{"id":294,"date":"2007-08-01T23:06:34","date_gmt":"2007-08-02T02:06:34","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/desvendando-o-internauta-padrao-parte-3-a-estrela"},"modified":"2007-08-01T23:06:34","modified_gmt":"2007-08-02T02:06:34","slug":"desvendando-o-internauta-padrao-parte-3-a-estrela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/desvendando-o-internauta-padrao-parte-3-a-estrela\/","title":{"rendered":"Desvendando o Internauta-padr\u00e3o, parte 3: a estrela"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/fiquepordentro.gif\" align=\"right\" \/>Em praticamente todos os per\u00edodos da hist\u00f3ria, o poder da escrita separava as castas superiores e inferiores da sociedade &#8211; a Idade M\u00e9dia nos traz o maior exemplo, onde havia um abismo entre os escribas do clero e os reles vassalos. O alcance deste poderoso instrumento aumentou por volta de 1450, quando um alem\u00e3o de sobrenome Gutemberg inventou a imprensa e os primeiros tipos m\u00f3veis. O instrumento amplificou como nunca a for\u00e7a da palavra escrita, culminando com o surgimento de um novo poder: a m\u00eddia (ou <a href=\"http:\/\/diadefolga.com\/blogs-versus-midia-tradicional-a-guerra-comecou\" target=\"_blank\"><b>&#8220;os media&#8221;<\/b><\/a>).<\/p>\n<p>Historicamente, o poder da comunica\u00e7\u00e3o sempre foi privil\u00e9gio de poucos. A Internet, no entanto, abre uma possibilidade impens\u00e1vel at\u00e9 bem pouco tempo: a democratiza\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o. \u00d3bvio que os grandes conglomerados sabem disso e j\u00e1 est\u00e3o de olho n\u00e3o apenas nesse mundo novo, mas principalmente em outras grandes empresas, interessadas nos neg\u00f3cios do ramo (\u00e9 o caso das &#8220;teles&#8221;). Apesar disso, \u00e9 ineg\u00e1vel que este momento de transi\u00e7\u00e3o, onde podemos consumir, produzir, transformar qualquer tipo de conte\u00fado, representa uma quebra de valores muito forte. O modelo de comunica\u00e7\u00e3o de massa, onde um transmitia para muitos, vem sendo substitu\u00eddo por outro, onde qualquer um tem acesso ao mesmo microfone, compartilhando id\u00e9ias.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que, mesmo na \u00e9poca de Gutemberg, o exerc\u00edcio da escita dependia do ato de pensar. Mesmo atributo necess\u00e1rio para compreender as mudan\u00e7as de paradigma provocadas por este cen\u00e1rio. Infelizmente, o Internauta-padr\u00e3o n\u00e3o gosta de usar a massa cinzenta. Assim, ainda que ele ultrapasse a dif\u00edcil barreira do &#8220;saber escrever&#8221;, provavelmente ainda se sinta na Idade M\u00e9dia, como se tivesse com todo o poder em suas m\u00e3os.<\/p>\n<p><i><u>Quem \u00e9 o Internauta-padr\u00e3o estrela?<\/u><\/i><\/p>\n<p><i>Estrela 1<\/i> era um moleque como outro qualquer, at\u00e9 ganhar de presente um computador com acesso \u00e0 Internet. Foi o primeiro da rua a ter em m\u00e3os essa poderosa ferramenta, e fez quest\u00e3o de alardear o feito a todos os seus amigos: &#8220;eu tenho, voc\u00ea n\u00e3o tem!&#8221;. Suas primeiras provid\u00eancias foram instalar o MSN e abrir uma conta no Orkut, para que pudesse ca\u00e7ar amigos e influenciar outras pessoas que, assim como ele, estavam naquele lugar transado e cheio de possibilidades.