{"id":2556,"date":"2022-03-13T13:47:03","date_gmt":"2022-03-13T16:47:03","guid":{"rendered":"https:\/\/marmota.org\/blog\/?p=2556"},"modified":"2022-03-13T14:20:01","modified_gmt":"2022-03-13T17:20:01","slug":"dois-anos-de-entropia-em-troca-da-sobrevivencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/dois-anos-de-entropia-em-troca-da-sobrevivencia\/","title":{"rendered":"Dois anos de entropia em troca da sobreviv\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/pedra.gif\" align=\"right\" title=\"\u00c9 minha categoria de posts preferida nesses 20 anos!\">Eu j\u00e1 n\u00e3o lembro mais a sensa\u00e7\u00e3o. Mas se eu fechar os olhos, consigo imaginar uma sala apinhada de gente jovem e inteligente relacionando os t\u00f3picos da aula com situa\u00e7\u00f5es cotidianas, aquele livro ou s\u00e9rie que estava no topo da agenda na semana.<\/p>\n<p>Abro os olhos de novo. Meus filhos sobem em cima de mim. Eles n\u00e3o v\u00e3o para a escola esta semana, com febre e nariz entupido. Tento lembrar o que estava fazendo antes, se era o momento de voltar ao computador para se virar no home office ou levar o smartphone para a cozinha. Ou\u00e7o o som da TV: \u00e9 aquele filme do streaming que j\u00e1 vimos umas treze vezes essa semana.<\/p>\n<p>Respiro fundo. Fecho os olhos de novo e estou caminhando. Andando de metr\u00f4. Entrando em alguma faculdade. Dando\u00a0 \u201cboa tarde\u201d ao pessoal da sala dos professores. At\u00e9 13 de mar\u00e7o de 2020, dia que sepultou o mundo como conhec\u00edamos, era a minha rotina, de segunda a sexta.<\/p>\n<p>Outra vez o menino constipado, j\u00e1 sem febre, sobe no meu cangote para pular na minha barriga. Minha cabe\u00e7a, cansada, se ap\u00f3ia no sof\u00e1. S\u00f3 as crian\u00e7as, ao que parece, n\u00e3o est\u00e3o exaustas.<\/p>\n<p>A turma do coach curte uma resili\u00eancia. Toma para si atributos da personagem Rocky Balboa, mergulha no storytelling corporativo e celebra, naquela rede social de arrumar emprego, sua incr\u00edvel capacidade de ser socado no ringue da vida e tentar encontrar, mesmo desnorteado e sangrando, algo pr\u00f3ximo de \u201cera aqui o lugar onde estava antes, daqui posso dar mais um passo\u201d.<\/p>\n<p>Agora levei uma pancada de cada filho. Est\u00e3o brincando de super her\u00f3is e eu sou algum tipo de vil\u00e3o involunt\u00e1rio. \u201c\u00c9 s\u00f3 mais um soco, seja resiliente\u201d, diria a turma do coach.<\/p>\n<p>N\u00e3o, meus consagrados. A li\u00e7\u00e3o que aprendi nesses dois anos pand\u00eamicos foi: quando se est\u00e1 soterrado, qualquer movimento te faz afundar mais. Adaptar e voltar ao lugar significa sair do atoleiro a cada per\u00edodo do dia. Cansa. Perturba.<\/p>\n<p>Em 13 de mar\u00e7o de 2020 eu era professor universit\u00e1rio. Era algo que, diziam, eu era relativamente capaz de fazer. De certa forma, lidava h\u00e1 uns quinze anos com um processo viciante: planejar uma sequ\u00eancia de trabalho, estruturar objetivos e relacion\u00e1-los a atividades, estar alinhado \u00e0s pesquisas mais recentes da \u00e1rea. A aula propriamente dita era s\u00f3 o desfecho &#8211; ironicamente, o sal\u00e1rio dos professores, calculado por hora\/aula, leva em conta apenas o tempo em sala. Enfim.<\/p>\n<p>Ainda sobravam uns dois ou tr\u00eas neur\u00f4nios para escrever bobagem, sair para visitar os amigos, ir ao cinema, viajar com a fam\u00edlia. Ver gente.<\/p>\n<p>Era um milagre. Eu nem sei como esse texto aqui conseguiu nascer. Sinto que desaprendi a escrever. Ali\u00e1s, a pia est\u00e1 abarrotada com a lou\u00e7a do almo\u00e7o; eu deveria cuidar disso ao inv\u00e9s de resgatar a vontade de dialogar comigo mesmo, descrever o cotidiano, refletir\u2026 Essas coisas de quem j\u00e1 est\u00e1 com a vida ganha.<\/p>\n<p>(Ouvi isso uma vez da turma do coach).<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o era um professor universit\u00e1rio t\u00edpico. Meu foco sempre esteve na compreens\u00e3o e encadeamento das disciplinas, no relacionamento com a turma. Nunca fui tarado pelo Lattes. Sempre tive pregui\u00e7a com os academicismos que exigem aproxima\u00e7\u00e3o com &#8220;igrejinhas de pesquisa&#8221; e &#8220;panelinhas eg\u00f3latras no banho-maria&#8221;. As grandes ideias para desenvolvimento de artigos (muitas ca\u00edram no meu colo gra\u00e7as ao olhar brilhante do meu orientador) est\u00e3o at\u00e9 hoje nos meus rascunhos, em busca da estrutura perfeita (um dos mais famosos tipos de autossabotagem).