{"id":2340,"date":"2015-03-03T15:54:02","date_gmt":"2015-03-03T18:54:02","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/?p=2340"},"modified":"2015-03-03T15:54:02","modified_gmt":"2015-03-03T18:54:02","slug":"o-quimeiquer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/o-quimeiquer\/","title":{"rendered":"O Quim\u00eaiquer"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/pedra.gif\" align=\"right\">Existem muitos mist\u00e9rios por tr\u00e1s de uma chave. O mesmo objeto que pode nos libertar, abrir mundos novos e conhecimentos a serem explorados, tamb\u00e9m \u00e9 capaz de trancar segredos, sufocar desejos e sensa\u00e7\u00f5es. Institui\u00e7\u00f5es seculares ligadas ao saber usam chaves em seus s\u00edmbolos para representar esta dial\u00e9tica. E o que S\u00e3o Pedro carrega, segundo consta? \u00c9 ele quem tem o poder de abrir ou fechar o cadeado do Para\u00edso. Responsabilidade similar a de quem carrega um molho no bolso: o ato de caminhar rumo a uma porta indica determina\u00e7\u00e3o e firmeza: &#8220;vou entrar nessa&#8221;.<\/p>\n<p>T\u00e3o importante quanto quem guarda a chave \u00e9 quem lida com elas. Em Matrix, um velho coreano fazia o papel de um respons\u00e1vel por liberar ou ocultar caminhos, informa\u00e7\u00f5es, universos. Foi das m\u00e3os deste chaveiro, capaz de moldar labirintos e tra\u00e7ar atalhos, que o escolhido Neo alimentou as esperan\u00e7as de chegar ao mainframe daquela maluquice toda, comandar o batatal e proteger Trinity. N\u00e3o fosse pela habilidade do oriental, as portas para aventuras eletrizantes jamais seriam escancaradas.<\/p>\n<p>As possibilidades abertas (ou esquecidas) a partir de uma chave deveriam pesar sobre o of\u00edcio de chaveiro. Trata-se de um sujeito capaz de, veja voc\u00ea, trocar segredos. Preciosamente po\u00e9tico. E quando a \u00fanica c\u00f3pia da chave do carro, coincidentemente na mesma argola onde est\u00e3o as do port\u00e3o da garagem e da porta da frente, vai parar misteriosamente no porta-malas que se fecha no meio das sacolas do mercado? Ou ainda, num momento humanamente compreens\u00edvel, a porcaria do trinco enrosca antes de completar uma volta e, por conta da for\u00e7a, a coisa toda se quebra l\u00e1 dentro? Quem voc\u00ea vai chamar?<\/p>\n<p>Um bom chaveiro \u00e9 como um super-her\u00f3i. Resolve seu problema a qualquer hora, \u00e9 \u00e1gil, met\u00f3dico e confi\u00e1vel na mesma medida. Espera-se, diante disso, que este profissional se especialize constantemente. Entenda de chips, c\u00f3digos eletr\u00f4nicos, fechaduras complexas. N\u00e3o \u00e9 o que parece: dependendo da oficina, \u00e9 comum encontrar gente que &#8220;aprendeu a copiar uma chave&#8221; prestando aten\u00e7\u00e3o como se faz. Assim, escolher um chaveiro deveria ser como indicar um pedreiro ou um mec\u00e2nico.<\/p>\n<p>Como aprendi tudo isso? Simples.