{"id":478,"date":"2008-01-29T23:59:48","date_gmt":"2008-01-30T02:59:48","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/namoro-em-estado-de-choque"},"modified":"2008-01-29T23:59:48","modified_gmt":"2008-01-30T02:59:48","slug":"namoro-em-estado-de-choque","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/namoro-em-estado-de-choque\/","title":{"rendered":"Namoro em estado de choque"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/pedra.gif\" align=\"right\" \/>De uns anos pra c\u00e1, passei a questionar veementemente os relacionamentos \u00e0 dist\u00e2ncia. Entendo que os la\u00e7os ficaram mais estreitos gra\u00e7as \u00e0 rede e os computadores&#8230; Mas entre trocar bits e fluidos, ainda prefiro o segundo. Muitas vezes, o pre\u00e7o de um r\u00f3tulo com os dizeres &#8220;comprometidos&#8221; nas testas do casal \u00e9 bem elevado. S\u00e3o comuns hist\u00f3rias envolvendo trope\u00e7os na falta de conviv\u00eancia, em algumas mentirinhas ou omiss\u00f5es, e at\u00e9 mesmo incidentes nos deslocamentos &#8211; respons\u00e1veis pelos poucos momentos efetivamente juntos.<\/p>\n<p>Mas at\u00e9 agora, n\u00e3o tinha ouvido nada parecido com o que um amigo contou recentemente. Ele estava voltando do interior de S\u00e3o Paulo quando um rapaz, completamente exausto, perguntou: &#8220;me diga, da Barra Funda at\u00e9 o Tiet\u00ea&#8230; \u00c9 dif\u00edcil chegar \u00e1 p\u00e9?&#8221;. A resposta veio acompanhada de uma testa franzida e olhar desconfiado: a caminhada, al\u00e9m de grotesca, \u00e9 desnecess\u00e1ria, gra\u00e7as ao Metr\u00f4.<\/p>\n<p>Por mais idiota que a pergunta se pare\u00e7a, meu amigo logo perceberia que ela n\u00e3o veio \u00e0 toa. O rapaz esbaforido, engenheiro, conheceu a mo\u00e7a, tamb\u00e9m engenheira, num desses f\u00f3runs web totalmente profissionais. Trocaram e-mails, telefones, endere\u00e7os e, depois de algumas semanas, car\u00edcias e afins: ela, que vive no interior paulista, foi visit\u00e1-lo no Rio de Janeiro. Exatos 800 quil\u00f4metros. E n\u00e3o h\u00e1 \u00f4nibus direto: S\u00e3o Paulo era escala obrigat\u00f3ria.<\/p>\n<p>Seria o segundo passeio de m\u00e3os dadas entre os engenheiros enamorados. Desta vez, era ele que percorreria a via-crucis. A menina, certamente com pena do rapaz, combinou um ponto de encontro mais f\u00e1cil: a rodovi\u00e1ria de uma cidade entre S\u00e3o Paulo e a casa dela. Uma excelente id\u00e9ia, mas que se revelaria tr\u00e1gica: ao desembarcar, ele simplesmente n\u00e3o a encontrou l\u00e1.<\/p>\n<p>Dezenas de liga\u00e7\u00f5es para o celular da amada (o \u00fanico n\u00famero que dispunha), que caiam insistentemente na caixa postal. Num cybercaf\u00e9, tratou de buscar o sobrenome dela na lista de assinantes. Foram mais seis ou nove telefonemas, at\u00e9 encontrar a resid\u00eancia dela. Algu\u00e9m atendeu, ainda mais preocupado: a mo\u00e7a realmente havia sumido do mapa.<\/p>\n<p>Nosso her\u00f3i apaixonado tratou de viajar para a cidade de sua donzela em perigo. O calor da tarde s\u00f3 aumentava seu nervosismo e preocupa\u00e7\u00e3o. Horas mais tarde, munido de um papel com o endere\u00e7o anotado, pegou um t\u00e1xi at\u00e9 a casa dos futuros sogros. Port\u00f5es trancados, janelas fechadas. Campainha, palmas&#8230; Nada. Um vizinho apareceu, dizendo: &#8220;acabaram de sair, e estavam com muita pressa!&#8221;.