{"id":436,"date":"2007-12-29T23:54:53","date_gmt":"2007-12-30T02:54:53","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/todos-os-meus-27-30-finais-de-ano"},"modified":"2007-12-29T23:54:53","modified_gmt":"2007-12-30T02:54:53","slug":"todos-os-meus-27-30-finais-de-ano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/todos-os-meus-27-30-finais-de-ano\/","title":{"rendered":"Todos os meus 27 30 finais de ano"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/pedra.gif\" align=\"right\" \/>Fazia tempo que eu n\u00e3o andava t\u00e3o \u201cmala\u201d quanto agora, nesse m\u00eas de dezembro. Pessoalmente, acredito que esse estado de ansiedade seja comum todo ano. Desta vez, a coisa tomou propor\u00e7\u00f5es maiores, j\u00e1 que normalmente, absorvo a ranzinzice na minha tradicional viagem ao sul do Brasil. Uma esp\u00e9cie de \u201cconto de fadas\u201d particular: quando estou em Porto Alegre ou Pelotas, simplesmente esque\u00e7o da vida. E pela primeira vez em muito tempo, n\u00e3o estarei l\u00e1 na virada do ano.<\/p>\n<p>De repente, surgiu a quest\u00e3o: muito tempo quanto? Mais: quais foram os outros reveillons da minha vida em que n\u00e3o estive no Rio Grande do Sul? Decidi eliminar essa d\u00favida, elaborando um hist\u00f3rico completo: seguem, resumidamente, as minhas 27 temporadas de ver\u00e3o. Descobri que, com este, ser\u00e3o quatro os finais de ano longe dos parentes. O \u00faltimo foi h\u00e1 16 anos.<\/p>\n<p>Talvez in\u00fatil para voc\u00ea, mas de valor inestim\u00e1vel para um sujeito que adora contemplar mem\u00f3rias.<\/p>\n<p><u>77\/78<\/u> &#8211; Pod\u00edamos come\u00e7ar a saga um ano antes, com o pequeno Marmota ainda em fase de gesta\u00e7\u00e3o. Mas fica valendo este como o primeiro, aos sete meses de idade. Nasci em Bauru, interior paulista, num \u201cacidente de percurso\u201d: era onde meu pai trabalhava na \u00e9poca. Estive ainda em S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto e Ja\u00fa, antes de ser batizado, em dezembro, em uma igrejinha evang\u00e9lica luterana, na zona rural de Pelotas. Casados desde 1975, meus pais se habituaram a passar o Natal com meus av\u00f3s maternos, no Canto Grande (zona rural, atual sub-distrito de Cap\u00e3o do le\u00e3o), e o ano novo com os av\u00f3s paternos &#8211; que deixaram o s\u00edtio h\u00e1 tempos e, naquela altura, moravam na Vila Brod, perto da avenida Fernando Os\u00f3rio.<\/p>\n<p><u>78\/79<\/u> &#8211; Permanecia n\u00f4made: em mar\u00e7o, deixamos Pelotas e voltamos para Ja\u00fa. Em seguida, Barretos. Meus pais, ao contr\u00e1rio dos meus outros tios, tinham coragem de se aventurar &#8211; isso talvez tenha sensibilizado os meus av\u00f3s, que frequentemente viajavam para S\u00e3o Paulo. No final do ano, l\u00e1 est\u00e1vamos todos no Rio Grande outra vez &#8211; a bordo do primeiro carro zero do meu pai, uma impec\u00e1vel Bras\u00edlia amarela.