<\/p>\n<p>Oportunidades incr\u00edveis apareceram para mim, ao lado da minha Garotinha Ruiva. Mas para usufru\u00ed-las, precisava que a chave  dessas novas portas pudessem ser compartilhadas. Tinha pressa: durante uma semana, os primeiros passos na dire\u00e7\u00e3o nova exigiam um certo malabarismo ao entrar e sair. A necessidade me levou a um shopping, desses que frequento pouco, mas ocasionalmente apareceu em minha rota em uma tarde vazia. &#8220;Certamente vou encontrar um chaveiro aqui&#8221;, pensei. <\/p>\n<p>Encontrei um centro de servi\u00e7os, desses que t\u00eam desde c\u00f3pias xerox at\u00e9 canecas com fotografias para lembrancinhas. Dois jovens aprendizes riam de alguma coisa no monitor do computador. Outro rapaz terminava uma encaderna\u00e7\u00e3o espiral antes de me atender. Estava claro: tinha at\u00e9 quem mexesse com chaves ali.<\/p>\n<p>&#8211; Boa tarde, precisava fazer tr\u00eas c\u00f3pias de cada, por favor &#8211; pedi, mostrando uma nov\u00edssima chave Yale comum e outra Tetra, de uma tranca antiga, j\u00e1 gasta pelo tempo.<\/p>\n<p>&#8211; Ih, meu rapaz, voc\u00ea poderia esperar? Nosso chaveiro teve que sair \u00e0s pressas, disse que foi num estacionamento fazer um&#8230; Como \u00e9?  &#8220;Loque p\u00edlim&#8221;? &#8211; respondeu o balconista. Em casa, mais tarde, fui ao Google saber o que significava. &#8220;Voc\u00ea quis dizer lock-picking&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; Ah \u00e9? Mas ele demora?<\/p>\n<p>&#8211; Uns quarenta minutos.<\/p>\n<p>N\u00e3o! O que faria em um shopping durante esse tempo todo? Comer? Gastar?<\/p>\n<p>Eis que surge, atr\u00e1s de uma f\u00f3rmica divis\u00f3ria, o Quim\u00eaiquer.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o se v\u00e1. Deixe comigo. Eu fa\u00e7o essas chavinhas a\u00ed pra voc\u00ea.<\/p>\n<p>N\u00e3o sabia se ficava aliviado ou desconfiado. O Quim\u00eaiquer devia ter seus cinquenta anos. Lembra aqueles simp\u00e1ticos frequentadores da pracinha, na frente do boteco, durante longas tardes de domingo. Baixinho, bon\u00e9 branco, camisa roxa do Corinthians apertad\u00edssima na barriga. E \u00f3culos grossos, capazes de levantar todas as suspeitas: &#8220;esse cara sabe mesmo o que est\u00e1 fazendo?&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Mas olhe: essa aqui custa quinze a c\u00f3pia. S\u00f3 essa \u00e9 de oito contos &#8211; afirmou, ao examinar cada pe\u00e7a. Nada que eu n\u00e3o soubesse: os pre\u00e7os estavam bem vis\u00edveis, ao lado dos outros cento e duzentos servi\u00e7os oferecidos ali.<\/p>\n<p>Pacientemente, olhou para a chave menor e retirou os perfis do quadro de chaves. Ligou a duplicadora e, n\u00e3o menos paciente, rasgou o ferro de cada uma, mimetizando os dentes. Com a ajuda de um esmeril, removeu algumas rebarbas. Fez o mesmo com cada chave Tetra, nitidamente mais complexas. Concluiu o servi\u00e7o antes mesmo do titular da bancada voltar do tal &#8220;arrombamento consentido&#8221;.<\/p>\n<p>E l\u00e1 fui, todo pimp\u00e3o rumo \u00e0s portas da esperan\u00e7a. Anunciei a boa nova e, num momento informal por\u00e9m solene, enfiei uma chave Tetra no buraco da fechadura.<\/p>\n<p>Nenhuma das tr\u00eas girou. Para lado nenhum. Independente da posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas tudo bem, ao menos t\u00ednhamos chaves novas para a porta Yale! Oba!<\/p>\n<p>Nenhuma delas sequer entrou na fenda. Pareciam mais grossas. Pior: era como se um idiota tentasse enfiar qualquer outra chave errada ali.