{"id":268,"date":"2007-07-06T21:48:22","date_gmt":"2007-07-07T00:48:22","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/nao-vai-acontecer-mais-nada-nesse-jogo"},"modified":"2007-07-06T21:48:22","modified_gmt":"2007-07-07T00:48:22","slug":"nao-vai-acontecer-mais-nada-nesse-jogo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/nao-vai-acontecer-mais-nada-nesse-jogo\/","title":{"rendered":"N\u00e3o vai acontecer mais nada nesse jogo"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/pedra.gif\" align=\"right\" \/>Esses dias a <a href=\"http:\/\/alvarengasempre.blogspot.com\" target=\"_blank\"><b>Mar\u00edlia Alvarenga<\/b><\/a>, certamente uma das maiores f\u00e3s entre os nossos doze visitantes de sempre, fez um registro indignado, praticamente duvidando da capacidade torcedora brasileira <a href=\"http:\/\/www.interney.net\/blogs\/marmota\/2007\/06\/20\/boca_mi_buen_amigo\" target=\"_blank\" title=\"Entenda o porqu\u00ea aqui\"><b>em rela\u00e7\u00e3o aos argentinos<\/b><\/a>.<\/p>\n<p>&#8220;Tenho que discordar de voc\u00ea quando fala que a torcida do Boca \u00e9 especial. Acho que voc\u00ea ainda n\u00e3o teve o grande prazer, a honra, de sentar-se nas arquibancadas do Mineir\u00e3o em dia de jogo do meu Galo! Cara, n\u00e3o existe igual. \u00c9 a maior torcida do mundo! Porque ser atleticano, ter for\u00e7as para viver a emo\u00e7\u00e3o que transcende&#8230; Vai al\u00e9m, vira coletivo, superlativo, vira for\u00e7a&#8230; E explode &#8220;na maior felicidade&#8221;, fazendo o time sair de qualquer adversidade. Atleticano, como disse Roberto Drumond: se tiver uma camisa do Galo estendida em um varal, e o vento soprar contra, n\u00f3s torcemos contra o vento&#8230; A Massa \u00e9 a maior torcida do mundo, Andr\u00e9. Aprende isso, menino!&#8221;.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/marmota\/666997783\/\" title=\"Mineirinho e Mineir\u00e3o, vistos da lagoa\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/farm2.static.flickr.com\/1119\/666997783_e96ebb32f0_m_d.jpg\" width=\"240\" height=\"180\" align=\"right\" border=\"0\" alt=\"Marmota no Mineir\u00e3o\" \/><\/a>N\u00e3o pude argumentar com ela gra\u00e7as a uma raz\u00e3o imperdo\u00e1vel: eu n\u00e3o conhecia o famoso Magalh\u00e3es Pinto, o terceiro maior est\u00e1dio do pa\u00eds, apesar de conhecer hist\u00f3rias envolvendo a  inebriante atmosfera das arquibancadas. Uma vis\u00e3o que ficou bem n\u00edtida em 2006, quando os alvinegros deram um show ao empurrarem a equipe com toda for\u00e7a de volta \u00e0 primeira divis\u00e3o.<\/p>\n<p>A chance de ouro veio numa r\u00e1pida viagem que fiz a Belo Horizonte. Final de semana que calhou de ser o mesmo de Cruzeiro x Atl\u00e9tico, um dos maiores cl\u00e1ssicos do futebol brasileiro. A perfei\u00e7\u00e3o esbarrava em um detalhe infeliz: meu v\u00f4o de volta estava marcado para o final daquela tarde, em Confins. Fiz o que pude para trocar a passagem, mas tudo que consegui foi tempo suficiente para acompanhar ao menos os primeiros 45 minutos de partida. Se voc\u00ea estivesse no meu lugar, o que voc\u00ea faria?<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/marmota\/666996075\/\" title=\"Muvuca no lado de fora do est\u00e1dio\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/farm2.static.flickr.com\/1201\/666996075_23bb735598_m_d.jpg\" width=\"240\" height=\"180\" align=\"right\" border=\"0\" alt=\"Marmota no Mineir\u00e3o\" \/><\/a>Eu n\u00e3o tive a menor d\u00favida: eram quase duas da tarde e l\u00e1 estava eu, num t\u00e1xi, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Pampulha. O motorista, um po\u00e7o de tranquilidade, era um atleticano que ajudou a construir o est\u00e1dio, entre 1963 e 1965. Muito de seu suor estava ali, mas h\u00e1 anos ele n\u00e3o sentia vontade de acompanhar o seu Galo em campo. &#8220;\u00c9 muita viol\u00eancia&#8221;, lamentava, enquanto contemplava as obras rec\u00e9m-inauguradas na Avenida Ant\u00f4nio Carlos. &#8220;Mudaram recentemente, mas o tr\u00e2nsito continua o mesmo&#8221;. Isto \u00e9 Brasil.