{"id":368,"date":"2008-09-11T01:44:43","date_gmt":"2008-09-11T04:44:43","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/eles-passarao-eu-passarinho"},"modified":"2008-09-11T01:44:43","modified_gmt":"2008-09-11T04:44:43","slug":"eles-passarao-eu-passarinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/eles-passarao-eu-passarinho\/","title":{"rendered":"Eles passar\u00e3o&#8230; Eu passarinho!"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/pedra.gif\" align=\"right\" \/>Existem semanas que sequer deveriam ter come\u00e7ado e insistem em n\u00e3o terminar. Dizem que s\u00e3o dias assim que nos tornam melhores, pois \u00e9 da adversidade que brota a for\u00e7a para lutarmos rumo \u00e0 vit\u00f3ria. Quer dizer, isso quando as cacetadas sucessivas ou a mega-porrada n\u00e3o provocam o efeito inverso, anulando qualquer poder de rea\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas enfim. Dias como estes pedem uma \u00fanica cura: fugir da rotina e chacoalhar a mente com uma atitude diferente do ocasional. Ainda que isso represente largar o carro num estacionamento qualquer e seguir viagem a p\u00e9, suando enquanto outros pensamentos caminham juntos. Mesmo uma a\u00e7\u00e3o trivial como esta pode representar uma surpresa ap\u00f3s a curva.<\/p>\n<p>E ela estava l\u00e1, na esta\u00e7\u00e3o Trianon-Masp, na sa\u00edda mais comprida rumo \u00e0 Pamplona, sentido Jardins. Minha express\u00e3o abatida mudou quando vi um painel com a imagem e o nome de Mario Quintana. Reduzi o ritmo e parei diante daquela sequ\u00eancia de imagens e textos. Nem me importei com o hor\u00e1rio ou com o movimento tresloucado dos pedestres que, solenemente, ignoravam minha presen\u00e7a atenta a cada detalhe.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/marmota\/2864697634\/\" title=\"Quintana no Metr\u00f4\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/farm4.static.flickr.com\/3283\/2864697634_13b74ff394_m.jpg\" width=\"240\" height=\"180\" alt=\"Quintana no Metr\u00f4\" border=\"0\" align=\"right\" \/><\/a>A exposi\u00e7\u00e3o itinerante, que certamente j\u00e1 tem alguns anos, \u00e9 uma iniciativa do projeto Embarque na Leitura, excelente iniciativa do metr\u00f4 paulistano que integra longos deslocamentos com livros emprestados desde 2004. Cinco esta\u00e7\u00f5es (Luz, Para\u00edso, Tatuap\u00e9, Largo Treze e Santa Cec\u00edlia) possuem minibibliotecas, onde o usu\u00e1rio pode retirar um livro e entreg\u00e1-lo em at\u00e9 dez dias.<\/p>\n<p>Fora isso, o projeto tamb\u00e9m j\u00e1 promoveu tarde de aut\u00f3grafos, bate-papo com escritores, contagem de hist\u00f3rias, distribui\u00e7\u00e3o de livros e os tais pain\u00e9is que homenageiam escritores brasileiros. Tem do Machado de Assis, da Cora Coralina, do Ign\u00e1cio de Loyola Brand\u00e3o e, por \u00faltimo mas n\u00e3o menos importante, do Poetinha.<\/p>\n<p>Os primeiros pain\u00e9is mesclam fotos de toda sua vida com um resumo biogr\u00e1fico sucinto e direto. Lembra seu nascimento prematuro, seu primeiro emprego na Livraria do Globo, sua passagem na farm\u00e1cia do pai e o contato permanente com a l\u00edngua francesa, fato que contribuiu para seu sucesso n\u00e3o s\u00f3 como como tradutor de obras cl\u00e1ssicas, mas tamb\u00e9m ao extrair a poesia das palavras.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/marmota\/2863865107\/\" title=\"Quintana no Metr\u00f4\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/farm4.static.flickr.com\/3240\/2863865107_c864964301_m.jpg\" width=\"180\" height=\"240\" alt=\"Quintana no Metr\u00f4\" border=\"0\" align=\"right\" \/><\/a>Em outros pain\u00e9is, poemas trazem o lado ir\u00f4nico da vida e da morte, al\u00e9m de frases pin\u00e7adas do Caderno H, do Correio do Povo de Porto Alegre &#8211; que levava esse nome por ser feito &#8220;na \u00faltima hora, na hora H, na hora final&#8221;. Duas mensagens