{"id":2618,"date":"2026-09-04T10:02:38","date_gmt":"2026-09-04T13:02:38","guid":{"rendered":"https:\/\/marmota.org\/blog\/?p=2618"},"modified":"2026-09-04T10:02:38","modified_gmt":"2026-09-04T13:02:38","slug":"como-era-gostoso-o-meu-guia-da-copa-da-placar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/como-era-gostoso-o-meu-guia-da-copa-da-placar\/","title":{"rendered":"Como era gostoso o meu guia da Copa da Placar"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"\/blog\/secoes\/e-copa.gif\" align=\"right\">As crian\u00e7as da minha rua gostavam de bolinhas de gude, pipa com cerol, futebol no campinho de terra. Os meus brinquedos favoritos eram as \u201ccoisinhas de armazenar mem\u00f3ria\u201d. Minhas pilhas de gibis, revistas, livros, anota\u00e7\u00f5es em folhas de formul\u00e1rio cont\u00ednuo.<\/p>\n<p>No final dos anos 1980, meu kit de m\u00eddia iniciante ganhou o refor\u00e7o de um gravador trazido do Paraguai. Com ele, me preparei para guardar comigo a Copa da It\u00e1lia, em 1990.<\/p>\n<p>Arranjei uma fita Basf cromada, de 90 minutos. Apoiava meu aparelho na sa\u00edda de som da TV e fazia sil\u00eancio para registrar Papa Essa Brasil, talvez o maior trocadalho do carilho da hist\u00f3ria dos mundiais. Com a mesma fita, usava o National 3 em 1 da sala, sintonizado nos 1100 da R\u00e1dio Globo, para capturar trechos da narra\u00e7\u00e3o de Oscar Ulisses. <\/p>\n<p>Na escola, ficava sem entender meus colegas perdendo tempo colando retratos 3&#215;4 com cola branca (ainda n\u00e3o eram cromos autocolantes) nos \u00e1lbuns da Panini. S\u00f3 anos mais tarde entendi que figurinha \u00e9, antes de qualquer coisa, instrumento de relacionamento. Mas enfim. Enquanto guardavam papeis grudentos e incompletos, eu ostentava algo muito melhor.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"\/blog\/images\/placar90a040926.jpg\" align=\"right\" title=\"Chupa, Panini! Aqui \u00e9 Editora Abril!\">\u2014 Voc\u00eas est\u00e3o por fora. A informa\u00e7\u00e3o completa est\u00e1 aqui.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o exibia e folheava com eles o sensacional Guia da Copa da Placar.<\/p>\n<p>Meus pais n\u00e3o gastavam com figurinha. Nnem por isso o jornaleiro ficava infeliz quando eu aparecia. Desde o Mundial no M\u00e9xico, quatro anos antes, levava para casa edi\u00e7\u00f5es como o gibi especial do Pelezinho, um especial da Disney com informa\u00e7\u00f5es e curiosidades, uma reedi\u00e7\u00e3o dos antigos manuais do escoteiro mirim \u2014 chamava-se \u201cGol!\u201d.<\/p>\n<p>Mas estes eram s\u00f3 pra divers\u00e3o. Nada se comparava ao Guia da Placar.<\/p>\n<p>Quem detinha a tecnologia da informa\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o da Copa do Mundo era a Editora Abril. N\u00e3o vou ficar explicando o que \u00e9 linotipo, paste-up, impress\u00e3o offset, entre outras traquitanas do arco da velha. Pesquise a\u00ed. Pense que  apenas no final do S\u00e9culo 20 as reda\u00e7\u00f5es conheceram computadores com software de editora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"\/blog\/images\/placar982002a040926.jpg\" align=\"right\" title=\"Meus guias antigos est\u00e3o desmontando. Socorro!\"><\/div>\n<p>Imagine como era datilografar uma lauda, fazer o copidesque com caneta vermelha, montar p\u00e1ginas com estilete e recortes, fotografar a prancheta e mandar para uma rotativa. As milhares de c\u00f3pias eram guilhotinadas e grampeadas.