{"id":2526,"date":"2019-11-12T17:31:49","date_gmt":"2019-11-12T19:31:49","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/?p=2526"},"modified":"2019-11-12T18:59:05","modified_gmt":"2019-11-12T20:59:05","slug":"boas-vindas-ao-matias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/boas-vindas-ao-matias\/","title":{"rendered":"Boas vindas ao Matias! (Ou: relato de um parto natural humanizado no box do nosso banheiro)"},"content":{"rendered":"<p>\u2014 Aqui \u00e9 a doutora m\u00e9dica!? Eu vou tomar um pic no bra\u00e7o, papai?! \u2014  perguntou Joana, aflita, identificando semelhan\u00e7as entre um hospital e a sala de espera do cart\u00f3rio.<\/p>\n<p>Nem deu tempo de negar enquanto ela esbo\u00e7ava sentar e brincar nas cadeiras cor-de-rosa: ningu\u00e9m precisa de um cart\u00f3rio ao meio-dia de uma sexta-feira chuvosa e emenda de feriado, 16 de novembro de 2018. Mal chegamos e j\u00e1 \u00e9ramos os pr\u00f3ximos.<\/p>\n<p>Sentamos, Joj\u00f4 e eu, diante do guich\u00ea da Soraia.<\/p>\n<p>\u2014 Ol\u00e1, bom dia! Eu vim para registrar o nascimento do meu segundo filho.<\/p>\n<p>\u2014 Ah, pois n\u00e3o. O senhor trouxe todos os documentos?<\/p>\n<p>Claro que sim. Tirei da pastinha a certid\u00e3o de casamento, RG original, comprovante de endere\u00e7o, a c\u00f3pia de tudo isso e, por fim, o papelinho amarelo preenchido e assinado horas ap\u00f3s o nascimento do Matias, na segunda anterior, dia 12.<\/p>\n<p>\u2014 Desculpe, senhor. Apenas confirme comigo. Segundo esta Declara\u00e7\u00e3o de Nascido Vivo, o seu filho nasceu em casa?<\/p>\n<p>\u2014 Exato. Mais precisamente, no box do banheiro.<\/p>\n<p align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"\/blog\/images\/relatoporta121119.jpg\"><br \/>\n<i>O enfeite da porta anunciava o novo membro da fam\u00edlia<\/i><\/p>\n<p>N\u00e3o era a primeira vez que dava essa resposta ao tentar explicar a escolha por um parto domiciliar, feita em conjunto com Rina. Ter\u00e7a-feira cedo, quando a professora de Joana quis saber do novo irm\u00e3ozinho e se a mam\u00e3e ainda estava no hospital, eu j\u00e1 tinha falado da crian\u00e7a que veio ao mundo em meio a azulejos oitentistas no box do nosso apartamento alugado.<\/p>\n<p>\u2014 Nossa! Mas que mulher corajosa!<\/p>\n<p>Ela \u00e9, sim.<\/p>\n<p>A rea\u00e7\u00e3o de todo mundo diante de um &#8220;parto caseiro&#8221;, um &#8220;parto artesanal&#8221; ou um &#8220;parto socialista&#8221; (ouvi todas estas vers\u00f5es!) varia entre a total surpresa (&#8220;Mas ela bancou isso desde o come\u00e7o?! C\u00ea \u00e9 looooouco!&#8221;) e a incredulidade. Tanto que a mesma professora, na manh\u00e3 seguinte, perguntou se Rina &#8220;j\u00e1 estava em casa&#8221;.<\/p>\n<p>\u2014 Mas&#8230; Mas eu disse que ela n\u00e3o saiu de casa! Matias nasceu no box!<\/p>\n<p>\u2014 Ah, \u00e9&#8230; Ent\u00e3o n\u00e3o teve hospital, n\u00e9!? N\u00e3o teve, o hospital?<\/p>\n<p>N\u00e3o. Sem hospital.<\/p>\n<p>Enfim, talvez fosse melhor dizer que nem  todo mundo reagiu assim. Soraia, a escrevente, fez diferente.<\/p>\n<p>\u2014 Senhor, em respeito \u00e0 Lei de n\u00famero 6.015, eu vou precisar de c\u00f3pias dos exames pr\u00e9-natal de sua esposa. De prefer\u00eancia os de ultrassom. Tamb\u00e9m vamos precisar do testemunho de duas pessoas, desde que n\u00e3o sejam os pais.<\/p>\n<p>Oi?!