{"id":391,"date":"2008-12-22T01:07:18","date_gmt":"2008-12-22T04:07:18","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/sobre-a-tal-realidade-ou-brinquedo-novo-manchado-de-sangue"},"modified":"2008-12-22T01:07:18","modified_gmt":"2008-12-22T04:07:18","slug":"sobre-a-tal-realidade-ou-brinquedo-novo-manchado-de-sangue","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/sobre-a-tal-realidade-ou-brinquedo-novo-manchado-de-sangue\/","title":{"rendered":"Sobre a tal realidade (ou: brinquedo novo manchado de sangue)"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/pedra.gif\" align=\"right\" \/>Fiz uma coisa que estava querendo h\u00e1 tempos: a despeito de quem n\u00e3o gostou desse tipo de brinquedinho, investi parte das minhas parcas economias num <a href=\"http:\/\/www.positivoinformatica.com.br\/site\/mobo_config.htm\" target=\"_blank\"><b>Positivo Mobo<\/b><\/a>, de onde escrevo estas linhas. Tenho certeza de que vai fazer diferen\u00e7a no meu dia-a-dia, especialmente para tarefinhas corriqueiras, apesar daquela sensa\u00e7\u00e3o inc\u00f4moda de ter feito uma compra perdul\u00e1ria (&#8220;o consumismo \u00e9 o <a href=\"http:\/\/dialetica.org\/agridoce\/2008\/12\/17\/consumo\/\" target=\"_blank\"><b>consumo depravado<\/b><\/a>&#8220;).<\/p>\n<p>Mas essa impress\u00e3o de &#8220;gastan\u00e7a&#8221; ficou pequena quando percebi o tamanho do problema que criei. Tudo porque fiz essa comprinha na megasuperfuckingpowerloja das Casas Bahia, no pavilh\u00e3o do Anhembi.<\/p>\n<div align=\"center\"><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/marmota\/3068521887\/\" title=\"Loja do terror, no Flickr\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/farm4.static.flickr.com\/3204\/3068521887_4a23516ccc.jpg\" width=\"400\" height=\"300\" alt=\"Loja do terror\" border=\"0\" \/><\/a><\/div>\n<p>Absorvido pelo bombardeio da m\u00eddia e por um pre\u00e7o \u00e0 vista convidativo, ignorei naquela noite um epis\u00f3dio triste, na estrada de Itapecerica, em 10 de novembro.<\/p>\n<p>Alberto Milfonti J\u00fanior levou a namorada e um amigo para comprar um colch\u00e3o de casal as Casas Bahia, entusiasmado com a futura mudan\u00e7a: estava prestes a casar e mudar com ela e o filho, de cinco meses. Vestindo bermuda e chinelo, Alberto esperava perto da porta enquanto a namorada, na fila, fazia o pagamento. Subitamente, o seguran\u00e7a apareceu.<\/p>\n<p>&#8220;Por acaso voc\u00ea tem algum parente parecido comigo?&#8221;, perguntou. Alberto disse que n\u00e3o, e ouviu algo como &#8220;\u00e9 que voc\u00ea n\u00e3o para de me olhar&#8230;&#8221;. E come\u00e7ram a discutir. &#8220;Escute aqui, eu sou cliente. Eu comprei e paguei. Por que voc\u00ea est\u00e1 me olhando assim, me tratando diferente?&#8221;. Alberto ainda foi em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 namorada para pegar a nota fiscal para prov\u00e1-lo. Nesse interim, o seguran\u00e7a sacou sua arma.<\/p>\n<p>&#8220;Voc\u00ea quer que eu atire em voc\u00ea?&#8221;. Surpreso, Alberto respondeu &#8220;N\u00e3o, voc\u00ea n\u00e3o vai atirar&#8230;&#8221;. &#8220;Voc\u00ea duvida?&#8221;, retrucou. &#8220;Duvido&#8221;. Esta foi a \u00faltima palavra de Alberto, <a href=\"http:\/\/g1.globo.com\/Noticias\/SaoPaulo\/0,,MUL858483-5605,00.html\" target=\"_blank\"><b>antes de levar um tiro na cabe\u00e7a<\/b><\/a>.