{"id":394,"date":"2008-12-25T08:58:12","date_gmt":"2008-12-25T11:58:12","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/2008-o-ano-em-que-papai-noel-plagiou-quintana"},"modified":"2008-12-25T08:58:12","modified_gmt":"2008-12-25T11:58:12","slug":"2008-o-ano-em-que-papai-noel-plagiou-quintana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/2008-o-ano-em-que-papai-noel-plagiou-quintana\/","title":{"rendered":"2008, o ano em que Papai Noel plagiou Quintana"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/e-fimdeano.gif\" align=\"right\" \/>Tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 tradi\u00e7\u00e3o, e vice-versa. Como nos \u00faltimos cinco anos, o bom velhote batuta aproveita sua turn\u00ea pelo globo terrestre, arrastando seu saco, para enviar um e-mail para mim. Pelo hor\u00e1rio da mensagem, d\u00e1 pra ver que, ao contr\u00e1rio dos anos anteriores, o balofo vermelho disparou esta correspond\u00eancia a bordo de seu tren\u00f3, ao lado de suas insepar\u00e1veis renas. Pior: o barbudo fl\u00e1cido acha mesmo que ignorei o presente que ganhei ano passado e&#8230; Pasmem: surrupiou versos inteiros do meu poeta predileto para formar par\u00e1grafos inteiros! Francamente, que vergonha, Noel&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; original message &#8212;<br \/>\nFrom: Papai Noel &lt;santaclaus@laponia.gov&gt;<br \/>\nFecha: 25\/12\/2008 04:39:12<br \/>\nTo: Andr\u00e9 Marmota &lt;uma@igualaquinzequilos.com&gt;<br \/>\nSubject: Natal com Quintana<\/p>\n<p>Ho, ho, ho! Adivinhe quem \u00e9, meu garotinho?<\/p>\n<p>Mas que final de ano mais xexelento em seu lar, rapaz. N\u00e3o encontrei aquelas lampinhas formosas na garagem, sequer uma \u00e1rvore enfeitada na sala. Sabe, decidi aproveitar essa feliz onda contra o consumo depravado e n\u00e3o deixei presente nenhum para voc\u00ea. Contente-se com esta carta. Afinal, quem foi que disse que eu escrevo para as elites, para o bas-fond? Eu escrevo para a Maria de Todo o Dia, para o Jo\u00e3o Cara de P\u00e3o. Para voc\u00ea, que est\u00e1 com este jornal na m\u00e3o, e de s\u00fabito descobre que a \u00fanica novidade \u00e9 a poesia. O resto n\u00e3o passa de cr\u00f4nica policial-social-pol\u00edtica. E os jornais sempre proclamam que &#8220;a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 cr\u00edtica&#8221;&#8230; Mas eu escrevo \u00e9 para voc\u00ea, Jo\u00e3o e Maria, que quase sempre est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica!<\/p>\n<p>At\u00e9 porque, aquele livro com a obra completa do Mario Quintana, que entreguei h\u00e1 um ano, continua no mesmo lugar da estante. Sendo assim, Quintana \u00e9 o seu presente, de novo. Provavelmente voc\u00ea ainda n\u00e3o sabe exatamente o que \u00e9 um poema &#8211; chama-os, inclusive, de poesia, ora! Um poema n\u00e3o \u00e9 para te distra\u00edres, como com essas imagens mutantes de caleidosc\u00f3pios. Um poema n\u00e3o \u00e9 quando te det\u00e9ns para apreciar um detalhe. Um poema n\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m quando paras no fim, porque um verdadeiro poema continua sempre. Um poema que n\u00e3o te ajude a viver e n\u00e3o saiba preparar-te para a morte n\u00e3o tem sentido: \u00e9 um pobre chocalho de palavras.<\/p>\n<p>Um bom poema \u00e9 aquele que nos d\u00e1 a impress\u00e3o de que est\u00e1 lendo a gente&#8230; E n\u00e3o a gente a ele! S\u00e3o p\u00e1ssaros que chegam n\u00e3o se sabe de onde e pousam no livro que l\u00eas. Quando fechas o livro, eles al\u00e7am v\u00f4o como de um al\u00e7ap\u00e3o. Eles n\u00e3o t\u00eam pouso nem porto; alimentam-se um instante em cada par de m\u00e3os e partem. E olhas, ent\u00e3o, essas tuas m\u00e3os vazias, no maravilhado espanto de saberes que o alimento deles j\u00e1 estava em ti.