<\/p>\n<p>Quer que eu traga tamb\u00e9m a placenta congelada? Umas tr\u00eas ou quatro fraldas com mec\u00f4nio? Ou, talvez a pr\u00f3pria crian\u00e7a pelada, balangando o coisinho na frente do guich\u00ea at\u00e9 o xixi acertar sua cabe\u00e7a?<\/p>\n<p>\u2014 Mas Soraia, eu consultei o site do cart\u00f3rio e n\u00e3o diz nada disso. Al\u00e9m do mais, n\u00e3o h\u00e1 motivo algum pra suspeitar desta DNV. Ela foi assinada por uma profissional de sa\u00fade devidamente habilitada. Podem verificar os dados. Ah, tamb\u00e9m tenho fotos do parto. Quer ver?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o se aplicam, senhor. Mesmo com elas, o Juiz pode encontrar motivos para duvidar da declara\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 praxe em casos de parto ocorrido em resid\u00eancia, fora de unidade hospitalar ou em casa de sa\u00fade, sem assist\u00eancia m\u00e9dica. \u00c9 para nossa seguran\u00e7a. Mas o senhor tem tempo. \u00c9 poss\u00edvel registrar em at\u00e9 15 dias ap\u00f3s o nascimento. Foi na segunda-feira, n\u00e9?<\/p>\n<p align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"\/blog\/images\/relatojojo121119.jpg\"><br \/>\n<i>Nossa cara de &#8220;mas que car\u00e1lea&#8221; no cart\u00f3rio.<\/i><\/p>\n<p>Jamais poderia imaginar que seria na manh\u00e3 de segunda, dia 12. Joana nasceu dois dias ap\u00f3s Rina completar 40 semanas de gesta\u00e7\u00e3o. Se houvesse uma regularidade cartesiana (n\u00e3o existe), a data prevista seria l\u00e1 para o dia 20. Preferencialmente depois, para que nossa fam\u00edlia pudesse contar com a ousadia e a alegria de um sagitariano.<\/p>\n<p>Era isso ou a imprevisibilidade atarantada de um escorpiano.<\/p>\n<p>O tamanho da nossa tranquilidade \u00e9 equivalente \u00e0 sensa\u00e7\u00e3o de quem sai de uma churrascaria rod\u00edzio ap\u00f3s um almo\u00e7o de duas horas. Buffet de saladas, pratos quentes, bebidas e sobremesa inclusos no pacote. Foi exatamente o que fizemos, ao lado de Adelise, &#8220;irm\u00e3 posti\u00e7a&#8221; da Rina, e um amigo dela, na tarde de domingo, dia 11.<\/p>\n<p>Ainda com o status de filha \u00fanica, Joana driblou o sono p\u00f3s-restaurante e n\u00e3o cochilou no carro na volta para casa. Enquanto nos pergunt\u00e1vamos &#8220;como isso \u00e9 poss\u00edvel&#8221;, tratamos de executar um plano de distra\u00e7\u00e3o infal\u00edvel: shopping center decorado para o Natal. Mudamos a rota e seguimos para o norte.<\/p>\n<p>Mal entramos no acesso da avenida Moyses Roysen e j\u00e1 levei uma cutucada.<\/p>\n<p>\u2014 Meu bem, tente estacionar r\u00e1pido. Preciso muito ir ao banheiro!<\/p>\n<p>Deu certo. Rina correu para casinha de for\u00e7a enquanto Joana e eu admir\u00e1vamos a \u00e1rvore de Natal cantarolando &#8220;Center Nooorteee\u2026 Alegriiiaaa\u2026&#8221;.<\/p>\n<p>Repetimos o jingle que pergunta quem vem voando com o tren\u00f3 e suas renas carregando mil presentes umas tr\u00eas vezes quando Rina, de volta, demonstrou que Papai Noel existe mesmo e mora l\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 Ei\u2026 Acho que vamos voltar pra casa um pouco mais cedo\u2026<\/p>\n<p>Explicou que sentiu sair algo a mais no caminho do banheiro. Demonizou uma prov\u00e1vel incontin\u00eancia e, com calma e j\u00e1 com a cal\u00e7a molhada, reparou que havia mais l\u00edquido que o normal. Demais at\u00e9 pra ser s\u00f3 o tamp\u00e3o. Ou, em outras palavras:<\/p>\n<p>\u2014 Talvez a bolsa tenha rompido.<\/p>\n<p>\u2014 ?!<\/p>\n<p>E o que a gente faz agora?