<\/p>\n<p>Agora reconhe\u00e7a comigo que, para quem nasceu neste s\u00e9culo, editora\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nica parece uma coisa velha.<\/p>\n<div align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"\/blog\/images\/placar86s040926.jpg\" title=\"O mundo era em preto e branco no ano da gra\u00e7a de 1986\"><\/div>\n<p>A compara\u00e7\u00e3o entre os guias da Placar de 1986 e 1990 \u00e9 impressionante. Digo isso pois algumas p\u00e1ginas que apresentavam o Mundial do M\u00e9xico ainda eram em preto e branco. Ao final, ainda havia a saudosa sess\u00e3o \u201cTabel\u00e3o\u201c, \u00fanico banco de dados futebol\u00edstico dispon\u00edvel antes do Excel. Sem contar as longas an\u00e1lises, reportagens e imagens que fizeram a hist\u00f3ria da publica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"\/blog\/images\/placar90b040926.jpg\" align=\"right\" title=\"Duas mentiras: craques pra APLAUDIR e um Brasil de Lazaroni PRONTO PRA VENCER\"><\/div>\n<p>Provavelmente entre uma Copa e outra, a reda\u00e7\u00e3o da Abril j\u00e1 dispunha de Macintosh. Aquela revista de 1990, que exibia na escola para dar uma surra no \u00e1lbum, era linda. Trazia ilustra\u00e7\u00f5es para cada um dos times, al\u00e9m das fotos de todos os jogadores. Tamb\u00e9m trazia n\u00fameros e curiosidades, mas com diagrama\u00e7\u00e3o e cores que traziam leveza e fluidez.<\/p>\n<div align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"\/blog\/images\/placar90c040926.jpg\" align=\"right\" title=\"N\u00e3o dava pra fazer uma p\u00e1gina dessas sem computador. Ou dava?\"><\/div>\n<p>A cada v\u00e9spera de Copa, corria para a banca em busca de novidades. E l\u00e1 estava o guia da Placar como atra\u00e7\u00e3o principal da vitrine. A edi\u00e7\u00e3o de 1998 aproveitou o reposicionamento da marca anos antes, com projeto gr\u00e1fico marcante e aquele question\u00e1vel DNA \u201cde mach\u00e3o\u201c.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"\/blog\/images\/superplacar2002penta040926.jpg\" align=\"right\" title=\"Megazord entre Placar e Super\">No in\u00edcio do s\u00e9culo 21, imagino que j\u00e1 era mais f\u00e1cil planejar e editar uma revista. A tecnologia facilitava a produ\u00e7\u00e3o de um guia com quase 200 p\u00e1ginas; a encaderna\u00e7\u00e3o canoa, grampeada, dava lugar \u00e0 lombada quadrada, colada. A riqueza editorial permitia desdobramentos especiais de outros t\u00edtulos, como Veja e Superinteressante. Ou, por que n\u00e3o, uma edi\u00e7\u00e3o especial com as duas marcas!<\/p>\n<p>Aquela crian\u00e7a de 1990 ficaria enlouquecida com as revistas publicadas 20 anos mais tarde. Ela tamb\u00e9m perderia o rumo quando, em algum momento, a Internet reconfigurou nossa rela\u00e7\u00e3o com a m\u00eddia impressa.<\/p>\n<p>Qual foi a primeira Copa na qual a Web foi protagonista? Talvez 2006, como indicava a chamada da revista Super especial daquele ano. Oito anos antes, quando eu j\u00e1 era estagi\u00e1rio na Funda\u00e7\u00e3o Casper L\u00edbero, a Ag\u00eancia Estado era sin\u00f4nimo de instantaneidade informativa na rede. Lembro quando montaram um site especial para a cobertura daquele evento, o Estad\u00e3o na Copa. Em 2002, eu era editor da Gazeta Esportiva quando a Web, o r\u00e1dio e a TV desafiaram a m\u00eddia impressa por conta do fuso hor\u00e1rio. Mesmo nesse contexto, o impresso ainda mantinha seu espa\u00e7o.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"\/blog\/images\/super2006a040926.jpg\" align=\"right\" title=\"A COPA COMO VOC\u00ca NUNCA ASSISTIU: NA INTERN\u00c9TE!