{"id":378,"date":"2008-10-20T02:26:21","date_gmt":"2008-10-20T05:26:21","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/o-que-da-mais-medo-a-paixao-ou-a-policia"},"modified":"2008-10-20T02:26:21","modified_gmt":"2008-10-20T05:26:21","slug":"o-que-da-mais-medo-a-paixao-ou-a-policia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/o-que-da-mais-medo-a-paixao-ou-a-policia\/","title":{"rendered":"O que d\u00e1 mais medo: a paix\u00e3o ou a pol\u00edcia?"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/plantao.jpg\" align=\"right\" \/>Esses dias encontrei um amigo de longa data por acaso. Estava bem arrumado, como dificilmente o encontrava num passado distante. Perguntei como andava a vida, se ele ia para uma festa, uma entrevista de emprego ou para o laborat\u00f3rio de an\u00e1lises cl\u00ednicas.<\/p>\n<p>&#8211; Estive em um vel\u00f3rio. Minha ex-namorada se matou.<\/p>\n<p>Minhas piadinhas ficaram sem raz\u00e3o. Passei a fazer o que ele precisava: ouvi-lo. Em pouco tempo ap\u00f3s conhec\u00ea-la, a rela\u00e7\u00e3o j\u00e1 era arrebatadora, intensa&#8230; Beirava a loucura. Trocas de amor eterno e planos futuros eram entrecortados com brigas f\u00fateis, mas praticamente intermin\u00e1veis. O namoro dos dois passou a ser algo doentio, incontrol\u00e1vel&#8230;<\/p>\n<p>Ele lembrou de uma noite em que dormiam juntos mas, quando acordou no meio da madrugada, ela n\u00e3o estava mais na cama. Muitos telefonemas, celulares desligados, chamadas n\u00e3o atendidas. Ela s\u00f3 retornou pouco antes do meio-dia. &#8220;Voc\u00ea ficou preocupado comigo?&#8221;, perguntava ela.<\/p>\n<p>As situa\u00e7\u00f5es ca\u00f3ticas foram capazes de suplantar seus sentimentos. Para o pr\u00f3prio bem do casal, decidiu se afastar dela.<\/p>\n<p>Seguiu vivendo, encontrou outra pessoa para compartilhar seu dia-a-dia&#8230; Mas a antiga paix\u00e3o continuava presente. Insistia em procur\u00e1-lo, visit\u00e1-lo, pentelh\u00e1-lo&#8230; Um dia antes de tirar sua pr\u00f3pria vida, ela enviou incont\u00e1veis mensagens de texto. Dizia que sempre iria am\u00e1-lo, que era o homem da vida dele.<\/p>\n<p>Enfim, imagine como est\u00e1 a cabe\u00e7a desse meu amigo. Provavelmente, se estiver em casa (e longe da atual namorada), est\u00e1 ouvindo alguma m\u00fasica ou repassando fotos que lembrem dela. Dificilmente vai esquec\u00ea-la. E \u00e9 ir\u00f4nico imaginar que, quando os dois se conheceram, certamente cogitaram a hip\u00f3tese de serem felizes juntos, sem sofrimento.<\/p>\n<div align=\"center\">***<\/div>\n<p>Quando ouvi a hist\u00f3ria do meu amigo, lembrei de uma antiga mat\u00e9ria da <a href=\"http:\/\/revistaepoca.globo.com\/Epoca\/0,6993,EPT687065-1664,00.html\" target=\"_blank\"><b>Revista \u00c9poca<\/b><\/a>, assinada por Cristiane Segatto, sobre a boa e velha &#8220;qu\u00edmica&#8221; &#8211; n\u00e3o aquela dos is\u00f3baros, mas aquela que acontece quando voc\u00ea encontra aquele algu\u00e9m.