{"id":397,"date":"2009-01-14T12:37:08","date_gmt":"2009-01-14T15:37:08","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/2008-o-ano-em-que-ousei-me-aventurar-na-seara-academica"},"modified":"2009-01-14T12:37:08","modified_gmt":"2009-01-14T15:37:08","slug":"2008-o-ano-em-que-ousei-me-aventurar-na-seara-academica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/2008-o-ano-em-que-ousei-me-aventurar-na-seara-academica\/","title":{"rendered":"2008, o ano em que ousei me aventurar na seara acad\u00eamica"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/e-fimdeano.gif\" align=\"right\" \/><b>Natal (RN)<\/b> &#8211; &#8220;Cara, sinto muito, mas voc\u00ea est\u00e1 muito cru&#8230;&#8221;. Foi o que ouvi de um antigo professor meu, excelente candidato a orientador, depois que balbuciei algumas id\u00e9ias desconexas para um pr\u00e9-projeto de mestrado na \u00e1rea de comunica\u00e7\u00e3o. Felizmente, n\u00e3o foi com aquela express\u00e3o de &#8220;que sujeito desagrad\u00e1vel&#8221;, o que ainda me d\u00e1 alguma chance&#8230;<\/p>\n<p>A id\u00e9ia de sentar outra vez em uma carteira escolar \u00e9 antiga. Estava adormecida em minha cabe\u00e7a gra\u00e7as a um preconceito idiota de quem foi absorvido pelo mercado e n\u00e3o entende lhufas de pesquisa: a grosso modo, pensava, a busca por titula\u00e7\u00e3o s\u00f3 serve para o cidad\u00e3o dar aula em faculdade e aaparecer bonito pro do MEC. Ent\u00e3o pra qu\u00ea lidar com essa turma, que dificilmente conviveu com o dia-a-dia profissional e est\u00e1 preocupado apenas em dar um upgrade no curr\u00edculo Lattes, se o mundo corporativo n\u00e3o est\u00e1 nem a\u00ed para seus r\u00f3tulos?<\/p>\n<p>A simples lembran\u00e7a incisiva de que &#8220;n\u00e3o existe pr\u00e1tica sem teoria&#8221; j\u00e1 aniquila o preconceito idiota acima. Mas o que me fez acordar de verdade foi um presente que recebi da <a href=\"http:\/\/www.anabrambilla.com\/blog\/\" target=\"_blank\"><b>Aninha<\/b><\/a> no semestre passado, quando fui al\u00e7ado ao cargo de professor universit\u00e1rio &#8211; fato que corrobora minha preocupa\u00e7\u00e3o com o futuro da categoria, j\u00e1 que at\u00e9 eu posso dar aulas em uma faculdade. Mas enfim, para prosseguir com essa carreira de maneira s\u00f3lida, parece \u00f3bvio programar uma volta \u00e0s aulas pra valer.<\/p>\n<p>Essa experi\u00eancia me aproximou ainda mais de outros acad\u00eamicos batutas, que tamb\u00e9m me ajudaram a entender uma p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o stricto sensu: entrar na brincadeira s\u00f3 pelo t\u00edtulo \u00e9 um desperd\u00edcio de esfor\u00e7o; conciliar esfor\u00e7o em algo pr\u00e1tico e perder a chance de abrir a mente, tamb\u00e9m. Acima de tudo, n\u00e3o se trata de um novo cons\u00f3rcio de certifica\u00e7\u00e3o, mas sim uma <a href=\"http:\/\/alinedecampos.org\/blog\/?p=113\" target=\"_blank\"><b>&#8220;profiss\u00e3o de f\u00e9&#8221;<\/b><\/a>.<\/p>\n<p>O acad\u00eamico de raiz \u00e9 aquele que dribla a agenda para frequentar aulas num esdr\u00faxulo hor\u00e1rio comercial durante a semana. E a grande chance de estudar sem trabalhar \u00e9 contar com uma forcinha de alguma institui\u00e7\u00e3o &#8211; sei l\u00e1 se existe alguma m\u00e1fia para conseguir esse tipo de incentivo. Ao mesmo tempo, nem todos os professores est\u00e3o realmente qualificados&#8230;<\/p>\n<p>Diante disso, o primeiro requisito \u00e9 sentir muito tes\u00e3o pelo neg\u00f3cio. Encarar como se fosse a escalada rumo ao templo budista, aquela busca pessoal pela verdade cuja inquieta\u00e7\u00e3o dificilmente cessar\u00e1, mesmo diante da luz. Cada degrau \u00e9 representado por algum autor ou linha de pensamento que, na mesa do escrit\u00f3rio, passaria inc\u00f3lume. \u00c9 o tipo de revolu\u00e7\u00e3o mental que, para ser saboreada sem modera\u00e7\u00e3o, \u00e9 melhor estar livre das amarras da senzala.