{"id":1941,"date":"2013-12-22T01:31:48","date_gmt":"2013-12-22T04:31:48","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/carta-para-a-minha-emocao-e-imaginacao-ou-quando-o-real-se-torna-maravilhoso"},"modified":"2013-12-22T01:31:48","modified_gmt":"2013-12-22T04:31:48","slug":"carta-para-a-minha-emocao-e-imaginacao-ou-quando-o-real-se-torna-maravilhoso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/carta-para-a-minha-emocao-e-imaginacao-ou-quando-o-real-se-torna-maravilhoso\/","title":{"rendered":"Carta para a minha emo\u00e7\u00e3o e imagina\u00e7\u00e3o (ou quando o real se torna maravilhoso)"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/plantao.jpg\" align=\"right\" \/>Olha, antes de voc\u00ea aparecer eu j\u00e1 era meio &#8220;ogro&#8221;, como voc\u00ea costuma dizer. Eu prefiro dizer que tenho uma &#8220;vis\u00e3o cartesiana&#8221;, moldada (talvez erroneamente) por algum bloqueio do passado. Devia saber que, antes de te encontrar, devia aceitar que as minhas frustra\u00e7\u00f5es n\u00e3o faziam muito sentido diante das riquezas do nosso encontro. Um momento que, at\u00e9 hoje, n\u00e3o encontro melhor palavra para defini-lo: sonho. &#8220;Te trago demais no peito&#8230; Porque tu fizeste mudan\u00e7as no meu cora\u00e7\u00e3o&#8230;&#8221;. O problema \u00e9 que nunca entendi voc\u00ea, suas inten\u00e7\u00f5es. Chamava seus sentimentos de amor, mas eu s\u00f3 enxergava obsess\u00e3o, limer\u00e2ncia, histrionismo. Na verdade, eu estava preso a um roteiro pautado por a\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas, com lastro na realidade.<\/p>\n<p>&#8220;Voc\u00ea era eu aos 14, mas j\u00e1 tinha 28, e \u00e9 por isso que eu amo voc\u00ea&#8221;, dizia, achando lindo o olhar de uma crian\u00e7a repleta de certezas e trazendo sentimentos carregados de esperan\u00e7a. Ambos, sem saber, iludidos, vivendo em universos paralelos \u2013 eu raz\u00e3o, voc\u00ea emo\u00e7\u00e3o. Nas poucas vezes que nos v\u00edamos, relutava em viajar para sua casa, enquanto voc\u00ea se espantava comigo. Lembra do nosso primeiro beijo, aquele que eu n\u00e3o queria dar por medo de te magoar? Voc\u00ea dizia n\u00e3o saber, nem aceitar, esse &#8220;meu jeito consciente&#8221;. Levou tempo para me convencer de que havia encontrado &#8220;a pessoa certa&#8221;.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, quando tudo parecia tranquilo, tropecei nas certezas que guard\u00e1vamos, estateladas num ch\u00e3o aberto. Foi como se tivesse levado uma rasteira. Ca\u00ed junto com a imagem de perfei\u00e7\u00e3o, de defini\u00e7\u00e3o, do &#8220;homem de todas as suas vidas&#8221; que existia em nosso imagin\u00e1rio. Antes, era como se jog\u00e1ssemos frescobol \u2013 eu aqui, voc\u00ea a\u00ed, mas sem deixar a peteca cair. Hoje ainda seguramos raquetes, mas voc\u00ea perdeu a vontade de jogar. Vez ou outra, quando eu saco, voc\u00ea devolve com for\u00e7a, de voleio. E fico assim, tentando descobrir como devolver a bola \u2013 se \u00e9 que voc\u00ea ainda a quer.<\/p>\n<p>N\u00e3o devia me sentir perturbado com estas coisas, especialmente diante do desafio que \u00e9 encaminhar nossa vida profissional. Enfim, finalmente tive a chance de unir a fantasia \u00e0 ci\u00eancia ao ter a chance de participar de um semin\u00e1rio. Chamou-se &#8220;Emo\u00e7\u00e3o e Imagina\u00e7\u00e3o&#8221; \u2013 justamente estes dois assuntos que me derrubam quando penso em ti. Ali, professores alem\u00e3es dialogaram com os brasileiros em tr\u00eas dias que mexeram muito comigo. Nas palavras do professor da Faculdade C\u00e1sper L\u00edbero, Jos\u00e9 Eug\u00eanio de Menezes, &#8220;a palavra semin\u00e1rio tem a mesma origem de semente, o que denota o semear de id\u00e9ias, a cultura do ouvir&#8221;. E n\u00e3o faltam sementes novas, prontas para germinar ao lado de ideias passadas \u2013 algumas daninhas, admito.<\/p>\n<p>Qualquer rela\u00e7\u00e3o humana depende de emo\u00e7\u00e3o e imagina\u00e7\u00e3o. Esta combina\u00e7\u00e3o influencia nossas motiva\u00e7\u00f5es e intencionalidades. De t\u00e3o impregnados em nossa mente, espalhados como num universo abstrato e complexo, muitas vezes nem pensamos nisso. Ou citamos, com desd\u00e9m: &#8220;como \u00e9 poss\u00edvel mensurar, categorizar ou direcionar emo\u00e7\u00f5es?