\">Vamos dar um salto para 2022. Lembra como foi? Quando foi?<\/p>\n<p>Pois ent\u00e3o, como lembrar de um Mundial agendado para um final de ano para atender interesses econ\u00f4micos? Dif\u00edcil dizer o que \u00e9 mais absurdo: mergulhar o torneio no petr\u00f3leo do deserto para ser disputado em condi\u00e7\u00f5es adversas ou perder para aquela Cro\u00e1cia tendo um gol de vantagem no segundo tempo da prorroga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas enfim. Nesse per\u00edodo, Placar foi tentando se encaixar. Virou revista semanal. Voltou a ser mensal. Trouxe grandes reportagens. Tamb\u00e9m se dedicava a p\u00f4steres. Deixou de fazer parte do Grupo Abril. Virou marca editorial, com ativo forte, marcado pela afetividade com o leitor de outrora. A empresa que a sustenta passou a incluir a linguagem das plataformas, audiovisual e fragmentada.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"\/blog\/images\/guiasplacar061014a040926.jpg\" align=\"left\" title=\"Pense r\u00e1pido e responda qual a diferen\u00e7a entre as tr\u00eas revistas\"><\/p>\n<p>O Guia da Copa de 2022 j\u00e1 n\u00e3o significava mais &#8220;a Copa nas m\u00e3os&#8221;. Talvez signifique algo para quem ainda preserva edi\u00e7\u00f5es impressas. A situa\u00e7\u00e3o de 2026 \u00e9 parecida: a capa estampa a frase &#8220;edi\u00e7\u00e3o de colecionador&#8221;. Isso porque provavelmente s\u00f3 quem cultiva nostalgia enxerga seu valor.<\/p>\n<p>E mesmo sendo planejada, pensada e revisada para ser uma edi\u00e7\u00e3o perene, j\u00e1 n\u00e3o se fazem mais revistas como antigamente. O guia traz uma entrevista muito interessante com um dos atacantes que fizeram parte do time de Ancelotti. Em nenhum momento do texto, no entanto, seu nome \u00e9 citado. O mais ir\u00f4nico: Luiz Henrique n\u00e3o entrou em campo um segundo sequer no Mundial.<\/p>\n<div align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"\/blog\/images\/placar2026a040926.jpg\" align=\"right\" title=\"Edi\u00e7\u00e3o de colecionador que n\u00e3o p\u00f5e nome de jogador na entrevista\"><\/div>\n<p>Aquela crian\u00e7a de 1990 gostava de gravar coisas para guardar aquela experi\u00eancia. O adulto de hoje ouve podcast, passeia por cortes do TikTok, fica impressionada com o impacto da transmiss\u00e3o ao vivo, abre m\u00faltiplas abas do navegador. Dif\u00edcil organizar e guardar esse punhado de rastros.<\/p>\n<p>S\u00f3 o Guia da Placar ainda sustenta o r\u00f3tulo de &#8220;sua companhia por longo tempo&#8221;. A crian\u00e7a de hoje, no entanto, talvez pergunte: pra qu\u00ea?<\/p>\n<div align=\"center\">***<\/div>\n<p>A maior Copa de todos os tempos acabou h\u00e1 semanas. Do que voc\u00ea ainda lembra?<\/p>\n<p>Fa\u00e7a um teste. Pegue seu bloco de anota\u00e7\u00f5es e uma caneta. Fa\u00e7a sua lista.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a minha.<\/p>\n<p>Primeiro, os argentinos impulsionaram o Instagram de Tim Payne, transformando-o na &#8220;maior celebridade digital&#8221; pr\u00e9-Copa. Procure a\u00ed pela sensacional cumbia da torcida.<\/p>\n<p>O t\u00edtulo de &#8220;maior celebridade&#8221; mudou de m\u00e3os ainda na primeira rodada, gra\u00e7as ao goleiro Vozinha. Sua popularidade \u00e9 das poucas coisas legais atribu\u00eddas \u00e0 transmiss\u00e3o bet\u00e2nica da Caz\u00e9 TV.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"\/blog\/images\/bolao2a040926.jpg\" align=\"right\" title=\"Olha o bol\u00e3o das crian\u00e7as na sala de aula!