{"id":367,"date":"2008-09-06T23:37:35","date_gmt":"2008-09-07T02:37:35","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/a-brasilia-roubada-em-brasilia"},"modified":"2008-09-06T23:37:35","modified_gmt":"2008-09-07T02:37:35","slug":"a-brasilia-roubada-em-brasilia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/a-brasilia-roubada-em-brasilia\/","title":{"rendered":"A Bras\u00edlia roubada em Bras\u00edlia"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/backfut.gif\" align=\"right\" \/><b>Bras\u00edlia (DF)<\/b> &#8211; Observe atentamente a foto a seguir. Repare na caminhonete prateada, estacionada.<\/p>\n<p>Agora fa\u00e7a um esfor\u00e7o com a imagina\u00e7\u00e3o, retorne 17 anos e veja, bem ali, uma Bras\u00edlia amarela.<\/p>\n<p>Que n\u00e3o ficaria parada ali por muito tempo.<\/p>\n<div align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/brasilia1503.jpg\" \/><\/div>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 leu essa historinha aqui, perdida em um mega-texto sobre todos os meus finais de ano. Mas acho que, desta vez, tenho um bom pretexto para detalh\u00e1-la. Em 1988, meu pai tinha sido deslocado temporariamente para a Capital Federal. Eu e o meu irm\u00e3o, dois moleques, n\u00e3o t\u00ednhamos o menor compromisso com nada \u2013 especialmente entre dezembro e mar\u00e7o, ah como era bom ter f\u00e9rias escolares&#8230; Estava decidido: morar\u00edamos em Bras\u00edlia, todos juntos, por tr\u00eas meses.<\/p>\n<p>A viagem, de carro, durou todo nosso primeiro dia de 1989 \u2013 o sol ainda estava surgindo e j\u00e1 est\u00e1vamos na Anhanguera, ainda sem a infinidade de ped\u00e1gios. Meu pai no volante e, a bordo da valente Bras\u00edlia amarela 1978 (jovem como eu), muita tralha. Malas de roupas, utens\u00edlios dom\u00e9sticos, fitas cassete, minha mesa de bot\u00e3o, uma pipa de pl\u00e1stico, uma maquina fotogr\u00e1fica&#8230; Uma infinidade de coisas \u2013 o exagero foi vis\u00edvel na beira da estrada, quase em Catal\u00e3o, quando um dos pneus furou, obrigando meu pai a esvaziar o porta-malas (na frente) para reencontrar o estepe.<\/p>\n<p>A primeira vis\u00e3o da cidade, j\u00e1 no meio da noite, foi o Memorial JK. Bem ao longe, antes de fazer a curva, subir e descer viadutos, estava a Esplanada dos Minist\u00e9rios e o Congresso Nacional. Sem descarregar todo o carro, aportamos no simp\u00e1tico apart hotel, nosso novo endere\u00e7o. Ali\u00e1s, que endere\u00e7o: setor residencial e comercial norte, quadra 715, bloco F, apartamento 204. Deixamos algumas poucas coisas no carro: as fitas, a m\u00e1quina fotogr\u00e1fica com as fotos do Natal, a mesa de bot\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Nunca mais ver\u00edamos essas coisas novamente. J\u00e1 estava bem instalado na cama, assistindo ao in\u00e9dito \u201cO Pr\u00edncipe e o Mendigo\u201d no SBT (canal 12) quando meus pais gritam, ap\u00f3s um telefonema da portaria. \u201cRoubaram nosso carro!!!\u201d. Logo nos primeiros minutos de Bras\u00edlia. Era muito injusto.<\/p>\n<p>Levou menos de uma semana para a pol\u00edcia resgatar nosso carrinho. Ou melhor, o que sobrou dele. A placa (NK 7048) e a carca\u00e7a. N\u00e3o servia para nada, al\u00e9m da revenda. Valia Cz$ 750 mil, grana que dias depois se transformariam em apenas NCz$ 750.