{"id":2308,"date":"2014-11-05T08:16:35","date_gmt":"2014-11-05T11:16:35","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/?p=2308"},"modified":"2014-11-05T08:16:35","modified_gmt":"2014-11-05T11:16:35","slug":"casa-vazia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/casa-vazia\/","title":{"rendered":"Casa vazia"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/pedra.gif\" align=\"right\" \/>&#8220;Onde botei a chave?&#8221;, penso, atrapalhado, enquanto reviro as frestas poss\u00edveis no carro. Talvez seja o caso de deslig\u00e1-lo antes de continuar&#8230; Sim, mais seguro e econ\u00f4mico. &#8220;Aqui! Junto com esses pap\u00e9is velhos no porta-luvas&#8221;. Respiro antes de abrir a porta, sentir a garoa fina e finalmente reencontrar meu passado.<\/p>\n<p>&#8220;Eu nunca sei qual \u00e9 a chave certa&#8221;. \u00c9 verdade. Mas d\u00ea um desconto: n\u00e3o \u00e9 um simples reencontro. O port\u00e3o engata quando puxo, deve ser a poeira. Piso no quintal e sorrio, esperando ingenuamente por alguma reciprocidade. Ela nunca vai dizer &#8220;tamb\u00e9m senti sua falta&#8221;, n\u00e3o se iluda. &#8220;Ah, ao menos voc\u00ea veio dizer ol\u00e1!&#8221;, invento, ao ver uma baratinha correndo para a rua enquanto apanho a correspond\u00eancia acumulada.<\/p>\n<p>Nenhuma not\u00edcia nova, est\u00e1 tudo bem, agrade\u00e7o a preocupa\u00e7\u00e3o. &#8220;Quero sentir voc\u00ea, vai&#8221;. Ent\u00e3o eu tiro o sapato, fecho os olhos e deixo o piso gelado me conduzir para algum momento repleto de abra\u00e7os &#8211; porque um abra\u00e7o como o seu \u00e9 dos melhores lugares para se estar. N\u00e3o me dou conta, mas essa ideia genial encardiu a sola dos meus p\u00e9s. &#8220;Puxa, \u00e9 muita poeira junta, n\u00e9?&#8221;.<\/p>\n<p>Entro na sala e sinto aquele aroma de portas e janelas fechadas por longos dias. Acendo poucas luzes, deixo as cartas amontoadas no sof\u00e1, vou charlar com as fotos da estante (&#8220;a\u00ea, galera, cheguei!&#8221;) e, em seguida, com a geladeira &#8211; talvez tenha que viver sempre ao lado de algu\u00e9m para manter a sanidade. &#8220;Ent\u00e3o, o que voc\u00ea tem pra mim?&#8221;. Nada. &#8220;Mas nem uma \u00e1gua gelada?&#8221; Arrisco o filtro da torneira. Um \u00fanico gole, com gostinho de volume morto sedimentado.<\/p>\n<p>&#8220;Melhor ligar a TV, quem sabe a gente consiga falar sobre amenidades&#8221;. Entro num quarto. Telefone desligado, r\u00e1dio-rel\u00f3gio piscando num hor\u00e1rio qualquer. &#8220;Ih, faltou luz recentemente&#8221;. \u00c9 a vez do banheiro. Ao menos por cima, parece us\u00e1vel. Uia! Cabelinho! Ou sujeirinha, sei l\u00e1. Nova ideia genial: limpar os p\u00e9s na pia. De volta para a cozinha, poucas gotas que escorrem pelo tornozelo revelam rastros negros&#8230; &#8220;Vou ter que chamar a Creuza pra um frila qualquer dia desses&#8221;.<\/p>\n<p>Finalmente, meu cantinho. Abro a janela e vejo dois ou tr\u00eas livrinhos fora de contexto, al\u00e9m de algumas camisas de clubes que n\u00e3o me servem mais, em cima da cama. Jogo tudo no ch\u00e3o (ah, dane-se a poeira) e deito por alguns minutos. &#8220;Voc\u00ea ficou t\u00e3o pequena&#8230;&#8221;. Incr\u00edvel como cabiam tantas estripulias nela. Procuro pela medalhinha de Aparecida que minha m\u00e3e cravou no travesseiro. L\u00e1 est\u00e1, ainda impregnada pelos sonhos que viraram fuma\u00e7a e atravessaram as rachaduras que brotam do teto.<\/p>\n<p>Deixo para o final o quartinho de jogos. Aquele onde eu passei uma vida inteira &#8220;jogando&#8221; tralhas em arm\u00e1rios, prateleiras&#8230; &#8220;Caramba, ent\u00e3o meu CPF estava aqui!&#8221;, sorrio, com surpresa. Deve ter mais coisas que vou gostar de encontrar sem estar procurando. Ou quase. Tem aquela bombona azul de pl\u00e1stico. Mais barata que aquelas car\u00edssimas caixas organizadoras da Toque Estoque. Tamb\u00e9m \u00e9 mais dif\u00edcil abrir. Sempre tive s\u00e9rias dificuldades em compreender o significado da palavra &#8220;desapego&#8221;. Como se fosse sin\u00f4nimo de &#8220;descart\u00e1vel&#8221;. Como se isso fosse ruim. Ainda n\u00e3o sei. &#8220;Algu\u00e9m para manter a sanidade, lembra?&#8221;. \u00c9.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso ir, estou longe e n\u00e3o posso me atrasar. &#8220;Nosso tempo j\u00e1 passou&#8221;, resmungo, sentindo aquele mesmo arrepio que vem da aus\u00eancia. &#8220;Preciso desligar a TV e&#8230; N\u00e3o estou esquecendo nada?&#8221;. Talvez devesse ter molhado as plantas &#8211; mas bem antes delas se tornarem folhas e galhos secos. Enfim, tem algo errado com as cores da tela, o tubo deve estar gasto. Sobre o que \u00e9 esse programa? Turismo, parece. &#8220;Voc\u00ea pode revisitar seus lugares favoritos quando quiser, mas n\u00e3o precisa ficar preso a eles. Guarde boas lembran\u00e7as se isso te fizer sentir vivo, mas lugares novos v\u00e3o proporcionar mais cores e sabores em sua vida&#8221;. Clic.<\/p>\n<p>Fecho o port\u00e3o e&#8230; Ora, que surpresa, deixei o carro aberto e ligado naquela nossa r\u00e1dio. Ou\u00e7o, ent\u00e3o, uma prece: que a m\u00fasica que ou\u00e7o ao longe seja linda, ainda que tristeza, mesmo que distante&#8230; Que o seu sil\u00eancio me fale cada vez mais. E que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mere\u00e7o.<\/p>\n<p>Pois metade de mim \u00e9 partida. A outra metade \u00e9 saudade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Onde botei a chave?&#8221;, penso, atrapalhado, enquanto reviro as frestas poss\u00edveis no carro. 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