{"id":241,"date":"2007-06-09T23:31:50","date_gmt":"2007-06-10T02:31:50","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/um-chute-no-conselheiro-invisivel"},"modified":"2007-06-09T23:31:50","modified_gmt":"2007-06-10T02:31:50","slug":"um-chute-no-conselheiro-invisivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/um-chute-no-conselheiro-invisivel\/","title":{"rendered":"Um chute no conselheiro invis\u00edvel"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/pedra.gif\" align=\"right\" \/>N\u00e3o existe nada mais delicioso e surpreendente do que a vida. Voc\u00ea pode impor uma s\u00e9rie de limites para se tornar visual e plasticamente perfeito: menos carboidratos e doces, horas e horas fazendo gin\u00e1stica&#8230; Pra qu\u00ea evitar a churrascaria rod\u00edzio se ningu\u00e9m sabe como ser\u00e1 o amanh\u00e3? Sem querer agourar os her\u00f3is que preferem sacrif\u00edcios a um simples equil\u00edbrio, mas e se o andaime da academia despencar justamente quando o sujeito estiver entrando ou saindo?<\/p>\n<p>\u00c9, eu sei. N\u00e3o existem possibilidades palp\u00e1veis disso acontecer, e seria uma injusti\u00e7a enorme se houvesse alguma. Mas a vida n\u00e3o deixa de ser deliciosa e surpreendente, especialmente em ocasi\u00f5es onde as regras deveriam ser minimamente observadas.<\/p>\n<p>No tr\u00e2nsito, por exemplo. Eu sou daqueles que ligam a seta at\u00e9 quando n\u00e3o tem ningu\u00e9m para ser avisado. Prefiro reduzir ou at\u00e9 parar o carro s\u00f3 para n\u00e3o disputar com os doidivanas apressados de sempre. E mesmo diante do sinal verde e rodando abaixo da velocidade permitida, posso dar de cara com um caminh\u00e3o cruzando no vermelho. De que adianta tanto cuidado se somos obrigados a esbarrar num boc\u00f3 desse naipe?<\/p>\n<p>Os freios funcionaram, mas o espa\u00e7o era curto. Dos males, o menor: foi a frente do Marmoturbo que encontrou a lateral do caminh\u00e3o, e n\u00e3o o contr\u00e1rio. Nem precisei repreender ao cururu: as testemunhas que estavam ali trataram de proclamar o discurso do motorista defensivo. Munido da minha paci\u00eancia de praxe, al\u00e9m de papel e caneta, anotei a placa da surpresa ambulante e disse poucas palavras ao motorista.<\/p>\n<p>&#8220;Fico feliz que o senhor n\u00e3o se machucou. J\u00e1 anotei sua placa, \u00e9 o suficiente para registrar a ocorr\u00eancia e avisar a seguradora. Se quiser, podemos ir juntos ao distrito e fazer um acordo bacana. A gente deixa essas duas latas velhas na mesma oficina e divide o valor da franquia. Vai sair mais barato que o seu amigo funileiro&#8221;.<\/p>\n<p>Tanto as testemunhas quanto o in\u00fatil agente de tr\u00e2nsito (que s\u00f3 apareceu para dar um al\u00f4) j\u00e1 tinham ido embora quando o motorista do caminh\u00e3o veio conversar com mais calma. Quer dizer, &#8220;calma&#8221; n\u00e3o era exatamente o que demonstrava o tiozinho. Apresentou-se como Ant\u00f4nio, aparentava uns quarenta anos, tremia feito vara verde, sentia-se nitidamente envergonhado.<\/p>\n<p>&#8220;Mo\u00e7o, eu n\u00e3o posso registrar uma ocorr\u00eancia&#8221;, revelou, enquanto mostrava uma habilita\u00e7\u00e3o classe AB (n\u00e3o serve para caminh\u00f5es) e um documento muito atrasado de seu ganha-p\u00e3o. &#8220;Eu posso perder o meu caminh\u00e3o, e \u00e9 a \u00fanica coisa que eu tenho pra sustentar meus filhos&#8221;, implorou. Pediu desculpas mais de uma vez por ter cochilado ao volante, garantiu que pagaria o valor da franquia e ligou para casa, usando o meu celular, contando a hist\u00f3ria toda para a esposa.<\/p>\n<p>Nesse exato momento, surgiu ao meu lado um dos muitos conselheiros invis\u00edveis. Iguais aqueles que recomendam dietas, academias, roupas de grife&#8230; S\u00e3o meio ego\u00edstas, n\u00e3o ligam muito para as pessoas ao redor deles.<\/p>\n<p>&#8220;Viu o que esse idiota fez com o seu carro? Era novinho! Todo mundo achava lindo, as mulheres estavam caidinhas por ele &#8211; ficariam mais entusiasmadas se essa sua pelanca abdominal sumisse&#8230; N\u00e3o importa. O que quero dizer \u00e9 que por causa desse feirante idiota, voc\u00ea vai ter uma dor de cabe\u00e7a desnecess\u00e1ria&#8230; E ele nem tem habilita\u00e7\u00e3o! \u00c9 um perigo para a sociedade! Denuncie esse babaca e livre a cidade de um problema! Ah, mas eu sei o que voc\u00ea est\u00e1 pensando&#8230; Quer dar uma chance ao imbecil! \u00c9\u00e9\u00e9\u00e9&#8230; Esse papinho de fam\u00edlia desamparada \u00e9 paia! Se voc\u00ea ouvir essa conversinha, vai ser um ing\u00eanuo e um palerma!&#8221;<\/p>\n<p>N\u00e3o pensei duas vezes: chutei meu conselheiro invis\u00edvel e disse: &#8220;v\u00e1 embora antes do guincho aparecer, e fique tranquilo. Ningu\u00e9m vai saber o que voc\u00ea fez&#8221;. Mesmo com problemas na embreagem e sem a lanterna da direita, l\u00e1 foi ele. E nem a pol\u00edcia ou a seguradora souberam da exist\u00eancia dele.<\/p>\n<p>Dias depois, liguei para o &#8220;seu&#8221; Ant\u00f4nio. Dona Maria, sua esposa, atendeu e agradeceu a minha generosidade. N\u00e3o sei se eles v\u00e3o pagar alguma coisa, mas deixei o recado: &#8220;a senhora \u00e9 quem manda na casa, ent\u00e3o n\u00e3o deixe o seu Ant\u00f4nio sair para a rua todo errado. A chance da v\u00edtima ser boazinha outra vez \u00e9 a mesma de um andaime cair na cabe\u00e7a dele&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o existe nada mais delicioso e surpreendente do que a vida. Voc\u00ea pode impor uma s\u00e9rie de limites para se tornar visual e plasticamente perfeito: menos carboidratos e doces, horas e horas fazendo gin\u00e1stica&#8230; Pra qu\u00ea evitar a churrascaria rod\u00edzio se ningu\u00e9m sabe como ser\u00e1 o amanh\u00e3? 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