&#8221;. Ou n\u00e3o queremos pensar, sob a bandeira de uma pretensa tranquilidade. Bobagem. Mesmo algu\u00e9m que acredita n\u00e3o lidar bem com emo\u00e7\u00f5es n\u00e3o consegue deixar de viajar pela imagina\u00e7\u00e3o. Para mim, este evento tinha um significado maior: emo\u00e7\u00e3o e imagina\u00e7\u00e3o \u00e9 voc\u00ea. Foi num passeio ao mundo dos sonhos que conheci voc\u00ea, seu habitat&#8230; N\u00f3s formalizamos nossos desejos, nossos sentimentos, em um universo formado por emo\u00e7\u00e3o e imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Agora veja s\u00f3, tudo o que sab\u00edamos um do outro era, na verdade, refer\u00eancias culturais do imagin\u00e1rio. Eu era George Bailey, aquele cidad\u00e3o desapegado que adia seus projetos em detrimento a felicidade das pessoas que ama. Ou Robert Kincaid, aquele fot\u00f3grafo despachado que vive um curto, por\u00e9m intenso, caso de amor com Francesca Johnson. E voc\u00ea era V\u00eanus Anadi\u00f4mena, eterna amante saindo das \u00e1guas em busca do amor verdadeiro. Ou ainda Madame Bovary, a mulher envolta em literaturas estranhas e romances sentimentais, que vive um dilema ao lado de um sujeito entediante: lidar com o desejo de realizar formas imaginadas de amar, classificando como in\u00fatil o que n\u00e3o lhe satisfazia, entusiasmando-se mais por emo\u00e7\u00f5es do que por paisagens. Enquanto tentava me reconhecer neste universo, ouvia de voc\u00ea um &#8220;sabe o que eu acho? Que n\u00f3s somos as pontes de Madison que poderiam dar certo&#8230; Porque vivemos isso 20 anos antes de Robert e Francesca e ainda h\u00e1 muito a se viver&#8221;.<\/p>\n<p>E \u00e9 t\u00e3o estranho pensar que nossa experi\u00eancia de alteridade \u2013 isto \u00e9, n\u00f3s existimos apenas diante do contato com outro \u2013 come\u00e7ou assim. Mais estranho \u00e9 nos darmos conta que, no fim das contas, tanto faz a origem das nossas mem\u00f3rias \u2013 ou esquecimentos. Walter Benjamin, ao citar a obra &#8220;Em Busca do Tempo Perdido&#8221;, de Proust, lembra que ele &#8220;n\u00e3o descreveu em sua obra uma vida como ela de fato foi, e sim uma vida lembrada por quem a viveu&#8221; \u2013 frase lembrada pelo Danilo Santos de Miranda, diretor do Sesc S\u00e3o Paulo, que abra\u00e7ou a id\u00e9ia deste encontro.<\/p>\n<h2>Amor e paix\u00e3o<\/h2>\n<p>Um dos curadores do evento, o professor alem\u00e3o Christoph Wulf, da Universidade Livre de Berlim, definiu imagina\u00e7\u00e3o como &#8220;energia de car\u00e1ter representativo, que age em objetos ausentes materialmente. Esta energia contribui para tornar as emo\u00e7\u00f5es presentes, transformando o mundo interno e externo e vice-versa&#8221;. Se por um lado imagens criadas s\u00e3o imprecisas, \u00e9 esta falta de foco que podem dar-lhes for\u00e7a, movimento. N\u00e3o \u00e0 toa, Norval Baitello Junior, professor da PUC de S\u00e3o Paulo, diretor do Centro Interdisciplinar de Cultura e M\u00eddia (CISC) e tamb\u00e9m organizador do semin\u00e1rio, lembra que emo\u00e7\u00e3o tem em sua base a raiz latina <i>mov<\/i> (movimento), que com o prefixo <i>ex<\/i>, sugere um movimento para fora, apartar, afastar. Curiosamente, \u00e9 a mesma origem sem\u00e2ntica de motim (rebeli\u00e3o, revolta)&#8230; Para os gregos, a imagina\u00e7\u00e3o era o movimento das imagens, cuja f\u00f3rmula est\u00e1 embutida na palavra <i>pathos<\/i>: acontecimento novo, imperfeito e em excesso, provocado por imagens oriundas de todos os sentidos, e n\u00e3o apenas de seus processos externos; mobilidade capaz de desestabilizar, causar sofrimento. Nossa tradu\u00e7\u00e3o de <i>pathos<\/i> nos d\u00e1 outra conex\u00e3o entre emo\u00e7\u00e3o, imagina\u00e7\u00e3o e movimento: paix\u00e3o.