<\/p>\n<p>Nossos passeios eram de um dos dois tipos a seguir. Ou part\u00edamos em busca de um novo carrinho, a partir dos classificados do Correio Brasiliense \u2013 foi assim que conhecemos Sobradinho, onde resgataram a lata da Bras\u00edlia, e outras cidades-sat\u00e9lite&#8230;<\/p>\n<p>Ou tom\u00e1vamos o \u201cGrande Circular\u201d e part\u00edamos para os arredores do Eixo Monumental. Em uma das primeiras caminhadas, desembarcamos na rodovi\u00e1ria central, olhamos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Pra\u00e7a dos Tr\u00eas Poderes e conclu\u00edmos: ah, \u00e9 logo ali.<\/p>\n<p>E n\u00e3o era bem assim. Ali descobr\u00edamos as tr\u00eas raz\u00f5es b\u00e1sicas para evitar um passeio pedestre em Bras\u00edlia. O primeiro \u00e9 a ilus\u00e3o de que estamos perto. O segundo \u00e9 a aus\u00eancia de cal\u00e7adas pr\u00f3ximo aos \u201ccruzamentos\u201d e em outros locais. O terceiro \u00e9 o clima: quando voc\u00ea menos espera, chove. Dez ou quinze minutos depois, a chuva acaba. Em alguns casos, chuva e sol convivem harmoniosamente, ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>Em outro passeio micado, decidimos fazer a chamada \u201ccobertura de guerra aqui mesmo\u201d, mesmo sem saber disso. Vimos um \u00f4nibus apontando para o Lago Parano\u00e1 e embarcamos, at\u00e9 o ponto final. Confesso: eu nunca tinha visto nada t\u00e3o amedrontador. Aquilo, assim como algumas cidades-sat\u00e9lites, explicam onde foram parar os mais desprovidos, que n\u00e3o se encontravam em nenhum dos setores planejados do plano piloto. N\u00e3o lembro como foi, mas conseguimos sair dali.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m tenho boas lembran\u00e7as. Fomos muitas vezes ao parque da cidade, que chamava-se Rog\u00e9rio Pithon Farias (agora chama-se Sarah Kubitchek) para andar de pedalinho e botar a pipa de pl\u00e1stico bem alto. Tamb\u00e9m fomos (de carona) ao parque nacional, onde passamos a tarde inteira mergulhado em piscinas de \u00e1guas naturais.<\/p>\n<p>Tudo isso sem uma c\u00e2mera fotogr\u00e1fica. Mas tudo bem, haviam os cart\u00f5es postais. Foi exatamente nessa \u00e9poca que comecei minha cole\u00e7\u00e3ozinha \u2013 tamb\u00e9m era uma forma de visitar alguns pontos tur\u00edsticos sem muito esfor\u00e7o.<\/p>\n<p>Mas o melhor n\u00e3o estava propriamente nos parques ou outras atra\u00e7\u00f5es: o clima seco da cidade simplesmente mandou minha rinite al\u00e9rgica para o espa\u00e7o. Foram tr\u00eas meses inteiros sem espirros ou revolu\u00e7\u00f5es l\u00edquidas nas narinas. Quem diria&#8230;<\/p>\n<p>No fim, desistimos de comprar um novo carro. Pouco depois do Carnaval de 1989, juntamos todas as tralhas em malas, sacos de estopa e afins. Embarcamos bem cedo na rodoferrovi\u00e1ria e, no inicio da madrugada, j\u00e1 est\u00e1vamos em casa. N\u00e3o da pra chamar esse per\u00edodo bacana e intenso de nossas vidas de f\u00e9rias.