<\/p>\n<p>Maldito Quim\u00eaiquer! Gra\u00e7as a ele, teria que mexer na agenda do dia seguinte, rodar pela cidade num caminho pouco comum e questionar o que deu errado! Assim foi feito.<\/p>\n<p>&#8211; Boa tarde! Gostaria de conversar com o respons\u00e1vel pelo servi\u00e7o de chaveiro daqui.<\/p>\n<p>Em meio \u00e0 mo\u00e7adinha perdida, apresentou-se um rapaz simples, rude no tratamento interpessoal, com cara de poucos amigos. &#8220;Ser\u00e1 que o Quim\u00eaiquer aprendeu a copiar chaves com ele?&#8221;, estranhei, enquanto explicava o que tinha acontecido.<\/p>\n<p>&#8211; Bom, de fato estas aqui s\u00e3o mais dif\u00edceis, podem dar algum problema, \u00e9 preciso ser atento aos menores detalhes &#8211; justificou, segurando uma chave Tetra. &#8211; Mas estas outras aqui eu vou refazer apenas por desencargo, mas \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o ter funcionado &#8211; garantiu, n\u00e3o sem antes perguntar &#8220;quem tinha me atendido&#8221;. Fiz a breve descri\u00e7\u00e3o do Quim\u00eaiquer.<\/p>\n<p>&#8211; Aaahhh&#8230; Sim.<\/p>\n<p>Sa\u00ed da loja com o total de doze chaves novas: as seis do dia anterior e outras seis que, nas palavras do especialista, n\u00e3o tinham raz\u00e3o alguma para dar errado.<\/p>\n<p>D\u00e1 para acreditar que todas elas repetiram, rigorosamente, o mesmo problema? Se voc\u00ea fosse o &#8220;mestre do Quim\u00eaiquer&#8221;, o que diria se eu voltasse naquela verdadeira &#8220;Central do Retrabalho&#8221; e contasse, com a maior simpatia e tranquilidade, que minha demanda havia se multiplicado em uma d\u00fazia in\u00fatil?<\/p>\n<p>&#8211; Ah, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. \u00c9 mentira sua. Nem estas aqui entraram? Cara, eu n\u00e3o vou gastar mais chaves do quadro pra voc\u00ea. Quero examinar as fechaduras.<\/p>\n<p>&#8211; Opa, claro! Pode ser agora? Eu te levo, vem comigo.<\/p>\n<p>&#8211; Maravilha, s\u00f3 preciso pegar minha mochila, espere um instante.<\/p>\n<p>No caminho, perguntei o que ele carregava ali. Basicamente, tudo o que precisava para solucionar qualquer caso misterioso: furadeira\/parafusadeira port\u00e1til, form\u00e3o e lixa, p\u00f3 de grafite (para desengripar trincos), um jogo de michas&#8230; At\u00e9 um pequeno p\u00e9-de-cabra.<\/p>\n<p>&#8211; Em dois anos nesse servi\u00e7o, j\u00e1 usei um pouco de tudo &#8211; admitiu.<\/p>\n<p>&#8211; Caramba! Enfim, curiosamente, \u00e9 o mesmo kit que um ladr\u00e3o de carros usaria, n\u00e3o? &#8211; brinquei. O &#8220;mestre do Quim\u00eaiquer&#8221; nem sorriu, talvez n\u00e3o tenha curtido a anedota.<\/p>\n<p>Chegamos. Primeira miss\u00e3o: a fechadura Tetra. Removeu o trinco com a velocidade da parafusadeira para poder experimentar, chave a chave, facilmente. Um pouco de for\u00e7a a cada tentativa, como se pudesse sentir a altura dos dentes da chave. Com a lima, acertava as arestas da pe\u00e7a, tentando liberar os delicados pinos, girar o cilindro e mover a tranca. Algumas idas e voltas e as chaves emperravam: era a vez do p\u00f3 de grafite. Mas n\u00e3o muito, para n\u00e3o estragar o mecanismo. Outra quest\u00e3o importante: n\u00e3o se deve misturar o p\u00f3 com outro produto lubrificante (tipo WD).