<\/p>\n<p>\u00c9 melhor, mas n\u00e3o imposs\u00edvel, como assegura meu professor. &#8220;Tenho muitos alunos que trabalham, e eles se viram bem. O segredo \u00e9 organizar tudo. Avisar o chefe que voc\u00ea precisa de mais tempo durante dois dias da semana, podendo at\u00e9 compensar essas horas mais tarde. Ao mesmo tempo, preparar o terreno para n\u00e3o perder tempo: escolher bem as leituras e focar no tema. Mas focar de verdade. \u00c9 sobrevoar um assunto que voc\u00ea goste, mas acertar um alvo pequeno usando mira laser&#8221;.<\/p>\n<p>Encarei todas essas informa\u00e7\u00f5es como aquela crian\u00e7a de tr\u00eas anos que ouve dos pais algo como &#8220;filhinho, a praia \u00e9 assim&#8221;. Mas ainda faltava enxergar o mar, dar passinhos tr\u00f4pegos na beira da \u00e1gua e sentar abruptamente na areia ap\u00f3s tomar aquele primeiro &#8220;chu\u00e1&#8221; da mar\u00e9. Foi assim que me senti ao reservar dois dias para uma prova de sele\u00e7\u00e3o num curso de mestrado na \u00e1rea de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Descobri a institui\u00e7\u00e3o em cima da hora. Percebi que, tanto as linhas de pesquisa quanto a qualifica\u00e7\u00e3o docente estavam dentro do que, l\u00e1 longe, eu imagino pra mim. Decidi me inscrever aos 46 do segundo tempo ao saber que, nessa etapa, n\u00e3o havia necessidade de apresentar um pr\u00e9-projeto &#8211; documento que, como ressalta o <a href=\"http:\/\/trasel.com.br\/blog\/?p=3\" target=\"_blank\"><b>Trasel<\/b><\/a> (a prop\u00f3sito, leia todo o texto), n\u00e3o \u00e9 pra ser rascunhado durante a viagem de \u00f4nibus. Como n\u00e3o tinha sequer preparado o prato principal, encarei a prova como um aperitivo.<\/p>\n<p>Tinha a ilus\u00e3o de que seria capaz de executar um r\u00e1pido plano de estudos munido da bibliografia obrigat\u00f3ria. Claro que s\u00f3 consegui dar uma pincelada no mais divertido deles: uma colet\u00e2nea de artigos bacanas sobre o impacto das novas tecnologias em variados aspectos da comunica\u00e7\u00e3o. Meu desleixo s\u00f3 estava come\u00e7ando: logo no primeiro teste (tradu\u00e7\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o de texto em l\u00edngua estrangeira), descobri que sequer tinha levado uma caneta. Ainda bem que o colega simp\u00e1tico, que minutos antes demonstrou seu entusiasmo com um belo projeto envolvendo resgate cultural no r\u00e1dio, gentilmente me deu uma de presente.<\/p>\n<p>A prova em ingl\u00eas me deixou animado: dicion\u00e1rios eram permitidos, mas em nenhum momento senti falta deles (ainda bem!). Foi mais f\u00e1cil do que preencher, dias antes, o tal Lattes &#8211; cujo trabalho de atualiza\u00e7\u00e3o remete a t\u00e9cnicas de jardinagem ou similares. S\u00f3 que tanto o idioma quanto o curr\u00edculo contavam peanuts na pontua\u00e7\u00e3o geral. O teste de conhecimentos espec\u00edficos na \u00e1rea separaria os homens das criancinhas.<\/p>\n<p>Enfim, senti-me com tr\u00eas anos de idade levando thibum da onda. Apenas uma pergunta, 25% da prova, era baseada no livro que vi por cima. As demais podiam estar descritas em Klingon, daria na mesma. Tinha duas possibilidades: tentar fazer a prova ou ir embora no primeiro minuto. De verdade, em momento algum senti vontade de levantar da cadeira. Por outro lado, o que fazer diante de uma folha e um c\u00e9rebro em branco?