<\/p>\n<p><u>79\/80<\/u> &#8211; O ano em que o Inter conquistou o tricampeonato invicto representou uma s\u00e9rie de andan\u00e7as: na mudan\u00e7a de Barretos para Campinas, meus pais decidiram vender boa parte dos m\u00f3veis e morar num apartamento pouco mobiliado. Minha m\u00e3e sofreu um bocado nesse meio tempo: na maioria das vezes, antes dessas mudan\u00e7as, permanec\u00edamos sozinhos, eu e ela, na cidade anterior. Em agosto, meu pai recebeu uma grande not\u00edcia: trabalharia em Porto Alegre. P\u00f4s todas as coisas na Bras\u00edlia e se mandou para o sul. Em novembro, no entanto, voltaram atr\u00e1s, mandando meu pai de volta para S\u00e3o Paulo. Fomos morar pela primeira vez na capital paulista, onde passamos o Natal. Era uma kitnet cafona alugada, na Rua Aurora. Panetone e champanhe servidos em uma mesinha de centro na sala de, com paredes amarelas, poltronas verdes e carpete roxo. O reveillon, acho, foi divertido: em Angra dos Reis, onde morava a tia Dair. Minha m\u00e3e lembra que Iemanj\u00e1 (ou algu\u00e9m da mesma hierarquia) mandou chuva naquela noite: todos sa\u00edram da praia antes da virada.<\/p>\n<p><u>80\/81<\/u> &#8211; Olha os ciganos saindo de S\u00e3o Paulo e indo parar em Caraguatatuba, litoral norte. O clima me deixava mal, e minha m\u00e3e, sozinha, tinha muito trabalho com o fedelho. No final daquele ano, meus pais alugam um apartamento no bairro paulistano da Aclima\u00e7\u00e3o. Mesma \u00e9poca em que o v\u00f4 Ibraim (pai do meu pai) passou mal. Fiz minha primeira viagem de avi\u00e3o na vida. Aproveitamos, claro, para ficar o final de ano pelo sul mesmo.<\/p>\n<p><u>81\/82<\/u> &#8211; Ainda mor\u00e1vamos na Aclima\u00e7\u00e3o. Tinha quatro anos quando comecei minha longa carreira letiva, no jardim da inf\u00e2ncia. Era o fim a fase n\u00f4made da minha vida. Mas as viagens em dezembro, ainda a bordo da Bras\u00edlia, permaneciam as mesmas. Nessa \u00e9poca, a tia Dair se mudou definitivamente para Cachoeirinha, Grande Porto Alegre, local que se tornou at\u00e9 hoje em nossa escala primordial &#8211; antes e depois de cada final de ano no sul.<\/p>\n<p><u>82\/83<\/u> &#8211; Foi o ano da Copa da Espanha, do Paolo Rossi\u2026 E do nascimento do Dani, meu irm\u00e3o, em outubro. Fiz minha segunda viagem de avi\u00e3o, ainda em setembro: passei o anivers\u00e1rio do v\u00f4 Ibraim, dia 24, ao lado dele, na vila Brod. Ficamos em Pelotas, eu, minha m\u00e3e e o Dani, at\u00e9 janeiro &#8211; meu pai voltou para S\u00e3o Paulo e viajou sozinho na Bras\u00edlia para passar o Natal conosco e participar do casamento da tia Cleusa. No retorno, pequenos excessos: paramos em Praia Grande, um pequeno munic\u00edpio ao sul de Santa Catarina, para visitar a tia Flor\u00eancia. E o pequeno Dani ficou com insola\u00e7\u00e3o. S\u00f3 descobrimos quil\u00f4metros mais tarde, em Joinville\u2026<\/p>\n<p><u>83\/84<\/u> &#8211; Foi o ano da conquista da casa pr\u00f3pria, numa regi\u00e3o bastante promissora da cidade de S\u00e3o Paulo: o bairro do Itaim Paulista. Mudamos para o lugar onde vivo at\u00e9 hoje em fevereiro. Quando completei um ano sem estudar, em julho, entrei no pr\u00e9-prim\u00e1rio, que durou apenas seis meses. O in\u00edcio do financiamento da casa fez com que fic\u00e1ssemos por aqui naquele final de ano.