<\/p>\n<p>A sensa\u00e7\u00e3o indescrit\u00edvel, que pode passar do \u00eaxtase ao sofrimento do nada, \u00e9 provocada por mecanismos qu\u00edmicos. Descargas viciantes de adrenalina, endorfina, ocitocina, feniletilamina, dopamina e norepinefrina, que  &#8211; pasmem &#8211; podem ser controladas num futuro pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Traduzindo: em alguns anos, voc\u00ea vai at\u00e9 a farm\u00e1cia, compra um rem\u00e9dio injet\u00e1vel na nuca e decide: &#8220;hoje vou me apaixonar pela fulana&#8221;. Ou, dependendo do composto sint\u00e9tico, ser\u00e1 poss\u00edvel esquecer aquela ingrata que lhe abandonou com alguns comprimidos.<\/p>\n<p>Para quem tem certeza de que a gangorra da paix\u00e3o \u00e9 uma droga, essa vis\u00e3o pode soar uma piada. Enquanto ela n\u00e3o se concretiza, a mat\u00e9ria traz ainda um dado bem atual: &#8220;ao contr\u00e1rio do que se imagina, os homens caem na armadilha da paix\u00e3o mais r\u00e1pido que as mulheres&#8221;.<\/p>\n<p>Mais: &#8220;quimicamente viciado na imagem do parceiro, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que gostaria de lev\u00e1-lo para a cama. Mais do que sexo, por\u00e9m, o &#8216;barato&#8217; que anseia \u00e9 a certeza da afei\u00e7\u00e3o correspondida, materializada em e-mails e telefonemas respondidos&#8221;.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria da inje\u00e7\u00e3o e dos comprimidos pode at\u00e9 virar realidade &#8211; at\u00e9 mesmo a evolu\u00e7\u00e3o da gen\u00e9tica poder\u00e1 render boas explica\u00e7\u00f5es e municiar n\u00f3s, pobres coitados, a controlar tais rea\u00e7\u00f5es e, quem sabe um dia, viver um bom relacionamento com quem desejamos. &#8220;Mas elas cumprem outra fun\u00e7\u00e3o social: a de gerar saborosa muni\u00e7\u00e3o para as conversas de botequim&#8221;, conclui, sabiamente, a mat\u00e9ria.<\/p>\n<p>Pode parecer ego\u00edsta, mas se esse tipo de medicamento existisse, provavelmente a ex-namorada do meu amigo estivesse pronta para um novo amor. Ao mesmo tempo, ningu\u00e9m precisasse ter ouvido falar no conjunto habitacional do CDHU, no Jardim Santo Andr\u00e9, durante a semana.<\/p>\n<div align=\"center\">***<\/div>\n<p>Uma menina linda, de cabelos compridos e escuros, estudante do primeiro ano do ensino m\u00e9dio. Tinha quinze anos, mas namorava desde os doze com um cara sete anos mais velho. Depois de in\u00fameras brigas e alguns ata-e-desata (pelo menos dez vezes), o rapaz decidiu acabar com a rela\u00e7\u00e3o definitivamente, em agosto. A mo\u00e7a tratou de ser feliz, sair com os amigos, conhecer gente nova.<\/p>\n<p>L\u00f3gico que, quando o rapaz tentou reatar o namoro, ouviu um sonoro &#8220;n\u00e3o&#8221;. Inconformado e arrependido, insistia em reaproximar-se dela, todo dia, na sa\u00edda do col\u00e9gio. A maluquice podia ser vista nas \u00faltimas semanas, quando passou a implicar com os novos amigos de sua ex, na esperan\u00e7a de voltar a namor\u00e1-la. Mostrava-se agitado, mudou seu comportamento ao lado de velhos conhecidos, que sempre o consideraram calmo e tranquilo.<\/p>\n<p>O c\u00famulo do descontrole come\u00e7ou no \u00faltimo dia 13 de outubro. Enquanto a jovem fazia um trabalho de geografia, ao lado de sua melhor amiga e outros dois colegas, o sujeito invadiu o apartamento.