<\/p>\n<p>Desembarquei pr\u00f3ximo ao campus da UFMG, exatamente no lado atleticano do est\u00e1dio. Ainda tinha um bom tempo sobrando, o suficiente para comprar meu ingresso (s\u00f3 esbarrei com tr\u00eas cambistas, todos inofensivos) e dar uma boa caminhada pelos arredores amplos e arborizados do est\u00e1dio. Em uma an\u00e1lise superficial, cruzeirenses e atleticanos eram praticamente divididos em meio a meio &#8211; se bem que uma pequena fanfarra azul, ainda no estacionamento, tratava de ganhar pontos no quesito anima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/marmota\/667851246\/\" title=\"Refei\u00e7\u00e3o bacana por sete reais\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/farm2.static.flickr.com\/1144\/667851246_7aa3f2f144_m_d.jpg\" width=\"240\" height=\"180\" align=\"right\" border=\"0\" alt=\"Marmota no Mineir\u00e3o\" \/><\/a>Ainda faltava pouco mais de uma hora quando decidi entrar no est\u00e1dio. Estrategicamente, mantinha um jejum de algumas horas: tudo para degustar o feij\u00e3o tropeiro do est\u00e1dio, verdadeiro folclore local. Com cinco reais, \u00e9 poss\u00edvel encher o pandu de feij\u00e3o cozido com farinha, arroz,  torresmo, couve, molho vinagrete, carne de porco assada e um ovo frito em cima. Para os locais, aquele pratinho com talheres de pl\u00e1stico (e sem cerveja, cuja venda \u00e9 proibida) deve ser um tremendo sacril\u00e9gio \u00e0 tradicional comida mineira. Sem falar no Z\u00e9 Ruela, que ignora as regras de boa conviv\u00eancia e leva a iguaria para a arquibancada. Imagine onde vai parar a sujeira descartada: ou no ch\u00e3o ou na cabe\u00e7a de algu\u00e9m&#8230; Mas olha, tava bem gostoso.<\/p>\n<p>Hora de me acomodar em uma das cadeiras superiores e presenciar o in\u00edcio do espet\u00e1culo. A medida em que as pessoas chegavam, aumentavam as trocas elogiosas entre os advers\u00e1rios (a preferida revela que o &#8220;Cruzero a bicharada do Brasil&#8221;, seguido por paus enfiados em lugares impr\u00f3prios para o hor\u00e1rio). O imponente galo infl\u00e1vel reinava soberano, at\u00e9 um helic\u00f3ptero pousar no meio do gramado e trazer Rapos\u00e3o, a mascote cruzeirense. Eu ainda n\u00e3o tinha ouvido falar em um boneco t\u00e3o importante assim&#8230;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o as equipes entraram em campo &#8211; primeiro o Cruzeiro, para dar espa\u00e7o aos fogos, bandeir\u00f5es, fuma\u00e7a e pap\u00e9is picados na cor azul. Do meu lado da arquibancada, s\u00f3 se ouvia &#8220;arer\u00ea, o Roni vai voltar pra s\u00e9rie B&#8221;, em alus\u00e3o ao artilheiro do Galo na Segundona ano passado, atualmente vestindo a camisa celeste. Finalmente, foi a vez do preto e branco tomar conta do est\u00e1dio, com a presen\u00e7a do escrete atleticano.