<\/p>\n<p>Sabe, no fundo eu entendo esse ritmo de vida, longe da poesia. O poetinha tamb\u00e9m achava que a vida \u00e9 louca. A vida \u00e9 uma sarabanda e um corrupio. A vida m\u00faltipla d\u00e1-se as m\u00e3os como um bando de raparigas em flor, e est\u00e1 cantando em torno de ti: &#8220;como sou bela, amor! Entra em mim, como em uma tela de Renoir enquanto \u00e9 primavera, enquanto o mundo n\u00e3o poluir o azul do ar! N\u00e3o v\u00e1s ficar a\u00ed, como um salso chorando na beira do rio&#8230;&#8221;.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, sua desaten\u00e7\u00e3o com as quest\u00f5es natalinas, com os livros e com a sarabanda da vida reflete em seus atos. Aqueles problemas da gente, onde o pior \u00e9 que ningu\u00e9m tem nada com isso. Eu tamb\u00e9m nada entendo da quest\u00e3o social. Eu fa\u00e7o parte dela, simplesmente&#8230; E assim como voc\u00ea sei apenas do meu pr\u00f3prio mal, que n\u00e3o \u00e9 bem ou mal de toda a gente. Nem \u00e9 deste Planeta&#8230; Por sinal, que o mundo se lhe mostra indiferente! E enquanto o mundo em torno se esbarronda, vivo regendo estranhas contradan\u00e7as no meu vago Pa\u00eds de Trebizonda (pensavas que era o P\u00f3lo Norte?). Entre os Loucos, os Mortos e as Crian\u00e7as, \u00e9 l\u00e1 que eu canto, numa eterna ronda, nossos comuns desejos e esperan\u00e7as!<\/p>\n<p>Mas tudo bem, meu jovem. Eu entendo que, diante desse turbilh\u00e3o de sensa\u00e7\u00f5es, o maior dos desejos \u00e9 manter a calma. T\u00e3o bom viver dia a dia\u2026 A vida assim jamais cansa. Viver t\u00e3o s\u00f3 de momentos como estas nuvens no c\u00e9u. E s\u00f3 ganhar, toda a vida, inexperi\u00eancia&#8230; Esperan\u00e7a&#8230; E a rosa louca dos ventos presa \u00e0 copa do chap\u00e9u. Quintana tamb\u00e9m dizia: nunca d\u00eas um nome a um rio, sempre \u00e9 outro rio a passar. Nada jamais continua, tudo vai recome\u00e7ar! E sem nenhuma lembran\u00e7a das outras vezes perdidas, atire a rosa do sonho naquelas m\u00e3os distra\u00eddas&#8230;<\/p>\n<p>Sim, eterno gorduchinho. N\u00e3o tem como lhe presentear com poemas sem falar em amor. Se eu amo o meu semelhante? Sim. Mas onde encontrar o meu semelhante? Essa \u00e9 a quest\u00e3o: o amor pode ser como um fio telegr\u00e1fico da estrada aonde v\u00eam pousar as andorinhas. De vez em quando chega uma e canta (n\u00e3o sei se as andorinhas cantam, mas v\u00e1 l\u00e1!). Canta e vai-se embora. Outra, nem isso. Mal chega, vai-se embora. Teve uma que passou e limitou-se a fazer coc\u00f4 no seu pobre fio de vida, lembra?<\/p>\n<p>No entanto, o amor \u00e9 sempre o mesmo. As andorinhas \u00e9 que mudam. E esse \u00e9 o segredo do amor: buscar a andorinha mais distante. Se as coisas s\u00e3o inating\u00edveis&#8230; Ora, n\u00e3o \u00e9 motivo para n\u00e3o quer\u00ea-las! Que tristes os caminhos, se n\u00e3o fora a presen\u00e7a distante das estrelas! Quem ama inventa as coisas a que ama, e talvez ela chegaste quando tu sonhavas. Ent\u00e3o de s\u00fabito acendeu-se a chama. Era a brasa dormida que acordava! O amor \u00e9 quando a gente mora um no outro.