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 delicada e vai muito al\u00e9m de uma simples <a href=\"http:\/\/www.interney.net\/blogs\/marmota\/2008\/09\/28\/raciocina_seguranca\" target=\"_blank\"><b>abordagem mal-educada<\/b><\/a>. Agora, ao analisarmos a hist\u00f3ria, \u00e9 poss\u00edvel interpretar: a loja, ao contratar um profissional que tirou a vida de um pai de fam\u00edlia, \u00e9 respons\u00e1vel por esse crime. Sendo assim, fazer uma compra nas Casas Bahia \u00e9 ser conivente com o crime, \u00e9 desrespeitar a dor de uma fam\u00edlia que vai passar este Natal e os pr\u00f3ximos com essa aus\u00eancia.<\/p>\n<p>Ou seja: comprar um mini-laptop na megasuperfuckingpowerloja das Casas Bahia foi como ouvir minha m\u00e3e, durante toda minha cria\u00e7\u00e3o, algo como &#8220;filho, n\u00e3o se envolva com drogas&#8221;. E mesmo que inocentemente, ir a uma boca-de-fumo. Pode parecer exagero, mas qualquer lugar onde pode-se levar uma bala &#8211; ainda que pare\u00e7a inofensivo &#8211; \u00e9, na realidade, sin\u00f4nimo de perigo e desrespeito aos valores humanos.<\/p>\n<p>Antes que voc\u00ea concorde com essa id\u00e9ia, \u00e9 fundamental enxergar essa hist\u00f3ria pela maior quantidade poss\u00edvel de possibilidades. Vou me ater a duas delas &#8211; e deixo para voc\u00ea a tarefa de acrescentar as outras.<\/p>\n<p>Para a primeira, pedi ajuda ao <a href=\"http:\/\/www.abordagempolicial.com\/2007\/11\/segurana-privada-no-brasil.html\" target=\"_blank\"><b>Danillo Ferreira, do blog Abordagem Policial<\/b><\/a>. Ele se baseou nas declara\u00e7\u00f5es pin\u00e7adas nas reportagens sobre o caso para definir o epis\u00f3dio como &#8220;discrimina\u00e7\u00e3o, homic\u00eddio doloso e psicopatia, n\u00e3o um acidente&#8221;. Vem da\u00ed minhas d\u00favidas. Como este cidad\u00e3o trabalhava como seguran\u00e7a? E j\u00e1 que a maioria das empresas trabalham com servi\u00e7os terceirizados, como garantir que situa\u00e7\u00f5es assim n\u00e3o aconte\u00e7am? Com a palavra, o Danillo:<\/p>\n<p><i>&#8220;Algumas profiss\u00f5es geram certa atra\u00e7\u00e3o para indiv\u00edduos com algumas pend\u00eancias psicol\u00f3gicas. Psicopatologias, melhor dizendo. N\u00e3o \u00e9 novidade a incid\u00eancia de ped\u00f3filos entre os cl\u00e9rigos, ao tempo em que a profiss\u00e3o policial, ou de seguran\u00e7a, gera enorme atra\u00e7\u00e3o para pessoas com certas frustra\u00e7\u00f5es. Cabe \u00e0s pol\u00edcias, e empresas de seguran\u00e7a, se prevenir em seu processo seletivo e em seus cursos de forma\u00e7\u00e3o profissionais, no sentido de eliminar as possibilidades do ingresso desses indiv\u00edduos, ou da manuten\u00e7\u00e3o dessa personalidade patol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Isso passa por in\u00fameras vari\u00e1veis: os psicotestes que s\u00e3o aplicados nos processos de admiss\u00e3o (onde geralmente os reprovados s\u00e3o admitidos por for\u00e7a de recursos na justi\u00e7a), a detec\u00e7\u00e3o dessas caracter\u00edsticas durante o curso de forma\u00e7\u00e3o (tomando-se as medidas devidas para sanar o problema),  a inclus\u00e3o de disciplinas como direitos humanos na carga-hor\u00e1ria dos cursos,  o apoio emocional e psicol\u00f3gico aos policiais\/seguran\u00e7as, dadas as peculiaridades da profiss\u00e3o, etc.