{"id":2291,"date":"2014-08-24T20:51:14","date_gmt":"2014-08-24T23:51:14","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/?p=2291"},"modified":"2014-08-24T20:51:14","modified_gmt":"2014-08-24T23:51:14","slug":"ano-passado-eu-morri-mas-este-ano-eu-nao-morro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/ano-passado-eu-morri-mas-este-ano-eu-nao-morro\/","title":{"rendered":"Ano passado eu morri mas este ano eu n\u00e3o morro"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/pedra.gif\" align=\"right\">Dava para ver duas m\u00e3os em forma de concha para fora da janela. Terceiro? Quarto andar, talvez. Era domingo&#8230; Agosto. Ventava, lembro de algumas cortinas balan\u00e7ando.<\/p>\n<p>Tarde estranha. Aquele par de m\u00e3os fechadas, bra\u00e7os esticados, est\u00e1ticos&#8230;<\/p>\n<p>Finalmente, ap\u00f3s longos minutos, ouviu-se um grito. A voz era confusa e melanc\u00f3lica.<\/p>\n<p>&#8211; Chega. Cansei.<\/p>\n<p>Aqueles bra\u00e7os fraquejavam, relaxavam. enquanto o sol ia embora. Mas as m\u00e3os continuavam juntas, como se quisessem proteger algo.<\/p>\n<p>&#8211; Ai, como eu queria. Voc\u00ea sabe o quanto eu lutei, sentiu toda a for\u00e7a do meu desejo. Vivi cada instante de dor, tristeza e sofrimento. Como deve ser um grande amor.<\/p>\n<p>A voz melanc\u00f3lica e confusa era efusiva, dram\u00e1tica. Ao mesmo tempo, era rara: declara\u00e7\u00f5es exuberantes se alternavam com longos e profundos momentos de sil\u00eancio.<\/p>\n<p>&#8211; Eu sei muito bem o que eu quis pra mim. Queria muito estar aqui. Agora n\u00e3o sei mais&#8230; Voc\u00ea n\u00e3o entende, n\u00e3o \u00e9? Tenho sangrado demais&#8230; Tenho chorado pra cachorro. <\/p>\n<p>J\u00e1 era noite quando os gritos aumentaram, na mesma medida em que as m\u00e3os tr\u00eamulas fizeram for\u00e7a.<\/p>\n<p>Apertavam, sufocavam. Angustiavam.<\/p>\n<p>Deu para ver uma gota de sangue escorrendo com pressa. Deve ter se misturado com suor. Ou l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 sentindo? Se continuar assim, vamos ficar para sempre nesse sacrif\u00edcio. Precisamos ser livres. Fizemos nossa jornada, mas o tempo dela passou. Voc\u00ea sabe disso, nem preciso te perguntar. E ainda vai me agradecer por este gesto de coragem!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o vento carregou de suas m\u00e3os abertas um tipo de poeira brilhante. N\u00e3o deu para ver para onde foi, se caiu na rua, se voou sem rumo. Perdeu-se no ar.<\/p>\n<p>Pude ouvir uma \u00faltima frase antes da janela fechar:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o \u00e9 assim que se morre&#8230; Ainda sinto nas m\u00e3os a hist\u00f3ria que nunca vou ter.<\/p>\n<div align=\"center\">***<\/div>\n<p>Dias atr\u00e1s, contei essa hist\u00f3ria para um amigo.<\/p>\n<p>&#8211; Morte na sacada? Sangue nas m\u00e3os? Para com isso, que viagem mais besta!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9&#8230; Por isso que eu bebo.<\/p>\n<p>&#8211; Mas n\u00e3o tem isso de se sacrificar e ser livre. Nossa vida \u00e9 mais complexa e cheia de altos e baixos. Essas coisas emocionadas s\u00f3 acontecem nos filmes. J\u00e1 viu &#8220;Na natureza selvagem&#8221;? Pois \u00e9. Quer ser livre? Ent\u00e3o vai correr do urso polar no meio da neve, oras!<\/p>\n<p>&#8211; Pode ser&#8230; Mas ainda fico intrigado com o que havia naquelas m\u00e3os. Sei que devia abstrair, pensar no que realmente importa&#8230; S\u00f3 que aquela cena n\u00e3o me sai da cabe\u00e7a, sabe?<\/p>\n<p>&#8211; Ih! Relaxe, meu chapa. Pense: qualquer coisa que a gente deixa cair pela janela \u00e9 irrelevante.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dava para ver duas m\u00e3os em forma de concha para fora da janela. Terceiro? Quarto andar, talvez. Era domingo&#8230; Agosto. Ventava, lembro de algumas cortinas balan\u00e7ando. Tarde estranha. 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