<\/p>\n<p>Pausa para um r\u00e1pido coment\u00e1rio: o leitor que Quintana mais admirava \u00e9 aquele que n\u00e3o chegou at\u00e9 a presente linha. Mas sim aquele que, neste momento j\u00e1 interrompeu a leitura e est\u00e1 continuando a viagem por conta pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Onde estava? Ah, sim, o amor. O amor chegou quando tu sonhavas. Um ritmo divino? Oh! Simplesmente o palpitar de cora\u00e7\u00f5es batendo juntos e festivamente. Ou sozinhos, num ritmo tristonho&#8230; Ah, o seu grande amor distante, nem sabem o bem que faz haver sonhado&#8230; E ter vivido o sonho!<\/p>\n<p>E sonhar \u00e9 acordar-se para dentro: de s\u00fabito me vejo em pleno sonho e, no jogo em que todo me concentro, mais uma carta sobre a mesa ponho. Mais outra! \u00c9 o jogo atroz do Tudo ou Nada! E quase que escurece a chama triste&#8230; E, a cada parada uma pancada, o cora\u00e7\u00e3o, exausto, ainda insiste. Insiste em qu\u00ea? Ganhar o qu\u00ea? De quem? O meu parceiro&#8230; eu vejo que ele tem um riso silencioso a desenhar-se numa velha caveira carcomida. Mas eu bem sei que a morte \u00e9 seu disfarce&#8230; Como tamb\u00e9m disfarce \u00e9 a vida!<\/p>\n<p>A vida \u00e9 curta, por isso ame. Mas fa\u00e7a-o baixinho. N\u00e3o grite de cima dos telhados, deixa em paz os passarinhos, a mim! Se realmente a queres,<br \/>\nenfim &#8230;.. tem de ser bem devagarinho &#8230;.. amada &#8230;.. que a vida \u00e9 breve &#8230;.. e o amor &#8230;.. mais breve ainda. N\u00e3o consultem os rel\u00f3gios. Porque o tempo \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o da morte: n\u00e3o o conhece a vida &#8211; a verdadeira &#8211; em que basta um momento de poesia para nos dar a eternidade inteira. Essa vida eterna, somente por si mesma, \u00e9 dividida: n\u00e3o cabe, a cada qual, uma por\u00e7\u00e3o. E os Anjos entreolham-se espantados quando algu\u00e9m &#8211; ao voltar a si da vida &#8211; acaso lhes indaga que horas s\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Antes de terminar, um \u00faltimo recado para o seu ano novo: neste mundo, que tanto mal encerra, n\u00e3o basta saber amar, mas tamb\u00e9m saber odiar. N\u00e3o s\u00f3 servir a paz,mas tamb\u00e9m ir para a guerra. Seguiremos assim o pr\u00f3prio exemplo de Jesus, que tanto amor pregou na Terra, quando Ele, que num \u00edmpeto de c\u00f3lera, a relha\u00e7o expulsou os vendilh\u00f5es do templo!<\/p>\n<p>Bom, meu nobre apaixonado por Quintana, vou desconectar aqui. Aproveite que o ano novo ainda n\u00e3o tem pecado: \u00e9 t\u00e3o crian\u00e7a&#8230; Vamos embal\u00e1-lo&#8230; Vamos todos cantar juntos a seu ber\u00e7o de m\u00e3os dadas, a can\u00e7\u00e3o da eterna esperan\u00e7a. Agora &#8211; que desfecho! &#8211; J\u00e1 nem penso mais em ti&#8230; Mas ser\u00e1 que, a cada ano, nunca deixo de lembrar que te esqueci?<\/p>\n<p>Feliz fim de Natal! Ho ho ho!<\/p>\n<p>Papai Noel<br \/>\nhttp:\/\/www.papainoel.com<\/p>\n<p>N\u00e3o tive tempo de checar, mas como n\u00e3o vi nenhum &#8220;um dia descobrimos&#8230;&#8221;, &#8220;quem n\u00e3o entende um olhar tampouco entender\u00e1 uma longa explica\u00e7\u00e3o&#8221;, &#8220;o segredo n\u00e3o \u00e9 correr atr\u00e1s das borboletas&#8221;, &#8220;defici\u00eancias&#8221;, &#8220;felicidade realista&#8221; e outros <a href=\"http:\/\/emiliopacheco.blogspot.com\/2006\/07\/os-falsos-quintanas.html\" target=\"_blank\"><b>falsos Quintanas<\/b><\/a> que circulam impunemente pela web&#8230; Isso quer dizer que o \u00fanico deslize do gord\u00e3o \u00e9 a falta de criatividade natalina.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 tradi\u00e7\u00e3o, e vice-versa. Como nos \u00faltimos cinco anos, o bom velhote batuta aproveita sua turn\u00ea pelo globo terrestre, arrastando seu saco, para enviar um e-mail para mim. 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