{"id":2595,"date":"2026-01-02T20:36:40","date_gmt":"2026-01-02T23:36:40","guid":{"rendered":"https:\/\/marmota.org\/blog\/?p=2595"},"modified":"2026-01-06T17:46:18","modified_gmt":"2026-01-06T20:46:18","slug":"o-ultimo-blogueiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/o-ultimo-blogueiro\/","title":{"rendered":"O \u00faltimo blogueiro"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/chorume.gif\" align=\"right\">Manh\u00e3 movimentada de uma quarta-feira qualquer em S\u00e3o Paulo. Em um vag\u00e3o de metr\u00f4 cheio, mas n\u00e3o abarrotado, Adriano est\u00e1 segurando uma edi\u00e7\u00e3o impressa de \u201cRegresso ao Admir\u00e1vel Mundo Novo\u201d quando ergue a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Acabara de ler algo sobre \u201co imenso trabalho que a natureza teve para que cada indiv\u00edduo fosse diferente dos outros\u201d. V\u00ea um ajuntamento de gente com fones de ouvido e olhar fixo no smartphone. \u201cMuita gente estranha num mesmo lugar. Estamos todos no mesmo sentido\u2026 Ao mesmo tempo, cada um \u00e9 sua pr\u00f3pria dire\u00e7\u00e3o. Todo mundo aqui, s\u00f3 que n\u00e3o\u201d, pensa.<\/p>\n<p>Guarda o livro em sua bolsa-carteiro. Desembarca, desvia de um ou outro \u201czumbi diante da tela\u201d e segue caminhando. N\u00e3o est\u00e1 num bairro familiar, mas as poucas mem\u00f3rias o surpreendem. \u201cAqui n\u00e3o era uma livraria?\u201d, questiona-se diante de um desses minimercados de rede de arquitetura padronizada \u2014 como os \u201ccaixotes cinzentos envidra\u00e7ados\u201d que tomam conta da cidade.<\/p>\n<p>Ainda resistem poucas casinhas antigas. Uma delas, de fachada simples, reboco branco descascando, piso de caquinhos vermelhos e port\u00e3o de ferro com sinais de zarc\u00e3o. Adriano n\u00e3o encontra o bot\u00e3o da campainha; decide bater palmas e chamar \u201c\u00f4 de casa\u201d. Como os Maias faziam, diria um tiktoker. \u201cEra melhor ele ter visto a mensagem que mandei no Zap\u201d, ri.<\/p>\n<p>Um bonach\u00e3o de meia idade caminha pelo quintal. Barba por fazer, cabelo em desalinho, camiseta desbotada, bermuda na altura do joelho. Abre o port\u00e3o. Logo depois, os bra\u00e7os e o sorriso.<\/p>\n<p>\u2014 Desculpa, era pra esse abra\u00e7o acontecer\u2026 Ah, sei l\u00e1 quando\u2026 E n\u00e3o consegui vir antes\u2026<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o seja besta! Vem! Entra! A casa \u00e9 sua! Voc\u00ea veio! Est\u00e1 aqui. Agora!<\/p>\n<p>Adriano senta no sof\u00e1 de couro em estofado florido. Observa o piso de tacos irregulares, estantes de madeira maci\u00e7a altas e abarrotadas de livros e quinquilharias. O sol da manh\u00e3 reflete em um mochinho, que cumpre a fun\u00e7\u00e3o de mesa de centro.<\/p>\n<p>Mal consegue tirar o smartphone da bolsa para fotografar alguma coisa ou pedir a senha do wi-fi. Levanta do sof\u00e1 incomodado com os livros espalhados no sof\u00e1, empilhados perto do mochinho\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Se segura a\u00ed, o caf\u00e9 j\u00e1 est\u00e1 saindo!<\/p>\n<p>Na porta da cozinha, segurando tr\u00eas ou cinco livros diferentes, puxa assunto daquele jeito cl\u00e1ssico.<\/p>\n<p>\u2014 Mas voc\u00ea sumiu, hein!<\/p>\n<p>\u2014 U\u00e9!? Estou exatamente aqui, no mesmo cantinho. Sobrevivemos \u00e0 pandemia! Seguimos trabalhando! E, veja s\u00f3, tem caf\u00e9! \u00c9 tudo o que a gente precisa.