{"id":244,"date":"2007-06-12T11:03:15","date_gmt":"2007-06-12T14:03:15","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/o-primeiro-e-por-enquanto-unico-ninguem-esquece"},"modified":"2007-06-12T11:03:15","modified_gmt":"2007-06-12T14:03:15","slug":"o-primeiro-e-por-enquanto-unico-ninguem-esquece","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/o-primeiro-e-por-enquanto-unico-ninguem-esquece\/","title":{"rendered":"O primeiro (e por enquanto \u00fanico) ningu\u00e9m esquece"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/backfut.gif\" align=\"right\" \/>Acordei cedo naquela sexta-feira: deixei o carro em casa e fui de \u00f4nibus ao encontro dela. Marcamos dez horas, na catraca do Metr\u00f4 Ana Rosa. Durante a viagem, que durou pouco mais de uma hora, sintonizei meu radinho no AM: ouvi mais um jogo da Copa da Fran\u00e7a. Paraguai contra Bulg\u00e1ria. Partidinha chinfrim que terminou sem gols.<\/p>\n<p>Na minha vida, no entanto, nada de zero a zero. Namor\u00e1vamos h\u00e1 pouco mais de dois meses, est\u00e1vamos no auge do nosso relacionamento. Como o dia seria comprido, n\u00e3o caprichei muito no visual: usava o t\u00eanis de sempre, cal\u00e7a jeans e camiseta. Finalmente cheguei ao meu destino, faltavam cinco para as dez. Estava ansioso, como ocorre em toda primeira vez. Nervosismo que s\u00f3 aumentou com o andar do rel\u00f3gio &#8211; pontualidade n\u00e3o era o forte dela.<\/p>\n<p>Um e outro defeitinho bobo que nem damos bola quando estamos apaixonados. Dez e pouco e l\u00e1 estava ela, esbaforida. Os sapatos combinavam com a jaqueta de couro; esta escondia uma charmosa blusa preta, sem manga. A cal\u00e7a? N\u00e3o lembro. Mas seu sorriso \u00e9, at\u00e9 hoje, inesquec\u00edvel. E naquele dia estava ainda maior&#8230; Nem deu tempo de pedir desculpas pelo atraso: um abra\u00e7o forte, um longo beijo. At\u00e9 que, finalmente, sussurramos, un\u00edssonos, olhando um nos olhos do outro:<\/p>\n<p>&#8211; Feliz dia dos namorados&#8230;<\/p>\n<p>Sempre fui um namorado relapso: n\u00e3o tive tempo de comprar um presente! J\u00e1 os meus estavam a minha espera, em seu carro, alguns metros dali. Caminhamos abra\u00e7ados at\u00e9 l\u00e1. N\u00e3o era um dos melhores dias de outono: o c\u00e9u estava nublado e um ventinho aumentava a sensa\u00e7\u00e3o de frio. J\u00e1 dentro do carro, ela entregou seu embrulinho. Nele, um CD do Bee Gees e um abstrato quebra-cabe\u00e7as de acr\u00edlico, que formava um s\u00f3lido geom\u00e9trico oval. No cart\u00e3o, uma explica\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica comparava o &#8220;ovo desmont\u00e1vel&#8221; com o mundo.<\/p>\n<p>&#8211; Comprei quando estava em Londres, significa muito pra mim.<\/p>\n<p>Lindo, lindo! Mais um beijo!!!<\/p>\n<p>Decidimos dar uma volta no parque do Ibirapuera. Durante o percurso, divag\u00e1vamos sobre um futuro distante e absurdamente incerto. Ela dizia que n\u00e3o sabia cozinhar, n\u00e3o arrumava a casa e seria uma p\u00e9ssima esposa. &#8220;Acho que vamos ter que contratar uma empregada&#8221;, respondia. Passamos por ruas buc\u00f3licas na Vila Mariana e, vez ou outra, apont\u00e1vamos: nossa casa vai ser ali. Ou ali. Ou quem sabe na praia.<\/p>\n<p>Caminhamos longas horas pelo parque. Sentamos na grama. Tiramos fotos que, ali\u00e1s, nunca vi. Tudo bem, as imagens dos outros casais de m\u00e3os dadas, se abra\u00e7ando, beijando&#8230; Ao lado da nossa, que obviamente representava um casal ainda mais feliz, permanecem. Est\u00e1vamos perto do lago quando decidimos onde seria o nosso almo\u00e7o.