{"id":329,"date":"2007-09-05T23:01:25","date_gmt":"2007-09-06T02:01:25","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/diarios-sem-motocicleta"},"modified":"2007-09-05T23:01:25","modified_gmt":"2007-09-06T02:01:25","slug":"diarios-sem-motocicleta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/diarios-sem-motocicleta\/","title":{"rendered":"Di\u00e1rios sem Motocicleta"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/ferias.gif\" align=\"right\" \/><font size=\"3\">Por <b>Marcos VP<\/b>, do blog <a href=\"http:\/\/pirao.wordpress.com\" target=\"_blank\"><b>Pir\u00e3o Sem Dono<\/b><\/a><\/font><\/p>\n<p>1978, Mossor\u00f3-RN. Minha primeira viagem de carro. T\u00e3o inesquec\u00edvel que eu guardo o gosto do primeiro lanche de estrada que eu comi na vida &#8211; um prosaico queijo-quente que eu fui roendo lentamente por quil\u00f4metros a fio de sert\u00e3o, rumo a Natal.<\/p>\n<p>1979 &#8211; S\u00e3o Luiz-MA. H\u00f3spedes do hotel Quatro Rodas da praia do Calhau, o mais luxuoso do pa\u00eds naquela \u00e9poca, eu e meu irm\u00e3o pass\u00e1vamos o dia na piscina, mergulhando de uma ponte que nela havia. Meu pai comeu tanta feijoada que passou mal. Certo dia, fomos a uma birosca comer A caldeirada de camar\u00e3o do Germano, lenda viva que, por ter muitos inimigos, morreu baleado sem dividir com ningu\u00e9m a receita do maravilhoso ensopado de frutos do mar que fez sua fama. Tamb\u00e9m nessa viagem eu quase fiquei rosa de tanto tomar Geneve, refrigerante que, anos depois viria a ser conhecido como Guaran\u00e1 Jesus.<\/p>\n<p>1979 &#8211; Piripiri-PI. No hotel fazenda mais xexelento e quente da gal\u00e1xia, come-se com uma das m\u00e3os. A outra tem que estar livre para espantar as moscas. Com minha xereta p&amp;b tirei fotos do lugar, que al\u00e9m dos insetos, tinha uma velha vaca leiteira e um pobre maracaj\u00e1 preso em uma min\u00fascula gaiola. Foi o \u00fanico hotel de minha vida de onde eu quis ir embora.<\/p>\n<p>1982 &#8211; S\u00e3o Paulo-SP. Tempo de vacas gordas. Sa\u00edmos viajando de Fortaleza em Janeiro e passamos por Rio, S\u00e3o Paulo, Foz do Igua\u00e7u, Bras\u00edlia e Manaus, at\u00e9 voltar ao Cear\u00e1. Em Sampa, eu joguei dez cents de d\u00f3lar nas fontes da pra\u00e7a da S\u00e9 pedindo para parar de chover. Depois disso, por quase dez anos, eu tive o poder de controlar o tempo.<\/p>\n<p>1982 &#8211; Foz do Igua\u00e7\u00fa-PR. Morre Elis Regina. Compramos um monte de muamba no Paraguai, inclusive rev\u00f3lveres de brinquedo com balas de festim. Sim, crian\u00e7as brincavam com isso antigamente. Eu brinquei e n\u00e3o me tornei um assassino maldito.<\/p>\n<p>1983 &#8211; Fl\u00f3rida-USA. Primeira viagem para o exterior. S\u00e3o 12 horas de viagem de avi\u00e3o, duas conex\u00f5es e duas escalas. Depois da terceira perna, meu pai me pro\u00edbe de continuar comendo a comida do avi\u00e3o. Mas ele e meu irm\u00e3o dormem e eu como a minha comida e a deles. Na chegada a Miami, h\u00e1 duas limousines esperando o grupo, uma s\u00f3 para meu pai e os filhos. Meu pai, menino pobre do Cear\u00e1, engasga e passa o traslado todo absolutamente mudo.