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9, s\u00f3 que voc\u00ea n\u00e3o posta mais nada por a\u00ed!<\/p>\n<p>O anfitri\u00e3o termina de verter \u00e1gua no coador, deixa a chaleira no fog\u00e3o e respira antes do caf\u00e9 terminar de passar. Come\u00e7a a elocubrar sobre o que estamos fazendo da vida na Internet. No fundo, Adriano esperava exatamente por esse momento.<\/p>\n<p>\u2014 Eu poderia ter telefonado, n\u00e9? Voc\u00ea tamb\u00e9m poderia ter dito &#8220;me liga!&#8221;. Houve um tempo em que a gente dizia essas coisas com frequ\u00eancia. Agora a gente n\u00e3o pensa mais nisso, percebeu? E quando algu\u00e9m lembra, p\u00f5e na conta da correria.<\/p>\n<p>Enquanto prepara uma bandeja com x\u00edcaras e biscoitinhos, seguiu.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea fez uma associa\u00e7\u00e3o engra\u00e7ada agora. Eu &#8220;sumi&#8221;, ou seja, eu &#8220;n\u00e3o existo&#8221; sob o seu ponto de vista, s\u00f3 porque n\u00e3o apare\u00e7o nas plataformas. Seria muito cruel com voc\u00ea, com a gente, se esse encontro incr\u00edvel s\u00f3 pudesse existir se a gente posasse pra uma foto e publicasse em uma plataforma dessas. N\u00e3o acha? Inclusive\u2026<\/p>\n<p>Sem terminar de ajeitar biscoitinhos, corre para uma das estantes da sala, pega um livro e entrega para Adriano.<\/p>\n<p>\u2014 Mmmhh. O meio \u00e9 a mensagem! Essa frase \u00e9 famosa! McLuhan, isso mesmo!<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 certo disso? Veja a capa outra vez.<\/p>\n<div align=\"center\"><a href=\"https:\/\/www.ubueditora.com.br\/meio-massagem.html\" target=\"_blank\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/mcluhandoidao020126.jpg\" title=\"O meio \u00e9 a massagem! Massagem!!!\" alt=\"O meio \u00e9 a massagem! Massagem!!!\"><\/a><\/div>\n<p>Massagem! Ficaram repetindo &#8220;massagem&#8221; enquanto gargalhavam.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o. A nossa vis\u00e3o, digamos assim, ing\u00eanua, \u00e9 a de que, para voc\u00ea saber como estou, voc\u00ea precisa receber a minha mensagem. A pergunta relevante, nesse caso, \u00e9: &#8220;o que ele disse?&#8221;, concorda? Questionar &#8220;por onde ele disse?&#8221; n\u00e3o parece t\u00e3o relevante assim. Faz sentido?<\/p>\n<p>Adriano balan\u00e7a a cabe\u00e7a, positivamente.<\/p>\n<p>\u2014 Pois \u00e9. Esquece. Os meios afetam todo mundo, independentemente do conte\u00fado. \u00c9 a massagem, entende? Molde de cogni\u00e7\u00e3o. E vou mais longe. O meio, hoje, te distrai. Desvia o seu olhar. Joga sua mente pra superf\u00edcie. Voc\u00ea pode at\u00e9 estar conectado, mas em que lugar? Conversando com quem?<\/p>\n<p>Enquanto faz a rela\u00e7\u00e3o entre a &#8220;aulinha de McLuhan&#8221; e o vag\u00e3o de metr\u00f4, Adriano encontra um <b><a href=\"https:\/\/www.flickr.com\/photos\/copovermelho\/albums\/72057594143123075\/\" target=\"_blank\" title=\"Provavelmente um dos poucos registros de que esse evento realmente existiu!\">copo vermelho de acr\u00edlico<\/a><\/b>, guardando algumas canetas e pen-drives perdidos, enquanto empilha livros na estante de madeira.<\/p>\n<p>\u2014 Olha isso! &#8220;Festa do Copo Vermelho, Vila Madalena, 20 de maio de 2006&#8243;&#8230; Nem lembrava mais disso!<\/p>\n<p>Os dois viajam por longos minutos para aquela a\u00e7\u00e3o que pretendia divulgar uma famosa marca de bebidas (aquela do &#8220;Jo\u00e3o andarilho&#8221;) e de outras iniciativas semi-amadoras de marketing que s\u00f3 duas mentes saudosistas seriam capazes de resgatar. Como um desfile de sungas na Paulista ou uma fracassada chuva de chocolate Twix.