{"id":317,"date":"2007-08-24T14:07:42","date_gmt":"2007-08-24T17:07:42","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/divagacoes-aleatorias-diante-dos-velhos-problemas-urbanos"},"modified":"2007-08-24T14:07:42","modified_gmt":"2007-08-24T17:07:42","slug":"divagacoes-aleatorias-diante-dos-velhos-problemas-urbanos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/divagacoes-aleatorias-diante-dos-velhos-problemas-urbanos\/","title":{"rendered":"Divaga\u00e7\u00f5es aleat\u00f3rias diante dos velhos problemas urbanos"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/pedra.gif\" align=\"right\" \/>Se voc\u00ea tiver o Google Earth em seu computador, jogue as seguintes coordenadas: <a href=\"http:\/\/maps.google.com\/maps?f=q&amp;hl=pt-BR&amp;geocode=&amp;q=-31.8166,+-52.7189&amp;ie=UTF8&amp;ll=-31.80902,-52.719269&amp;spn=0.124289,0.233459&amp;t=h&amp;z=12&amp;iwloc=addr&amp;om=1\" target=\"_blank\" title=\"Tamb\u00e9m funciona no Google Maps\"><b>-31.8166, -52.7189<\/b><\/a>. Navegue \u00e0 vontade pelos arredores desse cantinho aparentemente in\u00f3spito do globo terrestre. Perceba que Pelotas, a &#8220;cidade grande&#8221; mais pr\u00f3xima, na verdade est\u00e1 bem longe dali. \u00c9 naquele pontinho da zona rural, no Canto Grande (atual sub-distrito de Cap\u00e3o do Le\u00e3o), que minha m\u00e3e cresceu ao lado de seus seis irm\u00e3os. Minha av\u00f3, que hoje completaria 91 anos,  certamente ficaria feliz ao ver, l\u00e1 de cima, ao lado do meu av\u00f4, a velha casa, as floreiras, o p\u00e1tio de ch\u00e3o batido, o galp\u00e3o, as vacas e galinhas, a cacimba (po\u00e7o de \u00e1gua pot\u00e1vel), os p\u00e9s de bergamota (que talvez voc\u00ea conhe\u00e7a como mixirica ou tangerina), o a\u00e7ude abarrotado de lambaris e tra\u00edras&#8230; Enfim, tudo isso em ordem. Como h\u00e1 quarenta, cinquenta anos.<\/p>\n<p>Como a fam\u00edlia \u00e9 enorme (os irm\u00e3os tem filhos, netos e pior, cunhados), esse \u00e9 o tipo de sonho complexo de se realizar por raz\u00f5es internas, comuns a qualquer mortal que tenha algum parente. N\u00e3o importa: vez ou outra meus pais comentam, em nossa &#8220;rodinha de chimarr\u00e3o&#8221; matinal,  o que seria de n\u00f3s caso decid\u00edssemos largar nossos afazeres urbanos e viver nesse cantinho, ou em qualquer outro que remeta as origens dos meus pais &#8211; um sonho antigo deles, ainda mais forte diante de um monitor exibindo um mapa cheio de recorda\u00e7\u00f5es nas entrelinhas.<\/p>\n<p>&#8220;Mas voc\u00ea est\u00e1 louco? Trocar as benesses oferecidas pela roda da fortuna paulistana, as oportunidades de crescimento profissional, as pessoas que formam seu networking pessoal e profissional&#8230; Tudo isso por um pouco de mato?&#8221;. Perguntinha muito pertinente. \u00c9 \u00f3bvio que minha mente 100% racional responderia &#8220;n\u00e3o, f\u00e1cil&#8221; num estalar de dedos. O simples valor que dou \u00e0 minha fam\u00edlia j\u00e1 faz esse tempo aumentar em alguns minutos (apesar da resposta permanecer a mesma). Mas a nossa reles condi\u00e7\u00e3o humana prega alguns sustos dif\u00edceis de assimilar.<\/p>\n<p>E n\u00e3o estou falando apenas nos triviais interesses mesquinhos envolvendo &#8220;donos&#8221; e &#8220;colaboradores&#8221;. Mesmo nesse mundo altamente profissional, ainda existe algum respeito entre os homens &#8211; ainda que seja falso, mas o suficiente para manter a harmonia no ambiente. Aquele pontinho distante na zona rural ga\u00facha fica ainda mais convidativo ap\u00f3s alguns epis\u00f3dios violentos: todo mundo conhece algu\u00e9m que j\u00e1 passou por algum furto bobo, assalto no farol, sequestro-rel\u00e2mpago&#8230; Essas coisinhas bestas que, de t\u00e3o corriqueiros, j\u00e1 n\u00e3o provocam a menor indigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como ningu\u00e9m d\u00e1 bola ao pr\u00f3ximo (afinal, temos tantas preocupa\u00e7\u00f5es), somos obrigados a demonstrar nossa indigna\u00e7\u00e3o (ou &#8220;cansa\u00e7o&#8221;, como pede a moda) apenas em eventos de grande impacto &#8211; palavra infeliz para rememorar a trag\u00e9dia de Congonhas, evento que fez mais barulho que as naturais (???) <a href=\"http:\/\/www.interney.net\/blogs\/rolleiflex\/2007\/07\/21\/um_aviao_cai_a_cada_dois_dias_e_ninguem_\/\" target=\"_blank\"><b>mortes em acidentes automobil\u00edsticos<\/b><\/a>. Ali\u00e1s, j\u00e1 tentou conversar tranquilamente com qualquer pessoa com as m\u00e3os ao volante?<\/p>\n<p>E o que dizer de pessoas como eu, voc\u00ea ou <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha\/cotidiano\/ult95u320308.shtml\" target=\"_blank\"><b>aquela arquiteta<\/b><\/a>, que foi ali no pr\u00e9dio vizinho depois do almo\u00e7o ver como est\u00e3o as coisas mas foi surpreendida por um animal, que trocou a vida dela por dois celulares&#8230; E quando foi abordado pela m\u00e3e da mo\u00e7a, usou sua cara de pau para mand\u00e1-la procurar hospitais ou IML. Como se dissesse: &#8220;Olha, dona, nesse mundo c\u00e3o ningu\u00e9m sobrevive. Abra o olho&#8221;.<\/p>\n<p>Nessa batalha, existem dois ou tr\u00eas xiitas (&#8220;ent\u00e3o levante essa bunda gorda da cadeira e tome uma atitude, v\u00e1 \u00e0 luta e n\u00e3o fique a\u00ed lamentando sem fazer nada para mudar essa sua vidinha med\u00edocre&#8221;), cinco ou seis conformados (&#8220;ah, a humanidade est\u00e1 perdida, s\u00f3 nos resta aguardar o Ju\u00edzo Final&#8221;) uns quinze ou vinte inertes (daqueles que s\u00f3 acordam quando a altura da lama chega ao pesco\u00e7o) e uma multid\u00e3o perdida (eu incluso), preocupados com um futuro incerto em busca da melhor resposta &#8211; vai dizer que n\u00e3o passou pela sua cabe\u00e7a passar o resto de seus dias num canto onde nossas vidas valem muito mais, pescando, plantando milho e comendo bergamota?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se voc\u00ea tiver o Google Earth em seu computador, jogue as seguintes coordenadas: -31.8166, -52.7189. 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