{"id":2330,"date":"2015-01-15T14:49:58","date_gmt":"2015-01-15T17:49:58","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/?p=2330"},"modified":"2015-01-15T14:49:58","modified_gmt":"2015-01-15T17:49:58","slug":"dona-iracema","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/dona-iracema\/","title":{"rendered":"Dona Iracema"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/pedra.gif\" align=\"right\">Conheci Dona Iracema em um s\u00e1bado de junho. N\u00e3o era um dia qualquer: o Brasil acabava de passar pelo Chile, nos p\u00eanaltis, naquele sufoco injusto &#8211; mesmo se soub\u00e9ssemos o que aconteceria mais tarde, aquele time aguerrido do Jorge Sampaoli merecia mais. Talvez a Copa do Mundo fosse menos dolorida e mais interessante&#8230; Mas a gente nunca vai saber.<\/p>\n<p>Enfim. Fui acompanhando uma das netas da Dona Iracema. Ela n\u00e3o cabia em si de tanta saudade: n\u00e3o dava um abra\u00e7o na av\u00f3 desde o Natal. &#8220;\u00c9 a minha lembran\u00e7a, ao lado dela: sempre passamos as festas ao lado deles. Ent\u00e3o meu av\u00f4 ficou mal, n\u00e3o sai mais de casa e as coisas mudaram um pouco&#8221;, ela dizia no caminho.<\/p>\n<p>Fomos de carona com outro neto da Dona Iracema, a esposa dele e a filha &#8211; uma menina cujo encantamento faz com que as coisas girem facilmente em torno dela. Alternava ansiosamente as brincadeiras entre bonecas, outras traquitanas e algumas que &#8220;precisavam ser compradas&#8221;. Paralelamente, tentava saber mais sobre aquela senhora que motivou a sa\u00edda. &#8220;Ela tem uma personalidade forte, reclamona, mas invej\u00e1vel. Mais de noventa anos e mais l\u00facida que eu, parece uma adolescente&#8221;, ainda lembrou a neta, enquanto caminh\u00e1vamos em dire\u00e7\u00e3o ao ajeitado apartamentinho t\u00e9rreo onde morava.<\/p>\n<p>L\u00e1 estava ela, sentada num canto do sof\u00e1, sorrindo. Parecia vaidosa e elegante: ajeitava seus cabelos de algod\u00e3o, caprichava no batom (provavelmente para ningu\u00e9m reparar nos \u00f3culos), vestia-se como se fosse \u00e0 missa. Sobre suas pernas, deitava o marido, cinco anos mais velho, ruinzinho, prostrado. Devia sentir apenas o afago de Dona Iracema, como se mais ningu\u00e9m estivesse ali. <\/p>\n<p>&#8211; Como a senhora est\u00e1? &#8211; perguntou a neta, enquanto a abra\u00e7ava carinhosamente.<\/p>\n<p>&#8211; Ah, estamos aqui, nessa mesma rotina. Esperando um pelo outro, n\u00e9? &#8211; respondeu, calmamente, dando uma risadinha.<\/p>\n<p>Deixei o resto da fam\u00edlia dizer &#8220;oi&#8221; antes de me apresentar.<\/p>\n<p>&#8211; Quer dizer que voc\u00ea \u00e9 o famoso Andr\u00e9, hein? Ainda bem que tive tempo para conhecer voc\u00ea! &#8211; murmurou, sem deixar de dar uma nova risadinha.<\/p>\n<p>Falamos sobre a sa\u00fade. A deles, a nossa, a do mundo. N\u00e3o precisava ser assim. Isso inclu\u00eda o joguinho do Mineir\u00e3o mais cedo. Fui dar uma volta pelos c\u00f4modos, sorrir de volta para as fotos espalhadas. &#8220;Vem ver estes m\u00f3veis. Parecem novos, n\u00e3o? Foi meu av\u00f4 quem fez&#8221;, contava a neta, orgulhosa. Bateu uma vontade de ficar ali horas, de ouvir hist\u00f3rias enquanto poder\u00edamos ficar ali torcendo para a Col\u00f4mbia eliminar o Uruguai.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 quero ir embora! &#8211; pediu, ingenuamente, a menina. J\u00e1 fui um garoto assim, admito. Lembro que quando ia com meus pais a tiracolo na casa das minhas tias, igualmente dizia &#8220;ol\u00e1&#8221;, ficava um minuto no sof\u00e1 e corria para fazer outra coisa. A gente s\u00f3 fica velho quando envelhece&#8230; Como estava ali &#8220;de enxerido&#8221;, achei de bom tom ir embora tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o vou perder a carona, Dona Iracema. Mas ainda quero voltar aqui para passar uma tarde todinha, hein!<\/p>\n<p>&#8211; Ih, meu filho, nem te preocupa. Vai com Deus.<\/p>\n<p>Semanas depois, Dona Iracema foi surpreendida pelo mesmo derrame que havia derrubado seu marido um ano antes. Ficaram os dois ali, acamados, provocando uma confus\u00e3o entre as mem\u00f3rias do passado e as duras batalhas do presente. Pouco antes do Natal, ele foi embora &#8211; pessoas deviam ser proibidas de partir em finais de ano, mesmo quando todo mundo j\u00e1 espera por isso. Entre uma interna\u00e7\u00e3o repentina e outra, Dona Iracema nem soube do funeral. Ou, vai saber, sentia tudo: vinte dias depois, n\u00e3o suportou mais uma interna\u00e7\u00e3o. Sequer foi levada para a UTI: foi-se encontrar com o seu amor &#8220;at\u00e9 que a morte os separe&#8221; \u00e0 base de medicamentos reconfortantes.<\/p>\n<p>Dizem que \u00e9 da minha natureza obsessiva essa coisa de ficar estatelado diante de uma hist\u00f3ria capaz de transformar um placar de 7 a 1 em algo irrelevante, o que explica a sensa\u00e7\u00e3o de &#8220;sempre dever algo pra algu\u00e9m&#8221;, que leva a um desejo pouco saud\u00e1vel de &#8220;quitar tudo antes que tudo acabe&#8221;. Talvez se eu ficasse a tarde toda, ou voltasse outro dia, a vida pudesse ganhar um colorido diferente.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 como a sele\u00e7\u00e3o do Chile na Copa, Dona Iracema: a gente nunca vai saber.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conheci Dona Iracema em um s\u00e1bado de junho. 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