{"id":289,"date":"2007-07-27T23:28:41","date_gmt":"2007-07-28T02:28:41","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/uma-salva-de-vaias-para-o-pan"},"modified":"2007-07-27T23:28:41","modified_gmt":"2007-07-28T02:28:41","slug":"uma-salva-de-vaias-para-o-pan","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/uma-salva-de-vaias-para-o-pan\/","title":{"rendered":"Uma salva de vaias para o Pan"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/pan.jpg\" align=\"right\" \/>Os Jogos Pan-americanos acabam (finalmente) neste final de semana &#8211; ou seja, ainda d\u00e1 tempo do Brasil conhecer algum outro grande nome que v\u00e1 se sobressair na competi\u00e7\u00e3o. Candidatos n\u00e3o faltam: Thiago Pereira, Marta, Hugo Hoyama, Janeth, Marcelinho&#8230; Independente dos destaques esportivos, eu me arrisco a dizer que o grande nome do Pan \u00e9 a vaia.<\/p>\n<p>Nunca se falou tanto nesse tipo de manifesta\u00e7\u00e3o quanto nas \u00faltimas duas semanas. A come\u00e7ar, \u00e9 bom lembrar, com a cerim\u00f4nia do Maracan\u00e3 &#8211; est\u00e1dio onde os apupos surgem at\u00e9 em minuto de sil\u00eancio, como dizia Nelson Rodrigues. Logo nos primeiros instantes, vaiaram o presidente (eu tamb\u00e9m vaiaria); vaiaram os norte-americanos (talvez um ou dois tenham gritado &#8220;yankees go home&#8221;); e vaiaram as delega\u00e7\u00f5es da Venezuela e da Bol\u00edvia (hmmm&#8230; precisava?). Enfim, como elas se concentraram no efelenf\u00edssimo, o assunto ganhou conota\u00e7\u00e3o pol\u00edtica &#8211; especula-se at\u00e9 hoje se C\u00e9sar Maia teria combinado com meia d\u00fazia de tr\u00eas ou quatro, assim as dezenas de milhares de espectadores pegaram o embalo. Pode ser.<\/p>\n<p>Come\u00e7aram os eventos e as vaias n\u00e3o diminuiram. Pelo contr\u00e1rio, ficaram cada vez mais frequentes, em v\u00e1rias pra\u00e7as esportivas, antes, durante e depois das provas. O primeiro caso com alguma repercuss\u00e3o p\u00f3s-Lula veio na gin\u00e1stica art\u00edstica: enquanto o sistema de som da arena multiuso, em Jacarepagu\u00e1, pedia aplausos dos espectadores para todos os atletas, Oscar Schmidt, ex-jogador, comentarista e torcedor de carteirinha, incentivava as vaias aos norte-americanos. Protagonizou ainda uma das frases marcantes do Pan: &#8220;Vai escorregar, chileno. Vai cair!&#8221;, dizia o M\u00e3o Santa ao ginasta Enrique Gonzalez.<\/p>\n<p><font color=\"#F26A00\"><b>Tem gente que \u00e9 contra<\/b><\/font> &#8211; &#8220;Adoro torcida, principalmente os brasileiros, d\u00e3o muita energia. S\u00f3 n\u00e3o gostei das vaias. Os advers\u00e1rios est\u00e3o aqui para fazer a parte deles. Gin\u00e1stica n\u00e3o precisa disso. N\u00e3o \u00e9 um jogo de futebol, v\u00f4lei ou basquete. E se voc\u00ea torce contra, algum dia volta para voc\u00ea&#8221;, alfinetou La\u00eds Souza, ap\u00f3s o turbilh\u00e3o de manifesta\u00e7\u00f5es anti-americanas.<\/p>\n<p>Ok, em uma primeira an\u00e1lise, \u00e9 uma quest\u00e3o de costume: brasileiros n\u00e3o est\u00e3o acostumados a torcer em eventos de gin\u00e1stica, ent\u00e3o podemos deixar passar. Tamb\u00e9m \u00e9 assim quando o pa\u00eds recebe etapas da Copa Davis de t\u00eanis: assim como na gin\u00e1stica, o atleta precisa de concentra\u00e7\u00e3o. Mas o p\u00fablico, muito longe de ser os comportadinhos espectadores de Wimbledon, perturbam o tempo todo, inclusive na hora do saque ou em momentos decisivos de disputa.<\/p>\n<p>Mas enfim. A pol\u00eamica aumentou no domingo seguinte, gra\u00e7as a dois eventos considerados lament\u00e1veis pela organiza\u00e7\u00e3o. O primeiro n\u00e3o teve nenhuma influ\u00eancia da torcida, apesar da rivalidade forte entre brasileiros e argentinos: a briga generalizada entre jogadores na final masculina no handebol, vencida pelo Brasil, aos olhos de M\u00e1rio V\u00e1zquez Ra\u00f1a, presidente da Odepa. O segundo, no jud\u00f4, come\u00e7ou com vaias aos ju\u00edzes, copos e pap\u00e9is atirados na tribuna cubana e nova confus\u00e3o. Cuba, que estava ali quietinha, entrou no rol de pa\u00edses hostilizados pelos torcedores.