<\/p>\n<p>1983 &#8211; Orlando-USA. Primeira vez numa montanha russa, o louco do meu irm\u00e3o me chama para os \u00fanicos assentos livres &#8211; os primeiros. O cora\u00e7\u00e3o quase sai pela boca. Depois, percebo como fui macho de andar naquilo. Cheio de coragem, resolvo, do alto dos meus doze anos, azarar a menina mais bonita do grupo, de 15. Coleciono 800 tocos. No segundo dia da Disney, meu pai olha para a gente logo na chegada e diz: &#8211; me encontrem aqui mesmo \u00e0s 5 da tarde. E manda a gente sumir da frente dele. \u00c9ramos dois moleques, de 12 e 9 anos. Olhamos um para o outro e zunimos, para passar o dia revirando o parque de cabe\u00e7a para baixo. No final, conhecemos dezenas de atra\u00e7\u00f5es que mais ningu\u00e9m no grupo viu. No hotel, meu irm\u00e3o toma um antial\u00e9rgico para bronquite e dorme. Ficamos trancados do lado de fora do apartamento.<\/p>\n<p>1986 &#8211; Teres\u00f3polis-RJ. Num pequeno hotel fazenda, ando a cavalo pela primeira vez. A porra do pangar\u00e9 dispara, desce um barranco, invade a planta\u00e7\u00e3o de alfaces de uma camponesa, quase atropela uma crian\u00e7a e eu ainda consigo levar o cavalo barranco acima. Sou o Rei. Dois anos mais tarde, em Fortaleza, outro cavalo me derrubaria e eu passaria mais de 15 anos sem conseguir montar em um eq\u00fcino.<\/p>\n<p>1989 &#8211; Miss\u00e3o Velha-CE. Tr\u00eas meses de f\u00e9rias no Cear\u00e1. Arrumo tr\u00eas namoradas. Para ficar com uma delas, eu viajo 800km de \u00f4nibus at\u00e9 o sert\u00e3o do Cariri. Ela fica de doce por tr\u00eas dias. Desisto e tomo o pior porre de cacha\u00e7a da minha vida. A\u00ed, ela resolve ficar comigo. Volto a Fortaleza para o carnaval mas n\u00e3o pego mais ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>1990 &#8211; Fortaleza-CE. Volta para o Rio, de \u00f4nibus. Pe\u00e7o dois calmantes para uma tia m\u00e9dica para dormir na viagem. Ela me d\u00e1 dois diazepan mas me orienta a tomar um a cada dia da viagem. Tomo o primeiro mas ele demora a fazer efeito e eu resolvo tomar o segundo de uma vez. Passo 48 horas feito um zumbi.<\/p>\n<p>1993 &#8211; Friburgo-RJ. Festa em S\u00e3o Pedro da Serra, regi\u00e3o de Lumiar. Na volta, um caminh\u00e3o tomba e fecha a estrada principal. Entramos, \u00e0s duas da madrugada em uma estrada secund\u00e1ria. Perdidos, fomos sair de l\u00e1 s\u00f3 umas quatro.<\/p>\n<p>1995 &#8211; Porto Seguro-BA. Lua de mel. Minha esposa \u00e0 \u00e9poca nunca tinha andado de avi\u00e3o e pelo menos essa parte da viagem foi boa. Mas chove muito. Perdemos um passeio de barco tr\u00eas vezes. Passo mal. Um gamb\u00e1 entra na minha mala. Esque\u00e7o meu anivers\u00e1rio. O agente de turismo esquece de buscar a gente para o traslado de volta e temos que nos virar de kombi, de Arraial D&#8217;Ajuda at\u00e9 o aeroporto. \u00c9, n\u00e3o foi uma boa viagem.<\/p>\n<p>1996 &#8211; Fl\u00f3rida-USA. Viagem para passar um m\u00eas nos Estados Unidos. Voamos pelo Lloyd A\u00e9reo Boliviano. 18 horas de viagem, com duas escalas e uma conex\u00e3o. Na perna entre Santa Cruz de La Sierra e Manaus descubro que uma velhinha que est\u00e1 sentada atr\u00e1s de mim est\u00e1 com um chul\u00e9 matador, um p\u00e9 que parece um queijo gorgonzola. S\u00e3o algumas das horas mais longas da minha vida. Chegando em Miami, eu me vejo com a pele absolutamente ressecada, por mais de 36 horas passadas integralmente sob ar-condicionado, dos avi\u00f5es, aeroportos, do carro e do apartamento de meu ex-cunhado. Sou obrigado a sair para cometer a bichisse de comprar um hidratante. Durante a viagem, escapamos por pouco de um furac\u00e3o, que passou ao largo da costa.