{"id":2465,"date":"2016-07-30T23:41:45","date_gmt":"2016-07-31T02:41:45","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/?p=2465"},"modified":"2016-07-30T23:41:45","modified_gmt":"2016-07-31T02:41:45","slug":"tanta-gente-passando-fome-e-voce-ai-celebrando-as-olimpiadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/tanta-gente-passando-fome-e-voce-ai-celebrando-as-olimpiadas\/","title":{"rendered":"Tanta gente passando fome e voc\u00ea a\u00ed celebrando as Olimp\u00edadas"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/olimpico.gif\" align=\"right\">Existem in\u00fameros motivos para virar-se em dire\u00e7\u00e3o ao Rio de Janeiro e torcer o nariz para os Jogos Ol\u00edmpicos. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil concordar (ou mesmo aplaudir) quem tenta apagar a tocha, levanta um cartaz atr\u00e1s da entrevista coletiva, instala uma faixa no sagu\u00e3o do aeroporto, orquestra uma salva de vaias durante a fala de algum figur\u00e3o em um encontro oficial. \u00c9 a hora certa de se manifestar, j\u00e1 que os holofotes do planeta est\u00e3o apontados para a cidade.<\/p>\n<p>Por tr\u00e1s dos megafones, h\u00e1 um evento centen\u00e1rio, onde as competi\u00e7\u00f5es s\u00e3o motivadas por uma filosofia marcada pela valoriza\u00e7\u00e3o do esporte para todos, a integra\u00e7\u00e3o e respeito entre diferentes culturas, formas e vis\u00f5es de mundo. Antes de ser um palanque para o amigo de Maric\u00e1 oferecer cangurus ao inv\u00e9s de encanadores, estamos falando em uma reuni\u00e3o de atletas, treinadores e equipes que planejaram suas vidas para um grande momento de suas vidas. Pessoalmente, inspirado por estes valores, n\u00e3o consigo deixar de torcer por eles, por suas hist\u00f3rias.<\/p>\n<div align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/160730_vaiterolimpiada_gente.jpg\"><\/div>\n<p>Uma coisa n\u00e3o inviabiliza a outra. Nosso hist\u00f3rico recente, no entanto, indica uma propens\u00e3o ao chute no traseiro do debate, proporcionado por um binarismo enviesado. Em outras palavras, \u00e9 como se eu n\u00e3o tivesse o direito de valorizar o significado real das Olimp\u00edadas e, ao mesmo tempo, identificar os erros e sentir vergonha alheia. O resultado \u00e9 um embate boboca e improdutivo <span title=\"Como nomeou a minha amiga Luna esses dias\">entre a &#8220;poliana&#8221; e o &#8220;grinch&#8221;<\/span>.<\/p>\n<p><i style=\"color:#0000CC\">&#8220;Mas entre aumentar as cr\u00edticas sem sentido e zerar as cr\u00edticas eu prefiro a primeira op\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/i><\/p>\n<p>Esse foi um dos momentos da conversa que tive com o <a href=\"https:\/\/interney.net\" target=\"_blank\"><b>Edney<\/b><\/a>, incomodado com quem simplesmente <a href=\"https:\/\/medium.com\/@interney\/parem-de-censurar-as-cr\u00edticas-aos-jogos-ol\u00edmpicos-32ee43febcc0\" target=\"_blank\"><b>ignora a crise e pensa apenas na festa<\/b><\/a>. Perfeito, \u00e9 preciso aproveitar a ocasi\u00e3o e lembrar da luta dos funcion\u00e1rios p\u00fablicos de um estado falido, revelar a complexa e multifacetada divis\u00e3o de uma cidade nivelada entre &#8220;zona sul&#8221; e o restante, a precariedade de servi\u00e7os essenciais, enfim.