{"id":487,"date":"2008-02-07T23:58:49","date_gmt":"2008-02-08T02:58:49","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/a-gente-se-encontra-aqui-no-meio-da-multidao"},"modified":"2008-02-07T23:58:49","modified_gmt":"2008-02-08T02:58:49","slug":"a-gente-se-encontra-aqui-no-meio-da-multidao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/a-gente-se-encontra-aqui-no-meio-da-multidao\/","title":{"rendered":"A gente se encontra aqui, no meio da multid\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/backfut.gif\" align=\"right\" \/>Reitero aqui minha opini\u00e3o dos \u00faltimos anos: se um dia decretassem o fim do Carnaval Brasileiro, certamente n\u00e3o faria diferen\u00e7a na minha vida. Mas preciso admitir que nem sempre foi assim. Quando crian\u00e7a, achava divertido ficar acordado de madrugada para assistir aos desfiles da TV. Brincava com o controle remoto pra comparar a transmiss\u00e3o da Globo e a da Manchete &#8211; ali\u00e1s, achava que a Manchete era a &#8220;dona do Carnaval&#8221;, tudo por causa da escultura em forma de M na pra\u00e7a da apoteose&#8230;<\/p>\n<p>Lembro bem do Carnaval de 1989. Tinha quase doze anos, e acabara de retornar de Bras\u00edlia, onde &#8220;moramos&#8221; por pouco mais de dois meses. Estendia um colch\u00e3o velho na sala e dormia ali mesmo, com a TV ligada. Acordei com o desfile da Beija-Flor, com toda aquela gente maltrapilha e um Cristo Redentor ensacolado, com a mensagem &#8220;Mesmo proibido, olhai por n\u00f3s&#8221;. Achei aquilo diferente, e por isso mesmo sensacional. Bateu uma pontinha de frustra\u00e7\u00e3o quando vi a Imperatriz e seu &#8220;liberdade liberdade abra as asas sobre n\u00f3s&#8221; derrotar a ousadia de Jo\u00e3ozinho Trinta.<\/p>\n<p>Aos poucos, aquela sensa\u00e7\u00e3o ing\u00eanua da inf\u00e2ncia foi se perdendo em meio a liberalidade total e explora\u00e7\u00e3o gratuita de bundas e peitos. paralelamente, achava besteira as escolas de samba perderem pontos por quest\u00f5es t\u00e3o subjetivas quanto harmonia ou mestre-sala e porta-bandeira.<\/p>\n<p>E o que \u00e9 mais estranho: esse monte de regulamenta\u00e7\u00f5es, que talvez fa\u00e7a algum sentido em carnavais como S\u00e3o Paulo e Rio, tamb\u00e9m \u00e9 aplicado em cidades como Pelotas ou Mogi das Cruzes, com escolas modestas e sem estrutura para botar um trip\u00e9 na avenida &#8211; ora, pra qu\u00ea samb\u00f3dromo ali? Por que n\u00e3o pegar esse dinheiro e aplicar em blocos tradicionais, carnaval de rua, entre outras atividades mais atrativas?<\/p>\n<p>Resumidamente: o mais importante n\u00e3o era festejar com alegria, mas sim estabelecer metas t\u00e9cnicas, como uma empresa tentando obter a certifica\u00e7\u00e3o ISO 9000. Tanto que faz pelo menos dez anos que n\u00e3o me dou ao luxo de saber qual \u00e9 o samba-enredo da escola tal.<\/p>\n<p>Apesar de ter uma certa curiosidade jornal\u00edstica em saber o que houve com a Unidos do Cabu\u00e7u, que certa vez homenageou os Trapalh\u00f5es no Grupo Especial (Didi Ded\u00e9, Mussum e Zacarias&#8230; Seu mundo \u00e9, encanto e magia&#8230;).