cl\u00e1ssicas me fizeram sorrir de verdade. A primeira reproduz um texto autobiogr\u00e1fico, publicado na revista Isto\u00c9 em 14 de novembro de 1984:<\/p>\n<blockquote><p><i>Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me aconteceu. E agora pedem-me que fale sobre mim mesmo. Bem! Eu sempre achei que toda confiss\u00e3o n\u00e3o transfigurada pela arte \u00e9 indecente. Minha vida est\u00e1 nos meus poemas, meus poemas s\u00e3o eu mesmo, nunca escrevi uma v\u00edrgula que n\u00e3o fosse uma confiss\u00e3o. Ah! mas o que querem s\u00e3o detalhes, cruezas, fofocas&#8230; A\u00ed vai! Estou com 78 anos, mas sem idade. Idades s\u00f3 h\u00e1 duas: ou se est\u00e1 vivo ou morto. Neste \u00faltimo caso \u00e9 idade demais, pois foi-nos prometida a Eternidade.<\/p>\n<p>Nasci no rigor do inverno, temperatura: 1grau; e ainda por cima prematuramente, o que me deixava meio complexado, pois achava que n\u00e3o estava pronto. At\u00e9 que um dia descobri que algu\u00e9m t\u00e3o completo como Winston Churchill nascera prematuro &#8211; o mesmo tendo acontecido a sir Isaac Newton! &#8220;Excusez du peu&#8221;&#8230; Prefiro citar a opini\u00e3o dos outros sobre mim. Dizem que sou modesto. Pelo contr\u00e1rio, sou t\u00e3o orgulhoso que acho que nunca escrevi algo \u00e0 minha altura. Porque poesia \u00e9 insatisfa\u00e7\u00e3o, um anseio de auto-supera\u00e7\u00e3o. Um poeta satisfeito n\u00e3o satisfaz. Dizem que sou t\u00edmido. Nada disso! sou \u00e9 calad\u00e3o, introspectivo. N\u00e3o sei porque sujeitam os introvertidos a tratamentos. S\u00f3 por n\u00e3o poderem ser chatos como os outros?<\/p>\n<p>Exatamente por execrar a chatice, a longuid\u00e3o, \u00e9 que eu adoro a s\u00edntese. Outro elemento da poesia \u00e9 a busca da forma (n\u00e3o da f\u00f4rma), a dosagem das palavras. Talvez concorra para esse meu cuidado o fato de ter sido pr\u00e1tico de farm\u00e1cia durante cinco anos. Note-se que \u00e9 o mesmo caso de Carlos Drummond de Andrade, de Alberto de Oliveira, de Erico Verissimo &#8211; que bem sabem (ou souberam) o que \u00e9 a luta amorosa com as palavras.<\/i><\/p><\/blockquote>\n<p>A outra mensagem, talvez a mais conhecida, \u00e9 o &#8220;poeminha do contra&#8221;, escrito numa \u00e9poca em que Quintana tentara por tr\u00eas vezes uma vaga na Academia Brasileira de Letras, sem nunca ter conseguido. \u00c9 praticamente uma ode \u00e0 obstina\u00e7\u00e3o, um lembrete aos que sentem vontade de jogar a toalha diante de qualquer adversidade provocada por inc\u00f4modos:<\/p>\n<blockquote><p><i>Todos esses que a\u00ed est\u00e3o<br \/>\natravancando meu caminho,<br \/>\neles passar\u00e3o&#8230;<br \/>\neu passarinho! <\/i><\/p><\/blockquote>\n<p>\u00c9 uma pena que dificilmente eu v\u00e1 passar ali outra vez, e mesmo que tivesse a oportunidade cada vez que sentisse minhas baterias fracas, esse tipo de exposi\u00e7\u00e3o itinerante fica por pouco tempo em um mesmo lugar. Preciso providenciar logo alguns cartazes com estes dizeres, pendur\u00e1-los em v\u00e1rios c\u00f4modos da casa e do trabalho, acompanhado por um galho de arruda. E quando tiver uma casa com quintal grande, pain\u00e9is semelhantes e coloridos ficar\u00e3o logo na entrada, distribuindo sorrisos singelos como um poema do Quintana.<\/p>\n<p><b>Ahn sim<\/b>, n\u00e3o deixe de ler a rea\u00e7\u00e3o do nosso vizinho <a href=\"http:\/\/www.interney.net\/blogs\/rolleiflex\/2007\/03\/03\/mario_quintana_a_maquina_do_tempo\" target=\"_blank\"><b>Alexandre Carvalho dos Santos<\/b><\/a>, que esbarrou nestes mesmos pain\u00e9is h\u00e1 um ano e meio&#8230;<\/p>\n<p><b>Atualizado<\/b>, gra\u00e7as ao meu celular novo, pude enriquecer este post com algumas imagens.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existem semanas que sequer deveriam ter come\u00e7ado e insistem em n\u00e3o terminar. 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