{"id":49,"date":"2007-09-23T23:36:54","date_gmt":"2007-09-24T02:36:54","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/pitacos-mineiros"},"modified":"2007-09-23T23:36:54","modified_gmt":"2007-09-24T02:36:54","slug":"pitacos-mineiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/pitacos-mineiros\/","title":{"rendered":"Pitacos mineiros"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/ferias.gif\" align=\"right\" \/><font size=\"3\">Por <a href=\"http:\/\/nossacanossa.blogspot.com\" target=\"_blank\"><b>Carolina Maria, a Canossa<\/b><\/a><\/font><\/p>\n<p>Definitivamente, falar sobre viagens n\u00e3o \u00e9 meu ponto forte. Isso fica muito claro quando me lembro da primeira vez em que fui fazer a cobertura de um desembarque no aeroporto &#8211; no caso, a sele\u00e7\u00e3o brasileira feminina de v\u00f4lei. Era final de tarde quando o Nara chegou e anunciou a minha pauta no dia seguinte. Juro que n\u00e3o foi intencional, mas devo ter feito uma cara de interroga\u00e7\u00e3o t\u00e3o grande que ele n\u00e3o teve outra alternativa a n\u00e3o ser perguntar: &#8220;Vai dizer que voc\u00ea nunca foi em um aeroporto na sua vida?!&#8221;.<\/p>\n<p>A resposta foi sincera: &#8220;J\u00e1&#8230; mas eu tinha cinco anos&#8221;. Ok, zoa\u00e7\u00f5es a parte, o fato \u00e9 que eu continuo sem ter entrado em um avi\u00e3o. Pelo menos, eu j\u00e1 n\u00e3o me perco mais (tanto) no aeroporto de Cumbica. O de Congonhas s\u00f3 conhe\u00e7o de ver da rua, o que nos atuais tempos pode at\u00e9 ser uma coisa boa. Na verdade, o lugar mais long\u00edquio que cheguei na minha vida, tendo S\u00e3o Paulo como refer\u00eancia, \u00e9 a pacata Bras\u00edlia de Minas, 539 quil\u00f4metros distante de Belo Horizonte.<\/p>\n<p>Quem me conhece, sabe que eu tenho o cora\u00e7\u00e3o metade paulista e metade mineiro. Tenho fam\u00edlia pelas bandas de l\u00e1 e, por conta disso, costumo atravessar a divisa com uma certa frequ\u00eancia &#8211; sempre por meios terrestres. Trata-se de uma verdadeira aventura chegar em Bocaiuva, meu destino de todos os finais de ano e, com alguma sorte, o de julho tamb\u00e9m. S\u00e3o pouco mais de 1000 quil\u00f4metros em estradas que v\u00e3o se degradando pouco a pouco.<\/p>\n<p>J\u00e1 fui tantas vezes para l\u00e1 que poderia at\u00e9 fazer um guia, apesar de duvidar levemente da viabilidade comercial do projeto. O que eu tenho para indicar, ent\u00e3o? Em primeiro lugar, o pastel de beira de estrada da Fern\u00e3o Dias, em Itatiaiu\u00e7u, regi\u00e3o metropolitana de BH. \u00c9 o segundo melhor do Brasil (o primeiro \u00e9 em S\u00e3o Bernardo, para onde viajo todos os dias) e conta com um dono absolutamente mal humorado. S\u00f3 serve para comer na hora: nem tente comprar s\u00f3 a massa porque \u00e9 imposs\u00edvel repeti-lo em casa. Ah, sim, e quando se pede Coca Cola com gelo e lim\u00e3o, voc\u00ea recebe seu refrigerante com metade da fruta dentro.<\/p>\n<p>Claro, tamb\u00e9m n\u00e3o posso deixar de alertar sobre o qu\u00e3o confusa \u00e9 Belo Horizonte, um lugar onde as placas s\u00f3 aparecem em cima das sa\u00eddas. \u00c9 a partir mais ou menos de l\u00e1 que voc\u00ea vai come\u00e7ar a se sentir realmente em Minas, pois at\u00e9 ent\u00e3o em 90% das cidades existem mais palmeirenses, flamenguistas e corinthianos que atleticanos ou cruzeirenses. No entanto, o sotaque mineiro, uai, pode ser ouvido desde o primeiro momento que voc\u00ea passa a plaquinha &#8220;SP-MG&#8221;. Inacredit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m pode ser \u00fatil para algu\u00e9m saber que Sete Lagoas, a terra do Zacarias, tem na verdade somente seis lagoas (me disseram que uma secou, mas confesso que eu preciso apurar melhor os fatos). E j\u00e1 que \u00e9 para acabar com ilus\u00f5es de vez, revelo que Montes Claros \u00e9 uma cidade praticamente plana. Os tais &#8220;montes&#8221; foram degradados por uma f\u00e1brica de cimento. Logo, n\u00e3o s\u00e3o mais claros.