<\/p>\n<p>Fiz mais ou menos assim. &#8220;Bom, antes de mais nada, quero agradecer imensamente a oportunidade de estar aqui, al\u00e9m de desejar pleno sucesso ao programa de mestrado e a todos os pesquisadores. Em momento algum espero desmerecer ou ridicularizar este processo seletivo e todos os provessores envolvidos, mas a verdade \u00e9 que eu n\u00e3o me preparei da forma como a institui\u00e7\u00e3o espera. Por esse motivo, gostaria que os senhores encarassem os pr\u00f3ximos par\u00e1grafos com sorrisos alegres ao inv\u00e9s de indigna\u00e7\u00e3o. Reitero que n\u00e3o se trata de deboche, mas a simples contesta\u00e7\u00e3o de que, para uma oportunidade futura, eu preciso me dedicar mais. Divirtam-se!&#8221;.<\/p>\n<p>Preenchi as quatro faces da folha de prova tamanho A3 pautada com uns tr\u00eas ou quatro par\u00e1grafos baseados no \u00fanico livro que li, al\u00e9m de um apanhado de id\u00e9ias coletadas em outros carnavais. Todas as outras linhas tinham algo como &#8220;tenho certeza de que a resposta para esta quest\u00e3o est\u00e1 mesmo naquele livro, mas convenhamos: a editora j\u00e1 me bota o texto da orelha, aquele que determina o sucesso de uma publica\u00e7\u00e3o, usando um tipo de fonte que imita letra cursiva&#8230; Ficou horr\u00edvel. Depois de um dia atribulado, n\u00e3o d\u00e1 vontade de ler&#8221;. Ou &#8220;j\u00e1 ouvi falar nesse conceito em uma das aulas de Teoria da Comunica\u00e7\u00e3o na faculdade, mas a minha professora era p\u00e9ssima, tanto que ela foi mandada expulsa pela nossa turma no segundo m\u00eas!&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Mandado expulso&#8221; certamente serei eu, depois dessa, caso decida voltar l\u00e1 um dia. Enfim, n\u00e3o satisfeito em demonstrar minha incompet\u00eancia durante a prova, ainda tive a coragem de voltar l\u00e1 no dia seguinte, para a entrevista. Eram dois professores que n\u00e3o acompanharam o exame escrito, sequer tinham conhecimento das respostas (ainda bem, de novo!). De cara, a pergunta esperada: o que um sujeito como eu fazia ali? Fui sincero com eles: usei a express\u00e3o &#8220;profiss\u00e3o de f\u00e9&#8221;, disse que meu traquejo acad\u00eamico \u00e9 limitado e meu pr\u00e9-projeto n\u00e3o passa de id\u00e9ias desconexas.<\/p>\n<p>Ao final do bate-papo, agradeci a aten\u00e7\u00e3o e a disponibilidade em me ouvir, destacando a import\u00e2ncia desse contato pessoal com os potenciais alunos. &#8220;Para uma faculdade mostrar relev\u00e2ncia, \u00e9 preciso ter cuidado com quem cai de paraquedas e acaba se tornando um aventureiro nesse curso&#8230;&#8221;. No que ouvi, prontamente: &#8220;ei, mas voc\u00ea \u00e9 um aventureiro!&#8221;. Enfim, ao menos o esp\u00edrito descontra\u00eddo da minha prova est\u00e1 em sintonia com os professores&#8230;<\/p>\n<p>Engra\u00e7ado como, no final do ano passado, tudo caminhava para uma oportunidade em mergulhar nesse mundo novo, mas algumas reviravoltas profissionais contribuiram para um novo adiamento desse projeto&#8230;<\/p>\n<p>Se eu optasse por um mestrado agora, eu precisaria correr muito al\u00e9m dos meus limites. \u00c9 como se eu enxergasse o \u00f4nibus parado no ponto e tivesse a umas cinco quadras de dist\u00e2ncia. Tenho certeza de que ainda vou tomar esse \u00f4nibus, mas talvez o pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Antes disso, entre outras coisas, preciso saber o que diabos significa &#8220;epistemol\u00f3gico&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Natal (RN) &#8211; &#8220;Cara, sinto muito, mas voc\u00ea est\u00e1 muito cru&#8230;&#8221;. 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