{"id":376,"date":"2008-10-10T01:12:00","date_gmt":"2008-10-10T04:12:00","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/a-maior-e-mais-bela-flor-do-mundo-e-voce"},"modified":"2008-10-10T01:12:00","modified_gmt":"2008-10-10T04:12:00","slug":"a-maior-e-mais-bela-flor-do-mundo-e-voce","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/a-maior-e-mais-bela-flor-do-mundo-e-voce\/","title":{"rendered":"A maior e mais bela flor do mundo \u00e9 voc\u00ea"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/pedra.gif\" align=\"right\" \/>Em um quarto pequeno mas ajeitado, um velho de pijamas segura um copo com \u00e1gua, sentado \u00e0 beira de uma escrivaninha. A outra m\u00e3o est\u00e1 fechada, servindo de apoio para a cabe\u00e7a pensativa. Acostumado a conversar com adultos e emendar voc\u00e1bulos de compreens\u00e3o herm\u00e9tica, jamais havia escrito uma hist\u00f3ria para crian\u00e7as em sua vida. Mas a id\u00e9ia estava fresca em sua mente. Terminou a \u00e1gua, ajustou a lumin\u00e1ria e p\u00f4s-se a escrever.<\/p>\n<p>Pensou num menino. Jos\u00e9. Ant\u00f4nio. Pedro. N\u00e3o, Vin\u00edcius. Rabiscou um quarto de menino. Brinquedos, livros, bagun\u00e7a. Distra\u00e7\u00f5es que n\u00e3o eram capazes de aplacar o t\u00e9dio do solit\u00e1rio rapaz. Precisava de mais cores, mais sentidos, mais vida. Mas seus pais, cautelosos e preocupados, n\u00e3o deixavam Vin\u00edcius sair \u00e0 rua desacompanhado. Aborrecido, ficou alguns minutos escorado na janela, em busca de entusiasmo. Via o sol radiante como se fosse um convite para sair ao menos um pouquinho.<\/p>\n<p>O velho de pijamas voltou a apoiar sua cabe\u00e7a. Ser\u00e1 mesmo que vou incentivar a mo\u00e7ada a desobedecer os pais e sair da zona de conforto? Ora, por que n\u00e3o? A caneta seguia leve sobre o papel, abrindo os port\u00f5es de casa para Vin\u00edcius correr pelo campo. Sabia que n\u00e3o podia ser visto, para n\u00e3o correr o risco de ser pego e levar uma bronca logo de cara &#8211; sim, pois mesmo ofegante, imaginava que o serm\u00e3o poderia vir na volta&#8230;<\/p>\n<p>Enquanto corria, observava o mundo. Caminhos de terra batida tortuosos, vigiados por p\u00e1ssaros multicoloridos repousados em ramos carregados de folhas verdes das \u00e1rvores mais frondosas. A trilha apontava para um monte redondo, com topo bem perto do c\u00e9u. Como j\u00e1 estava bem longe de casa, n\u00e3o custava nada seguir em frente e chegar ao seu cume. L\u00e1 do alto, Vin\u00edcius pouco ligava para a vis\u00e3o do riacho, que cruzava a outra face do monte. Estava mesmo preocupado com uma flor.<\/p>\n<p>O olhar arregalado do velho de pijamas \u00e9 suficiente para descrever o estado daquela pobre flor. Devia ser muito bonita outrora, mas estava sedenta de cuidados. Naquele instante, suas p\u00e9talas estavam murchas e secas, e seu caule quase dobrado. Transferiu toda sua melancolia a Vin\u00edcius, mas por apenas uma linha de texto. N\u00e3o demorou para que despertasse o desejo de qualquer crian\u00e7a destemida: carregar \u00e1gua do riacho para a plantinha.<\/p>\n<p>Munido apenas por sua iniciativa, o menino desceu ao p\u00e9 do monte e, com as m\u00e3os em forma de concha, apanhou um bocadinho de \u00e1gua. Subiu novamente o monte e, com toda delicadeza, despejou as gotas que sobraram sobre a florzinha. Desceu novamente, apanhou mais \u00e1gua, subiu vagarosamente e jogou mais \u00e1gua. E fez isso outra vez. E mais uma&#8230;<\/p>\n<p>At\u00e9 o velho de pijamas ficou com pena de sua cria\u00e7\u00e3o. Decidiu pegar mais \u00e1gua enquanto imaginava qual seria o melhor desfecho para sua hist\u00f3ria infantil. Decidiu presentear Vin\u00edcius com uma surpresa \u00fanica. A cada viagem que o menino fazia ao riacho, a flor reagia. Crescia alguns cent\u00edmetros, espichava uma de suas p\u00e9talas. Aquilo o entusiasmou, a ponto de realizar dezenas de descidas e subidas. Como se fossem milhares de viagens a outro planeta. Nem mesmo a Lua ou Marte pareciam distantes diante do que estava prestes a conhecer: a maior flor do mundo.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o se lembrava que estava longe de casa. Mas quando se deu conta, o sol j\u00e1 tinha ido embora. A escurid\u00e3o tirou de Vin\u00edcius a coragem que o fizera capaz de ajudar a flor. Com medo, decidiu ficar ao p\u00e9 de sua nova amiga, at\u00e9 a noite passar. Mas a gratid\u00e3o da flor era t\u00e3o grande quanto suas p\u00e9talas, a ponto de deixar cair uma delas para aquecer o menino. Na ponta da p\u00e9tala, o mais doce n\u00e9ctar saciou a fome e a sede do pequeno her\u00f3i.