<\/p>\n<p><u>84\/85<\/u> &#8211; J\u00e1 estabelecidos no novo bairro, e com a minha primeira s\u00e9rie conclu\u00edda, recome\u00e7ava uma nova s\u00e9rie de viagens ininterruptas ao sul do Brasil. Nessa e em outras viagens de ida, \u00e9ramos acompanhados por outro carro: o do Pedro, meu padrinho de batismo e amigo do meu pai desde os anos 70. Ele, sua esposa C\u00e9lia e seus tr\u00eas filhos, Danilo, Fab\u00edola e Fernanda, mantinham um ritual parecido com o nosso: viajar entre S\u00e3o Paulo, onde moravam, e Pelotas, para visitar a trabanda. Foi nessa temporada ainda que conheci a nova casa do V\u00f4 Roque e da V\u00f3 Margarida (pais da minha m\u00e3e), que deixaram o Canto Grande para morar numa casinha tranquila na Cohab Fragata. Tal \u00eaxodo reduziu os passeios aos tios que permaneceram na zona rural (ou \u201cl\u00e1 fora\u201d, como dissemos) em no m\u00e1ximo uma semana. Da\u00ed surgiu a express\u00e3o \u201cviasaca\u201d, contra\u00e7\u00e3o de \u201cvia sacra\u201d: consistia em um \u201cpinga-pinga\u201d nos s\u00edtios, normalmente na semana entre o Natal e o ano novo.<\/p>\n<p><u>85\/86<\/u> &#8211; A viagem de ida, antes do Natal, foi meio at\u00edpica. Normalmente deixamos S\u00e3o Paulo bem cedo, at\u00e9 chegarmos em Cachoeirinha \u00e0 noite. Dessa vez, sa\u00edmos de casa \u00e0 tarde. Deu tempo de chegar em Joinville antes de escurecer. Nessa \u00e9poca, o v\u00f4 Ibraim e a v\u00f3 Leon\u00edsia (pais do meu pai) moravam em uma casinha simples, no bairro Santos Dumont, zona norte de Pelotas. Eram casas t\u00e3o parecidas que foi f\u00e1cil do pequeno Dani, com apenas tr\u00eas anos, escapar e se perder da gente. Deu um susto em todo mundo\u2026<\/p>\n<p><u>86\/87<\/u> &#8211; Ainda t\u00ednhamos o costume de passar o Natal com um par de av\u00f3s e o ano novo com o outro. Mas naquele final de ano tivemos um desses acontecimentos que re\u00fanem todos os parentes: o casamento de um deles. Era o do Roberto, filho da tia Geni. Tanto a cerim\u00f4nia quanto a festa foi em Cangu\u00e7u, cidadezinha localizada a uns 50km ao norte de Pelotas.<\/p>\n<p><u>87\/88<\/u> &#8211; Esse encerra o ciclo de temporadas cujos detalhes minha mente n\u00e3o \u00e9 capaz de lembrar com absoluta clareza e precis\u00e3o sem apoio de fotografias ou coisas do g\u00eanero. Com exce\u00e7\u00e3o da festa de anivers\u00e1rio do meu pai, em 19 de janeiro. Foi no quintal da v\u00f3, na Cohab Fragata. E boa parte da fam\u00edlia estava l\u00e1 &#8211; inclusive o v\u00f4 Ibraim, que infelizmente, viria a nos deixar em agosto do ano seguinte.<\/p>\n<p><u>88\/89<\/u> &#8211; Este era, at\u00e9 agora, o \u00faltimo fim de ano \u201cpaulistano\u201d: um amigo do meu pai, que tinha o sugestivo apelido \u201cBarriga\u201d, se vestiu de Papai Noel e fez a festa da crian\u00e7ada no Natal. E depois de um ano novo comedido, viajamos durante todo o primeiro dia do ano. Destino: Bras\u00edlia, onde o meu pai trabalhava temporariamente. Come\u00e7amos com o p\u00e9 esquerdo: mal encostamos a velha Bras\u00edlia no hotel (ficava na Asa Norte, setor residencial-comercial, quadra 715, bloco F) e ela foi furtada. Encontramos a carca\u00e7a do saudoso carrinho na cidade sat\u00e9lite de Sobradinho. Ficamos tr\u00eas meses na cidade, sempre a bordo do \u201cGrande Circular\u201d, linha de \u00f4nibus que nos levava ao Eixo Monumental. Meu pai desistiu de comprar outro carro por l\u00e1 mesmo: acabamos voltando para S\u00e3o Paulo a bordo do Real Expresso.