{"id":288,"date":"2007-07-26T23:28:45","date_gmt":"2007-07-27T02:28:45","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/e-os-taxistas-de-congonhas-como-ficam"},"modified":"2007-07-26T23:28:45","modified_gmt":"2007-07-27T02:28:45","slug":"e-os-taxistas-de-congonhas-como-ficam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/e-os-taxistas-de-congonhas-como-ficam\/","title":{"rendered":"E os taxistas de Congonhas, como ficam?"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/plantao.jpg\" align=\"right\" \/>T\u00e1 rolando uma campanha interessante na rede, bolada pela trupe do <a href=\"http:\/\/updateordie.com\/updates\/uncategorized\/2007\/07\/nao-voe-por-congonhas\" target=\"_blank\"><b>Update or Die<\/b><\/a> e refor\u00e7ada por <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha\/cotidiano\/ult95u313591.shtml\" target=\"_blank\"><b>pilotos da TAM<\/b><\/a> e <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha\/ilustrada\/ult90u313579.shtml\" target=\"_blank\"><b>funcion\u00e1rios da TV Record<\/b><\/a>: se tiver que vir a S\u00e3o Paulo ou sair da capital, n\u00e3o o fa\u00e7a por Congonhas.<\/p>\n<p>Pessoalmente, sempre fa\u00e7o isso quando posso escolher, mas por uma raz\u00e3o diferente da maioria: eu moro longe da civiliza\u00e7\u00e3o, mas a 20 minutos do Aeroporto de Guarulhos. Talvez eu seja um dos poucos a n\u00e3o reclamar das in\u00fameras alternativas que surgem por a\u00ed: reforma de Viracopos, v\u00f4os em Jundia\u00ed ou S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos, trem expresso entre Cumbica e a Barra Funda, e da Barra Funda para Campinas&#8230; Tudo porque, de uma hora para outra, o lugar que at\u00e9 esses dias reunia a maior quantidade de pousos e decolagens no pa\u00eds, est\u00e1 condenado. Surpreendente, n\u00e3o?<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/cghnao230707.gif\" align=\"right\" \/>Infelizmente nem sempre consigo passagens por Cumbica (agora <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha\/cotidiano\/ult95u315274.shtml\" target=\"_blank\"><b>isso n\u00e3o \u00e9 problema<\/b><\/a>), o que me for\u00e7a a partir e chegar pela pequena j\u00f3ia da Washington Lu\u00eds. Isso quando n\u00e3o sou obrigado a relaxar e gozar, como da \u00faltima vez em que estive por l\u00e1, em seis de julho. Resumidamente: um v\u00f4o que deveria sair \u00e0s 22h10 de Congonhas acabou deixando S\u00e3o Paulo depois das duas da manh\u00e3, em Guarulhos (se soubesse, teria ido direto). Com direito a detec\u00e7\u00e3o dobrada dobrada de metais (uma em cada aeroporto), gente estressada nas salas de embarque e funcion\u00e1rias que pareciam vender hortali\u00e7as em feiras livres ao anunciarem o &#8220;novo port\u00e3o de embarque&#8221; a cada v\u00f4o modificado. O horr\u00f4, o horr\u00f4.<\/p>\n<p>Como todo castigo para brasileiro parece pouco, as reformas em Congonhas, que erraram ao priorizar o conforto em rela\u00e7\u00e3o a seguran\u00e7a no pouco, nem isso conseguiu. Uma norma idiota e sem cabimento impediu a circula\u00e7\u00e3o de t\u00e1xis comuns nas \u00e1reas de embarque e desembarque do aeroporto. Apenas os motoristas credenciados podem encostar vazios, provocando filas inevit\u00e1veis e muitos transtornos. Os desobedientes recebem multas pesadas, que atrapalham demais o or\u00e7amento dessa categoria. Ainda n\u00e3o tinha me dado conta disso at\u00e9 conhecer Rog\u00e9rio, o taxista que me levou ao aeroporto naquela noite.