<\/p>\n<p align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"\/blog\/images\/relatonatal121119.jpg\"><br \/>\n<i>Joana, no shopping: &#8220;Mam\u00e3e, voc\u00ea est\u00e1 iluminada&#8230; Est\u00e1 acontecendo alguma coisa?&#8221;<\/i><\/p>\n<p>Pense naquela sequ\u00eancia clich\u00ea de parto no \u00faltimo cap\u00edtulo da novela (ou daquele comercial sem no\u00e7\u00e3o de SUV). Gente aflita. M\u00e3e sentido dores. Pai correndo com uma bolsa na m\u00e3o. Vai todo mundo apressado pro carro. Enquanto dirige, o marido segura o telefone e avisa todo mundo.<\/p>\n<p>Pensou? Agora esque\u00e7a. Volte para meu di\u00e1logo no shopping.<\/p>\n<p>\u2014 E como voc\u00ea est\u00e1?<\/p>\n<p>\u2014 Ah, normal. Uma coliquinha leve. A barriga contrai muito de leve quando caminho. Podemos caminhar uma meia hora, tomar um sorvete\u2026 A\u00ed a gente volta pra casa.<\/p>\n<p>E o tamanho da nossa tranquilidade continuava com sabores doce de leite tenta\u00e7\u00e3o e tramontana, da Freddo, enquanto admir\u00e1vamos o chafariz dan\u00e7ante ao lado do carrossel das renas na pracinha de eventos.<\/p>\n<p>Existe outro clich\u00ea, bem mais verdadeiro, que todo casal \u00e0 espera do segundo filho escuta: nenhuma gesta\u00e7\u00e3o \u00e9 igual. Inevit\u00e1vel comparar: Joana nasceu no Hospital S\u00e3o Luiz, com direito a um furac\u00e3o Rina e seus oito cent\u00edmetros de dilata\u00e7\u00e3o gritando loucamente naquele sagu\u00e3o ass\u00e9ptico, onde normalmente as m\u00e3es s\u00e3o recepcionadas para conhecer seus beb\u00eas com hora marcada.<\/p>\n<p>Naquela manh\u00e3 de segunda-feira, 25 de abril de 2016, as fam\u00edlias do An\u00e1lia Franco que deixaram suas SUV com o manobrista (as mesmas que devem achar aquele comercial incr\u00edvel) se surpreenderam com dois metros de mulher apoiando as m\u00e3os em um sof\u00e1 lil\u00e1s, em pleno trabalho de parto. Uma atendente se aproximou.<\/p>\n<p>\u2014 Com licen\u00e7a, a senhora precisa de algo? Posso ajud\u00e1-la a preencher sua ficha?<\/p>\n<p>A resposta foi uma mistura de urros com estranhos pedidos relacionados a orif\u00edcios internos e externos da auxiliar. Algu\u00e9m um pouco mais sens\u00edvel levou Rina para a triagem e, minutos depois, para o &#8220;delivery room&#8221;, como \u00e9 chamada a sala para parto normal.<\/p>\n<p>Com minha bermuda vermelha e camiseta desbotada como se fosse domingo \u00e0 tarde, acompanhei a transfer\u00eancia ao lado da doula Janie e a enfermeira obstetra Karina, da Commadre. &#8220;Aquele povo estranho do natural&#8221;, mencionou uma enfermeira do S\u00e3o Luiz, como se f\u00f4ssemos todos um grupo sa\u00eddo do filme Hair.<\/p>\n<p>Eram pouco depois das dez horas quando chegamos. &#8220;Banheeeiraaaaaaaaa!!!&#8221;, pediu Rina, em busca de \u00e1gua para aliviar as contra\u00e7\u00f5es. Foi quando Camila, a m\u00e9dica, entrou na sala. Cinco minutos antes das onze, Joana estava no colo da mam\u00e3e. Conseguiu vir antes da fot\u00f3grafa e da pediatra. Entre as primeiras contra\u00e7\u00f5es durante a madrugada at\u00e9 o nascimento de Joj\u00f4, passando pelo deslocamento entre nossa casa e o S\u00e3o Luiz com direito a &#8220;mulher-sirene&#8221; no banco de tr\u00e1s, foram sete horas.<\/p>\n<p align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"\/blog\/images\/relatojojozinha121119.jpg\"><br \/>\n<i>Joj\u00f4 j\u00e1 foi assim.