<\/p>\n<p>Mas enfim. Num desses relances televisivos em meio ao plant\u00e3o carnavalesco da reda\u00e7\u00e3o, peguei vinte minutos do desfile da Caprichosos de Pilares. Minhas refer\u00eancias passadas eram ralas: tinha uma vis\u00e3o irreverente do puxador Carlinhos de Pilares, al\u00e9m de enredos n\u00e3o-menos irreverentes. Abstra\u00ed o exagero midi\u00e1tico em fun\u00e7\u00e3o da Luma de Oliveira e prestei aten\u00e7\u00e3o na escola: tratava-se de uma homenagem aos 20 anos de Liesa, a liga das empresas de samba do Rio, que coincide com a inaugura\u00e7\u00e3o do samb\u00f3dromo.<\/p>\n<p>E passavam as alas, cada qual com um nome que remetia a trechos de sambas de carnavais passados. Alguns marcantes, como as \u00e1guas rolantes da Mocidade, as bananas da Imperatriz, o Kizomba da Vila Isabel, o Ita do Salgueiro&#8230;<\/p>\n<p>Durante aqueles 20 minutos, lembrei o quanto eu achava bacana tudo aquilo. At\u00e9 cantarolei o samba da Caprichosos&#8230;<\/p>\n<p><i>Hoje \u00e9 Carnaval<br \/>\nVem se encontrar, chegou a hora<br \/>\nVamos recordar e ver tamb\u00e9m o bumbum de fora<br \/>\nNo me d\u00ea, me d\u00e1<br \/>\nA Caprichosos brinca com voc\u00ea<br \/>\nAjoelhou tem que rezar, olha a\u00ed tem ti-ti-ti<br \/>\nDe novo na Sapuca\u00ed<\/p>\n<p>Eu ouvi algu\u00e9m gritar bota fogo nisso<br \/>\nA virgindade j\u00e1 levou sumi\u00e7o<br \/>\nPisa na casca de banana e escorrega<br \/>\nMo\u00e7a bonita aqui tamb\u00e9m n\u00e3o leva<br \/>\nBumbumpaticumbumprugurundum nos avisou<br \/>\nNessa kizomba, viu, tudo mudou<br \/>\nCarnaval, sedu\u00e7\u00e3o, palco de ilus\u00e3o<br \/>\nVista sua fantasia.<\/p>\n<p>Povo e liga se abra\u00e7am, 20 anos de passam<br \/>\nO &#8220;Ita&#8221; foi s\u00f3 alegria<br \/>\nA rosa que desabrochou campe\u00e3<br \/>\nNuma explos\u00e3o de amor&#8230; (Parab\u00e9ns)<br \/>\nParab\u00e9ns, palmas para os sambistas<br \/>\nCarnavalescos, artistas, sem voc\u00eas n\u00e3o tem show<br \/>\nN\u00e3o vai d\u00e1 pra terminar, eu tava de bobeira<br \/>\nUm pivete beteu-me a carteira<\/p>\n<p>\u00c9 carnaval, \u00e9 samba a noite inteira<br \/>\nMulata, cacha\u00e7a, tem muita zoeira<br \/>\nVem c\u00e1 meu bem, me d\u00ea seu cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nE n\u00e3o a bolsa, o rel\u00f3gio e o cord\u00e3o<\/i><\/p>\n<p>Na quarta-feira, soube pelo Zero Hora que &#8220;a Beija Flor era tricampe\u00e3 com enredo ga\u00facho&#8221;, sobre os sete povos das Miss\u00f5es &#8211; ali\u00e1s, t\u00edpica manchete do ZH. E que a Caprichosos, cujo desfile foi t\u00e3o bacana, ficou em 11\u00ba. Detalhes, detalhes: alguns d\u00e9cimos em cada quesito. Depois n\u00e3o querem alimentar o desprezo pelo Carnaval do Rio&#8230;<\/p>\n<p><i>(Postado em 10\/02\/2005. Coincid\u00eancia, esse ano a Beija-Flor ganhou de novo&#8230;)<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reitero aqui minha opini\u00e3o dos \u00faltimos anos: se um dia decretassem o fim do Carnaval Brasileiro, certamente n\u00e3o faria diferen\u00e7a na minha vida. Mas preciso admitir que nem sempre foi assim. Quando crian\u00e7a, achava divertido ficar acordado de madrugada para assistir aos desfiles da TV. 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