{"id":2610,"date":"2026-05-13T10:07:31","date_gmt":"2026-05-13T13:07:31","guid":{"rendered":"https:\/\/marmota.org\/blog\/?p=2610"},"modified":"2026-05-13T12:33:27","modified_gmt":"2026-05-13T15:33:27","slug":"depois","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/depois\/","title":{"rendered":"Depois"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"\/blog\/secoes\/pedra.gif\" align=\"right\">Seu Chico era visita frequente no s\u00edtio dos meus pais. Contava dezenas de causos. N\u00e3o posso dizer que eram inesquec\u00edveis porque n\u00e3o lembro de nenhum. Ele chegava no meio da tarde, sentava com meus pais, falava sobre coisas do campo, sua vida no nordeste, os perrengues compartilhados naquele rinc\u00e3o \u00e0 beira da Serra do Mar&#8230;<\/p>\n<p>Eram horas de prosa. Seu Chico trocava boa parte das suas tarefas cotidianas por encontros vespertinos. Ou, vai ver, fazia s\u00f3 meio expediente. O fato \u00e9: sempre que pergunt\u00e1vamos se aquilo n\u00e3o o atrapalhava, a resposta vinha na hora:<\/p>\n<p>\u2014 Tem sempre o que fazer. Mas fica pra sumana.<\/p>\n<p>Era como uma encena\u00e7\u00e3o permanente daquele comercial onde Juca de Oliveira dizia \u201cdepois n\u00f3is desatola\u201c ao ouvir que a vaca foi para o brejo. Profissionais especializados no comportamento humano usam uma palavra para explicar este modo de agir: procrastina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu mesmo j\u00e1 devo ter escrito sobre o tema algumas vezes. Mais tarde eu procuro. Tenho algumas anota\u00e7\u00f5es sobre coisas que j\u00e1 li sobre gest\u00e3o de tempo, vida com prop\u00f3sito, coisas que dialogam com o tempo que a gente tem. Esse texto , inclusive, estava no meu backlog h\u00e1 semanas. <\/p>\n<p>Recentemente, <a href=\"https:\/\/procrastinadores.com.br\" target=\"_blank\" title=\"Em breve, vou escrever sobre meu uso cont\u00ednuo da express\u00e3o At\u00e9 recentemente.\"><b>criei um site dedicado ao tema<\/b><\/a>. Tenho outras ideias no meu backlog para atualiz\u00e1-lo. No final, sou sempre surpreendido por alguma outra tarefa pra fazer. Depois eu mexo nisso.<\/p>\n<p>Procrastina\u00e7\u00e3o me faz  lembrar de um encontro inusitado e muito marcante que tive na vida. Fui abordado na sa\u00edda de um estacionamento, em Pinheiros. Isso deve ter uns 15 anos. Eu usava uma camiseta com a frase \u201cprocrastinadores: os l\u00edderes do amanh\u00e3\u201c. <\/p>\n<p>\u2014 Sabe quem pensa assim? Jo\u00e3o Ubaldo Ribeiro! Ele adora falar sobre como levar a vida assim\u2026 Devagar\u2026<\/p>\n<p>Arregalei os olhos e pedi para o dono daquela voz entusiasmada me contar mais. Ele dizia que Jo\u00e3o Ubaldo Ribeiro descobriu uma associa\u00e7\u00e3o internacional de procrastinadores. Pediu uma ficha de inscri\u00e7\u00e3o. Levou anos pra chegar. Mais algumas semanas at\u00e9 preencher e, um dia quem sabe, levaria para os Correios. Nunca soube se enviou mesmo. Tamb\u00e9m n\u00e3o saberia se a tal associa\u00e7\u00e3o realmente processava os pedidos de filia\u00e7\u00e3o ou, enfim, seguia seus princ\u00edpios.<\/p>\n<p>Num lampejo, minhas parcas sinapses me fazem perguntar:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o quero interromper mas\u2026 Algu\u00e9m j\u00e1 lhe disse que o senhor se parece com aquele escritor, o Fernando Morais?<\/p>\n<p>\u2014 Pois sou eu mesmo!<\/p>\n<p>Minhas parcas sinapses deram tilt. N\u00e3o sabia se falava o quanto o admirava desde as biografias que todo estudante deveria ler at\u00e9 Cem Quilos de Ouro: e Outras Hist\u00f3rias de um Rep\u00f3rter. Talvez eu tenha optado por estampar minha admira\u00e7\u00e3o enquanto continuava a ouvir sobre como aquela associa\u00e7\u00e3o era \u00f3tima, j\u00e1 que entregava exatamente o que prometia. Ubaldo, dizia Morais, celebrava sua rela\u00e7\u00e3o profunda com o tempo. Vivia nessa rela\u00e7\u00e3o deliciosa de amor e \u00f3dio com prazos. Gente como a gente.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o carro de Fernando Morais chegou. \u201cPreciso escrever sobre isso antes que seja tarde!\u201d, pensei.<\/p>\n<p>Nunca desejei ser Fernando Morais ou Jo\u00e3o Ubaldo Ribeiro. Talvez eu inveje aquela leveza baiana. Ou a de Seu Chico. \u201cFica pra Sumana\u201d significa adiar o encontro com o \u201cdepois\u201d. Aquele momento que a gente acha, primeiro, que vai demorar; ent\u00e3o a gente olha para tr\u00e1s e lamenta: o depois j\u00e1 passou.