{"id":240,"date":"2007-06-08T23:59:51","date_gmt":"2007-06-09T02:59:51","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/carro-reserva"},"modified":"2007-06-08T23:59:51","modified_gmt":"2007-06-09T02:59:51","slug":"carro-reserva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/carro-reserva\/","title":{"rendered":"Carro reserva"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/pedra.gif\" align=\"right\" \/>Sei que n\u00e3o devia, mas sou um sujeito apaixonado pelas minhas coisinhas palp\u00e1veis. Sigo o coro de um grande amigo, que tamb\u00e9m costuma dar nome aos objetos &#8211; assim, eles se tornam seres mais &#8220;conscientes&#8221;, mais &#8220;vivos&#8221;&#8230; Em muitos casos, considero seres inanimados como parte da fam\u00edlia. O Marmoturbo, meu carrinho de tantas aventuras, \u00e9 um bom exemplo: sou t\u00e3o apegado a ele que, na \u00faltima troca de carro, fiz quest\u00e3o de ficar com a mesma cor e mesmo modelo do antigo&#8230;<\/p>\n<p>O fim de 2005, no entanto, me separou deste grande confidente. Tudo por culpa de um maldito Ecosport, que parou de repente pouco antes do t\u00fanel do Anhangaba\u00fa. Choque inevit\u00e1vel. Uma v\u00e9ia cegueta n\u00e3o percebeu a palha\u00e7ada e afundou a traseira do pobre Marmoturbo. E ainda ficou bradando: &#8220;a culpa \u00e9 sua!!!&#8221;. Ora, francamente.<\/p>\n<p>Mas enfim. Por conta desse acidente fora do script, o Marmoturbo ficou um bom tempo no funileiro. Para amenizar o sofrimento de sua aus\u00eancia, a seguradora me ofereceu um carro reserva por dez dias. Para mim, a solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o era das mais interessantes: de que vale um novo companheiro, por mais interessante e \u00fatil que possa ser, se a sua companhia durar apenas dez dias?<\/p>\n<p>E l\u00e1 estava. Vinha de longe: Belo Horizonte &#8211; se bem que deve ter ficado l\u00e1 apenas o suficiente para ganhar a placa. Seu tamanho era bem compacto, mas tinha curvas e linhas bastante atraentes. Reluzia como prata, mas notava-se diferen\u00e7as gra\u00e7as a sua exposi\u00e7\u00e3o di\u00e1ria \u00e0s interp\u00e9ries do tempo. E desde o primeiro momento, parecia me dizer: eu gosto de voc\u00ea.<\/p>\n<p>Nosso primeiro contato n\u00e3o foi l\u00e1 muito amig\u00e1vel. Tinha um jeito complexo, dif\u00edcil de se lidar. Especialmente no pedal da embreagem, muito alto. Trancos e engasgadas nos primeiros metros. Sem apagar um instante sequer, mostrava-se com total disposi\u00e7\u00e3o para que eu me acostumasse com a sua presen\u00e7a. Come\u00e7ou a cantar baixinho&#8230; Sim, o r\u00e1dio era muito simples, mas resolvia.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/reserva0503.jpg\" align=\"right\" \/>Ficamos pouco tempo juntos, mas o suficiente para irmos at\u00e9 minha casa todos os dias &#8211; como eu moro longe, t\u00ednhamos tempo para nos conhecermos melhor &#8211; embora eu continuasse com o tratamento \u00e0 dist\u00e2ncia, sem tanto envolvimento. Em todas as noites, nem um desejo de boa noite: o sereno lhe fazia companhia, do lado de fora da casa.<\/p>\n<p>No \u00faltimo final de semana, um compromisso inadi\u00e1vel me levou para outra cidade. Tive que deixar minha nova companhia em paz, num lugar amplo e confort\u00e1vel. Escolhi o estacionamento ao lado do metr\u00f4 Tiet\u00ea, um dos mais baratos da cidade. Ficamos afastados desde a tarde de sexta at\u00e9 a noite de segunda. E por mais que estivesse claro para mim o quanto aquele contato era passageiro, n\u00e3o escondi o sorriso quando nos reencontramos.<\/p>\n<p>Continuava radiante, com suas curvas apaixonantes. Abri a porta, sentei no banco do motorista e disse: &#8220;oi, senti sua falta&#8221;. Os vidros se fecharam, o r\u00e1dio ligou baixinho e o ar condicionado disparou, como se me dissesse &#8220;eu tamb\u00e9m, me abra\u00e7a&#8221;. E fomos para casa juntos, pela \u00faltima vez. Em sil\u00eancio, aproveitando cada segundo daquela despedida.<\/p>\n<p>J\u00e1 na locadora, no dia seguinte, respirei fundo na hora de entregar as chaves para o balconista. &#8220;Ent\u00e3o, gostou do carro, senhor?&#8221;, perguntou. Disse que tinha adorado, e que iria sentir saudades. &#8220;Ah, isso \u00e9 normal. Todos dizem a mesma coisa, mas no fundo sabem que \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o passageira. Amanh\u00e3 outra pessoa sentir\u00e1 o mesmo por ele, enquanto voc\u00ea seguir\u00e1 sua vida. Acontece exatamente assim com todos os clientes&#8221;.<\/p>\n<p>Arregalei os olhos e me questionei: ao contr\u00e1rio de mim, uma pedra, teria sorte o meu carro reserva, j\u00e1 que n\u00e3o passa de um objeto inanimado e n\u00e3o precisa de sentimento algum para cumprir sua miss\u00e3o?<\/p>\n<p><i>(Postado em 05\/03\/2006, tempo suficiente para trocar &#8211; e bater &#8211; mais um carro)<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sei que n\u00e3o devia, mas sou um sujeito apaixonado pelas minhas coisinhas palp\u00e1veis. Sigo o coro de um grande amigo, que tamb\u00e9m costuma dar nome aos objetos &#8211; assim, eles se tornam seres mais &#8220;conscientes&#8221;, mais &#8220;vivos&#8221;&#8230; Em muitos casos, considero seres inanimados como parte da fam\u00edlia. 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