{"id":393,"date":"2008-12-24T04:22:39","date_gmt":"2008-12-24T07:22:39","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/2008-o-ano-em-que-decidi-acampar-em-sao-paulo"},"modified":"2008-12-24T04:22:39","modified_gmt":"2008-12-24T07:22:39","slug":"2008-o-ano-em-que-decidi-acampar-em-sao-paulo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/2008-o-ano-em-que-decidi-acampar-em-sao-paulo\/","title":{"rendered":"2008, o ano em que decidi acampar em S\u00e3o Paulo"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/e-fimdeano.gif\" align=\"right\" \/>Mesmo estabelecendo minhas bases num ponto in\u00f3spito da capital, nunca me senti afastado do mundo. No final dos anos 80, \u00e9poca em que s\u00f3 sabia ir &#8220;pra cidade&#8221; a bordo do \u00f4nibus executivo da CMTC, descobri que era mais barato caminhar at\u00e9 a esta\u00e7\u00e3o de trem, ficar de olhos bem aberto nos arredores da falecida esta\u00e7\u00e3o Engenheiro Trindade e desembarcar no Tatuap\u00e9. Sem falar nos coletivos que levavam mais de uma hora para desembocar na Vila Matilde ou no nov\u00edssimo Terminal Itaquera.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, nos prim\u00f3rdios dos anos 90, frequentava a ETFSP (atual CEFET-SP), com aulas a partir das sete da manh\u00e3. Mesmo no \u00faltimo ano, com aulas apenas \u00e0 noite, continuava madrugando, j\u00e1 que meu primeiro emprego foi no IPT, na Cidade Universit\u00e1ria. Ali\u00e1s, at\u00e9 o terceiro ano da faculdade de jornalismo, continuava atravessando a cidade de leste a oeste. A reden\u00e7\u00e3o chegou bem depois, a bordo do meu primeiro carro zero (um Mille ELX comprado num esquema louco de duas parcelas, uma agora e outra dali a alguns meses para fugir do \u00e1gio).<\/p>\n<p>Os dez anos seguintes reafirmaram meus dois maiores parceiros de labuta: a Avenida Paulista e o caminho que a separa de casa. Ajudou muito o fato da minha cota &#8220;matutina xtreme&#8221; ter acabado na formatura: nesse per\u00edodo, descobri o quanto funciono melhor \u00e0 noite, especialmente ao usufruir de hor\u00e1rios fora do pico em meus deslocamentos.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/marmota\/2686198077\/\" title=\"Vista paulistana, no Flickr\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/farm4.static.flickr.com\/3138\/2686198077_202409a45d_m.jpg\" width=\"240\" height=\"180\" alt=\"Vista paulistana\" border=\"0\" align=\"right\" \/><\/a>Quem vive em S\u00e3o Paulo e contabiliza algumas horas de idas e vindas (algo como vinte anos, por exemplo) tem total convic\u00e7\u00e3o de que a coisa est\u00e1 cada vez pior. N\u00e3o sei se \u00e9 a idade, colapso urbano ou ambos. Mas em 2008, descobri que minha casa ficou ainda mais distante do mundo real. Entre os muitos percal\u00e7os que corroboraram esse ponto de vista, o mais do\u00eddo foi o <a href=\"http:\/\/www.interney.net\/blogs\/marmota\/2008\/04\/14\/19_200_horas\/\" target=\"_blank\"><b>14 de abril<\/b><\/a>, quando levei quatro horas para chegar \u00e0 insuport\u00e1vel <a href=\"http:\/\/www.interney.net\/blogs\/marmota\/2008\/02\/27\/estacione_na_vila_olimpia_se_puder\/\" target=\"_blank\"><b>Vila Ol\u00edmpia<\/b><\/a>. Definitivamente, S\u00e3o Paulo estava me deixando ainda mais desmotivado.