<\/p>\n<p><u>89\/90<\/u> &#8211; Come\u00e7ava uma nova era de viagens a Pelotas, a bordo de uma Parati. Na minha cabecinha, aquilo merecia um tratamento especial: comprei um caderninho de capa azul e um gravador, para registrar tudo que pudesse (era praticamente um trabalho jornal\u00edstico). No dia 27 de dezembro, fui convidado para o anivers\u00e1rio de uma vizinha nova. Chamava-se Fl\u00e1via. Paguei um grande mico: amassei um copo descart\u00e1vel, sem saber que era costume da casa reaproveit\u00e1-los. Levei uma bronca da dona Celoi &#8211; at\u00e9 hoje ela lembra dessa hist\u00f3ria. O anivers\u00e1rio da Fl\u00e1via virou programa obrigat\u00f3rio nos anos seguintes.<\/p>\n<p><u>90\/91<\/u> &#8211; Divertid\u00edssimo, por v\u00e1rias raz\u00f5es. Era a \u00e9poca em que o meu pai estava empolgado com acampamentos: mantinha bem cuidado uma barraca e todos os apetrechos num reboque, que cruzou o sul do Brasil naquela ocasi\u00e3o. Ficamos muitos dias no Canto Grande, na beira do a\u00e7ude, pescando lambaris &#8211; teve uma vez que minha m\u00e3e confundiu sal com a\u00e7\u00facar na hora de fritar, ficou horr\u00edvel. Teve ainda o casamento do meu primo G\u00edlson, uma bela festa\u00e7a. Outro momento inesquec\u00edvel: a festa de anivers\u00e1rio do meu pai. A \u00fanica vez que conseguimos reunir, num \u00fanico lugar (o sal\u00e3o do Amaro) parentes tanto do lado materno quanto paterno. Tamb\u00e9m fiz dois passeios \u00e0 praia: um no Cassino, quando andei nas vagonetas dos molhes da barra, e outro em S\u00e3o Louren\u00e7o do Sul. Pela primeira vez, tive a brilhante id\u00e9ia de escrever, ainda que de maneira incipiente, um \u201cdi\u00e1rio de bordo\u201d no meu caderninho azul.<\/p>\n<p><u>91\/92<\/u> &#8211; Foi um final de ano agitado. A garotada da rua, comandadas pelas amigas Fl\u00e1via e M\u00edriam, criaram um neg\u00f3cio chamado \u201cClube do Juca\u201d, abrevia\u00e7\u00e3o de \u201cjuventude unida com amor\u201d. Coisa de crian\u00e7a. Al\u00e9m disso, meu pai fez algo incomum: no dia do anivers\u00e1rio dele, fez uma \u201cviasaca\u201d rel\u00e2mpago, em busca dos presentes. Mas o momento mais marcante daquele final de ano foi outro: a \u201cinaugura\u00e7\u00e3o\u201d do galp\u00e3o novo, em 12 de janeiro, quando a fam\u00edlia toda passou um dia inesquec\u00edvel, com todos reunidos. Eu e meus primos, todos crian\u00e7as, jamais imagin\u00e1vamos que seria o \u00faltimo final de ano ao lado do v\u00f4 Roque.<\/p>\n<p><u>92\/93<\/u> &#8211; No \u00faltimo ano, foram duas viagens: a primeira, quando o v\u00f4 faleceu; e a segunda, nas minhas f\u00e9rias de inverno. Naquela temporada, embarc\u00e1vamos para o sul num Apollo preto, talvez o carro mais confort\u00e1vel da nossa hist\u00f3ria de vida. E pela \u00faltima vez, meus registros no caderno azul foram a l\u00e1pis &#8211; chegava, portanto, \u00e0 uma tardia adolesc\u00eancia. Era uma \u00e9poca em que minhas brincadeiras com papel e l\u00e1pis faziam sucesso entre as crian\u00e7as. A mais divertida chamava-se \u201co que voc\u00ea faria\u201d: o primeiro escrevia a pergunta no papel; um segundo respondia; e na hora de ler, troc\u00e1vamos as respostas, causando situa\u00e7\u00f5es engra\u00e7adas. Era bem legal ser crian\u00e7a aos 15 anos\u2026<\/p>\n<p><u>93\/94<\/u> &#8211; Foi a \u00fanica vez que trouxemos algu\u00e9m conosco na viagem de volta: minha prima Carla ocupou o banco traseiro do Apollo ao nosso lado, para passar algumas semanas passeando por S\u00e3o Paulo. Antes, conheci minha priminha nova, a Bruna. Tamb\u00e9m era moda passeios intermin\u00e1veis de bicicleta pela Duque de Caxias &#8211; eu andava na do pai da Fl\u00e1via. Ainda discut\u00edamos o fim do \u201cClube do Juca\u201d &#8211; foi a \u00faltima vez que lembro ter conversado mais tempo com a Miriam. Essa brigou com a Fl\u00e1via e sumiu. Foi ainda o \u00faltimo final de ano ao lado da V\u00f3 Leon\u00edsia.