<\/p>\n<p>Agora, que tal um meio termo entre &#8220;cr\u00edticas sem sentido&#8221; e &#8220;censura&#8221;? Quando a pauta permanente se confunde com as Olimp\u00edadas por meio do discurso &#8220;quantos hospitais daria para fazer com o dinheiro das arenas&#8221; ou similares, a discuss\u00e3o pode se perder em broncas simplistas que direcionam o foco no &#8220;povo ranzinza que s\u00f3 sabe reclamar&#8221; &#8211; ou seja, enfraquecendo aquilo que, realmente, devia ser discutido. Ou, de uma forma ainda mais distorcida&#8230;<\/p>\n<p><i style=\"color:#0000CC\">&#8220;Caguei pra esses atletas ego\u00edstas, que s\u00f3 querem saber de medalhas e ignoram nossas quest\u00f5es sociais. Espero que peguem zika, sejam assaltados ou qualquer coisa assim&#8221;.<\/i><\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma rea\u00e7\u00e3o poss\u00edvel \u00e0 postura de esportistas como <a href=\"https:\/\/megankalmoe.com\/2016\/07\/19\/stop-trying-to-ruin-the-olympics-for-us\/\" target=\"_blank\"><b>Megan Kalmoe, da equipe norte-americana de remo<\/b><\/a>. Ela salienta: milhares de pessoas, incluindo volunt\u00e1rios, trabalharam para chegar a este momento &#8211; que, diga-se, poderia ser em Chicago ou Madri. E enquanto perde a paci\u00eancia com a quantidade de reportagens negativas, completa: muitos cr\u00edticos nunca se envolveram com o movimento ol\u00edmpico ou mesmo com o Rio de Janeiro. <\/p>\n<p>\u00d3bvio que n\u00e3o \u00e9 preciso ser carioca para se solidarizar com quem n\u00e3o gostaria de ver os Jogos em seu quintal. Mas usar o texto dela apenas para dizer &#8220;essa a\u00ed n\u00e3o se importa e diz para ficarmos quietos&#8221; \u00e9 t\u00e3o ing\u00eanuo e limitado ao di\u00e1logo quanto a torcida para dar tudo errado. Ignore a nacionalidade, os percal\u00e7os (ou n\u00e3o) durante a prepara\u00e7\u00e3o e pense: qualquer atleta sonha em participar em uma Olimp\u00edada, independente de resultados. Que o diga meu personagem ol\u00edmpico favorito, <a href=\"http:\/\/globoesporte.globo.com\/programas\/esporte-espetacular\/noticia\/2016\/07\/heroi-olimpico-eric-moussambani-conta-como-virou-nadador-por-acaso.html\"><b>Eric Moussambani<\/b><\/a>. Vai querer mesmo demonizar todos eles na esteira da sua bronca?<\/p>\n<p><i style=\"color:#0000CC\">&#8220;N\u00e3o seja burro. Esse papo de olimpismo j\u00e1 perdeu o sentido h\u00e1 muito tempo&#8221;.<\/i><\/p>\n<p>Compreens\u00edvel. Nem todo mundo ainda preserva sua &#8220;chaminha ol\u00edmpica&#8221; &#8211; ali\u00e1s, \u00e9 bom que se diga, a tradi\u00e7\u00e3o da tocha <a href=\"https:\/\/www.nexojornal.com.br\/colunistas\/2016\/Agruras-da-tocha-ol%C3%ADmpica-no-Brasil-ou-como-bem-%E2%80%98inventar-uma-tradi%C3%A7%C3%A3o%E2%80%99\" target=\"_blank\"><b>remete aos Jogos de 1936<\/b><\/a>, aquele que Hitler esperava mostrar ao mundo a superioridade ariana. Aqui, sua imagem ficar\u00e1 associada \u00e0 on\u00e7a Juma, al\u00e9m de eventos ex\u00f3ticos. Curiosamente, eles parecem funcionar durante a passagem da tocha, mas n\u00e3o ao recusar cerim\u00f4nias ligadas \u00e0s religi\u00f5es africanas em seu centro ecum\u00eanico &#8211; ou seja, nem toda diferen\u00e7a \u00e9 boa.