<\/i><\/p>\n<p>Nos tr\u00eas anos seguintes, cresceram tanto a menina sapeca quanto a vontade de Rina em seguir acompanhando mulheres em busca de um parto respeitoso e baseado em muita informa\u00e7\u00e3o. Seu preparo como doula foi determinante ainda para aquela confian\u00e7a toda no fim da tarde. Ela sabia que, depois que a bolsa rompe, h\u00e1 um limite para o trabalho de parto espont\u00e2neo come\u00e7ar: a preocupa\u00e7\u00e3o s\u00f3 viria se, ap\u00f3s longas horas, nada de contra\u00e7\u00f5es fortes ou dilata\u00e7\u00e3o. Por conta do hist\u00f3rico, as chances disso acontecer eram pr\u00f3ximas a zero.<\/p>\n<p>Enquanto volt\u00e1vamos para casa, Rina sentiu uma contra\u00e7\u00e3o dolorida enquanto avisava quem interessava: os membros do grupo &#8220;#BoraTi\u00e3o&#8221; no WhatsApp. Eram as parteiras do Grupo de Parto Domiciliar Matrona e duas companheiras que consolidaram a rede de apoio p\u00f3s-Joana: as amigas Debora e Cacau, agora nos pap\u00e9is de doula e fot\u00f3grafa, respectivamente.<\/p>\n<p>Ah, claro, tamb\u00e9m era importante conversar com minha sogra. Nesse caso, o WhatsApp n\u00e3o era suficiente.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 tudo bem, m\u00e3e. Estive essa semana com a obstetra, os exames pr\u00e9-natal est\u00e3o em ordem. Press\u00e3o controlada. N\u00edveis de glicose tamb\u00e9m. Pode ficar sossegada.<\/p>\n<p>De fato, era uma gravidez de risco baixo. Havia um plano B para transfer\u00eancia em caso de emerg\u00eancia. As escolhas eram seguras e planejadas. Est\u00e1vamos cercados de informa\u00e7\u00e3o. Era o bastante.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m gosta de receber conselhos ou de ficar ouvindo palpites, por isso entenda o que vou registrar aqui como uma sugest\u00e3o valiosa. Caso voc\u00ea e sua companheira decidam bancar um parto em casa, avisem apenas quem de fato vai apoiar a empreitada durante o processo todo. Para garantir a alegria e felicidade dos nossos pais e amigos, todos souberam do parto domiciliar apenas quando Matias nasceu.<\/p>\n<p>Evite o constrangimento de amigos e parentes que v\u00e3o contar a hist\u00f3ria daquela conhecida &#8220;que fez ces\u00e1rea no plant\u00e3o do hospital do plano e deu tudo certo&#8221; (a gente torce para que d\u00ea sempre, mas n\u00e3o era a nossa escolha). Poupe seus pais da tens\u00e3o nervosa do &#8220;minha nossa senhora que ideia mais maluca mas isso \u00e9 seguro mesmo n\u00e3o vai ter hospital?&#8221;.<\/p>\n<p>Porque n\u00e3o teve hospital. Talvez eu j\u00e1 tenha dito isso.<\/p>\n<p align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"\/blog\/images\/relatohospital121119.jpg\"><br \/>\n<i>Isso aqui \u00e9 um hospital. Joana nasceu aqui. Matias n\u00e3o.<\/i><\/p>\n<p>A Vivian, uma das parteiras do Grupo Matrona, chegou em casa antes do Faust\u00e3o acabar. Ficou at\u00e9 o meio do Fant\u00e1stico. Avaliou Rina, conversou, mediu o intervalo das contra\u00e7\u00f5es. A orienta\u00e7\u00e3o era simples: descansar e esperar. Foi o que ela fez, n\u00e3o sem antes manter a rotina de colocar Joana para dormir.<\/p>\n<p>Eu fiz o que pude para abstrair o que podia acontecer naquela madrugada. Fui para o computador e prossegui com uma tarefa que devia entregar naquela semana: a grava\u00e7\u00e3o de um curso online. A escrivaninha fica ao lado da nossa cama, onde Rina costuma desmaiar em sono profundo. Em circunst\u00e2ncias normais, a rela\u00e7\u00e3o entre esses dois extremos num ambiente acanhado \u00e9 pac\u00edfico.