<\/p>\n<p><u>94\/95<\/u> &#8211; Mais um m\u00eas inteiro no Rio Grande do Sul. Na viagem de ida, novamente com o Pedro e a fam\u00edlia, uma novidade: foi a \u00fanica vez que trocamos o litoral pela BR 116. Mais buracos a bordo do Voyage, mas por outro lado, um indescrit\u00edvel visual pela serra ga\u00facha. Crian\u00e7as brincando de futebol no p\u00e1tio da v\u00f3. Come\u00e7ava a trocar as fitas cassete por disquinhos laser, que come\u00e7avam a ficar mais populares &#8211; dos poucos que tinha, era fascinado com o das sete melhores (volume 1), que virou trilha sonora daquela viagem.<\/p>\n<p><u>95\/96<\/u> &#8211; Esse foi o melhor final de ano em toda minha vida. Gra\u00e7as \u00e0 uma dispensa do IPT, sa\u00ed de casa com o Dani num dia 15 de dezembro, armado pela primeira vez com uma filmadora (j\u00e1 tinha dispensado o gravador em 94). Desde 89, foi o \u00fanico Natal que n\u00e3o passamos na tia Dair, mas sim em Pelotas. A intensa troca de cartas que tive com a mocinha durante o ano renderam um feliz namoro de ver\u00e3o, que durou entre os dias 22 de dezembro e 5 de janeiro. O anivers\u00e1rio da Fl\u00e1via foi, ao mesmo tempo, sua festa de noivado, no col\u00e9gio Mariana Eufr\u00e1sia (Duque de Caxias, esquina Pinheiro Machado, no Fragata). Inesquec\u00edvel.<\/p>\n<p><u>96\/97<\/u> &#8211; Meu caderninho azul j\u00e1 estava enorme, remendado e pouco pr\u00e1tico. Inevitavelmente seria dispensado em breve. E foi mesmo: todos os registros daquela viagem foram digitados em word, impressos e colados nas \u00faltimas p\u00e1ginas dele. Foi bem diferente: apenas eu e o Dani viajamos. A id\u00e9ia era ficar um m\u00eas, mas um acidente abortou os planos: o Dani torceu feio o joelho jogando bola, o que resultou em uma virada de ano bem dolorida para ele. Pra mim, a dor foi meio diferente: a namorada do ano anterior veio me desejar um feliz 97, ao lado do noivo. Nunca mais a vi depois daquilo.<\/p>\n<p><u>97\/98<\/u> &#8211; Foi uma temporada marcante: em julho de 1997 fiz a \u00faltima viagem de inverno ao lado do Dani. E aquele foi o \u00faltimo fim de ano que passamos todo o m\u00eas de janeiro no sul. Tenho pelo menos cinco horas de grava\u00e7\u00f5es em v\u00eddeo, prontas para serem editadas. Incluindo tomadas em dois dias na bela Torres, litoral norte ga\u00facho, antes do Natal; imagens de um bate-volta em Chu\u00ed, divisa do Brasil com o Uruguai; registros hist\u00f3ricos de uma \u201cviasaca\u201d completa pelos meus tios\u2026 Sem falar em uma grandiosa festa de fam\u00edlia, na sede do sete de setembro &#8211; na beira da BR 293, perto da divisa com Pedro Os\u00f3rio. S\u00f3 n\u00e3o tem grava\u00e7\u00e3o do momento em que recebo uma declara\u00e7\u00e3o de amor de uma bela ga\u00facha, que infelizmente, ficou perdida no passado. Fim de ano igual esse, nunca mais.