<\/p>\n<p>Ignorava a TV, os livros, as brincadeiras da rua&#8230; Tudo que <i>Estrela 1<\/i> queria, quando voltava da escola, era entrar na Internet. Levou poucos dias para descobrir em uma comunidade a deliciosa ferramenta blog: criou um novo em minutos, sintetizando no t\u00edtulo aquilo que ele julgava ser capaz de fazer diante daquela m\u00e1quina espetacular: TODAS AS NOT\u00cdCIAS DO MUNDO. Em menos de uma semana, aquele humilde moleque da rua sentia-se como se fosse o <a href=\"http:\/\/tecnologia.terra.com.br\/interna\/0,,OI1802209-EI4795,00.html\" target=\"_blank\"><b>Rupert Murdoch<\/b><\/a>.<\/p>\n<p>Tudo ia maravilhosamente bem em seu mundo encantado, povoado por alguns amigos. At\u00e9 que ele decidiu reproduzir um texto encontrado em outro blog &#8211; sem querer, ele at\u00e9 fez a coisa direito: viu que o conte\u00fado era Creative Commons e citou a fonte.<\/p>\n<p>O que ele n\u00e3o imaginava \u00e9 que o blog em quest\u00e3o era mantido por <i>Estrela 2<\/i>, jornalista h\u00e1 mais de vinte anos e editor do maior peri\u00f3dico de sua cidadezinha no interior do Brasil. Os dois passaram longos dias em uma intensa disputa de egos, dispon\u00edvel publicamente em seus blogs: enquanto o primeiro bradava &#8220;o espa\u00e7o \u00e9 meu, e fa\u00e7o o que bem entender&#8221;, o segundo lamentava &#8220;justo eu, uma pessoa de reputa\u00e7\u00e3o ilibada, preciso conviver com essa estirpe&#8221;. Os dois tinham total raz\u00e3o, e continuaram com ela at\u00e9 o fim.<\/p>\n<p><i><u>Caracter\u00edsticas do Internauta-padr\u00e3o estrela<\/u><\/i><\/p>\n<p>&#8211; Basicamente: ao entrar na rede, sente-se diferente, \u00fanico, exclusivo. O que lhe deixa tomado por um estranho e inexplic\u00e1vel poder.<\/p>\n<p>&#8211; Coleciona amigos no Orkut, exige testemunhais elogiosos, cora\u00e7\u00f5es e afins. E acha estranho (para n\u00e3o dizer &#8220;revoltante&#8221;) se algu\u00e9m ignora ou recusa seu pedido.<\/p>\n<p>&#8211; Cria um blog para dizer ao mundo que odeia conviver com gente diferente dele. Ou para citar feitos her\u00f3icos de sua vida espetacular.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda no blog, invariavelmente, come\u00e7a seus textos com express\u00f5es do tipo &#8220;hoje eu estou inspirado&#8221;, &#8220;estou me tornando especialista nesse tema&#8221;, &#8220;vejam que coisa maravilhosa eu criei&#8221;, &#8220;acho que eu mere\u00e7o um pr\u00eamio agora&#8230;&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; Em casos mais extremos, define seu blog como um &#8220;estupendo ve\u00edculo de comunica\u00e7\u00e3o de massa&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o responde e-mails. Ou, quando o faz, usa algum mecanismo p\u00fablico, como seu pr\u00f3prio blog ou uma lista de discuss\u00e3o, para mostrar que est\u00e1 com a raz\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda que cometa um erro ou esteja falando uma bobagem, e mesmo que pe\u00e7a desculpas discretamente, jamais vai descer do pedestal: a culpa nunca ser\u00e1 dele.<\/p>\n<p><i><u>Eu sou um Internauta-padr\u00e3o estrela!!! E agora???<\/u><\/i><\/p>\n<p>Antes de mais nada, \u00e9 importante deixar duas coisas bastante claras.<\/p>\n<p>A primeira: pode ser que voc\u00ea seja um jornalista. Daqueles que est\u00e1 na \u00e1rea h\u00e1 muito tempo e, impregnado pelo poder natural que a m\u00eddia oferece, sinta-se mesmo com algum poder al\u00e9m dos demais. Normal. Afinal de contas, \u00e9 um &#8220;especialista em comunica\u00e7\u00e3o&#8221;, por isso sempre tem raz\u00e3o ao defender uma postura \u00e9tica, condenando seus interlocutores med\u00edocres. Nesse caso, lamento dizer, mas n\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda: certamente voc\u00ea continuar\u00e1 assim at\u00e9 o fim dos seus dias. Viva a sua vida e seja feliz.