{"id":374,"date":"2008-09-28T16:29:07","date_gmt":"2008-09-28T19:29:07","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/raciocina-seguranca"},"modified":"2008-09-28T16:29:07","modified_gmt":"2008-09-28T19:29:07","slug":"raciocina-seguranca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/raciocina-seguranca\/","title":{"rendered":"Raciocina, seguran\u00e7a!"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/pedra.gif\" align=\"right\" \/>Se voc\u00ea conhece pessoalmente um rapaz educado, cort\u00eas e inteligente que exer\u00e7a a fun\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a, cumprimente-o e comemore com ele. Certamente \u00e9 o \u00fanico num raio de alguns quil\u00f4metros. Ali\u00e1s, n\u00e3o entendo como podem os profissionais dessa \u00e1rea se conformarem com a pecha de ac\u00e9falo mal-educado, sem tomar iniciativas contundentes para acabar com essa generaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Talvez a culpa nem seja deles. N\u00e3o me surpreenderia se soubesse que as empresas interessadas querem exatamente isso: &#8220;tem que ser grosso e cumprir ordens sem pensar&#8221;. Imagino como seria um fict\u00edcio processo seletivo. Algo como &#8220;sente a\u00ed e escreva uma reda\u00e7\u00e3o&#8221;. Quem retrucasse, questionando a raz\u00e3o de um teste do g\u00eanero, seria eliminado. Quem redigisse um texto e entregasse rapidamente, tamb\u00e9m. Os eleitos seriam os cururus sentados na carteira, sem conseguir completar a tarefa. Se o candidato sequer passasse da primeira linha, viraria chefe de seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Lembro de um desses na entrada de um megashow, daqueles cuja marola empesteava a fila antes mesmo da festa come\u00e7ar. Mas a preocupa\u00e7\u00e3o dos homens de preto, ao revistar as bolsas e mochilas, n\u00e3o era exatamente a busca por entorpecentes. Tive que deixar uma inofensiva caneta Bic nas m\u00e3os de um deles. &#8220;Isso pode virar uma arma&#8221;, dizia. E o que dizer da brita usada pela organiza\u00e7\u00e3o do evento para forrar o ch\u00e3o? Mas que gente esperta&#8230;<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/revistas280908.jpg\" align=\"right\" \/>Encontrei o \u00faltimo esp\u00e9cime desse tipo num respiro r\u00e1pido na Fnac Paulista. Assim que entrei pela Alameda Santos, fui surpreendido pelas capas de Veja e Carta Capital. Enquanto a primeira comemorava a interven\u00e7\u00e3o do governo dos EUA ap\u00f3s a eclos\u00e3o da crise e a fal\u00eancia do banco de investimento Lehman Brothers, a segunda adverte que o pacote de 700 bilh\u00f5es de d\u00f3lares oferecido por Bush s\u00f3 ameniza, mas n\u00e3o resolve. O curioso \u00e9 que este &#8220;salva-n\u00e3o salva&#8221; foi ilustrado pela mesma figura: Tio Sam, com cara de bonz\u00e3o, oferecendo grana.<\/p>\n<p>Como tinha certeza de que esqueceria disso nos dias seguintes (talvez sequer tivesse tempo pra postar sobre as tais capas), decidi fotograf\u00e1-las com o celular. Aproximei o aparelho da capa de Veja e cliquei. O barulhinho da c\u00e2mera chamou a aten\u00e7\u00e3o do seguran\u00e7a, que veio em minha dire\u00e7\u00e3o antes que pudesse me aproximar da Carta Capital.<\/p>\n<p>&#8211; Senhor, \u00e9 proibido tirar fotos aqui dentro.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o deve ser puramente comercial. Fotografar g\u00f4ndolas pode caracterizar espionagem, n\u00e3o \u00e9 legal, enfim. Deve haver uma explica\u00e7\u00e3o clara e correta, mas de total desconhecimento do cumpridor de ordens.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o estou fotografando a loja, mas a capa da revista. Veja, \u00e9 s\u00f3 a capa. Vou te explicar o significado da palavra &#8220;reprodu\u00e7\u00e3o&#8221; em fotojornalismo&#8230;<\/p>\n<p>Eu devo ser mais idiota que o seguran\u00e7a. Ora, tentar explicar algo a ele&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Senhor, \u00e9 proibido. Meu gerente vai chamar a aten\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah, chama ele aqui. Vamos conversar. Assim n\u00e3o preciso explicar o que \u00e9 &#8220;reprodu\u00e7\u00e3o&#8221; em fotojornalismo duas vezes&#8230;<\/p>\n<p>A cara feia do homem aumentou. Eles n\u00e3o conseguem dialogar: provavelmente repetem tr\u00eas ou quatro palavras decoradas ap\u00f3s o treinamento e, caso n\u00e3o saibam mais nenhuma, amea\u00e7am. Desisti da segunda foto e parti para a sa\u00edda, chamando-o de algum adjetivo qualquer.<\/p>\n<p>No corredor da loja, observo um carr\u00e3o em exposi\u00e7\u00e3o, chamando a aten\u00e7\u00e3o dos consumidores. No mesmo instante, um gordinho aficcionado sacou sua m\u00e1quina digital para registrar o b\u00f3lido. N\u00e3o pensei duas vezes. Voltei ao seguran\u00e7a para argumentar.<\/p>\n<p>&#8211; Olha ali, \u00f3. T\u00e1 tirando fotos. Vai l\u00e1 falar com ele.<\/p>\n<p>&#8211; Ah, do carro pode.<\/p>\n<p>Arregalei meus olhos e ergui meus bra\u00e7os, com ar de &#8220;como assim?&#8221;. O sujeito de terno simplesmente deu risada e voltou ao seu posto, disposto a cumprir suas ordens e cair na pr\u00f3xima contradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se voc\u00ea conhece pessoalmente um rapaz educado, cort\u00eas e inteligente que exer\u00e7a a fun\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a, cumprimente-o e comemore com ele. Certamente \u00e9 o \u00fanico num raio de alguns quil\u00f4metros. 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