<\/p>\n<p>Puxa. S\u00f3 de pensar em &#8220;paix\u00e3o&#8221;, ou\u00e7o sua voz lamentando o sumi\u00e7o dela e do quanto isso importa em seu mundo&#8230; A palavra foi a base da fala de Angelika Neuwirth, professora de estudos \u00e1rabes na Universidade Livre de Berlim \u2013 ela analisa o Cor\u00e3o como literatura, voc\u00ea iria adorar! \u2013 ao falar sobre paix\u00e3o em seu contexto b\u00edblico, &#8220;representa\u00e7\u00e3o iconogr\u00e1fica do segredo do Deus que sofre&#8221;, que deriva a compaix\u00e3o, desejo de aliviar esta dor. E tem como falar nisso sem esquecer de um termo de defini\u00e7\u00e3o ainda mais complexa e imprecisa \u2013 o amor? Ingrid Kasten, tamb\u00e9m professora de literatura antiga em Berlim \u2013 v\u00e1 anotando! \u2013 fez uma viagem a Idade M\u00e9dia, tempo em que o amor poderia ser traduzido pela palavra alem\u00e3 <i>minne<\/i>: algo relacionado \u00e0 devo\u00e7\u00e3o entre suseranos e vassalos, fi\u00e9is e seu Deus. A imagina\u00e7\u00e3o j\u00e1 era vista como a preserva\u00e7\u00e3o mental das coisas vis\u00edveis, tornar presente um objeto em sua aus\u00eancia. Mas para efeito de criatividade, explorava-se apenas novas dimens\u00f5es de sentido atrav\u00e9s de exerc\u00edcios de estilo. Por isso o amor ad\u00faltero no mito de Trist\u00e3o e Isolda (S\u00e9culo XII) escandalizava: como \u00e9 poss\u00edvel pensar no amor e no matrim\u00f4nio, quest\u00f5es interligadas \u00e0 \u00e9poca, assentando-os em mentiras e fraudes?<\/p>\n<p>Amor e paix\u00e3o est\u00e3o facilmente associados ao tema do semin\u00e1rio \u2013 at\u00e9 porque, como lembrou Kasten, por mais que a hist\u00f3ria de Trist\u00e3o e Isolda n\u00e3o escandalize mais, ainda causa irrita\u00e7\u00e3o. No entanto, foram outras as palavras repetidas por praticamente todos os convidados, ressaltando a import\u00e2ncia de alguns conceitos: transdisciplinaridade, v\u00ednculos, pertencimento, performatividade, mimese&#8230; Esta \u00faltima, ali\u00e1s, \u00e9 uma das bases do pensamento de Christoph Wulf. A mimese \u00e9 um dos elementos b\u00e1sicos do processo de sociabiliza\u00e7\u00e3o, intrinsecamente ligado \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o e ao reconhecimento como os homens se comportam no mundo. N\u00e3o \u00e9 uma simples imita\u00e7\u00e3o, mas algo mais complexo, elaborado a partir da produ\u00e7\u00e3o de uma rela\u00e7\u00e3o. &#8220;Eles (os homens) acolhem o mundo, mas n\u00e3o o vivem de forma passiva, eles respondem ao mundo com a\u00e7\u00f5es construtivas. O que eles receberam do mundo ser\u00e1 trabalhado por eles nas suas pr\u00f3prias a\u00e7\u00f5es&#8221;. Somente em fun\u00e7\u00e3o de suas a\u00e7\u00f5es, o homem pode dar forma a um mundo que j\u00e1 lhe \u00e9 dado. A\u00e7\u00f5es criam emo\u00e7\u00f5es combinadas com imagens e experi\u00eancias de vida anteriores, traz motiva\u00e7\u00f5es, estados de a\u00e7\u00e3o, gestos, movimentos que refletem sobre o nosso corpo e estabelece nossa rela\u00e7\u00e3o entre pessoas. Temos um sentimento inato de pertencer, e &#8220;essa predisposi\u00e7\u00e3o humana para imita\u00e7\u00e3o criativa, buscando se aproximar de modelos, nos impulsiona e possibilita seu aprendizado&#8221;.<\/p>\n<p>Emular imagens, estabelecer rela\u00e7\u00f5es internas e externas, criar lacunas que ser\u00e3o preenchidas com emo\u00e7\u00f5es. \u00c9 poss\u00edvel considerar tamb\u00e9m as imagens produzidas pelo movimento do corpo \u2013 gestos que despertam lembran\u00e7as, valores, pensamentos&#8230; A &#8220;presentifica\u00e7\u00e3o do invis\u00edvel&#8221; a partir de emo\u00e7\u00f5es. Estes movimentos s\u00e3o evidenciados em manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas (dan\u00e7a, cinema) e no esporte, inclusive na celebra\u00e7\u00e3o da vit\u00f3ria de nossos her\u00f3is. G\u00fcnter Gebauer, professor de filosofia da Universidade Livre de Berlim, dedicou sua palestra ao v\u00ednculo entusiasmado dos torcedores de futebol, cujas emo\u00e7\u00f5es coletivas &#8220;provocam a sensa\u00e7\u00e3o de nosso ego serem elevados a um palco&#8221;. O que cativa neste exemplo \u00e9 o fato de conhecermos muito sobre o esporte e seus movimentos, mas n\u00e3o sabemos exatamente por que nos envolvemos com esta fantasia coletiva. &#8220;Ao contr\u00e1rio da pintura, as imagens produzidas em jogos de futebol n\u00e3o s\u00e3o representa\u00e7\u00f5es; tudo est\u00e1 na superf\u00edcie&#8221;.