<\/p>\n<p>Em algum momento, enquanto falava alguma coisa sobre vari\u00e1veis importantes para otimiza\u00e7\u00e3o de p\u00e1ginas HTML para serem indexadas pelo Google, ou\u00e7o um gemid\u00e3o. Eram as contra\u00e7\u00f5es de Rina, com cada vez mais intensidade. \u00c9 poss\u00edvel que, caso algu\u00e9m acesse ao menos uma das videoaulas que produzi, consiga ouvir um berro ululante. Era Matias chegando.<\/p>\n<p>O grupo &#8220;#Borati\u00e3o&#8221; movimentou-se freneticamente. Cacau e Debora chegaram em casa nas primeiras horas da madrugada. Prepararam a sala de casa com incensos, aromas e ilumina\u00e7\u00e3o leve enquanto eu fervia \u00e1gua para garantir litros de caf\u00e9. A t\u00e9rmica estava cheia quando Rina, ainda consciente, pediu para que eu fosse deitar por algumas horas e despertar quando o parto estivesse engrenado.<\/p>\n<p>N\u00e3o lembro se j\u00e1 eram quatro ou cinco da manh\u00e3 quando algu\u00e9m veio me tirar da cama. Enquanto abria os olhos, ouvia, ao fundo, Rina xingar o Universo e questionar &#8220;quem teve a ideia de engravidar outra vez e passar por aquilo de novo&#8221;. Quase consciente, vi que era Debora, ao meu lado, com uma d\u00favida complexa.<\/p>\n<p>\u2014 Andr\u00e9, onde fica o registro do chuveiro?<\/p>\n<p>Mesmo que eu lembrasse qual torneira era respons\u00e1vel por cortar a \u00e1gua do banheiro, n\u00e3o havia possibilidade alguma dela ter sido acionada por algu\u00e9m nos \u00faltimos meses. Na realidade, desde quando nos mudamos para aquele apartamento, dois anos antes, nunca houve qualquer interrup\u00e7\u00e3o no abastecimento.<\/p>\n<p>Naquela madrugada de 12 de novembro, no entanto, n\u00e3o havia \u00e1gua no chuveiro.<\/p>\n<p align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"\/blog\/images\/relatodebora121119.jpg\"><br \/>\n<i>A madrugada em casa estava assim, serena. At\u00e9 Debora abrir a torneira.<\/i><\/p>\n<p>Alguns dias antes, providenciei um &#8220;kit banheira&#8221; para o apartamento. A equipe do Matrona levaria uma daquelas piscinas infl\u00e1veis para um eventual parto na \u00e1gua &#8211; igual ao de Joj\u00f4. Eu arrumei um pl\u00e1stico preto comprido, que seria usado para forrar o ch\u00e3o. Troquei ainda a mangueira do chuveirinho: ficou comprida o bastante para alcan\u00e7ar a sala.<\/p>\n<p>Esse plano nunca foi executado. Sem \u00e1gua, Rina precisava relaxar de outras formas. Ficava um tempo em p\u00e9, apoiada na parede; sentava alguns instantes em uma bola de pilates, antes das contra\u00e7\u00f5es mais fortes chegarem. Apoiava-se na poltrona de joelhos e mordia uma toalha enquanto gritava. Enquanto abra\u00e7ava Rina, Debora ainda tentou oferecer frutas e sorvete. Recusou tudo. N\u00f3s dois ainda nos altern\u00e1vamos na massagem em suas costas.<\/p>\n<p>Nunca soubemos o que houve exatamente. Haviam cortado o fluxo apenas nos banheiros: na cozinha e na lavanderia, as torneiras funcionavam normalmente. Para quem acredita em coisas, pode-se pensar em uma interven\u00e7\u00e3o c\u00f3smica: se Rina estivesse relaxada embaixo do chuveiro, talvez o nen\u00e9m viesse antes das obstetrizes chegarem. E ningu\u00e9m queria um parto em casa sem a assist\u00eancia delas.