{"id":2588,"date":"2025-08-18T14:29:42","date_gmt":"2025-08-18T17:29:42","guid":{"rendered":"https:\/\/marmota.org\/blog\/?p=2588"},"modified":"2025-08-18T14:43:08","modified_gmt":"2025-08-18T17:43:08","slug":"meu-primeiro-encontro-com-luis-fernando-verissimo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/meu-primeiro-encontro-com-luis-fernando-verissimo\/","title":{"rendered":"Meu primeiro encontro com Luis Fernando Ver\u00edssimo"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"\/blog\/secoes\/denovo.gif\" align=\"right\">No final de 1992, o hor\u00e1rio nobre da TV estava movimentado. Guilherme de P\u00e1dua havia assassinado a filha de Gl\u00f3ria Perez a facadas, mexendo na novela De Corpo e Alma \u2013 aquela que Tarc\u00edsio Meira se apaixonava por Cristiana Oliveira por causa do cora\u00e7\u00e3o transplantado, que era da Bruna Lombardi, mas que os tr\u00eas espectadores s\u00f3 lembram por causa do g\u00f3tico Eri Reginaldo Johnson. Antes, no Jornal Nacional, o notici\u00e1rio pol\u00edtico tratava do ent\u00e3o presidente da Rep\u00fablica, Fernando Collor de Mello, que na mesma \u00e9poca renunciou para evitar o processo de impeachment.<\/p>\n<p>Eu era um moleque de quinze anos, passando f\u00e9rias em Pelotas. Antes de sintonizar a televis\u00e3o \u00e0 noite, passeava pela Marechal Floriano, perto da Pra\u00e7a Coronel Pedro Os\u00f3rio, flanando na Livraria do Globo. Ficava ao lado das Lojas Brasileiras e daquele pr\u00e9dio antigo onde ficava a farm\u00e1cia Khautz.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"\/blog\/images\/humorcollor250818.jpg\" width=\"250\" title=\"Foto que tirei agora, agorinha!\" align=\"right\">Ali comprei, por alguns milhares de cruzeiros, a 12\u00aa edi\u00e7\u00e3o de \u201cHumor nos Tempos do Collor\u201d, uma colet\u00e2nea de humor pol\u00edtico da L&#038;PM daquilo que, nos anos 1990, acreditava-se ser o pior governo da hist\u00f3ria do pa\u00eds. Mal sab\u00edamos o que viria em 2018.<\/p>\n<p>Mas enfim. Assinam o livro J\u00f4 Soares, que mantinha uma coluna semanal na Revista Veja; Mill\u00f4r Fernandes, com suas participa\u00e7\u00f5es no Jornal do Brasil; e um cronista, que tamb\u00e9m ensaiava tirinhas com cobras, publicado semanalmente no Zero Hora e no Estad\u00e3o.<\/p>\n<p>A cr\u00f4nica da p\u00e1gina 50, \u201cO quase\u201d, \u00e9 minha primeira lembran\u00e7a de um texto do Luis Fernando Ver\u00edssimo. Aquela que me fez continuar procurando por ele desde sempre.<\/p>\n<div align=\"center\">***<\/div>\n<p><i>Sentado sozinho no seu gabinete, Collor olha para o bot\u00e3o vermelho.<\/p>\n<p>Retrocede no tempo, em pensamento. Lembra a primeira vez em que entrou no Pal\u00e1cio do Planalto. J\u00e1 estava eleito, mas ainda n\u00e3o tomara posse. la ter uma reuni\u00e3o secreta com Sarney.<\/p>\n<p>Collor lembra-se de todos os detalhes da visita. De como chegou ao Pal\u00e1cio do Planalto discretamente, vestindo um macac\u00e3o cor de ab\u00f3bora, de ultraleve, com uma escolta de seguran\u00e7as em asas-deltas, e entrou pela porta dos fundos abanando para as c\u00e2maras. De como foi levado diretamente ao gabinete do Sarney.<\/p>\n<p>O presidente estava sentado \u00e0 cabeceira de sua mesa de trabalho. Disse para Collor dispensar seus acompanhantes. Precisavam ter uma conversa a s\u00f3s.<\/p>\n<p>\u2013 Senta a\u00ed \u2013 disse Sarney, indicando uma cadeira.<\/p>\n<p>Coltor sentou. Sua cadeira, lentamente, come\u00e7ou a baixar<\/p>\n<p>\u2013 O que \u00e9 isso?! \u2013 disse Collor, quando notou que seu queixo quase encostava na mesa.