{"id":446,"date":"2008-01-08T23:57:15","date_gmt":"2008-01-09T02:57:15","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/bem-feito-quem-mandou-dar-ouvidos-a-eles"},"modified":"2008-01-08T23:57:15","modified_gmt":"2008-01-09T02:57:15","slug":"bem-feito-quem-mandou-dar-ouvidos-a-eles","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/bem-feito-quem-mandou-dar-ouvidos-a-eles\/","title":{"rendered":"Bem feito. Quem mandou dar ouvidos a eles?"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/backfut.gif\" align=\"right\" \/>Vez ou outra eu questiono minha voca\u00e7\u00e3o profissional. T\u00edpico daquele momento curioso de transi\u00e7\u00e3o comum a todos os meus amigos com mais ou menos trinta anos: n\u00e3o t\u00e3o velhos para dispensarem trejeitos adolescentes, nem t\u00e3o novos para lidarem com responsabilidades profissionais. Ao final do dia, eu me pergunto se nasci mesmo para ser jornalista.<\/p>\n<p>A d\u00favida aumentou essa semana, logo quando vi o Adilson dizer que &#8220;jornalista \u00e9 um bicho pedante por defini\u00e7\u00e3o&#8221;. Pouco antes, conversei com um estudante ao telefone, \u00e1vido por algumas dicas ou uma luzinha qualquer. Falei com ele uma meia hora, e logo depois, chegou um e-mail. &#8220;Oi, tudo bom? Acabamos de nos falar ao telefone, ali\u00e1s, muito obrigado por toda sua aten\u00e7\u00e3o. Nunca tinha sido recebido de forma t\u00e3o simp\u00e1tica e agrad\u00e1vel. Gostaria muito de poder manter contato e, se Deus quiser, poder trabalhar ao seu lado um dia&#8221;. Definitivamente, se o Adilson estiver certo, preciso mudar de \u00e1rea.<\/p>\n<p>Tantas d\u00favidas me fizeram lembrar quando foi que eu tive a maldita id\u00e9ia de estudar jornalismo. N\u00e3o lembro exatamente da idade, mas tenho em minha mem\u00f3ria dois fatos marcantes que contribu\u00edram decisivamente para a minha decis\u00e3o. Em uma manh\u00e3 inteira da oitava s\u00e9rie, em 1991, minha professora de geografia, a Marlene, irm\u00e3 da diretora, decidiu fazer um teste vocacional &#8211; que, por sinal, foi retirado de um antigo Guia do Estudante, que era meu. Depois que eu fiz o meu, ela olhou nos meus olhos e disse: &#8220;se for mesmo fazer jornalismo, fa\u00e7a C\u00e1sper L\u00edbero&#8221;. A professora Marlene tinha uma personalidade forte, en\u00e9rgica. Eu jamais tive coragem de desobedec\u00ea-la.<\/p>\n<p>O segundo fato marcante tem data registrada. Dezoito de julho de 1992. Era a minha segunda viagem a Pelotas naquele m\u00eas: a primeira tinha sido no dia tr\u00eas, quando meu av\u00f4 faleceu. Mas bem antes da m\u00e1 not\u00edcia eu j\u00e1 tinha planejado duas semanas de geada pela manh\u00e3 e p\u00e3o com torresmo com meus primos. Era um per\u00edodo em que o trajeto entre S\u00e3o Paulo e o sul do pa\u00eds exercia um fasc\u00ednio muito grande em mim, a ponto de registrar datas, hor\u00e1rios, quilometragens, gastos, etc&#8230; Tudo em uma caderneta de capa azul, comprada em 1990 e sistematicamente modificada em seus mais de dez anos ininterruptos de uso.<\/p>\n<p>Enfim. Munido da minha caderneta azul e sentado na janelinha, fazia minhas anota\u00e7\u00f5es absolutamente irrelevantes naquele velho \u00f4nibus da Penha, vindo do Rio de Janeiro e com Rio Grande como destino final. Ao meu lado, uma mo\u00e7a curiosa, que s\u00f3 interrompeu sua leitura para abordar aquele estranho moleque de quinze anos depois de Registro, depois dos trinta minutos de parada obrigat\u00f3ria no Petropen.<\/p>\n<p>&#8220;O que voc\u00ea est\u00e1 anotando?&#8221;, perguntou. Logo fiz quest\u00e3o de mostrar a ela todas as p\u00e1ginas da minha caderneta azul, rabiscadas pela minha lapiseira. &#8220;Nossa, mas isso \u00e9 muito met\u00f3dico&#8230;&#8221;, estranhou a mo\u00e7a. Logo ela me perguntou o que eu fazia naquele \u00f4nibus sozinho, o que eu fazia da vida e o que eu pretendia fazer com ela (a vida, l\u00f3gico) no futuro. Parecia adivinhar a resposta, gra\u00e7as ao meu kit lapiseira-caderneta. E sorriu, dizendo: &#8220;\u00c9 mesmo? Pois saiba que eu sou jornalista!&#8221;. Puxa vida.<\/p>\n<p>Ignorei as anota\u00e7\u00f5es e fiquei ouvindo a mo\u00e7a falar sobre a vida dela, afinal de contas, era o meu primeiro contato imediato com algu\u00e9m da profiss\u00e3o dos meus sonhos. Disse que trabalhava na Gazeta Mercantil, que gostava daquilo que fazia, apesar de n\u00e3o ter hora para entrar, nem para sair, nem feriado, enfim. Disse que era importante ler muito, conversar muito com as pessoas, gostar muito do que se faz, afinal as decep\u00e7\u00f5es existem&#8230;<\/p>\n<p>Mas disse que era um trabalho acima de tudo gratificante, o que me deixou ainda mais entusiasmado. Intercalava com uma ou outra hist\u00f3ria, como a de uma festa que ela tinha ido recentemente. Contou que desembarcaria em Curitiba para se encontrar com um amigo &#8211; ou seja, minha primeira conversa oficial com uma jornalista, al\u00e9m de algumas cochiladas noturnas, durou apenas as tr\u00eas horas que separam Registro da capital paranaense.<\/p>\n<p>Consegui lembrar desses e de outros detalhes, al\u00e9m do sorriso da mo\u00e7a, seus cabelos castanhos ondulados&#8230; Mas aos quinze anos, eu realmente n\u00e3o sabia usar o conjunto elementar de escrita: no meio de tantas informa\u00e7\u00f5es absolutamente desnecess\u00e1rias em minha caderneta azul, a que eu mais desejava, o nome da mo\u00e7a, n\u00e3o estava l\u00e1. \u00c9 uma pena: adoraria reencontr\u00e1-la qualquer hora dessas e dizer, com o dedo em riste: obrigado, mo\u00e7a, a culpa tamb\u00e9m \u00e9 sua.<\/p>\n<p><i>(Postado em 18\/08\/2006)<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vez ou outra eu questiono minha voca\u00e7\u00e3o profissional. 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