<\/p>\n<p>1996 &#8211; Santa Cruz de La Sierra-BOL. Foram 26 horas de viagem de Miami ao Rio, com uma conex\u00e3o de 10h em Santa Cruz, que passamos em um hotel. Na escala em La Paz, percebemos o efeito que faz a altitude. Eu estava louco para ver os Andes do alto, mas estava tudo nublado. Vi apenas uma nesga de neve passando. No embarque de volta ao Brasil, revista pessoal para homens e mulheres. H\u00e1 uma troca de aeronave e na nova, nossos assentos ficam dentro da cozinha (galley). Ao chegar em S\u00e3o Paulo descobrimos que n\u00e3o temos vacina contra febre amarela e d\u00e1 a maior merda. Perdemos a conex\u00e3o das 20h para o Rio. O v\u00f4o seguinte \u00e9 \u00e0s 2h da manh\u00e3. Desembarcamos com 120kg de bagagem. E ainda t\u00ednhamos que ir de \u00f4nibus para Friburgo.<\/p>\n<p>1998 &#8211; Ilha Grande-RJ. Era meu anivers\u00e1rio. Est\u00e1vamos seguindo para a Ilha, na barca das 10h. O mar est\u00e1 muito mexido e eu come\u00e7o a enjoar. A viagem \u00e9 longa e eu ag\u00fcento firme. Ao chegar na Vila do Abra\u00e3o, quase beijo o ch\u00e3o firme. Esperando-me no fim do atracadouro, est\u00e3o meus pais e meus irm\u00e3os, ind\u00f3ceis. Tinham acabado de contratar um passeio de saveiro e o barco s\u00f3 estava esperando que cheg\u00e1ssemos para poder seguir.<\/p>\n<p>1999 &#8211; Fortaleza-CE. Carnaval na praia de Morro Branco. Mais de sessenta pessoas est\u00e3o hospedadas na casa da minha av\u00f3. Durante o carnaval, todos os casais, todos, sem exece\u00e7\u00e3o, se desentendem. Duas meninas perdidas aparecem durante a noite pedindo ajuda e s\u00f3 n\u00e3o s\u00e3o devidamente abatidas porque os poucos solteiros do bando s\u00e3o uns loseres. O toca fita do carro de um tio meu \u00e9 roubado junto com algumas garrafas de red label. O ladr\u00e3o aparece para tentar revender o roubo e meu tio negocia com ele s\u00f3 o whisky.<\/p>\n<p>1999 &#8211; Belo Horizonte-MG. Encontro Nacional de simuleteiros. Ganho um sorteio e fa\u00e7o uma v\u00f4o apavor\u00e2mico em um ultra-leve que, seis meses mais tarde, viria a matar o pr\u00f3prio dono. Na volta ao Rio, consigo viajar na cabine do ERJ da Rio-Sul. O Pouso no Santos-Dumont, num Rio nublado, em completo grayscale, \u00e9 uma das imagens que jamais desgrudar\u00e1 de minha retina.<\/p>\n<p>2001 &#8211; Matara\u00edzes-ES. Viajando de carro para Guarapari, percebo que a luz da bateria do meu velho possante est\u00e1 piscando. Isso me preocupa e me distrai e nem percebo que estou quase sem gasolina. Consigo chegar a um posto e abastecer. Ao tentar sair, a bateria do carro est\u00e1 completamente arriada. As escovas do alternador estavam gastas. Por sorte havia uma el\u00e9trica no mesmo posto.<\/p>\n<p>2001 &#8211; Jericoacoara-CE. Eu e uma amiga est\u00e1vamos na Praia das Fontes, 100km a leste de Fortaleza, para passar apenas o dia, pois ela tinha compromisso no dia seguinte. De repente, l[a para o meio dia, um telefonema cancela o compromisso e ela pergunta: a\u00ea, topa ir para Jeri agora? Eu topo. Jeri fica a 600 km de onde est\u00e1vamos. Fomos para l\u00e1 sem saber o caminho, sem reserva em pousada e apenas com duas toalhas de banho compradas no caminho, na SOCORRO Modas de Caucaia. Erramos o caminho v\u00e1rias vezes, pedimos informa\u00e7\u00e3o a b\u00eabados, quase paramos para dormir ao relento, em bancos de pra\u00e7a. S\u00f3 \u00e0s 2 da manh\u00e3, a bordo de um P\u00e1lio macho pacarai, batizado depois de &#8220;tatu\u00ed&#8221;, n\u00e3o porque era um tatu com inje\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nica, mas porque venceu a \u00faltima etapa da aventura &#8211; quil\u00f4metros de areia fofa da praia &#8211; com garbor e eleg\u00e2ncia, chegamos em Jeri, para, ent\u00e3o, tentarmos arrumar pousada. Conseguimos e foi uma das viagens mais fant\u00e1sticas que j\u00e1 fiz.