\">Vi meus filhos entusiasmados com as bandeiras dos pa\u00edses. Onde fica a \u00c1frica do Sul? E o M\u00e9xico? E por que as duas sele\u00e7\u00f5es fizeram um jogo de abertura novamente ap\u00f3s as vuvuzeladas e aquele gol do Tchabalala? (N\u00e3o, essa lembran\u00e7a foi minha; as crian\u00e7as n\u00e3o seriam t\u00e3o espec\u00edficas). A turminha do segundo ano A parou pra ver a abertura do Mundial e se entusiasmou com o bol\u00e3o dos confrontos da sele\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Fiquei iludido com o italiano mascador de chicreta ap\u00f3s a partida contra o Jap\u00e3o. &#8220;Depois dessa virada, a Noruega vai ser uma baba&#8221;, sentenciei. Meu pensamento explica o fato de n\u00e3o atuar com jornalismo esportivo h\u00e1 anos. E aquele desfecho parece ter sido pensado apenas pras redes sociais: bronquinha destemperada do camisa dez, remada da torcida, desmonte instant\u00e2neo do time, sensa\u00e7\u00e3o de &#8220;quem se importa&#8221;. Muito triste.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o esperava pela derrota da Fran\u00e7a na semifinal. S\u00f3 n\u00e3o superou a praga das m\u00famias que fez com que as pulgas de mil camelos infestassem o futebol do Egito. Teve um jogo de terceiro lugar com dez gols. E a narra\u00e7\u00e3o do gol espanhol na final, na voz do Bruno Cantarelli, traduzida para o mundo todo. O futebol venceu a catimba. <\/p>\n<div align=\"center\">***<\/div>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"\/blog\/images\/tabelacopa040926.jpg\" align=\"right\" title=\"S\u00f3 a minha mente perturbada passou um Mundial preenchendo placar \u00e0 caneta. Ou n\u00e3o?\">H\u00e1 40 anos, qualquer birosca, posto de gasolina, candidato \u00e0 deputado ou supermercado oferecia uma vers\u00e3o impressa e dobr\u00e1vel da tabela da Copa. Assim, era poss\u00edvel acompanhar os jogos preencher os resultados \u00e0 l\u00e1pis ou caneta.<\/p>\n<p>Em 2026, encontrei uma \u00fanica tabela impressa pelo com\u00e9rcio paulistano.<\/p>\n<p>Se eu quisesse me esfor\u00e7ar mais, poderia ter encontrado um PDF lindamente diagramado e imprimir. O Estad\u00e3o fez, por exemplo.<\/p>\n<p>Se as mentes perturbadas dos donos da festa prosperarem, enfiando 64 sele\u00e7\u00f5es em um Mundial (um ter\u00e7o dos pa\u00edses existentes no planeta), a tabelinha da Copa vai ter que ser encadernada.<\/p>\n<p>Claro, desde que haja demanda, em 2030, para tabela de papel, guia impresso, \u00e1lbum de figurinha ou mesmo Copa do Mundo.<\/p>\n<div align=\"center\">***<\/div>\n<p>Poderia dizer a verdade: comecei a escrever esse texto em junho e, enquanto a vida exigia, continuei encadeando ideias. Era pra ter publicado enquanto a bola rolava. Enfim, prioridades.<\/p>\n<p>Prefiro, no entanto, a vers\u00e3o po\u00e9tica.<\/p>\n<p>Voc\u00ea sabe quantos anos a sele\u00e7\u00e3o brasileira ficou sem t\u00edtulos mundiais entre a saga do Tri (que virou s\u00e9rie divertida no Netflix) e o Tetra?<\/p>\n<p>A resposta \u00e9 a mesma para a idade deste blog, celebrado neste 4 de setembro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As crian\u00e7as da minha rua gostavam de bolinhas de gude, pipa com cerol, futebol no campinho de terra. Os meus brinquedos favoritos eram as \u201ccoisinhas de armazenar mem\u00f3ria\u201d. Minhas pilhas de gibis, revistas, livros, anota\u00e7\u00f5es em folhas de formul\u00e1rio cont\u00ednuo. 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