<\/p>\n<p>Eva-Maria Engelen, professora da Universit\u00e4t Konstanz, traz mais exemplos para ilustrar o conceito de emo\u00e7\u00e3o aliado \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o: &#8220;\u00e9 poss\u00edvel representar uma melodia, uma equa\u00e7\u00e3o matem\u00e1tica, uma situa\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o realizada, e n\u00e3o necessariamente uma imagem. Mas tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel sistematizar emo\u00e7\u00f5es, como ao imaginar jogar um dardo em um alvo, ainda que ele n\u00e3o exista&#8221;. H\u00e1 aqui uma forma de dar for\u00e7a a um conhecimento. &#8220;N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel imaginar emo\u00e7\u00f5es totalmente novas&#8221;, diz.  Helga Peskoller, professora da Leopold-Franzens-Universit\u00e4t Innsbruck, trouxe uma imagem ainda mais radical e desafiadora: alpinismo. Uma atividade humana desafiadora e paradoxal: \u00e9 poss\u00edvel equilibrar a \u00eaxtase, a alegria e o medo diante do fato de nenhum corpo se acostumar a um abismo, com uma entrega f\u00edsica sem perder o controle sobre si mesmo?<\/p>\n<h2>Interdisciplinaridade<\/h2>\n<p>Chamo a aten\u00e7\u00e3o para outras palavras que podem contribuir na constru\u00e7\u00e3o de um pensamento sobre o assunto. A come\u00e7ar por fascina\u00e7\u00e3o. Jerusa Pires Ferreira, doutora em sociologia da literatura, observa que nosso conhecimento e repert\u00f3rio s\u00e3o formados durante nossas &#8220;andan\u00e7as peripat\u00e9ticas&#8221;, onde podemos recolher encanto, disfarce, fantasia, presen\u00e7a&#8230; Aquilo que nos faz brilhar os olhos e ativa nossa mem\u00f3ria. Como quando ela encontrou a hist\u00f3ria do linguista e arque\u00f3logo russo Yuri Knorozov, que decifrou os c\u00f3digos da escrita maia e &#8220;cujo m\u00e9todo especial da comunica\u00e7\u00e3o&#8221; a fascinou. Ou ainda, quando revela sua baianidade, evoca o arrebatamento dos serm\u00f5es do Padre Ant\u00f4nio Vieira. Em sua arte do vocal e performance, combinada ao texto escrito, &#8220;tudo conta, inclusive os timbres e tons, e isso n\u00e3o comporta rascunhos, sem possibilidade de repeti\u00e7\u00f5es&#8221;.<\/p>\n<p>Ei, lembrei agora daquela sua foto ao lado de Gabriela no Bar Ves\u00favio, despojada e deslumbrante, e da vontade que sempre tive em seguir seu fasc\u00ednio pelas ruas do centro hist\u00f3rico de Salvador&#8230;<\/p>\n<p>Mas enfim, retomando. Temos ainda empatia, mote da fala de Malena Contrera, que fez uma reflex\u00e3o baseada em sua etimologia \u2013 imaginava que empatia e simpatia pudessem vir de <i>pathos<\/i> (paix\u00e3o), mas faz sentido v\u00ea-la associada \u00e0 palavra grega hepar, de onde temos <i>hepato<\/i> (f\u00edgado), tornando-a algo visceral, f\u00edsico (informa\u00e7\u00e3o verbal) . De qualquer forma, ambas est\u00e3o ligadas a algum tipo de sofrimento. Trouxe ainda a defini\u00e7\u00e3o do professor de bio\u00e9tica da UFRGS, Jos\u00e9 Roberto Goldim: enquanto simpatia \u00e9 um sentimento que vincula as pessoas, a empatia vai al\u00e9m, &#8220;\u00e9 olhar com o olhar do outro, \u00e9 considerar a possibilidade de uma perspectiva diferente da sua. A falta de empatia \u00e9 desconsidera\u00e7\u00e3o, \u00e9 n\u00e3o permitir diferentes percep\u00e7\u00f5es. A falta de empatia desconsidera a pessoa em si, os seus valores, o seu sistema de cren\u00e7as ou os seus desejos&#8221;. Somos acometidos por uma vontade de estarmos vinculados, de um sentimento de pertencimento, mas diante da espetaculariza\u00e7\u00e3o da vida, h\u00e1 uma propens\u00e3o a ades\u00e3o por mera simpatia, amplificando o vazio da no\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduo.<\/p>\n<p>Por fim, felicidade \u2013 e aqui, nada me tira da cabe\u00e7a o fato desta mesa ter sido realizada em um dia primeiro de abril&#8230; Acreditar na felicidade plena \u00e9 discordar de Joerg Zirfas, professor da Friedrich-Alexander-Universit\u00e4t Erlangen-N\u00fcrnberg: &#8220;s\u00f3 pessoas infelizes e insatisfeitas fantasiam&#8221;. Satisfa\u00e7\u00e3o e felicidade est\u00e3o associadas \u00e0 sensa\u00e7\u00e3o de prazer ou alegria, desejos conscientes ou inconscientes que se realizam criando uma situa\u00e7\u00e3o de satisfa\u00e7\u00e3o. Um estado de felicidade gera um vazio, destituido de imagens ou fantasias. Dessa forma, ser\u00e1 que o ser humano quer ser integralmente feliz \u2013 como se quis\u00e9ssemos voltar para a tranquilidade do \u00fatero materno ou ainda experimentar um estado absolutamente ausente de tens\u00f5es, a morte? Por que n\u00e3o optamos por outras formas de garantir uma vida sem desejos \u2013 como drogados, pessoas loucas, em euforia permanente, instaladas num &#8220;admir\u00e1vel mundo novo&#8221; de Huxley ou conectados em uma m\u00e1quina de prazer constante? Sob o ponto de vista da psicologia, &#8220;o que o ser humano quer \u00e9 o espa\u00e7o de imagina\u00e7\u00e3o onde h\u00e1 felicidade, e isso caracteriza sua vida normal&#8221;.<\/p>\n<p>Na Universidade Livre de Berlim, emo\u00e7\u00f5es s\u00e3o estudadas sob o prisma da psicologia, da biologia, das ci\u00eancias da cultura, entre outras. A partir destes prismas, \u00e9 poss\u00edvel enxergar duas tend\u00eancias contradit\u00f3rias, segundo Wulf, a respeito da constitui\u00e7\u00e3o de nossas emo\u00e7\u00f5es. Uma parte de um car\u00e1ter universal, onde todos os seres humanos sentem emo\u00e7\u00f5es da mesma forma. Outra, que refor\u00e7a um car\u00e1ter biocultural, diz respeito a nossa diversidade: nossas emo\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas podem ser reconfiguradas culturalmente, ainda que as origens biol\u00f3gicas sejam semelhantes. \u00c9 a transdisciplinaridade, tamb\u00e9m perseguida pelo matem\u00e1tico e professor Ubiratan D&#8217;Ambrosio, que utiliza a met\u00e1fora das &#8220;gaiolas epistemol\u00f3gicas&#8221; para explic\u00e1-la. &#8220;Vivemos sob muitas limita\u00e7\u00f5es. Costumo cham\u00e1-las de gaiolas, onde somos alimentados por teorias. Devemos cantar de acordo com a m\u00fasica executada pelos companheiros de gaiola. Mas qual o limite da gaiola? De que cor ela \u00e9 pintada por fora?&#8221;.<\/p>\n<p>Esta tamb\u00e9m \u00e9 a marca dos estudos em comunica\u00e7\u00e3o, algo que pode ser visto como um recorte transversal em diferentes \u00e1reas do conhecimento dispostas em camadas \u2013 desde humanidades at\u00e9 a neuroci\u00eancia. Num cen\u00e1rio onde &#8220;a comunica\u00e7\u00e3o humana \u00e9 um artif\u00edcio cuja inten\u00e7\u00e3o \u00e9 nos fazer esquecer a brutal falta de sentido de uma vida condenada \u00e0 morte&#8221;, e por essa raz\u00e3o vista como um fen\u00f4meno artificial, raro e em muitas circunst\u00e2ncias imposs\u00edvel, Ciro Marcondes Filho, professor-titular da ECA\/USP, prop\u00f5e pensar a comunica\u00e7\u00e3o adaptada a era tecnol\u00f3gica. &#8220;Comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 a capacidade do outro alterar algo que eu tenha em mim, meus valores, minha vis\u00e3o de mundo. At\u00e9 que ponto estamos pensando na qualidade da comunica\u00e7\u00e3o que temos? H\u00e1 alguma forma de intervir, de estimular o outro a pensar?&#8221;, questiona.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito, j\u00e1 te falei que me interesso por processos de colabora\u00e7\u00e3o a partir da comunica\u00e7\u00e3o em ambientes virtuais de aprendizagem? Enquanto fazia meus apontamentos, tentava articular minhas sinapses transdisciplinares. Foi gra\u00e7as ao professor Jos\u00e9 Eug\u00eanio que conheci Vil\u00e9m Flusser, citado algumas vezes no evento \u2013 ao falar sobre a dial\u00e9tica da imagem, a professora Lucrecia D\u2019Al\u00e9ssio Ferrara lembrou que o uso de imagens como met\u00e1foras s\u00e3o usadas constantemente para explicarmos fen\u00f4menos, e &#8220;pensar por imagens&#8221; pode nos permitir um exerc\u00edcio de felicidade. E sobre colabora\u00e7\u00e3o, alguns elementos-chave para que esta aconte\u00e7a est\u00e3o associados a uma situa\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel: o ambiente deve permitir simetria entre os interlocutores, capaz de garantir sua sociabilidade. N\u00e3o h\u00e1 como desconsiderar o car\u00e1ter emocional destas rela\u00e7\u00f5es. Mais: em se tratando de conex\u00f5es mediadas por computador, a exist\u00eancia do outro implica a forma\u00e7\u00e3o de imagens baseadas nestas rela\u00e7\u00f5es consolidadas por bits, interfaces, c\u00f3digos textuais, cen\u00e1rio que representa um complicador para diversos autores.