<\/p>\n<p><u>98\/99<\/u> &#8211; Por alguma raz\u00e3o que desconhe\u00e7o, n\u00e3o tenho anota\u00e7\u00e3o nenhuma dessa viagem. Apenas alguns registros em v\u00eddeo &#8211; em especial, o do casamento da minha prima Cl\u00e1udia, o grande acontecimento daquele final de ano. Lembro apenas que nossa casa estava em reformas nessa \u00e9poca &#8211; todos os c\u00f4modos estavam concentrados em uma \u00fanica pe\u00e7a, nos fundos. Foi nesse ambiente que fiquei sozinho nas primeiras semanas de janeiro, enquanto os meus pais seguiam de f\u00e9rias.<\/p>\n<p><u>99\/00<\/u> &#8211; Cometi uma falha grave nesse ano: confiei as anota\u00e7\u00f5es num pequeno handheld incrementado, que deu pane no meio da viagem. As \u00fanicas refer\u00eancias daquele final de ano est\u00e3o em v\u00eddeo &#8211; inclusive a \u00faltima vez em que meus tios se reuniram na casa da tia Neli, no primeiro de ano. De cabe\u00e7a, sei que tamb\u00e9m foi uma viagem r\u00e1pida: voltei sozinho com o Dani, pois logo na primeira semana de janeiro, precisava retornar aos trabalhos na r\u00e1dio Metropolitana. Ali\u00e1s, foi a \u00faltima vez que tive coragem de encarar os 1100km entre Porto Alegre e S\u00e3o Paulo num \u00f4nibus.<\/p>\n<p><u>00\/01<\/u> &#8211; Sa\u00edmos no dia 23 de dezembro, ao lado do Pedro, da C\u00e9lia e das \u201ccrian\u00e7as\u201d (dificilmente isso vai se repetir). A esticada SP-RS contou com uma escala em Torres, por apenas uma noite. Foi o \u00fanico fim de ano em que fui a uma balada nas primeiras horas do Natal: foi em Cachoeirinha, num lugar chamado S\u00e9culo XV (n\u00e3o existe mais) onde uma das performances era o enforcamento do Papai Noel. Lembro de um s\u00e1bado, onde fomos jantar num CTG perdido em Cap\u00e3o do Le\u00e3o. Tamb\u00e9m lembro do anivers\u00e1rio da Fl\u00e1via (o pen\u00faltimo da hist\u00f3ria), quando as mocinhas da Cohab apresentavam seus filhotes\u2026 As poucas crian\u00e7as que restaram ficavam fascinadas com um brinquedo novo: um tal playstation. Sem f\u00e9rias na Gazeta, voltei para S\u00e3o Paulo com o Dani, no dia dois de janeiro, num p\u00e9 s\u00f3: embarquei no Embaixador depois do almo\u00e7o em Pelotas, fiquei algumas horas na tia Dair e, horas depois, j\u00e1 estava em casa, gra\u00e7as a um exorbitante v\u00f4o da Varig.<\/p>\n<p><u>01\/02<\/u> &#8211; Enquanto meus pais e o Dani sa\u00edram dia 23, fiquei de plant\u00e3o na reda\u00e7\u00e3o &#8211; culpa de S\u00e3o Caetano e Atl\u00e9tico\/PR. Alcancei a fam\u00edlia no dia seguinte, num v\u00f4o da Gol. Novamente, desencontros: ficamos por l\u00e1 durante longas tr\u00eas semanas (isso dificilmente vai se repetir tamb\u00e9m), mas o Dani precisava trabalhar. Voltou sozinho para casa, logo no dia dois. Deu tempo de visitar praticamente todas as casas \u201cl\u00e1 fora\u201d &#8211; inclusive o Canto Grande, cada vez mais largado. Teve ainda a formatura de oitava s\u00e9rie da Cristiele, filha da tia Cleusa, no dia 28 de dezembro &#8211; cola\u00e7\u00e3o no Teatro Guarani, jantar em fam\u00edlia no rod\u00edzio de pizza (o mesmo de sempre, em uma travessa da Bento Gon\u00e7alves) e baile at\u00e9 o sol raiar, no Clube Brilhante.<\/p>\n<p><u>02\/03<\/u> &#8211; Resgate aos velhos tempos: foi a \u00faltima vez que fui e voltei de carro, com a fam\u00edlia toda. Mas n\u00e3o foi f\u00e1cil. O ano de 2002 marcou a demiss\u00e3o do meu pai, ap\u00f3s 29 anos de servi\u00e7os prestados. Nosso Natal foi em casa, pela primeira vez desde 1989. Os outros detalhes do passeio, no entanto, est\u00e3o bem preservados: foi a primeira vez que pude contar com o blog para registrar o final de ano &#8211; o \u201cdi\u00e1rio de bordo\u201d, pela primeira vez, ganhou a Internet. Foi a \u00faltima ida e volta do Voyage, ap\u00f3s oito anos de bons servi\u00e7os prestados.