<\/p>\n<p>O ca\u00f3tico tr\u00e2nsito paulistano contribuiu para que tiv\u00e9ssemos um bate-papo longo e agrad\u00e1vel, que enveredou para o lado burocr\u00e1tico (devia ser &#8220;burrocr\u00e1tico&#8221;) do terminal. &#8220;Talvez seja melhor eu descer ao lado daquela passarela, assim eu me adianto e voc\u00ea n\u00e3o precisa fazer a volta&#8221;, disse, ainda longe da avenida Indian\u00f3polis. &#8220;N\u00e3o, n\u00e3o fa\u00e7a isso. Eu preciso te deixar l\u00e1 dentro, por favor&#8221;, pediu. A explica\u00e7\u00e3o \u00e9 simples: \u00e9 permitida a presen\u00e7a dos t\u00e1xis comuns em Congonhas apenas com passageiros. Normalmente, o movimento \u00e9 intenso o suficiente para que nenhum &#8220;marronzinho&#8221; (o fiscal) perceba algu\u00e9m embarcando logo depois.<\/p>\n<p>\u00c9 a brecha perfeita para demonstra\u00e7\u00f5es de criatividade em fun\u00e7\u00e3o da necessidade habitual do brasileiro. &#8220;Come\u00e7ou com os moleques, que vendem bala ou lavam os vidros na rua&#8221;, explicou Rog\u00e9rio. Um de seus colegas abordou alguns deles, perguntando &#8220;quem quer ganhar dois reais?&#8221;. Dinheiro f\u00e1cil: bastava sentar no banco do passageiro e dar uma volta at\u00e9 o terminal de Congonhas. Expediente usado diversas vezes, a ponto dos guardas abrirem os olhos ao perceberem a molecada &#8220;embarcando&#8221; no aeroporto&#8230;<\/p>\n<p>O esquema proliferou e se profissionalizou, ao lado de outras t\u00e9cnicas infal\u00edveis. Pequenos ambulantes abordam taxistas, perguntando se &#8220;queria uma voltinha at\u00e9 o aeroporto&#8221;; motoristas estacionam seus carros do outro lado, atravessam a avenida pela passarela e chamam por passageiros, longe dos olhos da pol\u00edcia; abordam aeromo\u00e7as e comiss\u00e1rios na porta dos hot\u00e9is da regi\u00e3o para dar carona, sem custo algum; trocam informa\u00e7\u00f5es sobre todos os fiscais da CET que d\u00e3o plant\u00e3o no terminal (&#8220;o careca \u00e9 gente fina, j\u00e1 o gordinho de cavanhaque n\u00e3o deixa passar ningu\u00e9m&#8221;). Uma beleza!<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria mais bacana, no entanto, Rog\u00e9rio deixou para o fim. Seu pai, tamb\u00e9m taxista, passou quase trinta anos trabalhando em Congonhas. Em tempos bem mais rom\u00e2nticos, ele foi o respons\u00e1vel por uma mutreta genial: trouxe do interior de S\u00e3o Paulo a r\u00e9plica de uma placa oficial de tr\u00e2nsito, com a inscri\u00e7\u00e3o &#8220;ponto de t\u00e1xi comum&#8221;. Instalou num poste da Avenida Washington Lu\u00eds e ali deixou, atraindo outros profissionais do volante. &#8220;Essa placa sustentou nossa fam\u00edlia durante muito tempo, e at\u00e9 o ano passado ela ainda estava no mesmo lugar&#8221;, contou Rog\u00e9rio, orgulhoso.<\/p>\n<p>N\u00e3o tive como dissociar a imagem dele ao saber do motorista <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha\/cotidiano\/ult95u314072.shtml\" target=\"_blank\"><b>que estava no posto de gasolina<\/b><\/a> no instante da trag\u00e9dia, e por n\u00e3o figurar em lista alguma da TAM at\u00e9 esses dias, s\u00f3 amplificou a agonia da fam\u00edlia e de sua noiva &#8211; que, ali\u00e1s, era a &#8220;passageira posti\u00e7a&#8221; dele em busca de uma corrida na \u00e1rea restrita do aeroporto.<\/p>\n<p>Ainda tem muita gente lamentando o fato do jovem estar no lugar errado na hora errada, assim como alguns funcion\u00e1rios da TAM Express e os passageiros a bordo daquele v\u00f4o. Mas n\u00e3o tem como n\u00e3o pensar, analisando friamente, no que vai ser das pessoas que se habituaram n\u00e3o apenas em sair e chegar por Congonhas, mas tamb\u00e9m nas que passaram anos ganhando a vida em fun\u00e7\u00e3o dele. Para os que tiveram suas vidas alteradas de alguma forma, \u00e9 hora de repensar tudo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>T\u00e1 rolando uma campanha interessante na rede, bolada pela trupe do Update or Die e refor\u00e7ada por pilotos da TAM e funcion\u00e1rios da TV Record: se tiver que vir a S\u00e3o Paulo ou sair da capital, n\u00e3o o fa\u00e7a por Congonhas. 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