<\/p>\n<p>Fico pensando em dar uma nova chance ao transporte sobre trilhos. Afinal, o aspecto grotesco da antiga linha variante do trem acabou em 2008 &#8211; precisa ver como ficou bacana a esta\u00e7\u00e3o do Itaim Paulista, parece at\u00e9 o Metr\u00f4. Mas para chegar ao trabalho, eu teria que ir at\u00e9 o Br\u00e1s, tomar o Metr\u00f4 para Barra Funda, fazer uma nova baldea\u00e7\u00e3o at\u00e9 Osasco (!!!) e dali para a Vila Ol\u00edmpia, totalizando mais de duas horas&#8230; Talvez o trajeto fique mais r\u00e1pido no dia em que a &#8220;linha da cratera&#8221; funcionar\u00e1, daqui uns&#8230; Mmmhhh&#8230; Enfim.<\/p>\n<p>Voltando ao horror paulistano, mas antes que eu tivesse um dia de f\u00faria, lembrei do antigo convite de um amigo. Ele herdou dos pais um amplo apartamento muito bem localizado, na avenida Nove de Julho. Mas para continuar morando ali, precisava de companheiros dispostos a compartilhar as despesas &#8211; que n\u00e3o s\u00e3o poucas. Na ponta do l\u00e1pis, minha parte do rateio seria equivalente aos meus gastos semanais em combust\u00edvel. E caso desse certo, trocaria algumas horas de engarrafamento por outras, fazendo qualquer outra coisa. Dormir mais, principalmente.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/marmota\/3131850938\/\" title=\"Acampando em SP, no Flickr\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/farm4.static.flickr.com\/3076\/3131850938_4b5e9b0ba3_m.jpg\" width=\"180\" height=\"240\" alt=\"Acampando em SP\" border=\"0\" align=\"right\" \/><\/a>&#8220;Meu, eu topo a parada!&#8221;, anunciei ao final de maio. Na mesma semana, fui atr\u00e1s de um colch\u00e3o mequetrefe para oficializar a instala\u00e7\u00e3o &#8211; descobri que praticamente ningu\u00e9m mais vende aquela espuma ensacada sustentada por um estrado de madeira. A onda agora \u00e9 a tal &#8220;cama box&#8221;! Encomendei uma dessas, um travesseiro e um edredon. Assim que a encomenda chegou, transformamos o antigo escrit\u00f3rio em minha trincheira semanal. N\u00e3o bastava um simples agradecimento, nem mesmo pagar mensalmente os custos. Tratava-se de uma honra compartilhar um espa\u00e7o tomado por toda sorte de livros, p\u00e1ginas que fizeram a cabe\u00e7a do saudoso pai de meu amigo.<\/p>\n<p>&#8220;Quero s\u00f3 ver at\u00e9 quando voc\u00ea aguenta essa hist\u00f3ria&#8221;, desdenhou minha m\u00e3e. Por raz\u00f5es evidentes: ainda que as horas no carro fossem perdidas, a compensa\u00e7\u00e3o estava justamente na presen\u00e7a dela, organizando toda a minha vida. &#8220;Relaxe, mam\u00e3e. Considere que o apartamento da Nove de Julho \u00e9 um acampamento. Sim, porque s\u00f3 estarei l\u00e1 para dormir e acordar, entre segunda e sexta. N\u00e3o vou conseguir sequer cuidar das minhas roupas!&#8221;. N\u00e3o ria, v\u00e1. Estou admitindo minha incompet\u00eancia dom\u00e9stica com total sinceridade. Vou mais longe: gra\u00e7as ao contato permanente com minhas duas colegas de quarto, as inquietas gatinhas Nina e a Jade, nem minha m\u00e3e conseguiu lidar direito com minhas roupas.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/marmota\/3131022151\/\" title=\"Acampando em SP, no Flickr\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/farm4.static.flickr.com\/3265\/3131022151_5c1dfce207_m.jpg\" width=\"240\" height=\"180\" alt=\"Acampando em SP\" border=\"0\" align=\"right\" \/><\/a>&#8220;Mas nem comida voc\u00ea vai fazer?