<\/p>\n<p>Todos os sentimentos derivados da frustra\u00e7\u00e3o, do des\u00e2nimo e do desespero se misturaram ferozmente. Mas se acalmaram antes do sol se p\u00f4r, com um toque em seu celular. Era o n\u00famero da namorada. Alegria! Ela estaria bem, afinal!<\/p>\n<p>&#8220;Al\u00f4, pois n\u00e3o? Qual sua gra\u00e7a? Ah, sim, e o que o senhor \u00e9 da senhorita Barroso? Positivo, senhor. Eu sou o Sargento Mococa, aqui da Equipe da Pol\u00edcia Rodovi\u00e1ria Federal da 7\u00aa Delegacia de Jaboticabal. Encontramos o seu n\u00famero entre as chamadas recebidas pela senhorita Barroso nas \u00faltimas horas&#8221;, anunciou, contando toda a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Ela estava a caminho da tal rodovi\u00e1ria, quando um dos pneus de seu carro furou. Subitamente, dois sujeitos apareceram e ajudaram-na com o macaco e o estepe. Por\u00e9m, com segundas inten\u00e7\u00f5es: com o ve\u00edculo em ordem, os cabras anunciaram um sequestro. Rodaram com ela pelas estradas paulistas, em busca de um caixa eletr\u00f4nico e todo o dinheiro que pudessem roubar. Largaram-na sem o carro, justamente em Jaboticabal &#8211; local que, diga-se, nada tinha a ver com a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Enfim, soube que ela estava internada na Santa Casa, em estado de choque. Sem pensar duas vezes, pegou o \u00faltimo \u00f4nibus para Jaboticabal para saciar de uma vez por todas sua inquieta\u00e7\u00e3o. Pensava que todo o castigo j\u00e1 havia acabado&#8230; N\u00e3o \u00e9 preciso imaginar como ele ficou ao saber que nada daquilo havia adiantado: pouco tempo antes de chegar no hospital, a engenheira da Internet j\u00e1 tinha recebido alta.<\/p>\n<p>Gargalhadas. Chutes no poste. Socos nas paredes. L\u00e1grimas. E mais gargalhadas. Tudo o que ele precisava naquele instante eram poucas horas de sono e um caixa eletr\u00f4nico para garantir uma volta tranquila. Acredite: seu nervosismo era tamanho que, ao tentar sacar alguns trocados, conseguiu digitar errado sua senha. Tr\u00eas vezes. Perdeu, preib\u00f3i. Cart\u00e3o bloqueado.<\/p>\n<p>Com os poucos caramingu\u00e1s em seu bolso, comprou uma passagem para S\u00e3o Paulo. Tinha o suficiente para chegar ao Rio, mas para isso, teria que ir a p\u00e9 do Terminal Barra Funda, onde chegaria, at\u00e9 o Tiet\u00ea, de onde saem os \u00f4nibus para a capital fluminense. Comovido com esse relato inacredit\u00e1vel, meu amigo fez quest\u00e3o de pagar um bilhete de Metr\u00f4, com sinceros votos de melhor sorte da pr\u00f3xima vez.<\/p>\n<p>Tanto quem contou este causo quanto outros da mesa, que tamb\u00e9m ouviram, mostraram uma esperada face embasbacada&#8230; S\u00f3 que foram complacentes ao comentar a hist\u00f3ria. &#8220;Tem coisas que dariam um filme&#8230; Mas s\u00e3o coisas da vida, acontecem&#8230;&#8221;. Pois eu tenho absoluta certeza que a culpa \u00e9 da dist\u00e2ncia: se os engenheiros morassem na mesma cidade, isso jamais aconteceria.<\/p>\n<p>Tudo bem, haveriam outros problemas, admito. Mas esse n\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De uns anos pra c\u00e1, passei a questionar veementemente os relacionamentos \u00e0 dist\u00e2ncia. Entendo que os la\u00e7os ficaram mais estreitos gra\u00e7as \u00e0 rede e os computadores&#8230; Mas entre trocar bits e fluidos, ainda prefiro o segundo. Muitas vezes, o pre\u00e7o de um r\u00f3tulo com os dizeres &#8220;comprometidos&#8221; nas testas do casal \u00e9 bem elevado. 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