<\/p>\n<p><u>03\/04<\/u> &#8211; A \u00faltima, que tamb\u00e9m foi contada pelo blog. N\u00e3o foi das mais agrad\u00e1veis: esperava por f\u00e9rias ao lado da namorada, mas acabei curtindo alguns dias de fossa em Pelotas. Fui e voltei sozinho, de avi\u00e3o &#8211; meus pais e o Dani tinham ido antes, e tamb\u00e9m voltaram antes. Passei as primeiras horas do ano em uma balada mequetrefe. Dias depois, um fim de semana \u201cinesquec\u00edvel\u201d em Porto Alegre. Foi tamb\u00e9m o primeiro ano sem a tia Maria, e com muitos dos meus tios morando na zona urbana &#8211; a tradicional \u201cviasaca\u201d tinha virado hist\u00f3ria. Mas algumas lembran\u00e7as positivas: passeio na praia do Cassino, em Gramado e Canela. Al\u00e9m de um jantar ao lado do Ricardo, do Ot\u00e1vio, da Raquel, da Gisele e de outros grandes blogueiros.<\/p>\n<p><s><u>04\/05<\/u> &#8211; Ainda uma folha de papel praticamente em branco, preenchida nas primeiras linhas com um volume intenso de trabalho, capaz de me deixar exausto. Al\u00e9m de cinco dias de indulto, que ser\u00e3o bem aproveitados em casa. Talvez um ou outro programa diferente, para marcar a chegada de um ano com muito mais trabalho. S\u00f3 sei que o abra\u00e7o na v\u00f3 e nas \u201ccrian\u00e7as\u201d, s\u00f3 em dezembro (acho).<\/s><\/p>\n<p>Ufa\u2026 Pena que meu scanner n\u00e3o funciona. Com algumas fotos, talvez n\u00e3o tivesse ficado t\u00e3o cansativo. Quem sabe, num futuro pr\u00f3ximo, n\u00e3o consiga fazer uma vers\u00e3o desse post em DVD &#8211; com imagens de arquivo, registros atuais de todos esses lugares, fotos antigas, alguns depoimentos da fam\u00edlia, etc.<\/p>\n<p><b>Atualizado<\/b> &#8211; Sim, este texto \u00e9 um calhau, postado originalmente em 30\/12\/2004. \u00c9 um dos meus preferidos&#8230; Infelizmente \u00e9 o resumo de um per\u00edodo da minha vida que, infelizmente, jamais vai ser do mesmo jeito &#8211; fica f\u00e1cil entender o porqu\u00ea seguindo com a atualiza\u00e7\u00e3o dos \u00faltimos finais de ano.<\/p>\n<p><u>04\/05<\/u> &#8211; Como suspeitava ao publicar este relato, realmente ficamos em casa nos extertores do ano &#8211; aquela em que o Narazaki foi surpreendido no meio do anivers\u00e1rio do Marcelo pela ida de Luxemburgo ao Real Madrid. Enfim, logo na primeira semana de janeiro, meus pais pegaram o carro e se mandaram para Pelotas. Eu ainda fiz uma viagem ligeirinha, no dia 15 de janeiro, para aparecer de relance num baile de formatura, em plena praia do Cassino. Talvez tenha sido a mais r\u00e1pida (e louca) viagem ao sul que fiz na vida.<\/p>\n<p><u>05\/06<\/u> &#8211; Esse foi o \u00fanico final de ano onde entrei e sa\u00ed namorando firme, com direito a uma por\u00e7\u00e3o de coisas tipicamente paulistanas &#8211; como o engarrafamento na Imigrantes nos primeiros dias de janeiro&#8230; Eu j\u00e1 devia saber que o resto do ano seria pior. Mas enfim. Minha viagem ao Rio Grande do sul foi marcada para o Carnaval: eu e o Dani passamos os quatro dias de folia enfurnados na casinha da Cohab Fragata. Foi r\u00e1pido, mas bem gostoso.