<\/p>\n<p>\u2013 Eu controlo a altura da cadeira com um bot\u00e3o aqui em baixo. \u00c9 para quando recebo a visita do general Pires Gon\u00e7alves ou do Roberto Marinho. Para eles n\u00e3o se sentirem muito superiores.<\/p>\n<p>\u2013 E d\u00e1 certo?<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o. O Gon\u00e7alves \u00e9 t\u00e3o alto que n\u00e3o faz efeito. E o Roberto Marinho traz dois cat\u00e1logos telef\u00f4nicos. E o Ant\u00f4nio Carlos Magalh\u00e3es traz a sua pr\u00f3pria cadeira. Mas \u00e9 sempre bom saber que existe o recurso.<\/p>\n<p>\u2013 Acho que n\u00e3o terei esse problema com o meu ministro do Ex\u00e9rcito\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Sei. Voc\u00ea escolheu o Tinoco. O nome j\u00e1 \u00e9 uma cadeira baixa.<\/p>\n<p>Sarney apontou para uma fileira de bot\u00f5es em cima da mesa e foi descrevendo para o que servia cada um.<\/p>\n<p>\u2013 Este aqui \u00e9 para desintegrar o Ma\u00edlson. Nunca usei, claro, mas estive perto de apert\u00e1-lo muitas vezes. Este aqui \u00e9 para avisar a Marly que tive um dia terr\u00edvel e que \u00e9 para ela preparar minha tintura de bigode. Ah, e este aqui vai lhe dar muita alegria. \u00c9 para chamar o Roberto Cardoso Alves.<\/p>\n<p>\u2013 Mas o Roberto Cardoso Alves n\u00e3o ser\u00e1 meu ministro.<\/p>\n<p>\u2013 Exatamente. Voc\u00ea pode apertar o bot\u00e3o \u00e0 vontade, sabendo que ele n\u00e3o aparecer\u00e1. Que inveja!<\/p>\n<p>Subitamente, Sarney ficou s\u00e9rio. Apontou para um bot\u00e3o vermelho, maior que os outros.<\/p>\n<p>\u2013 Preste aten\u00e7\u00e3o \u2013 disse. \u2013  Este bot\u00e3o \u00e9 important\u00edssimo. Ele aciona um dispositivo que n\u00f3s chamamos de \u00daltimo Cartucho ou Ju\u00edzo Final ou ainda PQP!<\/p>\n<p>\u2013 Do que se trata?<\/p>\n<p>\u2013 Quando chegar o momento, quando tudo, mas tudo, der errado, quando o Brasil n\u00e3o tiver mais salva\u00e7\u00e3o, quando a crise chegar a um ponto absolutamente sem solu\u00e7\u00e3o e quase mais nada no pa\u00eds estiver funcionando, basta apertar este bot\u00e3o e esta sala toda ser\u00e1 expelida pelo teto do pal\u00e1cio, transformando-se num helic\u00f3ptero que transportar\u00e1 o presidente para um lugar seguro. Mas aten\u00e7\u00e3o: s\u00f3 aperte este bot\u00e3o no momento certo.<\/p>\n<p>Agora Collor olha para o bot\u00e3o vermelho e se pergunta se chegou o momento.<\/p>\n<p>Decide que sim. Tudo deu errado. A crise n\u00e3o tem solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ele aperta o bot\u00e3o vermelho.<\/p>\n<p>Nada acontece.<\/p>\n<p>Collor lembra a frase de Sarney sobre o momento certo: \u201cQuando quase nada mais no pa\u00eds estiver funcionando &#8230;&#8221;.<\/p>\n<p>Descobre que deixou passar o momento certo. No governo Sarney faltava o quase. Agora n\u00e3o falta mais nada.<\/p>\n<p>Nem o bot\u00e3o vermelho est\u00e1 funcionando. <\/i><\/p>\n<div align=\"center\">***<\/div>\n<p>Lembrei desse texto ao ouvir que, aos 88 anos, LFV est\u00e1 internado no hospital Moinhos de Vento com um grave quadro de pneumonia. <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2025\/05\/28\/luis-fernando-verissimo-nao-escreve-mais-as-palavras-escapam-e-nao-toca-mais-sax-diz-a-sua-mulher-lucia\/\" target=\"_blank\" title=\"Ele j\u00e1 n\u00e3o escreve mais, nem toca sax. Ficamos na torcida para que siga conosco.\"><b>Nas \u00faltimas semanas, lida com as consequ\u00eancias do Parkinson, seguido por um AVC<\/b><\/a>.<\/p>\n<p>Qual a sua primeira lembran\u00e7a de Luis Fernando Ver\u00edssimo? E qual a mais legal?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No final de 1992, o hor\u00e1rio nobre da TV estava movimentado. 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