<\/p>\n<p>&#8211; Separei as tr\u00eas melhores chaves Tetra para voc\u00ea. Ainda v\u00e3o te dar trabalho, mas \u00e9 porque a fechadura \u00e9 antiga, precisa trocar mais pra frente. Mexi nas outras tamb\u00e9m, mas elas travaram mais. Guarde para uma eventualidade.<\/p>\n<p>\u00c9&#8230; N\u00e3o est\u00e1 bom, mas est\u00e1 melhor.<\/p>\n<p>&#8211; Agora, essa Yale&#8230; N\u00e3o entendo como pode.<\/p>\n<p>&#8211; Mas veja, com os seus pr\u00f3prios olhos: nenhuma delas sequer entra no buraco da porta! Compare com a original, olhe!<\/p>\n<p>Bastaram alguns segundos para a cara do &#8220;mestre do Quim\u00eaiquer&#8221; mudar para o estado &#8220;ogro&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; Ei, mas voc\u00ea n\u00e3o levou essa chave pra loja! N\u00e3o pode ser!<\/p>\n<p>&#8211; Cuma?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o foi essa! Foi outra!!! Essa chave nunca esteve l\u00e1!!!<\/p>\n<p>!?<\/p>\n<p>&#8211; Meu amigo, isso \u00e9 imposs\u00edvel. Essa porta \u00e9 nova. S\u00f3 existe esta chave. Repare nos dentes de todas elas: s\u00e3o id\u00eanticos. N\u00e3o faz nenhum sentido ter trocado por outra. Afinal, o que tem de errado nelas?<\/p>\n<p>&#8211; V\u00ea aqui. O perfil da chave original tem o friso, que encaixa na fechadura, do lado esquerdo. Esse friso aqui est\u00e1 do lado direito!<\/p>\n<p>Ah! Quer dizer que o Quim\u00eaiquer escolheu o modelo errado enquanto comparava as dezenas de op\u00e7\u00f5es naquela tabuleta?<\/p>\n<p>&#8211; Cara, seja racional: desde a primeira vez eu esperava por rapidez, n\u00e3o ganho nada te enrolando, trocando uma chave pela outra. Posso garantir que esta foi a chave levada para voc\u00eas. Nas duas vezes!<\/p>\n<p>Sim! O Quim\u00eaiquer e seu &#8220;mestre&#8221; cometeram o mesmo recheio de fralda! Um por vez!<\/p>\n<p>&#8211; Mas eu n\u00e3o me conformo. \u00c9 um erro prim\u00e1rio. N\u00e3o se faz uma coisa dessas &#8211; lamentou. <\/p>\n<p>Respirou fundo e, ainda cabisbaixo, fez sua promessa.<\/p>\n<p>&#8211; Passe l\u00e1 amanh\u00e3. Vai ser a \u00faltima vez. Vou fazer a chave certa. Mas se eu n\u00e3o estiver l\u00e1, insista para quem te atender: o perfil certo e o do encaixe para este lado aqui, entendeu?<\/p>\n<p>O &#8220;mestre do Quim\u00eaiquer&#8221; estava certo. Seria a \u00faltima vez que botaria os p\u00e9s naquela espelunca. Estava escrito em alguma chave do destino: o chaveiro n\u00e3o estava l\u00e1. Fui atendido por um jovem que ainda n\u00e3o tinha visto no balc\u00e3o da Central do Retrabalho. Muito cort\u00eas, j\u00e1 sabia da hist\u00f3ria das &#8220;c\u00f3pias erradas&#8221;. Onde j\u00e1 se viu? Tomou a iniciativa, mostrou os modelos corretos, duplicou e esmerilhou as chaves e sentenciou: &#8220;agora vai!&#8221;.<\/p>\n<p>No outro dia, recebi uma mensagem da Garotinha Ruiva:<\/p>\n<p>&#8220;Meu bem, as chaves engasgaram na porta. Desista da Turma do Quim\u00eaiquer. Arrumei um outro chaveiro aqui perto, j\u00e1 fiz as c\u00f3pias e elas funcionaram lindamente. Beijos.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existem muitos mist\u00e9rios por tr\u00e1s de uma chave. 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