhecer a civiliza\u00e7\u00e3o, j\u00e1 se passaram 25 anos.<\/p>\n<p>Nesses anos todos, j\u00e1 n\u00e3o consigo mais apontar quem mora em cada uma das 23 casas &#8211; apesar de lembrar com carinho de todas as primeiras fam\u00edlias que inauguraram esse cantinho conosco. J\u00e1 me acostumei a chamar a molecada dessa forma, mesmo com a maioria deles na faixa dos vinte, com seus carros, empregos e namoradas. Continuo levando ao menos uma hora para chegar a qualquer lugar do planeta, mas por mais que procure um cantinho mais pr\u00f3ximo da minha vida social para viver, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o se sentir abra\u00e7ado em minha casa.<\/p>\n<p>Agora \u00e9 minha vez de abra\u00e7\u00e1-la: feliz anivers\u00e1rio, e obrigado pelos \u00faltimos 25 anos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meus primeiros anos de vida foram de uma intensidade \u00edmpar: foram muitas as casas onde morei (incluindo Bauru, minha cidade natal), sempre acompanhando a expans\u00e3o da telefonia em S\u00e3o Paulo com meu pai, que no final dos anos 70, era um dos montadores da Ericsson prestando servi\u00e7os para a Telesp em todo o estado. 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