<\/p>\n<p>Armado com ci\u00fame,  sentimento de posse e um saco de muni\u00e7\u00e3o, come\u00e7ou ali uma discuss\u00e3o de relacionamento que, coincidentemente, <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha\/especial\/2008\/carcereprivadonoabc\/\" target=\"_blank\"><b>tornou-se o maior caso de c\u00e1rcere privado da hist\u00f3ria do Estado de S\u00e3o Paulo<\/b><\/a>. Alternava momentos de compreens\u00e3o ou sofrimento, como se fosse um pobre coitado solit\u00e1rio, com instantes de agressividade &#8211; inclusive batendo e chutando a ex-namorada algumas vezes.<\/p>\n<p>Foram cem horas num vai-e-volta angustiante e de dif\u00edcil negocia\u00e7\u00e3o. Como era de se esperar de nossa m\u00eddia, \u00e1vida por uma novela desde o caso Isabella, tratou de ocupar a programa\u00e7\u00e3o televisiva com o epis\u00f3dio. Conseguiram &#8211; como assim!!! &#8211; entrevistar o sequestrador por telefone, ao vivo, no meio da tarde. Conseguia comida e luz el\u00e9trica, sem falar na oportunidade de fazer novamente a melhor amiga, solta um dia antes, como ref\u00e9m.<\/p>\n<p>Era muito poder nas m\u00e3os de um louco apaixonado. Isso colaborou para a eternidade at\u00e9 o desfecho desse &#8220;big brother do terror&#8221; &#8211; que, segundo as palavras do ex-namorado, seria algo que &#8220;deixaria muita gente triste&#8221;.<\/p>\n<div align=\"center\">***<\/div>\n<p>O que me consola \u00e9 saber que, se essa hist\u00f3ria fosse na Inglaterra, certamente a pol\u00edcia local acertaria um tiro num brasileiro para deslocar os holofotes&#8230; Mas se o sequestro fosse num CDHU de Israel, as tais cem horas durariam uns cinco, seis minutos. Nos EUA, talvez at\u00e9 levar\u00edamos algumas horas, mas certamente algum sniper daria fim ao sujeito, garantindo a integridade f\u00edsica da v\u00edtima a qualquer pre\u00e7o.<\/p>\n<p>Nada contra o Gate, que j\u00e1 demonstrou compet\u00eancia em diversas situa\u00e7\u00f5es. Mas n\u00e3o sei o que pensar desse triste epis\u00f3dio, onde negocia\u00e7\u00f5es intermin\u00e1veis &#8220;com um rapaz que queria conversar com a namorada&#8221; resultaram em refei\u00e7\u00f5es servidas com uma corda improvisada e confort\u00e1vel aparelho de TV ligado, uma ref\u00e9m volta a ficar em poder do sequestrador, na imprensa entrevistando o rapaz por telefone e, por fim, numa a\u00e7\u00e3o motivada por um disparo &#8211; explosivos na porta, quinze segundos at\u00e9 a invas\u00e3o do apartamento e tr\u00eas tiros, um deles atravessando a cabe\u00e7a da jovem menina.<\/p>\n<p>Confesso que morro de medo de hist\u00f3rias passionais, onde pessoas apaixonadas perdem o controle e s\u00e3o capazes de qualquer coisa. Mas as vezes tamb\u00e9m fico com medo do que a pol\u00edcia pode fazer. E nem estou falando na disputinha (com cac\u00f3fato e tudo) entre a fac\u00e7\u00e3o civil e a militar.<\/p>\n<p>Por via das d\u00favidas, siga aqueles dois conselhos. Cuide bem do seu amor e olhe para os dois lados antes de atravessar a rua.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esses dias encontrei um amigo de longa data por acaso. Estava bem arrumado, como dificilmente o encontrava num passado distante. Perguntei como andava a vida, se ele ia para uma festa, uma entrevista de emprego ou para o laborat\u00f3rio de an\u00e1lises cl\u00ednicas. &#8211; Estive em um vel\u00f3rio. Minha ex-namorada se matou. 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