{"id":426,"date":"2007-12-19T23:32:41","date_gmt":"2007-12-20T02:32:41","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/quinhentao-pra-morar-na-minha-escolinha"},"modified":"2007-12-19T23:32:41","modified_gmt":"2007-12-20T02:32:41","slug":"quinhentao-pra-morar-na-minha-escolinha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/quinhentao-pra-morar-na-minha-escolinha\/","title":{"rendered":"Quinhent\u00e3o pra morar na minha escolinha"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/backfut.gif\" align=\"right\" \/>Um dos meus grandes projetos de vida a m\u00e9dio-longo prazo \u00e9 me afundar numa d\u00edvida para comprar um apartamento. Talvez isso aconte\u00e7a at\u00e9 o final do ano. Ou quando eu me casar, daqui algumas d\u00e9cadas. N\u00e3o importa. Independente do tempo que isso vai levar, uma coisa precisa ficar clara em minha mente: onde vai ser o novo QG do Marmota.<\/p>\n<p>Op\u00e7\u00f5es n\u00e3o faltam: v\u00e3o desde Mogi das Cruzes at\u00e9 Porto Alegre, passando por Florian\u00f3polis. Sem divagar muito, decidi come\u00e7ar minha avalia\u00e7\u00e3o num velho conhecido: o bairro da Aclima\u00e7\u00e3o, zona sul de S\u00e3o Paulo. Reservei a manh\u00e3 de domingo para caminhar nas ruas que fizeram parte da minha era p\u00f3s-fraldas, entre novembro de 1980 e fevereiro de 1983 &#8211; \u00e9poca em que registrei minhas primeiras mem\u00f3rias.<\/p>\n<p>Desci na esta\u00e7\u00e3o Vergueiro e subi as velhas escadas para chegar \u00e0 rua Apeninos, em uma das entradas do Col\u00e9gio Santo Agostinho. Era a refer\u00eancia enquanto sub\u00edamos a Tamandar\u00e9: depois do col\u00e9gio, pod\u00edamos respirar aliviados: o metr\u00f4 estava pr\u00f3ximo. Antes de chegar na Jos\u00e9 Get\u00falio, nossa antiga rua, fiquei com a impress\u00e3o de que o tempo parou, e que tudo estava na mesma.<\/p>\n<p>A impress\u00e3o ficou mais forte quando virei \u00e0 direita e caminhei por ela. N\u00e3o tem como n\u00e3o concordar com Will Eisner ou Steven Johnson, ao analisarem a Avenida Dropsie e as ruas de Manchester: as ruas refletem a vizinhan\u00e7a. E aquela estava bem diferente. Cheguei ao n\u00famero 130, edif\u00edcio Caet\u00e9s. Contei at\u00e9 10 e me vi no parapeito da janela do d\u00e9cimo andar, como h\u00e1 vinte e poucos anos. O p\u00e1tio era o mesmo dos tempos em que pul\u00e1vamos ap\u00f3s os jogos do Brasil na Copa da Espanha. Vi uma placa \u201cvende-se\u201d e fiquei tentado a chamar o porteiro, por curiosidade. Pensei melhor ao lembrar das reclama\u00e7\u00f5es da mam\u00e3e: aquele lugar n\u00e3o tem nem \u00e1rea de servi\u00e7o.<\/p>\n<p>Diante do port\u00e3o, veio a imagem do mercadinho: ficava \u00e0 direita, onde agora se l\u00ea \u201c\u00e1gua mineral\u201d. Do lado esquerdo, onde uma japonesa mantinha um bazar das antigas, um super-mercado &#8211; bem maior que o antigo. No outro lado da rua, a velha padaria Madame, onde tomava uma ca\u00e7ulinha com meu pai e ganhei meu primeiro ioi\u00f4 da Coca Cola. Na outra esquina, ficava a banca de revistas, onde todo dia eu pisoteava forte e fazia manha exigindo um gibi. Ela ainda existe: deixou a cal\u00e7ada e ganhou status num ponto pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>Subi a Rua Urano. Essa eu lembro bem. Aprendi a ler naquele d\u00e9cimo andar, e logo perguntei aos meus pais \u201co que era ur\u00e2nio\u201d. Sem distinguir, evidentemente, planeta de elemento qu\u00edmico. Era ali a minha primeira escolinha, o jardim da inf\u00e2ncia: o Col\u00e9gio Aclima\u00e7\u00e3o. Gostava de fazer colagem e dobraduras, pintar figuras, brincar de massinha\u2026 At\u00e9 escrevia um bocado. S\u00f3 n\u00e3o gostava do recreio: todo mundo brincando de pega-pega e eu detestava correr. E no dia da piscina, ent\u00e3o? Era o \u00fanico que ficava fora, assistindo aos outros serelepes na \u00e1gua.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos anos o col\u00e9gio n\u00e3o existe mais. Agora, na mesma esquina, fica o edif\u00edcio Buckingham, de alto padr\u00e3o: um apartamento por andar, com tr\u00eas ou quatro dormit\u00f3rios. Umas duas ou tr\u00eas placas \u201cvende-se\u201d. Como o porteiro estava ali na frente, n\u00e3o resisti a tenta\u00e7\u00e3o e perguntei: quanto custa um apartamento ali, na minha antiga escolinha.<\/p>\n<p>\u201cT\u00e3o pedindo quinhentos mil reais\u201d, respondeu. Dei risada e segui caminhando.<\/p>\n<p>Continuei a minha peregrina\u00e7\u00e3o, desta vez por ruas mais tranquilas: rua J\u00fapiter, rua Rodrigo Cl\u00e1udio, rua Safira\u2026 Dava pra ouvir o som dos p\u00e1ssaros entre as muitas \u00e1rvores daquele peda\u00e7o tranquilo da cidade. Pr\u00e9dios t\u00e3o antigos quanto o Caet\u00e9s, outros t\u00e3o bonitos e caros quanto o Buckingham. Finalmente, a Avenida da Aclima\u00e7\u00e3o e o parque. Novamente o tempo parou diante dos meus olhos ao ver tanta gente caminhando. Era crian\u00e7a novamente, jogando miolo de p\u00e3o aos peixes do lago.<\/p>\n<p>Enfim. A \u00faltima volta ao bairro foi feita de \u00f4nibus, subindo a rua Top\u00e1zio e seus pr\u00e9dios antigos at\u00e9 chegar novamente a rua Vergueiro. Poucos minutos depois, estava na Avenida Paulista &#8211; apesar de maltratado com o tempo, a Aclima\u00e7\u00e3o permanece perto de tudo. Foi como visitar e abra\u00e7ar com carinho um velho amigo &#8211; mas antes que as reminisc\u00eancias da inf\u00e2ncia tomem conta, preciso me perder por outros bairros bacanas da capital.<\/p>\n<p><i>(Postado em 11\/08\/2005)<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dos meus grandes projetos de vida a m\u00e9dio-longo prazo \u00e9 me afundar numa d\u00edvida para comprar um apartamento. Talvez isso aconte\u00e7a at\u00e9 o final do ano. Ou quando eu me casar, daqui algumas d\u00e9cadas. N\u00e3o importa. 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