<\/p>\n<p>Meu backlog ainda guarda anota\u00e7\u00f5es como \u201cescrever uma mensagem praquele amigo antigo\u201d. \u201cEstudar a rela\u00e7\u00e3o entre cibern\u00e9tica e design \u201c. \u201cGravar um podcast sobre a vida\u201c.  \u201cAtualizar o Clube dos Procrastinadores\u201d. Trivialidades que se perdem no meio de outros pratos que precisam girar: pagamento de boletos, crian\u00e7as, cachorro, coisas que sugam nosso dia, nos fazem pensar que estas s\u00e3o as prioridades da vida.<\/p>\n<p>Todo final de m\u00eas vira uma dolorida autoavalia\u00e7\u00e3o do que restou; dificilmente acontece uma vis\u00e3o de futuro. O \u201cdepois\u201d n\u00e3o se importa. \u00c9 a manuten\u00e7\u00e3o permanente do atraso, segurando a vida para que ela n\u00e3o piore. O tempo j\u00e1 n\u00e3o me pertence: s\u00e3o os juros cobrados pela fatura emitida pelo \u201cdepois\u201d.<\/p>\n<p>Lembro de ter desabafado com um amigo de longa data. A resposta, por escrito, \u00e9 inspiradora. Reproduzo aqui.<\/p>\n<p><i>Voc\u00ea \u00e9 um aprendiz. Como todos n\u00f3s somos. Fa\u00e7a amizade com o tempo. E ele ensinar-te-\u00e1 tudo para que tu o vejas como companheiro e n\u00e3o como opressor.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, tu bem sabes: tudo flui. Tudo passa! E por vezes num piscar de olhos. A vida \u00e9 bem isso! N\u00e3o se prenda! Deixa as coisas, as pessoas, os meses flu\u00edrem. Torne-se amigo do fluxo! A\u00ed voc\u00ea jamais se sentir\u00e1 martirizado por algo!<\/p>\n<p>\u00c9 preciso saber equilibrar tudo. \u00c9 preciso ser malabarista. Nisso, cada um tem de achar a sua pr\u00f3pria corda bamba. E tamb\u00e9m ela tem um final! \u00c9 preciso saber onde ela fica presa. E com certeza, ela se prende no transcendente! Prendendo-a no material, mais cedo ou mais tarde acordamos ca\u00eddos no ch\u00e3o.<\/i><\/p>\n<p>\u201cEnt\u00e3o vamos! Esse ano vai ser diferente!\u201d, pensei.<\/p>\n<p>O ano, claro, come\u00e7a depois do Carnaval. Viajei para o s\u00edtio dos meus pais naquele feriado. Levei meu backlog na bagagem. Tamb\u00e9m um pouco de esperan\u00e7a: n\u00e3o vou chegar no final do m\u00eas olhando pro buraco que n\u00e3o se fechou. Construir ao inv\u00e9s de segurar pra n\u00e3o cair.<\/p>\n<p>Fui deitar na segunda-feira com meus planos rabiscados em um dos meus pap\u00e9is sulfite dobrados. Havia iniciado um resumo expandido sobre minhas descobertas sobre Ranulph Glanville. Convenci as crian\u00e7as a assistirem alguns minutos de desfile na TV antes dos mesmos desenhos de sempre. Fomos deitar. N\u00e3o consegui tomar banho. \u201cTudo bem, ainda tem um feriado inteiro\u201d.<\/p>\n<p>\u201cFica pra sumana\u201d, n\u00e9, Seu Chico?<\/p>\n<p>L\u00e1 pelas onze da noite, minha m\u00e3e me tirou da cama.<\/p>\n<p>\u2014 Estou muito preocupada! Seu pai n\u00e3o est\u00e1 bem!<\/p>\n<p>Encontro o mesmo sujeito que havia desejado \u201cboa noite\u201d horas atr\u00e1s sem conseguir movimentar o lado esquerdo. Tamb\u00e9m n\u00e3o dava pra entender o que dizia.<\/p>\n<p>Sa\u00ed correndo no mato em busca de sinal do celular. Mandei a localiza\u00e7\u00e3o daquele rinc\u00e3o \u00e0 beira da Serra do Mar para o socorrista do SAMU. Fiquei ao lado dele at\u00e9 a ambul\u00e2ncia entrar pela porteira. Segui com ele para a emerg\u00eancia, balan\u00e7ando pela estrada de ch\u00e3o. <\/p>\n<p>O Carnaval passou. Por hora, a quem interessar, digo que meu pai est\u00e1 em casa, depois de 80 dias internado. N\u00e3o sei como ele vai ficar ou o que quer fazer depois que se recuperar. Nesse instante, esse texto est\u00e1 aberto na minha frente enquanto me preocupo com as urg\u00eancias. Pensando em alguma hist\u00f3ria pra concluir. Alguma par\u00e1bola sobre a minha inaptid\u00e3o em lidar com o fim das coisas?<\/p>\n<p>Fica pra sumana.<\/p>\n<div align=\"center\">***<\/div>\n<p>Esses dias, meu amigo <a href=\"https:\/\/soyuz.com.br\/\" target=\"_blank\" title=\"Ele \u00e9 a mente genial por tr\u00e1s da Soyuz\"><b>Cl\u00e9cio<\/b><\/a> lembrou desse verso, normalmente atribu\u00eddo a Gon\u00e7alves Dias. &#8220;N\u00e3o quis, sobrando tempo, fazer conta \/ Hoje, quero acertar conta, e n\u00e3o h\u00e1 tempo&#8221;. N\u00e3o tenho certeza se \u00e9 dele. Depois eu procuro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Seu Chico era visita frequente no s\u00edtio dos meus pais. Contava dezenas de causos. N\u00e3o posso dizer que eram inesquec\u00edveis porque n\u00e3o lembro de nenhum. 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