{"id":2211,"date":"2014-03-13T03:25:04","date_gmt":"2014-03-13T06:25:04","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/?p=2211"},"modified":"2014-03-13T03:25:04","modified_gmt":"2014-03-13T06:25:04","slug":"o-meu-maior-medo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/o-meu-maior-medo\/","title":{"rendered":"O meu maior medo"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/pedra.gif\" align=\"right\">Em alguma estrada na Grande S\u00e3o Paulo, um rapaz decidiu ligar para a namorada. Estava preocupado: sua amada andava estranha nas \u00faltimas horas, apesar das boas perspectivas que ainda mantinha. O telefonema foi mais tenso do que supunha: teve que parar o carro no acostamento para ouvi-la dizer que o tempo deles havia acabado. &#8220;N\u00e3o percebe que viramos amigos?&#8221;. Com o fim da chamada e de sua hist\u00f3ria com ela, viu no seu corpo um rasgo profundo aberto por um afiado ponto de interroga\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m de uma \u00fanica palavra em sua mente: &#8220;mas&#8230; Mas&#8230;&#8221;.<\/p>\n<p>Longe dali, em uma universidade particular, um grupo de alunos participava de um encontro informal com o professor orientador. A inten\u00e7\u00e3o era sensacional: todos compartilhariam seus dilemas e obst\u00e1culos no caminho \u00e1rduo da pesquisa acad\u00eamica. Longe de resolver problemas, aquela catarse coletiva revelava um tipo de obviedade que adoramos ignorar: estavam todos no mesmo barco. Junto com cada interven\u00e7\u00e3o, o mestre fazia quest\u00e3o de lembrar: a ci\u00eancia \u00e9 feita de incertezas, hip\u00f3teses e inquieta\u00e7\u00f5es. Estas s\u00e3o as chaves que abrem as portas para o conhecimento.<\/p>\n<p>Dois andares acima, na sala da coordena\u00e7\u00e3o, alguns docentes se debru\u00e7avam num documento fresquinho. Tratava-se das novas Diretrizes Curriculares Nacionais para o curso de Jornalismo. &#8220;Temos at\u00e9 2015 para modificar nossa grade curricular e adequ\u00e1-la a estas exig\u00eancias&#8221;. S\u00f3 isso? &#8220;Claro que n\u00e3o. Esta \u00e9 uma oportunidade para solidificarmos nossa identidade, tendo como base nossos desejos: qual \u00e9 o perfil que queremos para o nosso egresso?&#8221;. Um dos coordenadores tratou de colocar mais uma vari\u00e1vel nesta celeuma: &#8220;ao mesmo tempo, n\u00e3o podemos ignorar as peculiaridades e as limita\u00e7\u00f5es da institui\u00e7\u00e3o: n\u00e3o vai ser nada f\u00e1cil manobrar certas quest\u00f5es&#8221;. Ouviu-se um longo suspiro. <\/p>\n<p>Foi quando algu\u00e9m lembrou a aus\u00eancia de uma das professoras mais ativas e dedicadas. Sua luta, naquele instante, era o retorno de um c\u00e2ncer &#8211; nestas circunst\u00e2ncias, a doen\u00e7a volta mais agressiva. &#8220;S\u00f3 pode ser algum tipo de for\u00e7a oculta, invis\u00edvel aos nossos olhos, para atingir algu\u00e9m como ela desse jeito cruel&#8221;. Dividiam uma contradit\u00f3ria mistura de saudade, esperan\u00e7a e descren\u00e7a. Ouviu-se um novo e mais longo suspiro.<\/p>\n<p>Um psicanalista atendia em seu consult\u00f3rio, no mesmo bairro da universidade. Ouvia atentamente outro de seus pacientes despejando queixumes no div\u00e3. &#8220;Eu planejei minha vida toda, tinha um cen\u00e1rio prontinho, ouvia de sua boca todas as certezas que me davam seguran\u00e7a&#8230; Agora n\u00e3o sei o que fazer, estou sem ch\u00e3o!&#8221;. Com tranquilidade e paci\u00eancia, o doutor tentava abrir os olhos do pobre neur\u00f3tico: a vida \u00e9 como uma dan\u00e7a, din\u00e2mica e fluida. N\u00e3o h\u00e1 como ignorar o imprevis\u00edvel.<\/p>\n<p>O tempo passa. Duas amigas se reencontram depois de longas semanas. Uma reclamou das contas: qualquer dinheirinho que ca\u00edsse em sua conta corrente serviria apenas para tapar uma parte do buraco. &#8220;Meu bem, at\u00e9 posso te ajudar, mas s\u00f3 voc\u00ea tem o poder de controlar suas despesas, sua mente, enfim&#8221;.