<\/p>\n<p>Quando Fernanda e Vivian, do Grupo Matrona, apareceram carregando bolsas de material, cilindro de oxig\u00eanio e a piscina infl\u00e1vel (que saiu do jeito que entrou), Rina ainda estava apoiada na poltrona. Suspirou aliviada: agora Matias podia chegar. A \u00e1gua do chuveiro, se poss\u00edvel, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Eram quase seis da manh\u00e3 quando finalmente a ducha voltou a funcionar. Milagre! A alegria de Rina estava quase completa. Exausta, pediu para sentar dentro do box. As meninas arrumaram uma banqueta pr\u00f3pria para parto humanizado. Ela tem o formato de um semic\u00edrculo: a gestante fica sentada como naqueles assentos sanit\u00e1rios elevados com abertura na frente, para idosos e deficientes. Perfeito.<\/p>\n<p>S\u00f3 havia um por\u00e9m: eu s\u00f3 descobri isso depois de entrar no box com a banqueta e posicion\u00e1-la como um U invertido, com a curvatura para cima.<\/p>\n<p>\u2014 Andr\u00e9, t\u00e1 errado isso a\u00ed. Inverte.<\/p>\n<p>Eu inverti. Isto \u00e9: o U invertido estava no sentido longitudinal. Deixei na transversal.<\/p>\n<p>Rina afastou minhas m\u00e3os de perto, deitou a banqueta como deveria estar, sentou e come\u00e7ou a rir.<\/p>\n<p>Enquanto Rina ficou embaixo do chuveiro sentada na banqueta, Joana despertou. Ouvia os gritos do box. Estranhou aquelas mulheres todas na volta da sala. Estava assustada. Perguntou o que estava acontecendo, seus olhinhos tinham algumas l\u00e1grimas. Peguei no colo, expliquei que o maninho estava chegando. Fomos ao banheiro, dar bom dia para a mam\u00e3e.<\/p>\n<p align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"\/blog\/images\/relatobox121119.jpg\"><br \/>\n<i>Essa foto da Cacau deveria concorrer a algum pr\u00eamio.<\/i><\/p>\n<p>Fiquei com ela nos minutos seguintes, distraindo-a. Segui para a cozinha. Peguei um caf\u00e9 para mim e uma tigela com sucrilhos para ela. Tensa, n\u00e3o quis comer. Imaginando que o trabalho de parto ainda levaria tempo, tratei de conduzir a manh\u00e3 como se fosse um dia normal.<\/p>\n<p>\u2014 Filha, vamos nos arrumar para ir a escola?<\/p>\n<p>Eu mal sabia que era uma tolice. Joana ficaria o dia em casa, mas ainda n\u00e3o sab\u00edamos. Ao menos ela tirou o pijama e escolheu um vestido rosa.<\/p>\n<p>Nesse mesmo instante, a &#8220;baixinha&#8221; Vivian estava &#8220;encaixada&#8221; dentro do box (e era realmente a \u00fanica que podia ficar ali), esperando Matias. No lado de fora, Debora segurava a m\u00e3o de Rina com tanta for\u00e7a que o aparador de ferro sobre o box desgrudou. Cacau se equilibrava em cima do sanit\u00e1rio, apontando a objetiva para a cabe\u00e7a de Rina.<\/p>\n<p>Eu estava no quarto de Joana, ajeitando seu vestido rosa e escolhendo a sand\u00e1lia, quando ouvi um chorinho. Eram 7h09. Matias chegou com 3,795kg e 50,5cm. Lacera\u00e7\u00e3o zero, per\u00edneo \u00edntegro, como registram as enfermeiras em um parto normal. Em casa. N\u00e3o teve hospital.<\/p>\n<p align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"\/blog\/images\/relatonenenho121119.jpg\"><br \/>\n<i>Oun!<\/i><\/p>\n<p>Rina ainda ficou longos minutos tomando banho, feliz, j\u00e1 sem a placenta. Seguiu para a cama, na companhia da fam\u00edlia. Debora preparou um suco de uva batido com um peda\u00e7o da placenta &#8211; ideia &#8220;desse povo estranho do natural&#8221;. Diz Rina que estava doce, ainda que os ingredientes tenham sido apenas suco integral e placenta. Hoje ela recorda: &#8220;foi aquilo que me deu energia naquela semana. Um parto curto, mas cansativo. Uma filha mais velha na volta. E eu l\u00e1, plena&#8221;.