<\/p>\n<p>\u2014 Esse copo aqui \u00e9 a prova de que voc\u00ea j\u00e1 foi um influenciador digital!<\/p>\n<p>\u2014 De jeito nenhum. Basicamente, voc\u00ea est\u00e1 dizendo que j\u00e1 fui um jogador de t\u00eanis s\u00f3 porque batia uma bolinha de borracha com raquete de frescobol. Ali\u00e1s, n\u00e3o d\u00e1 nem pra comparar blogueiro e influenciador com qualquer atleta ou esporte. A diferen\u00e7a \u00e9&#8230;<\/p>\n<p>Adriano se acomoda no sof\u00e1 com cara de &#8220;continue, quero saber a diferen\u00e7a&#8221;. O livro da &#8220;massagem&#8221; do McLuhan reaparece.<\/p>\n<p>\u2014 Vejamos. Se a estrutura massageia o pensamento, vamos entender o que um blog faz. Quem escreve ou, sei l\u00e1, pede pra um chat publicar, sabe que est\u00e1 acumulando ideias em ordem cronol\u00f3gica. Mesmo quem n\u00e3o fizer nenhum ajuste na ferramenta, consegue convidar quem clica a navegar por data. Tamb\u00e9m pode inventar r\u00f3tulos, abrindo uma ou outra porta diferente. E \u00e9 s\u00f3 isso.<\/p>\n<p>\u2014 T\u00e1. E por que isso \u00e9 mais importante do que a mensagem?<\/p>\n<p>\u2014 Porque essa \u00e9 a \u00fanica estrutura que define o contrato com quem l\u00ea. \u00c9 a simplicidade como a condi\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia do conte\u00fado. N\u00e3o tem promessa. N\u00e3o tem uma utilidade imediata. N\u00e3o tem certeza. Nem pedido para vir aqui badalar o meu sininho. Mas tem voz. Tem contradi\u00e7\u00e3o. Tem uma tentativa de enxergar e compartilhar o que v\u00ea. Tem um convite permanente para conversar, entende?<\/p>\n<p>\u2014 Ou um caf\u00e9.<\/p>\n<p>A frase \u00e9 um lembrete. O caf\u00e9 est\u00e1 na cozinha. Caminham at\u00e9 l\u00e1, servem-se e voltam.<\/p>\n<p>\u2014 Agora, veja o que voc\u00ea precisou fazer para que pud\u00e9ssemos tomar caf\u00e9. O clique num texto qualquer, provavelmente alguma conversa presa num contexto do tempo e do espa\u00e7o&#8230; Como a Festa do Copo Vermelho, vai. Houve um esfor\u00e7o a\u00ed. Ent\u00e3o, num outro momento, vem outro clique. Lembrar o que viu antes, fazer conex\u00f5es entre as ideias, comentar e voltar mais uma vez, no futuro, \u00e9 um movimento 100% produzido pelo autor do clique. \u00c9 o leitor que constr\u00f3i seu esquema com o blog. A estrutura vira filtro. Quem n\u00e3o est\u00e1 disposto a conversar, n\u00e3o fica.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 o meu caso\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Isso. Esse \u00e9 o contrato. Um blogueiro e seu p\u00fablico constroem a partir do pensamento. O texto \u00e9 evento. As coisas s\u00e3o datadas, dizem respeito ao contexto apresentado nele. Tamb\u00e9m \u00e9 processo. O que vai ser escrito amanh\u00e3 pode ser bem diferente do que se publicou ontem, mas ambos coexistem. O registro da mente se movendo com tempo \u00e9 parte do sentido.<\/p>\n<p>\u2014 Entendi. O blog \u00e9 o conte\u00fado que se recusa a virar estrutura.<\/p>\n<p>\u2014 Bingo. Agora abre o seu feed a\u00ed. Escolhe qualquer plataforma.