<\/p>\n<div align=\"center\">***<br \/><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/brasiliamapa1203.jpg\" \/><\/div>\n<p>A sensa\u00e7\u00e3o de rever um lugar depois de tanto tempo \u00e9 muito estranha. Porque tinha uma imagem gravada na mente, mas que foi duramente atualizada, gra\u00e7as a implac\u00e1vel a\u00e7\u00e3o do tempo. A quadra 715 norte, assim como praticamente toda a cidade, sofre com o \u201cenvelhecimento\u201d, que lhe d\u00e1 uma sensa\u00e7\u00e3o estranha de descaso.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/calcada1503.jpg\" align=\"right\" \/>\u201cEssa regi\u00e3o da Asa Norte cresceu bastante dos anos 80 pra c\u00e1\u201d, me disse o <a href=\"http:\/\/www.alexandresena.jor.br\/blog.html\" target=\"_blank\"><b>Alexandre Sena<\/b><\/a>. Ele tem raz\u00e3o. Da varanda do nosso apartamento, t\u00ednhamos a vis\u00e3o de um terreno gramado, al\u00e9m da rua que separa as quadras 715 e 714. Agora, a vis\u00e3o do pr\u00e9dio \u00e9 interrompida por outros edif\u00edcios, da mesma altura erguidos naquele terreno.<\/p>\n<p>Uma das minhas lembran\u00e7as dos meus 11 anos de idade era a Panificadora Chaplin, que ficava quase no fim da quadra. Tinha um p\u00e3o de queijo sempre quentinho e saboroso. E todas as atendentes eram muito simp\u00e1ticas. Agora existem duas padarias, uma praticamente do lado da outra. Nenhuma delas se parece com a saudosa Chaplin.<\/p>\n<p>Caminhando pela W3 norte, resgatei outras duas recorda\u00e7\u00f5es: a banca de revistas onde comprava o Correio Brasiliense e alguns postais (ainda est\u00e1 ali, meio desfigurada) e o supermercado do outro lado da rua, as Casas da Banha. Ficava escondido, descendo as escadas do Edif\u00edcio Imperial. Hoje, nem sinal do CB: duas ag\u00eancias banc\u00e1rias tomaram conta do mesmo espa\u00e7o.<\/p>\n<div align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/w3norte1503.jpg\" \/><\/div>\n<p>Ainda a p\u00e9 pela cidade, resolvi checar os tr\u00eas itens que impedem qualquer pedestre de caminhar por essas bandas. Realmente, em muitas avenidas, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o andar pelo asfalto. Tamb\u00e9m n\u00e3o da para sair sem um guarda-chuva: ele certamente ser\u00e1 muito \u00fatil.<\/p>\n<p>Mas a sensa\u00e7\u00e3o de que tudo fica muito longe, admito, ficou menor. Sa\u00ed do meu hotel, diante do shopping P\u00e1tio Brasil, por volta das duas. Caminhei pela tradicional feira de artesanato da torre de TV e subi o eixo em dire\u00e7\u00e3o ao Memorial JK, pelo lado do parque da cidade.<\/p>\n<p>Na volta, desci pelo lado do complexo esportivo, onde fica o gin\u00e1sio Nilson Nelson (adoro esse nome!) e o est\u00e1dio Man\u00e9 Garrincha. Segui pela rodovi\u00e1ria central, Teatro Nacional, Esplanada&#8230; Quando vi, j\u00e1 estava na frente do Pal\u00e1cio do Planalto! Tudo bem, depois de fazer a volta em praticamente todo o \u201ccorpo do avi\u00e3o\u201d, minhas pernas est\u00e3o um baga\u00e7o. Mas acho que o dia valeu.<\/p>\n<p><i>(Postado em 16\/03\/2006)<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bras\u00edlia (DF) &#8211; Observe atentamente a foto a seguir. Repare na caminhonete prateada, estacionada. Agora fa\u00e7a um esfor\u00e7o com a imagina\u00e7\u00e3o, retorne 17 anos e veja, bem ali, uma Bras\u00edlia amarela. Que n\u00e3o ficaria parada ali por muito tempo. 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