<\/p>\n<p>Quando esses e outros mecanismos falham, eis que surge-nos casos como o que voc\u00ea me aponta. Mas uma coisa \u00e9 certa: se todos, ou a maioria,  dos mais de quatrocentos mil seguran\u00e7as particulares brasileiros agissem como esse exemplo, estar\u00edamos praticamente em guerra. Existem muitos esfor\u00e7os para sanar esses problemas, e a sociedade deve sempre fiscalizar para que homens que ajam assim sejam banidos da situa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7as&#8221;.<\/i><\/p>\n<p>Repare que, s\u00f3 nesse aspecto, j\u00e1 d\u00e1 pra ver incont\u00e1veis engrenagens que podem fugir do nosso controle e falhar. Aconteceu nas Casas Bahia, mas poderia ter sido em qualquer outra loja. E aqui j\u00e1 d\u00e1 pra entrar na segunda possibilidade, que come\u00e7a exatamente no meu encontro com a vendedora, no estande da Positivo.<\/p>\n<p>Chamava-se Ana Claudia. Cabelos tingidos, \u00f3culos de arma\u00e7\u00f5es fortes e perseveran\u00e7a. Sabia tudo daquele aparelhinho. O tamanho reduzido, a tela de sete polegadas, os dois gigas de mem\u00f3ria interna, o processador de um giga, webcam e microfone integrados, Windows XP instalado&#8230; Perguntei-lhe sobre a presen\u00e7a dela naquele ponto da loja. Disse que era a primeira vez que participava daquele mega-esfor\u00e7o de vendas. Estava cansada, jamais atendera tanta gente em um \u00fanico dia como nessa \u00e9poca. Mas apesar da exaust\u00e3o, estava feliz por garantir um fim de ano gordo para sua casa.<\/p>\n<p>Comprar naquela megasuperfuckingpowerloja d\u00e1 um trabalho desnecess\u00e1rio: voc\u00ea escolhe sua compra num lado do pavilh\u00e3o, caminha cinco minutos para pagar do outro lado, volta mais quatro minutos para o quiosque do credi\u00e1rio retirar a nota fiscal, atravessa o lugar at\u00e9 o fim para retirar a mercadoria, volta ao estande da loja para retirar seu brinde. Mas nessas idas e voltas, lembrei do Natal da Ana Claudia e de todos aqueies funcion\u00e1rios enlouquecidos. Certamente nenhum deles se sente ajudando uma institui\u00e7\u00e3o criminosa, pelo contr\u00e1rio. S\u00e3o trabalhadores, pe\u00e7as desse louco sistema assim como o Alberto Milfonti J\u00fanior.<\/p>\n<p>Sabe, normalmente a gente passa horas discutindo pequenos esfor\u00e7os para salvar o mundo, ainda que seja uma simples forma de tapearmos nossas limita\u00e7\u00f5es. Tamb\u00e9m questionamos acintosamente quem o faz por exposi\u00e7\u00e3o gratuita ou simplesmente ignora a\u00e7\u00f5es sociais evocando qualquer desculpa&#8230;<\/p>\n<p>Imagine se eu tivesse comprado meu Mobo no Magazine Luiza e, logo depois, divulgar aos quatro cantos um papel qualquer provando essa ou qualquer outra benevol\u00eancia, porque \u00e9 o melhor a fazer&#8230; \u00c9 muito mais simples pintar a realidade como &#8220;certo&#8221; ou &#8220;errado&#8221; e rotular pessoas como &#8220;proativas&#8221; ou &#8220;ignorantes&#8221;, sendo que a gama de perspectivas \u00e9 infinita. O desafio \u00e9 reunir paci\u00eancia, senso cr\u00edtico e respeito ao pr\u00f3ximo na hora de escolher as cores da realidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fiz uma coisa que estava querendo h\u00e1 tempos: a despeito de quem n\u00e3o gostou desse tipo de brinquedinho, investi parte das minhas parcas economias num Positivo Mobo, de onde escrevo estas linhas. 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