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que o revezamento, bem como outros eventos esportivos dentro e fora do contexto ol\u00edmpico, acabam servindo aos interesses dos patrocinadores. Em &#8220;A Virada Ol\u00edmpica&#8221;, o executivo de marketing Michael Payne celebra o fato de que, a partir de 1984, uma combina\u00e7\u00e3o envolvendo cotas de publicidade e direitos televisivos &#8220;salvaram os Jogos Ol\u00edmpicos da extin\u00e7\u00e3o&#8221;. Isso porque a edi\u00e7\u00e3o de 1976, em Montreal, deu um preju\u00edzo que ainda \u00e9 lembrado na cidade; e em 1980 o contexto da Guerra Fria culminou em boicotes que desprezaram a l\u00f3gica da irmandade entre os povos.<\/p>\n<div align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/160730_vaiterolimpiada_parque.jpg\"><\/div>\n<p>Enfim, talvez o componente comercial seja o mais perverso, inclusive, na discuss\u00e3o sobre &#8220;a quem interessa uma edi\u00e7\u00e3o dos Jogos em casa&#8221;. Tamb\u00e9m levanta outras pol\u00eamicas.<\/p>\n<p><i style=\"color:#0000CC\">&#8220;Patrocinador n\u00e3o \u00e9 bobo, vai investir onde o retorno financeiro \u00e9 garantido&#8221;.<\/i><\/p>\n<p>Pincei esta frase em uma explica\u00e7\u00e3o pertinente sobre a discrep\u00e2ncia na premia\u00e7\u00e3o entre os atletas da Liga Mundial de v\u00f4lei masculino e seu equivalente para mulheres, o Grand Prix. <a href=\"http:\/\/www.buzzfeed.com\/alexandreorrico\/diferenca-premios-volei\" target=\"_blank\"><b>Como destacou o Buzzfeed<\/b><\/a>, o campe\u00e3o do primeiro recebe cinco vezes mais; o melhor jogador da Liga fatura o dobro do destaque feminino. <\/p>\n<p>Pois bem, a desigualdade entre homens e mulheres, associada aos interesses de quem associa sua imagem aos Jogos para ficar bem na TV \u00e9 uma boa raz\u00e3o para criticar os Jogos. Mais do que isso: processos pol\u00edticos que colocam Copa do Mundo e Olimp\u00edadas no Brasil s\u00e3o regidos por rotinas suspeitas (como os Jogos de Inverno em Salt Lake City em 2002 ou mesmo os Mundiais de futebol da R\u00fassia e Catar. Tem que ver tudo isso a\u00ed. Por hora, politicamente ou n\u00e3o, mesmo com boas raz\u00f5es para n\u00e3o gostar, 2016 \u00e9 o ano do Rio.<\/p>\n<p><i style=\"color:#0000CC\">&#8220;Nada disso importa. O que me deixa puto \u00e9 esse ufanismo exagerado&#8221;.<\/i><\/p>\n<p>Realmente incomoda, especialmente se o papo do &#8220;importante \u00e9 competir&#8221; \u00e9 relegado ao enunciado contempor\u00e2neo dos simplistas bin\u00e1rios: &#8220;s\u00f3 quero estar entre os ganhadores, morram os derrotados&#8221;. \u00c9 o princ\u00edpio que movimenta, por exemplo, a ind\u00fastria do doping. As matizes que envolvem as hist\u00f3rias de quem compete ficam perdidas no meio do espet\u00e1culo. V\u00e3o parar na mesma vala comum das cr\u00edticas vazias e das perguntas que n\u00e3o s\u00e3o feitas, entre elas &#8220;como foi mesmo o processo de constru\u00e7\u00e3o da Vila Ol\u00edmpica&#8221; ou <a href=\"https:\/\/www.buzzfeed.com\/alexandrearagao\/como-uma-empresa-de-fundo-de-quintal-ganhou-um-contrato-mili\" target=\"_blank\"><b>&#8220;como uma empresinha safada ficou respons\u00e1vel pela seguran\u00e7a&#8221;<\/b><\/a>.<\/p>\n<p>Novamente, \u00e9 poss\u00edvel colocar isso na conta dos patrocinadores e dos direitos de transmiss\u00e3o. Se neste ano &#8220;somos todos ol\u00edmpicos&#8221;, na \u00faltima edi\u00e7\u00e3o das Olimp\u00edadas, quando a concorrente dos bispos detinha exclusividade na TV aberta, &#8220;\u00e9ramos s\u00f3 um tiquinho ol\u00edmpicos&#8221;. Nesse sentido, \u00e9 fundamental se posicionar como quem deseja entender as raz\u00f5es por tr\u00e1s de qualquer fala e prestar aten\u00e7\u00e3o em vozes plurais e relevantes. Que tal revisar, por exemplo, o <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/sport\/datablog\/2012\/aug\/13\/alternative-olympic-medal-table-winner-russia\" target=\"_blank\"><b>quadro de medalhas a partir de dados socio-econ\u00f4micos<\/b><\/a>?