<\/p>\n<p>2002 &#8211; Araras-RJ. Eu e a Thania estamos esperando, debaixo de chuva, come\u00e7ar um show do Alceu Valen\u00e7a. Estoicamente, passamos por todo um show de Gabriel, o Pensador. Antes de Alceu entrar, desistimos e voltamos para a pousada. A lenha da lareira, \u00famida, n\u00e3o acende de jeito nenhum. Nossas tentativas, contudo, defumaram todo o quarto. Dormimos como dois baconzitos.<\/p>\n<p>2003 &#8211; Fortaleza-CE. Show de humor na capital cearense. Aprendo duas importantes li\u00e7\u00f5es: nunca coma peixe em self-service depois do meio dia. E se voc\u00ea \u00e9 gordinho, nunca vista laranja e se sente na frente do palco em um show de humor. As conseq\u00fc\u00eancias podem ser tr\u00e1gicas. Com efeito, foram.<\/p>\n<p>2003 &#8211; Visconde de Mau\u00e1-RJ. Era para ser apenas um s\u00e1bado, mas havia um show legal de noite e resolvemos ficar. Alugamos um quarto na pousada mais fuleira onde jamais estivemos. Tivemos de comprar roupas de frio e escovas de dente. Durante o show, enchemos a cara de fondue de queijo e vinho. Tr\u00eas meses depois, a Thania aparece gr\u00e1vida.<\/p>\n<p>2003 &#8211; Jericoacoara-CE. Dois anos depois da lend\u00e1ria primeira viagem com o tatu\u00ed, repetimos a dose, eu, minha amiga e a Thania. A viagem foi mais planejada, mas ainda assim, inesquec\u00edvel. Nunca me esquecerei da Thania, gr\u00e1vida, tendo um chilique diante de uma placa de Bohemia e dizendo: EU QUERO, EU PRECISO!!!<\/p>\n<p>2005 &#8211; Friburgo-RJ. Ganho de presente duas semanas em um SPA, para emagrecer. Depois de duas semanas, parodiando Tim Maia, tudo o que eu perdi foram 15 dias. Tamb\u00e9m acabei perdendo o gostp pelos poucos vegetais que me apeteciam. No final, valeu pelas terapias m\u00edsticas, hol\u00edsticas e alternativas de que participei&#8230; limpeza de aura com cristais, massagem shirodhara, capoeira na \u00e1gua, mapa astral, arvorismo com tiroleza e o mais doido de tudo: o temascal, um ritual xam\u00e2nico que coloca um monte de gente junto com um monte de pedregulhos incandescentes, \u00e1gua fervendo e ervas esquisitas dentro de uma barraca escura e enlameada. Sai-se de l\u00e1 com a alma absolutamente disposta, disposta a nunca mais repetir tal ins\u00e2nia.<\/p>\n<p>2007 &#8211; Bras\u00edlia-RJ. Depois de seis meses, despe\u00e7o-me da capital. A greve de controladores de v\u00f4o impede que a Thania me encontre para revezar os 1200km de estrada entre a capital federal e o Rio, e eu sou obrigado a cumpr\u00ed-los sozinho, o que fa\u00e7o em 14 horas, num ritmo conhecido como &#8220;pau dentro&#8221;. O \u00fanico rev\u00e9s foi um pneu furado.<\/p>\n<p>2007 &#8211; Esse m\u00eas tem Mau\u00e1 de novo. E ano que vem, se tudo der certo, Buenos Aires. Queremos encher o cu de carne, assistir jogo do Boca Juniores na Bombonera, evitar o t\u00famulo de Evita, ir a Montevid\u00e9o, fu\u00e7ar o teatro Col\u00f3n, fazer compras de roupas de frio &#8211; eu quero uma camisa do V\u00e9lez &#8211; tomar vinho, comer alfajores, e assim como os hermanos portenhos, fingir que estamos flanando por alguma grande capital europ\u00e9ia. A viagem promete.<\/p>\n<p><i>Enquanto Marmota continua a comemorar cinco anos de blog ao lado do MarcosVP, a s\u00e9rie <b>Col\u00f4nia de F\u00e9rias<\/b> apresenta textos gentilmente preparados por seus amigos, torcendo para que todo mundo tenha ao menos uma experi\u00eancia destas por ano.<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Marcos VP, do blog Pir\u00e3o Sem Dono 1978, Mossor\u00f3-RN. Minha primeira viagem de carro. 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