{"id":2382,"date":"2015-03-20T15:53:29","date_gmt":"2015-03-20T18:53:29","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/?p=2382"},"modified":"2015-03-20T15:53:29","modified_gmt":"2015-03-20T18:53:29","slug":"pela-luz-dos-olhos-meus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/pela-luz-dos-olhos-meus\/","title":{"rendered":"Pela luz dos olhos meus"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/pedra.gif\" align=\"right\"><\/p>\n<p><b>Rio de Janeiro (RJ)<\/b> &#8211; &#8220;Tudo o que existe em mim de amor foi dado&#8221;, diria o poeta Vin\u00edcius, cuja obra tem dimens\u00e3o t\u00e3o grande quanto seus amores. Os meus devem estar encaixotados nos cantos do quarto. Eu curto uma coisa velha, dessas que ativam nossa mem\u00f3ria. Qualquer antigo impresso tem uma for\u00e7a sublime, metaf\u00edsica, como se quisesse dizer &#8220;estarei aqui para sempre&#8221;.<\/p>\n<p>Em ess\u00eancia, \u00e9 uma idiotice. Nada \u00e9 para sempre: &#8220;que n\u00e3o seja imortal, posto que \u00e9 chama, mas que seja infinito enquanto dure&#8221;. Nem mesmo uma casa simples, com estantes de madeira e cheiro de papel ambientada como se o rel\u00f3gio parasse. Igual a um sebo. Mas puxa, tenho paix\u00e3o por eles. Lembrei de um deles quando botei os p\u00e9s no metr\u00f4, em pleno centro do Rio. Fica na Buarque de Macedo, quase na esquina da Rua do Catete. Sinto como se ali tivesse um tesouro enterrado, que s\u00f3 eu conhe\u00e7o &#8211; e se mais algu\u00e9m souber acaba sendo apenas nosso, \u00fanico no espa\u00e7o e no tempo. o Todo o resto \u00e9 ilus\u00e3o.<\/p>\n<p>Saltei no Largo do Machado questionando como consegui me desacostumar a seguir por este caminho. Porque sentia saudade. Uma saudade que parece vir de sempre, antes mesmo de conhec\u00ea-lo. Saudade antecipada de um lugar como aquele. Se fosse uma mulher, Vin\u00edcius chamaria aquele sebo de &#8220;minha vi\u00fava&#8221;, capaz de preencher seus desejos loucamente idealizados. &#8220;Se todos fossem iguais a voc\u00ea&#8230; Que maravilha viver&#8221;!<\/p>\n<p>Entrei, sorri como dissesse &#8220;oi&#8221;. Os gatos, que costumavam ocupar as prateleiras, n\u00e3o estavam l\u00e1. Circulei pausadamente pelos balc\u00f5es oferecendo t\u00edtulos promocionais a dez reais. &#8220;Mas puxa, parecem rigorosamente os mesmos que vi quando estive aqui h\u00e1 uns tr\u00eas anos&#8221;, pensei. Aquele sil\u00eancio, comum em qualquer lugar que valoriza a paz da leitura, ficou pesado como aquele verso do\u00eddo: &#8220;todo grande amor s\u00f3 \u00e9 bem grande se for triste&#8221;. Gosto de coisas que se movimentam devagar, mas no fundo nem sei se ficar praticamente igual \u00e9 uma coisa boa.<\/p>\n<p>Decidi puxar papo com a atendente, ver se a coisa se anima. Perguntei pelo livro &#8220;Roteiro L\u00edrico e Sentimental da Cidade do Rio de Janeiro&#8221;. \u00c9 um t\u00edtulo que invariavelmente aparece enquanto repito um ritual solit\u00e1rio em oportunidades assim: sair do Santos Dumunt a p\u00e9, passar diante daquele \u00cdbis erguido perto de onde era o morro do Castelo, seguir por Cinel\u00e2ndia, teatro, biblioteca, Rio Branco, Largo da Carioca&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Deve estar ali em cima, junto com outros autores nacionais, n\u00e9?<\/p>\n<p>&#8211; Xi, mo\u00e7o, n\u00e3o tem nenhuma \u00e1rea com livros do Vin\u00edcius&#8230;<\/p>\n<p>Como assim?!<\/p>\n<p>Enfim, tomei coragem e subi na escadinha estreita que leva aos &#8220;livros de poesia&#8221; e aos &#8220;t\u00edtulos sobre Rio de Janeiro&#8221;. Seriam estes os \u00fanicos lugares onde, talvez, encontrasse algo. A atendente, bastante sol\u00edcita, subiu junto e revirou alguns nichos. Nada feito.<\/p>\n<p>Fui tomado por uma pontinha de decep\u00e7\u00e3o sem sentido. Tanto que sa\u00ed dali sem comprar nada. Nem me despedi da mocinha sol\u00edcita. &#8220;Voltou-se e mirou-a como se fosse pela \u00faltima vez, como quem repete um gesto imemorialmente irremedi\u00e1vel&#8221;. Ora, o que eu poderia esperar de um lugar feito para ser exatamente o mesmo?<\/p>\n<p>Pois sim, imaginava que nosso reencontro teria algo de &#8220;surpreenda-me&#8221; ao inv\u00e9s de &#8220;o de sempre&#8221;. Teria ca\u00eddo no Canto de Ossanha? &#8220;O homem que diz vou n\u00e3o vai, porque quando foi j\u00e1 n\u00e3o quis&#8221;.<\/p>\n<p>Dizem que Vin\u00edcius se desapegava com a mesma for\u00e7a que o levou a se apaixonar, muitas vezes. N\u00e3o \u00e9 assim, t\u00e3o simples: imagine rever algo fant\u00e1stico at\u00e9 esses dias e sair com um &#8220;\u00e9 verdade, eu reconhe\u00e7o, eu tantas fiz&#8230; Mas agora tanto faz&#8221;. Parece improv\u00e1vel explicar at\u00e9 sentir.<\/p>\n<p>Talvez seja melhor prestar mais aten\u00e7\u00e3o em outros arredores e dar merecido valor a outros cantos que nos fa\u00e7am se sentir em casa, feita com muito esmero. Ao mesmo tempo, respeitar os efeitos do tempo e parar de gastar energia especulando um imposs\u00edvel &#8220;como seria se isto aqui fosse diferente&#8221;.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o eu me dei conta que a frase &#8220;nosso tempo j\u00e1 passou&#8221; pode ficar mais leve. \u00c9 assim que &#8220;deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que s\u00e3o doces&#8230; Sei que devo partir, s\u00f3 me resta dizer adeus. Ah, eu te pe\u00e7o perd\u00e3o mas te quero lembrar como foi lindo o que morreu&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro (RJ) &#8211; &#8220;Tudo o que existe em mim de amor foi dado&#8221;, diria o poeta Vin\u00edcius, cuja obra tem dimens\u00e3o t\u00e3o grande quanto seus amores. 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