{"id":2098,"date":"2007-01-02T23:23:40","date_gmt":"2007-01-03T02:23:40","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/pausa-para-um-momento-triste"},"modified":"2007-01-02T23:23:40","modified_gmt":"2007-01-03T02:23:40","slug":"pausa-para-um-momento-triste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/pausa-para-um-momento-triste\/","title":{"rendered":"Pausa para um momento triste"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/ilustrado.gif\" align=\"right\"><b>Pelotas (RS)<\/b> &#8211; Desculpem, mas preciso usar esse espa\u00e7o novamente para um momento-fam\u00edlia. A foto a seguir voc\u00ea j\u00e1 viu aqui esses dias.<\/p>\n<div align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"\/blog\/images\/vovo2808.jpg\"><\/div>\n<p>Ali, entre a minha m\u00e3e e eu, est\u00e1 a Greta Guilhermina Augusta Peter da Rosa (carinhosamente chamada de &#8220;V\u00f3 Margarida&#8221;), em uma foto da comemora\u00e7\u00e3o de seus 90 anos, h\u00e1 quatro meses. Semanas antes dessa imagem, ela passou por uma complicada cirurgia, que a deixou bastante debilitada. As pequenas conquistas desse per\u00edodo de recupera\u00e7\u00e3o se perderam no primeiro dia do ano: ela n\u00e3o abriu seus olhinhos na manh\u00e3 de segunda, e muito fraquinha, foi levada para o Hospital de Clinicas, onde todos confiavam em uma melhora r\u00e1pida. Eram duas da manh\u00e3 desta ter\u00e7a quando descobri que 2006 ainda n\u00e3o tinha terminado definitivamente.<\/p>\n<p>Estou como se meu primeiro de janeiro n\u00e3o tivesse acabado. N\u00e3o peguei no sono na \u00faltima madrugada, pois j\u00e1 ia levar minha m\u00e3e no aeroporto &#8211; ciente da situa\u00e7\u00e3o, ela embarcaria sozinha \u00e0s cinco da manh\u00e3. A not\u00edcia chegou umas tr\u00eas e quinze, quando os olhos marejados da minha m\u00e3e pareciam pedir &#8220;vem algu\u00e9m comigo&#8221;. Em mais quinze minutos, j\u00e1 tinha comprado a minha passagem e ajeitado uma mochilinha de roupas. Uma viagem para o Rio Grande em ritmo de final de ano, mas ao contr\u00e1rio dos tempos \u00e1ureos, foi de um jeito que eu jamais gostaria. S\u00e3o mais de onze horas da noite, e tudo que eu dormi desde a manh\u00e3 p\u00f3s-reveil\u00e3o foi no Embaixador leito das oito e meia, entre Porto Alegre e Pelotas.<\/p>\n<p>Mas ainda \u00e9 poss\u00edvel enxergar algumas coisas, hmmm, boas, vai. Fiquei com a impress\u00e3o de que a crise a\u00e9rea foi uma interven\u00e7\u00e3o divina . Nunca foi t\u00e3o r\u00e1pido e f\u00e1cil comprar uma passagem, fazer o check-in, embarcar (e n\u00e3o atrasar) e chegar a Porto Alegre &#8211; evidentemente, o &#8220;f\u00e1cil&#8221; aqui diz respeito ao processo.<\/p>\n<p>Ao pisar no Salgado Filho, n\u00e3o tive como esquecer uma vez quando voltava ao lado da v\u00f3, em maio de 2001. Ela havia passado alguns dias em casa, incluindo a semana santa, e eu fui o respons\u00e1vel por leva-la de volta. O desembarque ainda era no terminal antigo, e a esteirinha de bagagem era rid\u00edcula diante de tantos passageiros. Enquanto a v\u00f3 aguardava confortavelmente num banco, fui atr\u00e1s das nossas malas. A besta aqui segurou apenas uma al\u00e7a da bolsa dela&#8230; O z\u00edper abriu, e metade das roupas da v\u00f3 fugiram pela esteira. Enquanto subia, pulava e tentava resgatar as coisas, a gauchada medonha se perguntava: &#8220;mas bah, de onde saiu esse bagual?&#8221;.<\/p>\n<p>Em pouco mais de quatro horas, j\u00e1 est\u00e1vamos na Comunidade Luterana Bom Pastor, a simp\u00e1tica igrejinha do alto de uma colina, em algum lugar entre Cap\u00e3o do Le\u00e3o e Morro Redondo, que pode ser vista a partir do quilometro 30 da BR-293, em dire\u00e7\u00e3o a Bag\u00e9. Onde meus pais se casaram e fui batizado. Onde havia pisado pela \u00faltima vez no sepultamento do meu av\u00f3, em julho de 92. Acredito que nunca esse recanto viu tanto calor quanto nesta ter\u00e7a-feira. Clima que deixou a tarde mais triste &#8211; e at\u00e9 mesmo cruel com os sete filhos, quatro irm\u00e3os, boa parte dos 16 netos e 18 bisnetos, al\u00e9m de outros parentes e amigos que estiveram ali, dando o \u00faltimo adeus a V\u00f3 Margarida.<\/p>\n<p>Claro que eu preferia ter me despedido, mas tamb\u00e9m voltado, beijado, abra\u00e7ado e papeado muitas outras vezes, mas esses 1500km tornaram nossa rela\u00e7\u00e3o diferente dos padr\u00f5es av\u00f3s\/netos, mas eu posso dizer que tive o privil\u00e9gio de viver ao lado dos quatro pais dos meus pais. Uma ben\u00e7\u00e3o ainda maior com a v\u00f3 Margarida, a \u00faltima em partir, que chegou aos noventa anos e vinha sendo, nos \u00faltimos quinze anos, nossa maior raz\u00e3o em atravessar o sul do pais.<\/p>\n<p>Mas enfim, Deus sabe o que faz, e agora ela est\u00e1 descansando num lugar maravilhoso, enquanto n\u00f3s continuamos aqui, carregados de saudade e com mais uma li\u00e7\u00e3o para seguirmos em frente e aproveitarmos nosso curto per\u00edodo no mundo dos vivos.<\/p>\n<p>E antes que eu volte a pisar em solo paulistano nesta quarta-feira, eu pergunto: quando ser\u00e1 que 2006 vai acabar?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pelotas (RS) &#8211; Desculpem, mas preciso usar esse espa\u00e7o novamente para um momento-fam\u00edlia. A foto a seguir voc\u00ea j\u00e1 viu aqui esses dias. 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