<\/p>\n<p>&#8220;Vamos aplaudir todos os atletas. Eles se esfor\u00e7aram muito para chegar at\u00e9 aqui nesta disputa&#8221;, insistia ainda mais o locutor do Engenh\u00e3o, durante as primeiras provas de atletismo. N\u00e3o adiantou. Enquanto Fabiana Murer conquistava a medalha de ouro no salto com vara, a norte-americana April Steiner era homenageada com uma salva de vaias a cada tentativa. Havia aplausos tamb\u00e9m, \u00e9 claro. Sempre que um estrangeiro falhava.<\/p>\n<p>Mesmo com a redu\u00e7\u00e3o significativa, as manifesta\u00e7\u00f5es ganhavam coment\u00e1rios pesados. Todos atrelados \u00e0 imagem transmitida l\u00e1 fora: a do brasileiro que n\u00e3o tem educa\u00e7\u00e3o. &#8220;Essa gente que usa t\u00eanis Nike, come no McDonalds, veste uniforme da NBA e curte Black Eyed Peas, mas que na hora da confraterniza\u00e7\u00e3o dos povos, s\u00f3 sabe vaiar atletas que nada tem a ver com o governo Bush&#8221;, trata-se do discurso padr\u00e3o cutucando a grande maioria, que no embalo das vaias, \u00e9 taxado (com alguma raz\u00e3o) de ignorante.<\/p>\n<p><font color=\"#F26A00\"><b>Mas ser\u00e1 que \u00e9 para tanto?<\/b><\/font> &#8211; Nem tanto para o lado do &#8220;povinho despreparado&#8221;, nem para o da &#8220;liberdade total de express\u00e3o&#8221;. O que deve ser levado em conta sempre \u00e9: vaiar por qu\u00ea?  De fato, n\u00e3o acho inteligente contribuir para a falta de equil\u00edbrio psicol\u00f3gico de ginastas, tenistas, saltadores ou at\u00e9 cavaleiros &#8211; ali\u00e1s, dava para ouvir claramente os in\u00fameros &#8220;shhh&#8221; durante a passagem de C\u00e9sar Almeida nos obst\u00e1culos do hipismo, sinal de respeito. Mexer com o brio de atletas em disputas individuais realmente \u00e9 complicado. Soa como ofensa, maldade mesmo.<\/p>\n<p>Mas nas modalidades coletivas, onde as vaias se espalham pela equipe toda, elas s\u00e3o perfeitamente aceit\u00e1veis, e fazem parte do espet\u00e1culo. Quer dizer, na maioria dos casos. Hostilizar o Bernardinho pelo corte do melhor jogador do mundo por um motivo besta \u00e9 compreens\u00edvel. Mas vaiar o Bruninho Resende s\u00f3 por ele ser filho do treinador, respingando em uma equipe que j\u00e1 mostrou ao pa\u00eds sua capacidade vencedora, \u00e9 um neg\u00f3cio esquisito.<\/p>\n<p>Agora, normalmente, a rea\u00e7\u00e3o t\u00edpica de qualquer est\u00e1dio de futebol pode ser levada a qualquer confronto. Responda francamente: imagine voc\u00ea no Maracan\u00e3zinho, assistindo a Brasil x Cuba, pelo v\u00f4lei feminino. As advers\u00e1rias, acostumadas a lidar com press\u00e3o da torcida, provocam n\u00e3o s\u00f3 as atletas brasileiras, como tamb\u00e9m a pr\u00f3pria arquibancada. O que fazer? Aplaudir? Respeitar o advers\u00e1rio? Uma banana. Elas merecem a maior quantidade de &#8220;uhhh&#8221; poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Voc\u00ea pode achar esse papo de &#8220;rivalidade&#8221; a maior bobagem, mas admita: ela faz parte do esporte. E quem busca excel\u00eancia t\u00e9cnica, precisa ir atr\u00e1s da excel\u00eancia psicol\u00f3gica. Nas palavras da <a href=\"http:\/\/nossacanossa.blogspot.com\/2007_07_01_archive.html#2472473597214017171\" target=\"_blank\"><b>Carol<\/b><\/a>: &#8220;\u00e9 divertido ver jogos altamente competitivos, repletos de provoca\u00e7\u00f5es, decis\u00f5es pol\u00eamicas da arbitragem, torcida xingando e nervos \u00e0 flor da pele que n\u00e3o raramente culiminam em briga&#8221;. Simples assim.<\/p>\n<p>Ah, n\u00e3o poderia deixar passar o coment\u00e1rio do <a href=\"http:\/\/meuspitacos.zip.net\" target=\"_blank\"><b>F\u00e1bio<\/b><\/a>: &#8220;o epis\u00f3dio Lula no Maracan\u00e3 s\u00f3 n\u00e3o foi perfeito porque faltaram as vaias ao C\u00e9sar Maia e ao Carlos Arthur Nuzman. Aplaudir esses dois \u00e9 piada, n\u00e9?&#8221;. Realmente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os Jogos Pan-americanos acabam (finalmente) neste final de semana &#8211; ou seja, ainda d\u00e1 tempo do Brasil conhecer algum outro grande nome que v\u00e1 se sobressair na competi\u00e7\u00e3o. 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