<\/p>\n<p>A segunda: pode ser que voc\u00ea seja como a <a href=\"http:\/\/loucaporblog.wordpress.com\/2007\/07\/26\/eu-me-acho\" target=\"_blank\"><b>Dra. Claudia Gomes Lyra Siqueira<\/b><\/a>. Ela \u00e9 realmente muito boa no que faz, e n\u00e3o se incomoda em dizer isso a ningu\u00e9m. Voc\u00ea tamb\u00e9m pode ser algu\u00e9m carregado de conhecimentos imprescind\u00edveis e pontos de vista inquietantes, ter a plena consci\u00eancia disso e demonstrar tal capacidade sem esfor\u00e7o algum. Nesses casos, mesmo que o cidad\u00e3o seja o maior antip\u00e1tico da par\u00f3quia (e obviamente n\u00e3o estou falando da Claudia!), eu tiro o chap\u00e9u.<\/p>\n<p>Tanto os jornalistas quanto os fora-de-s\u00e9rie, assim que desembarcam no mundo virtual, est\u00e3o propensas a esbarrar com pessoas como eu, voc\u00ea e (infelizmente) os Internautas-padr\u00e3o. N\u00e3o seria preciso lembrar o quanto \u00e9 rid\u00edculo comparar o n\u00edvel de conhecimento entre usu\u00e1rios distintos, mas como o texto \u00e9 direcionado para estrelas, \u00e9 fundamental lembrar: como estamos no mesmo ambiente, o diferencial n\u00e3o est\u00e1 no que sabemos, mas em como nos relacionamos.<\/p>\n<p>Nesse caso, nada impede que voc\u00ea permane\u00e7a brilhante, auto-suficiente, supremo. Buscar por fama pura e simples \u00e9 um direito seu. Agora, em um ambiente onde a colabora\u00e7\u00e3o e a interliga\u00e7\u00e3o \u00e9 a base (o nome &#8220;rede&#8221; n\u00e3o existe \u00e0 toa), um ponto com elos fr\u00e1geis ou inexistentes n\u00e3o significa muito. Mesmo nomes de grande reputa\u00e7\u00e3o, como Dan Gillmor (um dos precursores do jornalismo cidad\u00e3o), adota o seguinte lema: &#8220;Eu at\u00e9 sei algumas coisas, mas o p\u00fablico sabe mais do que eu. E isso \u00e9 maravilhoso, pois eu posso contar com a ajuda de todos para saber cada vez mais&#8221;. Assim todos os pontos da rede se fortalecem naturalmente, sem deixar espa\u00e7o para quem n\u00e3o est\u00e1 nem a\u00ed com as pessoas.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m pode dizer que as palavras &#8220;humildade&#8221; e &#8220;responsabilidade&#8221; resumem tudo que est\u00e1 escrito acima. Verdade, e elas deveriam ser \u00fateis mesmo fora da rede. No entanto, conv\u00e9m lembrar que &#8220;Internauta-padr\u00e3o&#8221; \u00e9 um estado de esp\u00edrito: de repente, qualquer um de n\u00f3s esquece de pensar e, num estalo, a vontade de aparecer \u00e9 maior. Acontece, qualquer um comete erros. Que eles sejam moment\u00e2neos, portanto.<\/p>\n<p><i><u>Na parte 4: o justiceiro.<\/u><\/i><\/p>\n<p>Antes de virar a p\u00e1gina, gostaria de agradecer ao <a href=\"http:\/\/rafaelporto.blogspot.com\/2007\/07\/quem-acessa-internet.html\" target=\"_blank\"><b>Rafael<\/b><\/a>, \u00e0 <a href=\"http:\/\/attu.typepad.com\/universo_anarquico\/2007\/06\/discusses_na_bl.html\" target=\"_blank\"><b>Tina<\/b><\/a>, ao <a href=\"http:\/\/vejabem.wordpress.com\/2007\/06\/19\/e-scolaridade\" target=\"_blank\"><b>Andr\u00e9 Souza<\/b><\/a>, \u00e0 <a href=\"http:\/\/ceilasantos.blogspot.com\/2007\/06\/gafe-da-paixo-flor-da-pele.html\" target=\"_blank\"><b>Ceila Santos<\/b><\/a>, ao <a href=\"http:\/\/www.techbits.com.br\/2007\/06\/22\/a-questao-do-plagio-na-web\" target=\"_blank\"><b>Fugita-san<\/b><\/a>, ao <a href=\"http:\/\/escritatorta.em.blog.br\/archives\/188\" target=\"_blank\"><b>Norberto<\/b><\/a> e ao <a href=\"http:\/\/www.contraditorium.com\/2007\/07\/15\/tratado-marmota-sobre-o-internauta-padrao\" target=\"_blank\"><b>Cardoso<\/b><\/a>. Todos receberam de bra\u00e7os abertos o conceito do Internauta-padr\u00e3o, e contribuiram de alguma forma para que eu retomasse a s\u00e9rie (apesar do atraso).