<\/p>\n<p><u>06\/07<\/u> &#8211; Como o ano de 2006 n\u00e3o foi exatamente o melhor ano da minha vida, considero que o final dele come\u00e7ou l\u00e1 para abril. S\u00f3 em agosto, quando meu time venceu a Libertadores, pude conciliar esta boa raz\u00e3o para celebrar com um longo m\u00eas de f\u00e9rias. Foi \u00f3timo caminhar sozinho por Porto Alegre, Buenos Aires e Montevid\u00e9u&#8230; Mas melhor ainda foi passar o anivers\u00e1rio de 90 anos da minha v\u00f3 ao lado dela. Estava sendo um ano dif\u00edcil: ela havia passado por uma cirurgia agressiva pouco antes da Copa, e estava em plena recupera\u00e7\u00e3o. Minha m\u00e3e ficou boa parte do semestre viajando entre S\u00e3o Paulo e Pelotas. No primeiro turno das elei\u00e7\u00f5es, fizemos uma nova viagem em fam\u00edlia, para uma linda festa com os irm\u00e3os do meu pai. Foi a \u00faltima vez que pude abra\u00e7ar minha v\u00f3 materna. Como nos anos anteriores, optamos por n\u00e3o passar o final de ano no sul&#8230; At\u00e9 hoje fico pensando se foi mesmo uma boa id\u00e9ia: apenas minha m\u00e3e, novamente, ficaria o m\u00eas de janeiro por l\u00e1, em regime de dedica\u00e7\u00e3o exclusiva. Mas na madrugada do dia dois, veio a not\u00edcia que n\u00e3o gostar\u00edamos de receber. Eu fiz o que pude para tranquilizar minha m\u00e3e no caminho para a despedida da v\u00f3, mas nada me tirava da cabe\u00e7a o fato de n\u00e3o ter passado aquele Natal e reveillon ao lado dela. Como se isso pudesse ter feito alguma diferen\u00e7a. Enfim, da mesma forma que o fim de 2006 come\u00e7ou em abril, s\u00f3 acabou nos primeiros dias de janeiro.<\/p>\n<p><u>07\/08<\/u> &#8211; \u00c9 o primeiro final de ano sem qualquer um dos meus av\u00f3s. A maioria dos amigos que encontro revelam desfechos parecidos: \u00e9 como se o elo que ainda ligava as fam\u00edlias fosse definitivamente rompido. Poucas l\u00e1grimas ao telefone representam a falta que faz os velhos tempos fazem. Enfim, o fato de serem poucas indica o \u00f3bvio: todos crescem, e quando isso acontece, o conto de fadas perde um pouco do seu sentido.<\/p>\n<p>O que me alenta \u00e9 a certeza de que, logo que puder, vou pisar novamente no Rio Grande do Sul e rever ao menos uma parte dessa gente que nunca mais vai deixar minha vida. Ainda que n\u00e3o seja, exatamente, no final do ano.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fazia tempo que eu n\u00e3o andava t\u00e3o \u201cmala\u201d quanto agora, nesse m\u00eas de dezembro. Pessoalmente, acredito que esse estado de ansiedade seja comum todo ano. Desta vez, a coisa tomou propor\u00e7\u00f5es maiores, j\u00e1 que normalmente, absorvo a ranzinzice na minha tradicional viagem ao sul do Brasil. Uma esp\u00e9cie de \u201cconto de fadas\u201d particular: quando estou [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-436","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-e-eu-uma-pedra"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/436","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=436"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/436\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=436"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=436"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=436"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}