<\/p>\n<p><i style=\"color:#0000CC\">&#8220;Como se n\u00e3o bastasse, ainda vem essa gente de fora, incluindo terroristas&#8221;.<\/i><\/p>\n<p>De fato, imagina-se que desde 1972, com o atentado em Munique, h\u00e1 preocupa\u00e7\u00e3o com seguran\u00e7a. Foi assim em Atenas 2004 &#8211; que, \u00e9 bom afirmar, tem como parte do legado um parque ol\u00edmpico transformado em dep\u00f3sito de refugiados. Mesmo em Londres, em 2012. Por conta disso, h\u00e1 uma &#8220;lei antiterror&#8221; em vigor no pa\u00eds &#8211; a mesma que prende o <a href=\"http:\/\/g1.globo.com\/rs\/rio-grande-do-sul\/noticia\/2016\/07\/guri-muito-bom-diz-vizinho-de-suspeito-de-terrorismo-preso-no-rs.html\" target=\"_blank\"><b>coi\u00f3 de A\u00e7oita Cavalo<\/b><\/a>, mas pode criminalizar qualquer manifestante&#8230;<\/p>\n<p>(Ali\u00e1s, nota mental, preciso escrever um dia que meus pais se conheceram em A\u00c7OITA CAVALO).<\/p>\n<p>Mas deixe-me contar uma historinha sobre a \u00faltima Copa do Mundo. Fui a Itaquera em uma quinta-feira para assistir a Cor\u00e9ia do Sul perder para o time B da B\u00e9lgica por 1 a 0 num joguinho ruim de lascar. Fui ao jogo vestindo uma camisa da Venezuela num crit\u00e9rio meramente aritm\u00e9tico: dois &#8220;diabos vermelhos&#8221; \u00e9 igual a uma &#8220;vinotinto&#8221;. Ao meu lado, al\u00e9m do Doni e seu pai, uma argentina (interessada em seu colega paulistano), dois mexicanos bons de papo, alguns belgas e praticamente todos os vendedores do stand center. Todos ali, na ZL, chutando bem longe a ret\u00f3rica nacionalista, elitista, seja l\u00e1 qual nome queira dar.<\/p>\n<div align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/160730_vaiterolimpiada_itaquera.jpg\"><\/div>\n<p>Vai ter gafe? Mais trope\u00e7os? Cr\u00edticas sem fundamento? Ofensas gratuitas? Certamente. Mas tamb\u00e9m vai ter Olimp\u00edadas. E n\u00e3o h\u00e1 nada errado em comemorar por quinze dias, sem perder de vista as prioridades de sempre. Ainda mais, <a href=\"https:\/\/www.nexojornal.com.br\/colunistas\/2016\/Agruras-da-tocha-ol%C3%ADmpica-no-Brasil-ou-como-bem-%E2%80%98inventar-uma-tradi%C3%A7%C3%A3o%E2%80%99\" target=\"_blank\"><b>nas palavras da professora Lilia Moritz Schwarcz<\/b><\/a>, num tempo marcado &#8220;por v\u00e1rios conflitos, pelo fim do sonho da comunidade europeia e pela emerg\u00eancia de tantos \u00f3dios e radicalismos. Inventada ou n\u00e3o, agora \u00e9 torcer para que a tocha inflame nossa imagina\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p><b>Obs:<\/b> Obrigado, Edney, por me fazer voltar a escrever aqui na mesma medida em que procuramos, imagino, pensar em como Julia e Joana v\u00e3o fazer para separar informa\u00e7\u00e3o do ru\u00eddo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existem in\u00fameros motivos para virar-se em dire\u00e7\u00e3o ao Rio de Janeiro e torcer o nariz para os Jogos Ol\u00edmpicos. 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