<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m preciso agradecer a outras duas personalidades, por suas declara\u00e7\u00f5es sensacionais. A come\u00e7ar com <a href=\"http:\/\/www.contraditorium.com\/2007\/07\/08\/ziraldo-internet-e-meias-verdades\" title=\"Citado aqui pelo Cardoso\" target=\"_blank\"><b>Ziraldo<\/b><\/a>. &#8220;Os quatro primeiros anos s\u00e3o formativos, n\u00e3o informativos. Informa\u00e7\u00e3o t\u00e1 na Internet, t\u00e1 no Google, t\u00e1 por a\u00ed. Se voc\u00ea n\u00e3o sabe ler voc\u00ea n\u00e3o sabe procurar. Agora se eu n\u00e3o souber ler estou perdido. Internet por exemplo \u00e9 o antro do d\u00e9bil mental. S\u00f3 tem idiota na Internet. \u00c9 uma coisa &#8211; o usu\u00e1rio da Internet \u00e9 um babaca, entendeu? Aquelas mensagens, aquelas piadas que chegam, \u00e9 tudo de uma indig\u00eancia\u2026 eles escrevem mal, eles t\u00eam um mau-gosto terr\u00edvel, agora, a Internet \u00e9 fundamental porque toda a informa\u00e7\u00e3o TODA est\u00e1 l\u00e1. Agora, se voc\u00ea n\u00e3o sabe ler, n\u00e3o tem curiosidade, de que adiante aquele presente dos deuses? N\u00e3o aprenderam a respeitar a palavra, que \u00e9 o que nos identifica&#8221;.<\/p>\n<p>Por fim, meus cumprimeiros ao historiador brit\u00e2nico <a href=\"http:\/\/www.outrosolhos.com.br\/2007\/07\/30\/blogs-e-jornalismo-amigos-ou-rivais\" target=\"_blank\" title=\"Citado brilhantemente pelo Gustavo Jreige\"><b>Andrew Keen<\/b><\/a>. Ele pode ter uma vis\u00e3o extremamente conservadora ao defender o Estado e as velhas m\u00eddias, mas n\u00e3o nego a exist\u00eancia de um caos de informa\u00e7\u00f5es in\u00fateis e inver\u00eddicas (e mais: como algu\u00e9m pode ser contra os blogs <a href=\"http:\/\/andrewkeen.typepad.com\" target=\"_blank\"><b>mantendo um<\/b><\/a>?). &#8220;Tenho blog para vender o livro e construir minha marca. A Internet \u00e9 uma grande plataforma de marketing, mas \u00e9 preciso ter algo por tr\u00e1s. Meu livro n\u00e3o defende que as pessoas n\u00e3o tenham blogs, apenas que n\u00e3o finjam que s\u00e3o substitutos da m\u00eddia tradicional ou representantes de fontes de informa\u00e7\u00e3o confi\u00e1veis sobre o mundo. Me preocupa que as pessoas se ap\u00f3iem em um conceito como o que ele criou para roubar id\u00e9ias alheias, me inquieta essa permissividade geral em rela\u00e7\u00e3o aos direitos autorais, em especial entre os jovens&#8221;.<\/p>\n<p>Respeito o ponto de vista deles. Ao mesmo tempo, eu n\u00e3o me considero um idiota, um analfabeto, um irrespons\u00e1vel&#8230; Para mim, est\u00e1 claro: eles n\u00e3o est\u00e3o se referindo a mim, mas ao Internauta-padr\u00e3o. Estou errado?<\/p>\n<p><i><u>N\u00e3o deixe de ver ainda&#8230;<\/u><\/i><br \/>\n&#8211; <a href=\"http:\/\/www.interney.net\/blogs\/marmota\/2007\/06\/13\/internauta_padrao_o_crente\" target=\"_blank\"><b>Parte 1: o Internauta-padr\u00e3o crente<\/b><\/a><br \/>\n&#8211; <a href=\"http:\/\/www.interney.net\/blogs\/marmota\/2007\/06\/17\/desvendando_o_internauta_padrao_parte_2\" target=\"_blank\"><b>Parte 2: o Internauta-padr\u00e3o plagiador<\/b><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em praticamente todos os per\u00edodos da hist\u00f3ria, o poder da escrita separava as castas superiores e inferiores da sociedade &#8211; a Idade M\u00e9dia nos traz o maior exemplo, onde havia um abismo entre os escribas do clero e os reles vassalos. 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