<\/p>\n<div align=\"center\"><\/div>\n<p>A anima\u00e7\u00e3o da torcida \u00e9 realmente contagiante, mas com a bola rolando, os mineiros se comportam exatamente como os demais torcedores brasileiros: alguns poucos cantam o tempo todo, mas a imensa maioria acompanha o duelo naquele &#8220;senta-levanta&#8221; t\u00edpico de missa dominical. Para desespero do <a href=\"http:\/\/www.idelberavelar.com\"><b>professor Idelber<\/b><\/a>, aquele certamente foi um dos piores momentos do Atl\u00e9tico neste campeonato. A equipe n\u00e3o conseguia atacar, enquanto a defesa cochilava diversas vezes. Os dois gols cruzeirenses na primeira etapa foram id\u00eanticos: Roni sem qualquer marca\u00e7\u00e3o avan\u00e7ando livremente e cruzando sob medida para Ara\u00fajo.<\/p>\n<p>Preocupado com o meu v\u00f4o de volta, e depois de um in\u00edcio de jogo t\u00e3o sonolento, n\u00e3o pensei duas vezes em deixar o Mineir\u00e3o no intervalo. A caminho de um t\u00e1xi, pr\u00f3ximo \u00e0 Igreja de S\u00e3o Francisco e na beira da Lagoa da Pampulha, ainda telefonei para o Narazaki, grande f\u00e3 do Mineir\u00e3o &#8211; e que certamente n\u00e3o perderia a chance de estar ali, se pudesse. Enfim, talvez fosse melhor ter ficado quieto.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/marmota\/667838746\/\" title=\"Ao menos vi o sol ir embora na Pampulha\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/farm2.static.flickr.com\/1328\/667838746_f7cbd0c042_m_d.jpg\" width=\"240\" height=\"180\" align=\"right\" border=\"0\" alt=\"Marmota no Mineir\u00e3o\" \/><\/a>&#8220;Falest\u00fapido! Sim, estou no Mineir\u00e3o, mas j\u00e1 estou de sa\u00edda. Infelizmente, mas eu tenho que escolher: ou eu perco o meu v\u00f4o, ou perco o segundo tempo. Mas olha, ao menos conheci o Mineir\u00e3o e me diverti com as torcidas. E quer mesmo saber? Esse primeiro tempo foi broxante mesmo, vou embora feliz pois tenho certeza de que n\u00e3o vai acontecer mais nada nesse jogo&#8221;.<\/p>\n<p>Juro que n\u00e3o escolhi, mas o taxista que me acompanhou at\u00e9 o aeroporto era um cruzeirense, que ouvia a narra\u00e7\u00e3o do Willy Gonser e os coment\u00e1rios do meu amigo J\u00fanior Brasil, da Itatiaia. Nessa altura do campeonato, o Atl\u00e9tico havia simplesmente empatado o jogo nos primeiros quinze minutos de segundo tempo, tornando a partida eletrizante. &#8220;U\u00e9, o Galo acordou?&#8221;, comentei, espantado, para desespero do motorista. Dez minutos depois, o Atl\u00e9tico ganhou de presente a chance de virar o jogo: um p\u00eanalti de Leo Fortunato sobre Thiago Feltri.<\/p>\n<p>&#8220;Puxa vida, acho que o p\u00e9 frio era eu, hein? Foi s\u00f3 eu sair do est\u00e1dio e o Galo come\u00e7ou a reagir&#8221;, brinquei. Na verdade, queria ter dito algo como &#8220;que diabos estou fazendo aqui nesse carro, porra?&#8221;. O motorista soltou um grito de alegria ao ouvir que Gatti defendeu com o p\u00e9 a cobran\u00e7a de Marcinho. Vibrou ainda mais quando Guilherme e Ramires ampliaram o marcador, transformando o cl\u00e1ssico daquele domingo em <a href=\"http:\/\/globoesporte.globo.com\/ESP\/0,,CCF16232-4274,00.html\" target=\"_blank\"><b>uma das partidas mais sensacionais de todos os tempos<\/b><\/a>. E que eu n\u00e3o vi, mesmo estando l\u00e1.<\/p>\n<p>Dos males, o menor: ao menos j\u00e1 posso concordar com a Mar\u00edlia. Sem falar na eterna lembran\u00e7a da frase &#8220;n\u00e3o vai acontecer mais nada nesse jogo&#8221; em minha mente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esses dias a Mar\u00edlia Alvarenga, certamente uma das maiores f\u00e3s entre os nossos doze visitantes de sempre, fez um registro indignado, praticamente duvidando da capacidade torcedora brasileira em rela\u00e7\u00e3o aos argentinos. &#8220;Tenho que discordar de voc\u00ea quando fala que a torcida do Boca \u00e9 especial. 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