&#8221;. Outra pergunta \u00f3bvia. De fato, as habilidades que tenho nas quest\u00f5es elementares de administra\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica parecem enormes quando comparo com meus dotes na cozinha. &#8220;N\u00e3o v\u00e1 encher o carrinho no supermercado de Ebicen!&#8221;, alertava minha m\u00e3e. N\u00e3o cheguei a esse ponto, mas nos primeiros dias institu\u00ed a <b>dieta do iogurte<\/b>. No caf\u00e9 da manh\u00e3, uma fruta (preferencialmente banana) e um copo de iogurte. No almo\u00e7o, um daqueles pratos indiscriminados em qualquer self-service da Vila Ol\u00edmpia. E antes de deitar e contemplar os sons da cidade no alto do 13\u00ba andar, mais um copo de iogurte.<\/p>\n<p>Logo percebi que, caso prosseguisse, iria parar no soro. Assim, no decorrer das semanas, larguei a dieta do iogurte e passei a alternar o card\u00e1pio com outras op\u00e7\u00f5es rudimentares de alimenta\u00e7\u00e3o. O bom e velho miojo, a boa e velha lasonha congelada (aglutina\u00e7\u00e3o dos termos &#8220;lasanha&#8221; e &#8220;bisonha&#8221;), a boa e velha pizza e, l\u00f3gico, o bom e velho restaurante.<\/p>\n<p>Tamanha inaptid\u00e3o n\u00e3o tirou minha motiva\u00e7\u00e3o para tentar algo que jamais havia feito em toda minha vida: ir trabalhar a p\u00e9. Devo dizer, com orgulho, que consegui driblar minha pregui\u00e7a e persistir nas caminhadas por praticamente dois meses. E olha que, da altura do Carrefour Pamplona (onde largava) at\u00e9 as proximidades do Via Funchal (linha de chegada), temos cerca de uma hora de longas e ininterruptas passadas. Diariamente, experimentava um novo trajeto: Nove de Julho\/S\u00e3o Gabriel ou Av. Brasil\/Brigadeiro? Itaim via Juscelino ou Santo Amaro?<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/marmota\/3131020447\/\" title=\"Acampando em SP, no Flickr\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/farm4.static.flickr.com\/3117\/3131020447_1b25088ddf_m.jpg\" width=\"240\" height=\"160\" alt=\"Acampando em SP\" border=\"0\" align=\"right\" \/><\/a>L\u00f3gico que, se nem os corredores exclusivos evitam os \u00f4nibus abarrotados, e nem as vias largas evitam os engarrafamentos, alguns cruzamentos e sa\u00eddas tornam algumas avenidas impratic\u00e1veis para pedestres. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil constatar ainda: se a p\u00e9 eu corro riscos diante da falta de respeito no tr\u00e2nsito, imagine se eu arriscasse o mesmo trajeto numa bicicleta? \u00c9 uma pena, pois em pouco tempo conseguiria at\u00e9 imaginar uma maluquice casa-escrit\u00f3rio. Como disse \u00e0 <a href=\"http:\/\/www.interney.net\/blogs\/marmota\/2008\/10\/16\/meu_happy_hour_com_a_candidata\/\" target=\"_blank\"><b>Soninha<\/b><\/a>, n\u00e3o demoraria uma semana para reunir condi\u00e7\u00f5es de disputar a Volta da Fran\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>Enfim, fui obrigado a reduzir drasticamente as caminhadas. N\u00e3o foi pregui\u00e7a, nem os calafrios e o est\u00f4mago embrulhado ap\u00f3s conciliar atividade f\u00edsica desintoxicante com a dieta do iogurte. Ocorre que meu per\u00edodo de reeduca\u00e7\u00e3o levou um agrad\u00e1vel baque em agosto. Cujos detalhes prometo contar a voc\u00ea depois do Natal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mesmo estabelecendo minhas bases num ponto in\u00f3spito da capital, nunca me senti afastado do mundo. 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