<\/p>\n<p>Optamos pelo Shopping Eldorado. Um lugar que remete a nossa hist\u00f3ria, inevitavelmente. Trabalh\u00e1vamos juntos, na Cidade Universit\u00e1ria. Ela morava pr\u00b4aqueles lados. Nossos primeiros encontros, mesmo antes de oficializarmos a coisa, eram ali. Foi naquele estacionamento, em uma noite qualquer de abril, que conversamos longamente sobre &#8220;qu\u00edmica&#8221;, &#8220;amizade&#8221; e afins, antes de deixarmos nos envolver pelos nossos sentimentos.<\/p>\n<p>E ali celebramos aquela data, que apesar de comercial, era feliz. Escolhemos uma mesa no Galeto\u00b4s, com vista para a Marginal Pinheiros. Pedi o mesmo prato que o dela, o mesmo refrigerante&#8230; Depois das refei\u00e7\u00f5es, a sobremesa:<\/p>\n<p>&#8211; Vamos ao cinema?<\/p>\n<p>Por que n\u00e3o? Quer programa melhor para se fazer a dois? Entre &#8220;Ser\u00e1 Que Ele \u00e9?&#8221;, &#8220;Tropas Estelares&#8221;, &#8220;Querida, N\u00f3s Encolhemos&#8221; ou &#8220;Titanic&#8221; de novo, escolhemos &#8220;Sete Anos no Tibet&#8221;, aquele que o Brad Pitt contracenava com o japinha. Vou ser franco: tenho apenas alguns insights do filme: estava totalmente hipnotizado.<\/p>\n<p>Nossa comemora\u00e7\u00e3o estava prestes a terminar. Aquela sexta-feira fazia parte do feriado de Corpus Christi, e a fam\u00edlia dela j\u00e1 estavam na cidade-natal de seu pai, no interior. Al\u00e9m de deixar o carro em casa, ela precisava ainda descobrir como fazer para chegar ao Terminal Rodovi\u00e1rio do Tiet\u00ea. N\u00e3o sa\u00ed de perto dela em nenhum momento &#8211; instintivamente, precisava agradecer ao fato dela ter escolhido passar o dia comigo!<\/p>\n<p>Pegamos um coletivo qualquer na avenida Rio Pequeno, descemos logo depois da ponte Eus\u00e9bio Matoso, em frente ao Shopping Eldorado &#8211; sempre ele. Naquela altura, o sol, que j\u00e1 era pouco, tinha ido embora h\u00e1 tempos. Permanecemos abra\u00e7ados no ponto de \u00f4nibus, at\u00e9 aparecer um \u00f4nibus tipo &#8220;executivo&#8221;, com destino \u00e0 rodovi\u00e1ria. Era tudo que n\u00f3s quer\u00edamos!<\/p>\n<p>O adiantado da hora, al\u00e9m do &#8220;pre\u00e7o especial&#8221;, mantinha o \u00f4nibus praticamente vazio. Escolhemos uma poltrona l\u00e1 no fundo, fechamos a cortina da janela e come\u00e7amos a nossa despedida. Aproveitamos cada minuto restante, demonstrando tudo que aquele dia significou em nossas vidas sem precisar usar uma \u00fanica palavra.<\/p>\n<p>S\u00f3 larguei a m\u00e3o dela quando n\u00e3o dava mais para segurar: na porta do Cometa que levaria o meu amor ao encontro de seus pais. Nossas l\u00e1grimas deram um ponto final ao nosso 12 de junho de 1998.<\/p>\n<p>No caminho para casa, j\u00e1 imaginava como seria o nosso pr\u00f3ximo dia dos namorados. Sair\u00edamos para um jantar cinematogr\u00e1fico, aquele com luz de velas. Enrolar\u00edamos juntos durante a madrugada e a levaria para uma r\u00e1pida viagem. Bertioga, talvez. Ao chegar abriria o porta-malas, onde encontraria uma toalha, duas ta\u00e7as e alguma bebida. Champanhe. N\u00e3o, Guaran\u00e1 Champanhe. Enfim. Defronte ao horizonte, assistir\u00edamos juntos ao nascer do sol.<\/p>\n<p>&#8220;Meu pr\u00f3ximo dia dos namorados vai ser assim&#8221;, prometi a mim mesmo, faceiro, cantarolando Bee Gees, &#8220;wish you were here&#8221;.<\/p>\n<p>E a promessa permanece. At\u00e9 hoje.<\/p>\n<p><i>(Postado em 12\/06\/2003)<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acordei cedo naquela sexta-feira: deixei o carro em casa e fui de \u00f4nibus ao encontro dela. Marcamos dez horas, na catraca do Metr\u00f4 Ana Rosa. Durante a viagem, que durou pouco mais de uma hora, sintonizei meu radinho no AM: ouvi mais um jogo da Copa da Fran\u00e7a. Paraguai contra Bulg\u00e1ria. 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