<\/p>\n<p>A outra desabafou: estava com medo de criar expectativas sobre algumas coisas boas de sua vida e levar mais um tombo. Dizia que a sensa\u00e7\u00e3o eram de uma caminhada para o lado meio certo &#8211; ou ao menos longe do lugar errado. &#8220;Sabe, apesar de n\u00e3o termos nenhuma ideia do que voc\u00ea vai encontrar l\u00e1 adiante, est\u00e1 bom agora, n\u00e3o \u00e9? Por que pensa tanto num futuro t\u00e3o distante?&#8221;. Elas sorriram, choraram, se abra\u00e7aram.<\/p>\n<p>Noutro canto da cidade, em uma reuni\u00e3o de equipe no escrit\u00f3rio da empresa, o l\u00edder compartilhava sua ang\u00fastia. &#8220;J\u00e1 contatamos potenciais clientes de diversas formas, enviamos dezenas de propostas, mas ainda n\u00e3o encontramos o nosso modelo de neg\u00f3cios&#8221;. Poderia parecer algum tipo de preocupa\u00e7\u00e3o ou desculpa, mas o astral na sala era diferente. &#8220;Todos aqui sabem qual o nosso DNA, cultivamos nossas paix\u00f5es&#8230; Isso determina o nosso posicionamento, a nossa imagem. Algumas engrenagens parecem lentas, mas \u00e9 seguro que a m\u00e1quina est\u00e1 bem montada&#8221;, sentenciou com firmeza.<\/p>\n<p>Minutos depois, em uma pausa para o caf\u00e9, algu\u00e9m perguntou: &#8220;ei, o que aconteceu com aquele boeing da Malaysia Airlines?&#8221;. Em meio aos coment\u00e1rios mais evidentes (est\u00e1 na ilha de Lost ou em Atl\u00e2ntida), algu\u00e9m solta esta: &#8220;provavelmente ele pousou em alguma novela da Record, onde v\u00e3o os desaparecidos. E provavelmente nenhum dos celulares deles eram da Tim&#8221;.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m lembrou do Ulysses Guimar\u00e3es, que &#8220;provavelmente virou oferenda em Angra&#8221;. Quanto mau gosto. Outro mencionou as m\u00e3es da Pra\u00e7a de Maio, mulheres guerreiras e desesperadas que se reuniam, com len\u00e7os brancos na cabe\u00e7a, diante da Casa Rosada, exigindo not\u00edcias sobre os filhos desaparecidos durante a ditadura militar na Argentina. Em todas as hist\u00f3rias, a dor \u00e9 parecida: nenhuma delas possui um desfecho. <\/p>\n<p>Longos meses se passaram daquele telefonema na estrada. Aquele rapaz, num momento de fraqueza, pesca algumas boas not\u00edcias de seu antigo affair nas poucas pistas reveladas no perfil fechado do Facebook. &#8220;Vou cumpriment\u00e1-la&#8221;, decidiu, ingenuamente, talvez para checar se aquele corte aberto ainda do\u00eda. Acreditava que demonstrar interesse no outro e felicitar conquistas fosse um sinal de carinho. &#8220;Mas n\u00e3o contei nada disso&#8230; Como voc\u00ea soube?! Quem te disse???&#8221;. Ele pediu calma, queria v\u00ea-la desprovida de armas. &#8220;Eu n\u00e3o estou armada, estive sempre aqui! Voc\u00ea que ficou com raiva, sumiu do meu radar, saiu falando mal de mim por a\u00ed!!!&#8221;. Mas&#8230; Mas&#8230;<\/p>\n<p>Olho para cada um destes pequenos epis\u00f3dios e penso naquilo que considero o meu maior medo: a d\u00favida. Todo ser humano teme aquilo que n\u00e3o conhece. Alguns lidam melhor com isso&#8230; J\u00e1 eu, ao lado da d\u00favida, me sinto uma crian\u00e7a perdida no shopping. A essa altura, j\u00e1 aprendi: a \u00fanica forma de n\u00e3o se perder por a\u00ed \u00e9 se trancar dentro de casa.<\/p>\n<p>Sendo assim, coragem, \u00e2nimo, f\u00e9: respire, d\u00ea sua m\u00e3o, vamos sair.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em alguma estrada na Grande S\u00e3o Paulo, um rapaz decidiu ligar para a namorada. Estava preocupado: sua amada andava estranha nas \u00faltimas horas, apesar das boas perspectivas que ainda mantinha. 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