<\/p>\n<p>Ah, mas que droga! Ao fechar meus olhos agora, pensando em imagens que movimentam emo\u00e7\u00f5es, sinto voc\u00ea deitada ao meu lado na cama pela manh\u00e3, aquela luz fraca da alvorada colorindo devagar seu corpo envolto nos len\u00e7\u00f3is&#8230; Concentra, Andr\u00e9.<\/p>\n<h2>Vida l\u00edquida<\/h2>\n<p>Bom, em rela\u00e7\u00e3o a essa ponte digital em que se encontram voc\u00ea, eu e meu objeto de pesquisa, em diversos momentos os painelistas refor\u00e7aram suas d\u00favidas diante do car\u00e1ter fluido das emo\u00e7\u00f5es \u2013 que normalmente j\u00e1 dificulta qualquer tipo de pesquisa \u2013 e, para piorar, a acelera\u00e7\u00e3o deste fluxo diante de nossas rela\u00e7\u00f5es mediadas por novas e \u00e1geis tecnologias, al\u00e9m de reconfigura\u00e7\u00f5es sociais que privilegiam atributos como a &#8220;intelig\u00eancia emocional&#8221;. Christoph Wulf, por exemplo, chamou a aten\u00e7\u00e3o para situa\u00e7\u00f5es onde &#8220;as pessoas s\u00e3o mostradas em situa\u00e7\u00e3o de decep\u00e7\u00e3o, humilha\u00e7\u00e3o, ci\u00fame, etc. Apresentar publicamente estas emo\u00e7\u00f5es significa intensific\u00e1-las&#8221;.<\/p>\n<p>Para exemplificar, Wulf tomou como base o &#8220;showneral&#8221; do cantor pop Michael Jackson, evento que n\u00e3o s\u00f3 redimiu o astro de qualquer acusa\u00e7\u00e3o mas tamb\u00e9m representou emo\u00e7\u00f5es em escala global. &#8220;Enquanto imagem, Jackson ainda est\u00e1 presente. E para muitos, que mantinham rela\u00e7\u00f5es com suas m\u00fasicas ou encenavam seus passos, isso quer dizer que, antes de sua morte, ele j\u00e1 era visto como imagem. Logo, muita coisa n\u00e3o mudou&#8221;. Mais do que isso: independente do pano de fundo mercantilista e mesmo sendo um simulacro com moldura midi\u00e1tica, o ritual emocionou, envolveu da mesma forma.<\/p>\n<p>Ciro Marcondes Filho lembra que com o surgimento de sistemas para o registro de imagens, sons e c\u00f3digos a partir do S\u00e9culo XIX, &#8220;h\u00e1 um decl\u00ednio do conceito de imortalidade: os homens consideram a morte um fen\u00f4meno relativo&#8221;. Meios eletr\u00f4nicos e inform\u00e1ticos modificaram o ambiente denominado de &#8220;espa\u00e7o da encena\u00e7\u00e3o&#8221;, lugar onde a &#8220;sociedade do glamour&#8221; estabelece um tipo de conviv\u00eancia n\u00e3o convencional, n\u00e3o presencial, um mundo paralelo &#8220;mais interessante e desej\u00e1vel em rela\u00e7\u00e3o ao mundo real&#8221;. As conex\u00f5es em rede colocam o homem diante de pessoas que n\u00e3o existem do ponto de vista formal, e sendo assim, prevalece a encena\u00e7\u00e3o \u2013 tanto eu quanto o outro, que far\u00e1 sua leitura desta encena\u00e7\u00e3o. Se a nossa sociedade \u00e9 baseada por fantasias, estar\u00edamos n\u00f3s perdendo nossa sensibilidade, tornando-nos menos capazes de perceber o mundo?<\/p>\n<p>Encena\u00e7\u00e3o e imortalidade formaram o pano de fundo para a psicanalista e professora da PUC-SP Suely Rolnik, que aproveitou o vel\u00f3rio de Michael Jackson para observ\u00e1-lo como mais um rito de passagem, aos moldes do nascimento e do casamento, que deveriam refor\u00e7ar o car\u00e1ter passageiro da vida humana, para lembrarmos de nossa finitude. A partir de um conceito de pol\u00edtica em n\u00edveis macro (onde a redistribui\u00e7\u00e3o de lugares e as estratifica\u00e7\u00f5es sociais s\u00e3o vis\u00edveis) e micro (for\u00e7as individuais que afetam, ressoam, provocam colapsos de sentido), ela faz um alerta diante da tens\u00e3o entre as for\u00e7as que habitam nosso eu e nossa alteridade. De um lado, a emo\u00e7\u00e3o vital, ativa, que investe em nossa reinven\u00e7\u00e3o; mas de outro um vetor reativo que &#8220;na busca por um equil\u00edbrio sempre provis\u00f3rio, insiste na cartografia atual e pode nos levar a negar estas muta\u00e7\u00f5es&#8221; \u2013 \u00e9 o que Freud chama de &#8220;pun\u00e7\u00e3o de vida e de morte&#8221;. Acreditar que seremos eternos, limitar-nos ao consumo de id\u00e9ias controladas (&#8220;predom\u00ednio no mundo acad\u00eamico&#8221;, alfinetou) ou prosseguir com o que ela chamou de &#8220;recalque