<\/p>\n<p>&#8220;Minha nossa! Os pais do garoto!&#8221; Quase o velho de pijamas caiu da cadeira quando lembrou-se deles. Vin\u00edcius devia achar que estavam furiosos, quando na verdade estavam mesmo aflitos. Pediram ajuda aos vizinhos para procur\u00e1-lo por toda a cidade. As luzes das lanternas cruzavam a mata fechada, sem encontrar nenhum vest\u00edgio do menino sumido. A agonia durou toda a noite, at\u00e9 que os primeiros sinais da manh\u00e3 apontaram para aquela flor gigantesca, com as cores do arco-\u00edris, em cima do monte. A busca cessou por um instante: todos ficaram maravilhados com aquela vis\u00e3o espetacular.<\/p>\n<p>Decidiram acalmar a tristeza e subir o monte, para verem de perto aquele fen\u00f4meno da natureza. E o sorriso dos pais de Vin\u00edcius s\u00f3 aumentou quando viram seu anjinho dormindo feliz, protegido por uma p\u00e9tala. Ao acordar, o menino p\u00f4s-se a contar em detalhes sua aventura. Todos os caminhos que j\u00e1 n\u00e3o sabia mais, mas que o levaram at\u00e9 ali para salvar aquela flor.<\/p>\n<p>&#8220;Meu velho, j\u00e1 \u00e9 tarde, vem pra cama&#8221;&#8230; A voz da esposa atrapalhou a concentra\u00e7\u00e3o do velho de pijamas, que ainda precisava finalizar sua hist\u00f3ria infantil. Pensou na fam\u00edlia e nos vizinhos, exaustos ap\u00f3s uma longa jornada, mas que ap\u00f3s o descanso merecido enfeitou suas casas com muitas plantas e festejou a aventura de Vin\u00edcius, maior que seu pr\u00f3prio tamanho, bem maior que o tamanho daquela flor encantada. Enfim, decidiu guardar a caneta e apagar a lumin\u00e1ria. &#8220;J\u00e1 vou, minha v\u00e9ia&#8221;.<\/p>\n<p>A caminho da cama, o velho de pijamas foi tomado por uma por\u00e7\u00e3o de lembran\u00e7as ao lado de sua mulher&#8230; E de todas as vezes que ela dizia &#8220;vai logo ao m\u00e9dico&#8221;, &#8220;v\u00ea se emagrece&#8221;, &#8220;tome jeito nessa vida&#8221;&#8230; Toda a for\u00e7a e carinho regados por ela dia a dia, que o fizeram chegar at\u00e9 ali, felizes da vida.<\/p>\n<p>&#8220;Nunca se esque\u00e7a que eu adoro acompanhar voc\u00ea nessa aventura da vida. Boa noite, minha v\u00e9ia&#8221;, disse, enquanto descal\u00e7ava suas pantufas e se cobria. &#8220;Ei, meu velho de pijamas, nunca se esque\u00e7a que a maior e mais bela flor do mundo \u00e9 voc\u00ea&#8221;.<\/p>\n<div align=\"center\">***<\/div>\n<p>A prop\u00f3sito, n\u00e3o deixe de ler &#8220;A maior flor do mundo&#8221;, de Jos\u00e9 Saramago. N\u00e3o sei se ele usava pijamas, mas de fato ele jamais tinha escrito nada para o p\u00fablico infantil. A ponto de usar palavras que dificilmente os mais novos conhecem de cabe\u00e7a. &#8220;V\u00e3o come\u00e7ar a aparecer algumas palavras dif\u00edceis, mas quem n\u00e3o souber, deve ir ao dicion\u00e1rio ou perguntar ao professor&#8221;.<\/p>\n<p>E conclui: &#8220;quem sabe se um dia virei a ler outra vez esta hist\u00f3ria, escrita por ti que me l\u00eas, mas muito mais bonita?&#8221;. Talvez porque normalmente, quem precisa ler hist\u00f3rias infantis somos n\u00f3s, adultos insens\u00edveis e grotescos.<\/p>\n<p>A minha ficou bem ruinzinha (mas tudo bem, serve para responder a quem me presenteou com o livro). Bacana mesmo ficou a vers\u00e3o adaptada e dirigida por Juan Pablo Etcheverry, narrada pelo pr\u00f3prio Saramago. Para nos lembrar que, na correria da vida, \u00e9 importante lembrar das flores perdidas num montinho distante.<\/p>\n<p><div align=\"center\"><object width=\"640\" height=\"385\"><param name=\"movie\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/-KTL94Rl7CI?fs=1&amp;hl=pt_BR\"><\/param><param name=\"allowFullScreen\" value=\"true\"><\/param><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\"><\/param><embed src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/-KTL94Rl7CI?fs=1&amp;hl=pt_BR\" type=\"application\/x-shockwave-flash\" allowscriptaccess=\"always\" allowfullscreen=\"true\" width=\"640\" height=\"385\"><\/embed><\/object><\/div><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em um quarto pequeno mas ajeitado, um velho de pijamas segura um copo com \u00e1gua, sentado \u00e0 beira de uma escrivaninha. A outra m\u00e3o est\u00e1 fechada, servindo de apoio para a cabe\u00e7a pensativa. 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