<\/p>\n<p>Adriano descreve o que v\u00ea. Cenas absurdas e engra\u00e7adas, curiosidades, an\u00fancios, coment\u00e1rios vazios sobre pol\u00edtica, discursos motivacionais\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Tudo isso aqui se baseia em performance. O v\u00eddeo aparece automaticamente e a rolagem infinita deixa tudo f\u00e1cil. N\u00e3o tem esfor\u00e7o, s\u00f3 hiper-aten\u00e7\u00e3o. E cada fragmento desses s\u00f3 se justifica se houver n\u00famero. As coisas s\u00e3o ditas a servi\u00e7o da plataforma. Das notifica\u00e7\u00f5es que viram m\u00e9tricas.<\/p>\n<p>Os dois caem em um v\u00eddeo de algum fofoqueiro comentando qualquer treta relacionada a perfis que nenhum deles ouviu falar antes.<\/p>\n<p>\u2014 Olha que loucura. At\u00e9 agora, n\u00e3o vi nada de quem escolhi acompanhar. Todas as outras mensagens servem pra provocar rea\u00e7\u00e3o. Pode ser riso. Mas normalmente \u00e9 raiva. N\u00e3o tem contrato com o pensamento de quem fala, s\u00f3 energia dissipada e cansa\u00e7o. Amanh\u00e3 ningu\u00e9m vai lembrar do que provocou tanta rea\u00e7\u00e3o difusa.<\/p>\n<p>Adriano quer lembrar dos memes incr\u00edveis que recebeu recentemente. Tenta recuper\u00e1-los para mostrar mas n\u00e3o consegue. Paralelamente, saltam da estante livros sobre cr\u00f4nicas, ensaios, g\u00eaneros, experimentos. Falam ainda sobre esportes, viagens, fam\u00edlia, esposa, filhos, crian\u00e7as, jovens, pessoas, hist\u00f3rias, tempo, enfim.<\/p>\n<p>Antes de ir, Adriano pergunta.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o fica triste em saber que essa vis\u00e3o sobre blogs n\u00e3o existe mais?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei. Ainda fico mais triste com a fadiga de quem vive nas plataformas. Com nosso tempo sendo consumido por algum esquema ao inv\u00e9s da conversa. Gosto de pensar na utopia na qual, l\u00e1 na frente, algu\u00e9m vai perceber que est\u00e1 trocando algum indicador sem sentido pela chance de pensar. \u00c9 muita ingenuidade?<\/p>\n<p>A resposta que Adriano deixa para esta pergunta \u00e9 um abra\u00e7o, acompanhado por um &#8220;v\u00ea se n\u00e3o some&#8221;.<\/p>\n<div align=\"center\">***<\/div>\n<p>Se o Adriano hom\u00f4nimo ao personagem estivesse entre a gente, perguntaria &#8220;por que esse texto ao inv\u00e9s de outros que nunca escrevi, como aquele da esfinge que pegou minha carteira de motorista&#8221;. Lembraria que apenas um indiv\u00edduo, em 20 e poucos anos, o chamou deliberadamente de Adriano.<\/p>\n<p>Das \u00faltimas coisas que ele registrou, fica essa frase: &#8220;N\u00e3o d\u00ea muita import\u00e2ncia \u00e0s coisas. Tudo vai se perder no tempo. Inclusive n\u00f3s.&#8221;<\/p>\n<div align=\"center\">***<\/div>\n<p>Quando penso na express\u00e3o &#8220;o \u00faltimo blogueiro&#8221;, vejo o <b><a href=\"http:\/\/www.rafael.galvao.org\" target=\"_blank\" title=\"Cabra bom, esse aqui\">Rafael Galv\u00e3o<\/a><\/b>.<\/p>\n<div align=\"center\">***<\/div>\n<p>Compartilho o desejo do <b><a href=\"https:\/\/boanoiteinternet.com.br\/p\/em-2026-eu-desejo-que-voce-tenha\" target=\"_blank\" title=\"Outro cabra bom, esse aqui\">Cris Dias<\/a><\/b>: escreva. E feliz ano novo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Manh\u00e3 movimentada de uma quarta-feira qualquer em S\u00e3o Paulo. Em um vag\u00e3o de metr\u00f4 cheio, mas n\u00e3o abarrotado, Adriano est\u00e1 segurando uma edi\u00e7\u00e3o impressa de \u201cRegresso ao Admir\u00e1vel Mundo Novo\u201d quando ergue a cabe\u00e7a. Acabara de ler algo sobre \u201co imenso trabalho que a natureza teve para que cada indiv\u00edduo fosse diferente dos outros\u201d. 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