colonial&#8221; \u00e9 negar a for\u00e7a do pensamento, nutrindo um estado perverso de suspens\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o consigo deixar de associar estes fen\u00f4menos ao que o soci\u00f3logo polon\u00eas Zygmunt Bauman chama de modernidade l\u00edquida, onde n\u00e3o apenas as emo\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m outros valores e cren\u00e7as, derretem. A mesma liquefa\u00e7\u00e3o \u00e9 vista em nossos v\u00ednculos, dando \u00eanfase \u00e0 independ\u00eancia e liberdade de conex\u00f5es que podem ser feitas e desfeitas a qualquer momento, tornando-nos impotentes diante de situa\u00e7\u00f5es reais. Essa frouxid\u00e3o tamb\u00e9m est\u00e1 presente em rela\u00e7\u00f5es amorosas, onde sentimentos amedrontadores ligados \u00e0 solid\u00e3o combinam a alegria de estar livre, criando um paradigma. Tamanha imprevisibilidade oriunda deste investimento desregulado e tempor\u00e1rio \u00e9 comparada pelo autor com a morte \u2013 esque\u00e7a o bord\u00e3o &#8220;at\u00e9 que a morte nos separe&#8221;. &#8220;N\u00e3o se pode aprender a amar, tal como n\u00e3o se pode aprender a morrer. E n\u00e3o se pode aprender a arte ilus\u00f3ria \u2013 inexistente, embora ardentemente desejada \u2013 de evitar suas garras e ficar fora de seu caminho. Chegado o momento, o amor e a morte atacar\u00e3o \u2013 mas n\u00e3o se tem a m\u00ednima id\u00e9ia de quando isso acontecer\u00e1. Quando acontecer, vai pegar voc\u00ea desprevenido&#8221;.<\/p>\n<p>Se retomarmos o conceito de empatia e simpatia proposto por Malena Contrera, podemos enxergar um caminho para fortalecer v\u00ednculos diante da autonomia individual relativa, desconectiva, disjuntiva: fugir de valores narcisistas e livrarmo-nos dos apelos simp\u00e1ticos. Confesso que fiquei questionando junto, diante de uma pergunta da plat\u00e9ia: qual o nosso tipo de v\u00ednculo? &#8220;Depende do tamanho da proje\u00e7\u00e3o&#8230; Quanto tempo isso pode durar? Depende de quanto sua imagina\u00e7\u00e3o aguentar&#8221;. Aproveitou para citar Carl Jung, ao lembrar que nosso insconsciente tamb\u00e9m age neste processo: &#8220;voc\u00ea \u00e9 respons\u00e1vel por sua pr\u00f3pria inconsci\u00eancia&#8221;. Mesma for\u00e7a \u00e9 necess\u00e1ria para inverter o sentido do &#8220;vetor reativo da produ\u00e7\u00e3o de pensamento&#8221;, nas palavras de Suely Rolnik. &#8220;Mobilizar a alteridade que nos habita, encarar a tens\u00e3o e ir mais longe ainda, ativando nossa pot\u00eancia de pensamento e cria\u00e7\u00e3o diante destas tens\u00f5es, abre novos caminhos e vida volta a germinar&#8221;. Isto seria um resgate da defini\u00e7\u00e3o original de <i>poiesis<\/i>, termo que est\u00e1 na raiz das poesias que voc\u00ea me ensinou a gostar, mas que significa &#8220;agir para transformar o mundo continuamente&#8221;.<\/p>\n<p>Enquanto piso em nuvens, bombardeado por tons e luzes abstratas, fico sem a\u00e7\u00e3o visualizando voc\u00ea passeando leve, brilhante, sorrindo lindamente enquanto diz, com aquele tom de voz doce e olhar triste, que &#8220;s\u00f3 consegue ser assim&#8221;. Ao mesmo tempo, eu me sinto um daqueles vil\u00f5es loucos do cinema ao perceber que, quando voc\u00ea se aproximava hipnotizada pelo meu abra\u00e7o, era como se eu te sequestrasse, enclausurando voc\u00ea nesse mundo cartesiano, inflex\u00edvel, sequencial&#8230; Enfim, este lugar onde eu me sinto mais \u00e0 vontade. E quando lembro disso, vem a melancolia por te ver assim, chata e murcha fora de seu habitat, sentindo que n\u00e3o faz nenhuma diferen\u00e7a o fato de &#8220;sempre termos Bedford Falls&#8221; ou dizendo que &#8220;acha mais honesto rompermos este v\u00ednculo&#8221;. E eu me pergunto se um dia voc\u00ea ter\u00e1 for\u00e7a ou vontade para enxergar alguma oportunidade de compartilhar sua vida comigo, com sinceridade, equil\u00edbrio, raz\u00e3o e emo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E o que \u00e9 isso, a vida? Ubiratan D&#8217;Ambrosio sintetizou, como em uma f\u00f3rmula matem\u00e1tica: \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre indiv\u00edduo, o outro e a natureza. E isso n\u00e3o vai bem, ningu\u00e9m pode contestar. &#8220;Faz