<\/p>\n<p>Isso porque, no fundo, era interessante manter um p\u00e9 na vida acad\u00eamica e outro no mercado, praticamente um \u201coper\u00e1rio underground\u201d que mistura produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fado e desenvolvimento tecnol\u00f3gico. A turma do coach vai me cercar outra vez para dizer que n\u00e3o d\u00e1 para se equilibrar em duas canoas. Com alguma dose de raz\u00e3o: a cada final de semestre, apesar das demiss\u00f5es, fus\u00f5es e outros quetais nas universidades privadas, eu n\u00e3o precisava me preocupar com a minha n\u00e3o-escolha.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o entro em uma sala de aula presencial desde 13 de mar\u00e7o de 2020. Foi tamb\u00e9m o \u00faltimo dia de rotina escolar de duas crian\u00e7as que, agora e talvez por um bom tempo, precisam recuperar parte de seu desenvolvimento ap\u00f3s longas semanas de clausura. Daquele final de semana em diante, minha cabe\u00e7a configurou um estado de entropia: \u201cmeu \u00fanico objetivo, nos pr\u00f3ximos dias, \u00e9 sobreviver\u201d.<\/p>\n<p>Resumindo? Arremedo de home office. Bombardeio midi\u00e1tico do medo. C\u00edrculos sociais desfeitos. Covid qu\u00e2ntica, aquela que \u201cparece que est\u00e1 mas talvez n\u00e3o seja\u201d. Gente sem m\u00e1scara. Gente sem teste. Gente querida sendo entubada. Alguns sem deixar o hospital com vida.<\/p>\n<p>Era desgastante para mim. Mas foi fichinha se comparado com <a href=\"https:\/\/instagram.com\/vemprocolomaterno\" target=\"_blank\" title=\"Ela ainda faz as pajelan\u00e7as dela para m\u00e3es, vai l\u00e1 no Insta conhecer!\" rel=\"noopener\"><b>Rina<\/b><\/a>, que batalhava em sua transi\u00e7\u00e3o de carreira se aproximando de gestantes e pu\u00e9rperas, ficou sem qualquer perspectiva de carreira. Segurou a marimba e levou toda sorte de baquetadas na cabe\u00e7a enquanto eu me virava para manter a carga hor\u00e1ria, intensa para uma rotina presencial mas impratic\u00e1vel num apartamento.<\/p>\n<p>Assumo, inclusive, que n\u00e3o fiz o bastante para quebrar o ciclo que culmina com o <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/03\/01\/politica\/1551460732_315309.html\" target=\"_blank\" title=\"Esse artigo faz refer\u00eancia ao consagrado quadrinho da Emma Clit: era s\u00f3 pedir\" rel=\"noopener\"><b>aumento da carga mental<\/b><\/a> das m\u00e3es, seguramente no topo da lista das maiores v\u00edtimas entre quem escapou da pandemia. Sei que s\u00f3 um pedido de desculpas \u00e9 pouco. Terminar aqui e cuidar da lou\u00e7a tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Mas enfim. N\u00e3o foi exatamente por solidariedade ao caos da rotina dom\u00e9stica\u2026 De toda forma, boa parte das institui\u00e7\u00f5es de ensino privado resolveram o meu problema. <a href=\"https:\/\/apublica.org\/2020\/09\/e-cruel-professores-relatam-de-aulas-on-line-com-300-alunos-a-demissoes-por-pop-up\/\" target=\"_blank\" title=\"Em 2020, teve professor sendo demitido por popup. Foram mais de 1600 no segundo semestre daquele ano.\" rel=\"noopener\"><b>N\u00e3o fui o \u00fanico<\/b><\/a>. Em dois anos, ou\u00e7o relato de colegas que conseguiram ficar, que voltaram, que ainda acreditam na import\u00e2ncia da educa\u00e7\u00e3o, que se perguntam \u201ccomo \u00e9 que chegamos nessa terra arrasada onde os sobreviventes recebem uma mariola por hora\u201d.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o voltei. Nem todos voltaram. Ali\u00e1s, \u00e9 importante lembrar: aquele lugar, igual a muitos outros, n\u00e3o existe mais.<\/p>\n<p>Finalmente, 13 de mar\u00e7o de 2022. Apesar das crises emocionais, dos rombos or\u00e7ament\u00e1rios, das narinas cobertas por catota esverdeada e de toda essa gente ac\u00e9fala que se esfor\u00e7ou para nos atrasar, chegamos. Todas as doses de vacina garantidas. Empregos cujos desafios cotidianos e rela\u00e7\u00f5es interpessoais ajudam a distrair a mente. Uma ou outra forma de reinventar o que somos.<\/p>\n<p>Ainda sou acordado repentinamente por alguma crian\u00e7a exigindo aten\u00e7\u00e3o e leite, mas j\u00e1 d\u00e1 para isolar um neur\u00f4nio para trabalhar em formas de \u201cabandonar o modo sobreviv\u00eancia\u201d. Se eu fechar os olhos, consigo me ver al\u00e9m da sala de aula. Ou em uma sala com Rina, as crian\u00e7as e alguns parentes e amigos e longas tardes de conversa. Ou em uma sala de embarque rumo ao futuro.<\/p>\n<p>Espero que voc\u00ea tamb\u00e9m (mesmo sendo da turma do coach, vai).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu j\u00e1 n\u00e3o lembro mais a sensa\u00e7\u00e3o. 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