<\/p>\n<p>De Sete (ou seis) Lagoas para frente, com umas oito horas de viagem, come\u00e7a o verdadeiro rali, com buracos cheios de estradas e pista &#8220;vai e vem&#8221;. Para piorar, mineiro dirige t\u00e3o mal quanto paulista, s\u00f3 que costuma ser mais maluco na estrada porque acha que j\u00e1 conhece toda a rodovia. Entrando na BR-135, \u00faltima estrada para Bocaiuva, logo se chega em Augusto de Lima, um lugarzinho no meio do nada cuja maior atra\u00e7\u00e3o \u00e9 uma placa que indica aos poss\u00edveis empres\u00e1rios que a cidade tem &#8220;Farta m\u00e3o de obra&#8221;, o que tamb\u00e9m pode ser traduzido como &#8220;Alto \u00edndice de desemprego&#8221;. Alguns quil\u00f4metros mais tarde, passa-se por Engenheiro Dolabela, onde chama a aten\u00e7\u00e3o uma chamin\u00e9 semelhante aquelas perto do Palestra It\u00e1lia &#8211; sim, os Matarazzo estiveram por l\u00e1 tamb\u00e9m!<\/p>\n<p>A esta altura do campeonato voc\u00ea j\u00e1 vai estar acostumado com o cheiro de pequi. Assim como o piment\u00e3o, pequi \u00e9 uma prova de que Deus n\u00e3o \u00e9 perfeito. Trata-se, na verdade, da melhor forma dos norte-mineiros sacanearem quem \u00e9 de fora. \u00c9 um fruto que se assemelha com um  abacate, mas s\u00f3 se r\u00f3i o caro\u00e7o, que antes deve ser cozido, o que o deixa com um aspecto amarelo e um cheiro n\u00e3o muito agrad\u00e1vel. Se voc\u00ea for besta de morder o caro\u00e7o, vai passar o resto de sua vida com espinhos na boca. Um dos grandes mist\u00e9rios da humanidade \u00e9 saber como o povo adora isso por l\u00e1.<\/p>\n<p>Para finalizar, duas dicas imprescind\u00edveis: no Norte de Minas chamar uma mulher de &#8220;vaca&#8221; n\u00e3o significa nada. Por outro lado, chame algu\u00e9m de &#8220;moleque&#8221; e voc\u00ea ser\u00e1 expulso da cidade, assim como se referir a uma senhora como &#8220;rapariga&#8221;. E, como n\u00e3o poderia deixar de ser, pao de queijo \u00e9 muito barato: n\u00e3o aceite pagar mais que 0,30 centavos a unidade (sim, porque em Bocaiuva quase nada tem pre\u00e7o &#8211; o valor dos produtos varia de acordo com a cara do consumidor).<\/p>\n<p><i>Enquanto Marmota continua morrendo de vontade de conhecer Minas Gerais, a s\u00e9rie <b>Col\u00f4nia de F\u00e9rias<\/b> apresenta textos gentilmente preparados por seus ex-colegas de trabalho, mas que permanecer\u00e3o amigos. <\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Carolina Maria, a Canossa Definitivamente, falar sobre viagens n\u00e3o \u00e9 meu ponto forte. Isso fica muito claro quando me lembro da primeira vez em que fui fazer a cobertura de um desembarque no aeroporto &#8211; no caso, a sele\u00e7\u00e3o brasileira feminina de v\u00f4lei. Era final de tarde quando o Nara chegou e anunciou a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-49","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-colonia-de-ferias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=49"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=49"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=49"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=49"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}