<\/p>\n<p>As meninas logo foram embora. Levei Joana para almo\u00e7ar na padaria. Montamos uma marmita com feij\u00e3o, arroz, saladinha e frango &#8211; tinha que ser, j\u00e1 que Rina n\u00e3o suportava o cheiro e o gosto de frango durante a gesta\u00e7\u00e3o. Meus pais chegaram no meio da tarde, com o nosso jantar.<\/p>\n<p>J\u00e1 na ter\u00e7a-feira, Joana estava de volta \u00e0 escola. No dia seguinte, Matias fez seu primeiro passeio: foi at\u00e9 a Apae, na Vila Mariana, fazer o teste do pezinho. Uma aventura que teve como protagonista nosso esquecimento: o papelinho amarelo com o registro provis\u00f3rio tinha ficado em casa. Acionamos um Rappi e contamos com Nice, que estava em casa, fazendo faxina. Encontrou o DNV dentro da impressora (eu realmente n\u00e3o lembro como um documento importante daqueles foi parar l\u00e1).<\/p>\n<p>Enfim, na sexta-feira, um dia depois do viaduto na Marginal Pinheiros cair, estava no cart\u00f3rio.<\/p>\n<p align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"\/blog\/images\/relatoeujojonenenho121119.jpg\"><br \/>\n<i>Oun de novo!<\/i><\/p>\n<p>\u2014 Ele nasceu na segunda-feira, n\u00e9?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, Soraia. Segunda-feira.<\/p>\n<p>\u2014 Perfeitamente. Neste s\u00e1bado, vamos funcionar at\u00e9 meio-dia. Mas nos outros dias da semana, pode nos procurar a qualquer hora. N\u00e3o esque\u00e7a os exames, os nomes e prenomes, a profiss\u00e3o e a resid\u00eancia das duas testemunhas do assento, e que j\u00e1 viram o rec\u00e9m-nascido.<\/p>\n<p>Voltei ao cart\u00f3rio com toda a papelada e um casal de amigos, Cl\u00e9cio e Debora, na semana seguinte. Num protesto pirracento, era um casal que ainda n\u00e3o tinha visto Matias. Chupa essa manga, Soraia!<\/p>\n<p>Quando Matias nasceu, chamava-o de &#8220;pequeno chinesinho&#8221;, por causa dos olhos fechadinhos. Inacreditavelmente, um ano j\u00e1 passou. Aconteceu coisa adoidado, apesar da vida ter seguido r\u00e1pido demais. Hoje, Matias j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o pequeno. Muito menos chinesinho. Descobriu, veja s\u00f3, como faz para a mangueira do chuveirinho chegar na sala. Exatamente como seria, sem nunca ter sido.<\/p>\n<p align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"\/blog\/images\/relatofim121119.jpg\"><br \/>\n<i>Papai! Seu texto ficou t\u00e3o grande quanto esse neg\u00f3cio aqui!<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2014 Aqui \u00e9 a doutora m\u00e9dica!? Eu vou tomar um pic no bra\u00e7o, papai?! \u2014 perguntou Joana, aflita, identificando semelhan\u00e7as entre um hospital e a sala de espera do cart\u00f3rio. Nem deu tempo de negar enquanto ela esbo\u00e7ava sentar e brincar nas cadeiras cor-de-rosa: ningu\u00e9m precisa de um cart\u00f3rio ao meio-dia de uma sexta-feira chuvosa [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-2526","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-back-to-the-future"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2526","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2526"}],"version-history":[{"count":15,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2526\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2541,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2526\/revisions\/2541"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2526"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2526"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2526"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}