sentido destruir uma cidade com o pretexto de n\u00e3o acabar com outra? Nosso relacionamento com a natureza ou com os outros tem sido desastroso: se eles incomodam, eliminamo-os&#8221;. Em conson\u00e2ncia com as falhas de percep\u00e7\u00e3o detectadas pelos demais, ele nos v\u00ea &#8220;em nossas confort\u00e1veis torres de marfim, sem enxergar o mundo direito. Temos que sair, mas isso n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil&#8221;. Ora, se n\u00f3s constru\u00edmos ferramentas para extrair da natureza o que elas n\u00e3o oferece espontaneamente, sofisticamos a comunica\u00e7\u00e3o a partir de c\u00f3digos e emo\u00e7\u00f5es, por que n\u00e3o buscar a transcend\u00eancia? &#8220;Se a gente conseguir entender o que \u00e9 vida e como n\u00f3s atuamos, talvez possamos sair da gaiola, contrariar o bom senso, encontrar a paz e dar um futuro melhor para as outras gera\u00e7\u00f5es&#8221;. Paz e esperan\u00e7a para n\u00f3s, nossos filhos, nossas conex\u00f5es, a dos outros&#8230; \u00c9 o que a gente precisa, n\u00e3o?<\/p>\n<p>Sabe, talvez jamais consiga responder por que sinto algum desconforto em transitar entre o concreto e o abstrato, ainda que estes dois universos sejam cria\u00e7\u00e3o exclusiva da minha mente. Afinal, ter emo\u00e7\u00f5es \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o humana. Tomo as palavras finais da fala de Suely Rolnik, para simplificar uma sa\u00edda honrosa: &#8220;quando estamos diante da fragilidade que essa alteridade sustentada nas ilus\u00f5es nos provoca, surge o auto-flagelo, ficamos apavorados, inferiorizados&#8221;. Ao mesmo tempo que as emo\u00e7\u00f5es nos constituem, tamb\u00e9m nos agarram. Podemos control\u00e1-las ou reprimi-las, s\u00f3 n\u00e3o d\u00e1 para n\u00e3o ter emo\u00e7\u00e3o nenhuma. Diante disso, vez ou outra eu me pergunto por que perco meu tempo tentando formalizar, interpretar essas coisas. Aquela frase do Jorge Amado, que voc\u00ea carrega como um mantra, de que &#8220;o real se mescla ao maravilhoso&#8221;; na verdade, o real \u00e9 maravilhoso e esse \u00e9 o grande assunto do autor&#8230; Minha cabe\u00e7a procura destrinchar esse c\u00f3digo em busca de algum sentido, l\u00f3gica, e sem encontrar nada que a justifique, acaba sustentando meu mal-estar.<\/p>\n<p>Quer saber? Eu devia era viajar para o seu mundo fant\u00e1stico, te pegar pela m\u00e3o e pegar o primeiro voo da Lufthansa, qualquer que seja o destino. Ali\u00e1s, j\u00e1 te disse que adoraria aprender alem\u00e3o? Acho um idioma desafiador e, ao mesmo tempo, fascinante. Eu s\u00f3 sei pedir batata, salsicha e contar at\u00e9 quatro. Talvez isso seja suficiente para embarcarmos em algum trem veloz da Die Bahn, dar uma volta e respirar hist\u00f3ria nos parques de Potsdam ou Munique, navegar em busca de paisagens buc\u00f3licas \u00e0 beira do Reno, assistir a um jogo do Schalke em Gelsenkirchen e caminhar pelos arredores de Berlim, uma cidade que tem tudo a ver conosco e pode nos ensinar alguma coisa. Afinal, durante anos, um muro separou duas realidades distintas de um povo que, assim como eu e voc\u00ea, desejava a mesma coisa para seu futuro.<\/p>\n<p><i>(Esse trabalho sintetiza conceitos e id\u00e9ias compartilhadas durante o Semin\u00e1rio Internacional Emo\u00e7\u00e3o e Imagina\u00e7\u00e3o, realizado na primeira semana de abril de 2011 pelo Sesc S\u00e3o Paulo em parceria com a Universidade Livre de Berlim, o Centro Interdisciplinar de Semi\u00f3tica da Cultura e da M\u00eddia (CISC)\/Comunica\u00e7\u00e3o e Semi\u00f3tica (COS)\/PUC-SP e o Goethe-Institut. Era para ser um mero artigo para validar cr\u00e9ditos de um semin\u00e1rio. Mas \u00e9, de longe, o meu texto preferido.)<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Olha, antes de voc\u00ea aparecer eu j\u00e1 era meio &#8220;ogro&#8221;, como voc\u00ea costuma dizer. Eu prefiro dizer que tenho uma &#8220;vis\u00e3o cartesiana&#8221;, moldada (talvez erroneamente) por algum bloqueio do passado. Devia saber que, antes de te encontrar, devia aceitar que as minhas frustra\u00e7\u00f5es n\u00e3o faziam muito sentido diante das riquezas do nosso encontro. 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