{"id":1913,"date":"2013-12-08T14:01:52","date_gmt":"2013-12-08T17:01:52","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/sem-querer-fui-me-lembrar-de-uma-rua-e-seus-ramalhetes"},"modified":"2013-12-08T14:01:52","modified_gmt":"2013-12-08T17:01:52","slug":"sem-querer-fui-me-lembrar-de-uma-rua-e-seus-ramalhetes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/sem-querer-fui-me-lembrar-de-uma-rua-e-seus-ramalhetes\/","title":{"rendered":"Sem querer, fui me lembrar de uma rua e seus ramalhetes"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/e-copa.gif\" align=\"right\">Ouvi esses dias de uma amiga incr\u00edvel respostas indiretas para algumas das minhas perguntas imposs\u00edveis. \u201cAceitar o que n\u00e3o temos controle \u00e9 uma das coisas mais dif\u00edceis. \u00c9 reaprender espanhaa andar sozinho. Agora, para manter a sanidade, tudo que for diferente ajuda. Guarde longe dos olhos o que te trouxer lembran\u00e7as. Eu sei que \u00e9 tudo, mas algumas coisas s\u00e3o mais\u201d.<\/p>\n<p>Sim, amiga incr\u00edvel. Tudo me traz lembran\u00e7as. At\u00e9 mesmo ouvir o sorteio da Copa no tr\u00e2nsito. Igual a outra sexta-feira \u00e0 tarde, em dezembro de 2009, antes de mais uma deliciosa espera no terminal de Guarulhos. Ela estava radiante e esperan\u00e7osa, trazendo na bagagem desejos de Belo Horizonte.<\/p>\n<p>&#8211; Nossa chave \u00e9 complicadinha, meu anjo. Tirando a Cor\u00e9ia do Norte, que \u00e9 uma baba, vai ter Portugal e Costa do Marfim.<br \/>\n&#8211; Quuu\u00ea\u00ea\u00ea\u00ea\u00ea\u00ea Costa do Marfiiiim!!! Vai dar Brasil!!!<\/p>\n<p>N\u00f3s rimos e partilh\u00e1vamos nossos sonhos como normalmente acontecia quando est\u00e1vamos juntos.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea aqui e eu em BH. Vai ser lindo, vamos nos encontrar muito. E quando terminarmos nossos mestrados, a gente se casa. Voc\u00ea sabe que te amo muito, que quero uma fam\u00edlia contigo. E n\u00f3s n\u00e3o vamos desistir.<\/p>\n<p>N\u00e3o deu Brasil. N\u00e3o deu em nada. Sigo um caminho diferente, mas ainda prestando aten\u00e7\u00e3o nas bolinhas que novamente formar\u00e3o a trilha da sele\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m estava louco para saber quem encabe\u00e7aria o grupo H: quis o sorteio da vida me mandar cobi\u00e7ados ingressos do Mundial para\u2026 Adivinhe.<\/p>\n<p>&#8211; Mas voc\u00ea n\u00e3o gosta de Belo Horizonte&#8230;<\/p>\n<p>Esse queixume reapareceu antes dela partir. Foi na mesma semana em que dizia &#8220;vamos ver um jogo da Copa juntos&#8221;, fal\u00e1vamos em financiamento de casa e em lua de mel no Jap\u00e3o. Comparando com essa decis\u00e3o maluca, \u00e9 bem mais f\u00e1cil entender as raz\u00f5es das palavras desnecess\u00e1rias direcionadas \u00e0 capital mineira. Enfim, imagino que ela desconfiava: n\u00e3o existe raz\u00e3o sustent\u00e1vel para qualquer mortal desgostar de Belo Horizonte.<\/p>\n<p>Meu problema com BH \u00e9 o mesmo com sorteio da Copa: as lembran\u00e7as.<\/p>\n<p>Quer dizer, pensar que a rela\u00e7\u00e3o intensa com uma cidade coaduna com um eventinho frugal da Fifa seria uma estupidez t\u00e3o grande quanto jogar um amor vivo na latrina. Diferente das bolinhas dos potes, a cidade \u00e9 perene ao acalentar o sonho dela, e seus descaminhos e cruzamentos pretensamente planejados mexeram com seus planos durante dois anos de descobertas. Estava longe de casa e, ao mesmo tempo, sentia-se longe quando chegava em casa.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o fazia ideia, s\u00f3 me preocupava em estar com ela. Como no dia dos namorados que coincidiu com \u00c1frica do Sul e M\u00e9xico, aquele jogo de abertura onde fomos apresentados ao Tshabalala. Nem prestamos aten\u00e7\u00e3o em Uruguai e Fran\u00e7a: preferi tir\u00e1-la para dan\u00e7ar e falar no seu ouvido coisas que a fizeram tremer dentro do vestido naquele quarto do Othon Palace. Quanta saudade, Tavito!<\/p>\n<p>Mas eu n\u00e3o presto aten\u00e7\u00e3o em sinais, nunca vou saber quando as coisas v\u00e3o bem ou mal. Devia ter prestado aten\u00e7\u00e3o quando, depois daquele p\u00f4r do sol na pra\u00e7a do Papa, caminh\u00e1vamos na dire\u00e7\u00e3o da Rua Ramalhete, ela veio com um daqueles papos de sei l\u00e1 por qu\u00ea.<\/p>\n<p>&#8211; Nossa, voc\u00ea viu o frango que o Green levou? Que coisa bisonha\u2026 Ei, fale comigo!<br \/>\n&#8211; Ah\u2026 N\u00e3o\u2026 Sei l\u00e1, estou pensando\u2026 Acho que voc\u00ea precisa de uma outra mulher.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o a Espanha foi campe\u00e3. E a b\u00fassola do desejo dela j\u00e1 rodopiava e preferiu ficar sozinha. Depois daquele sorteio, eu n\u00e3o imaginava que isso seria poss\u00edvel. Mesmo que parte de mim considere isso lindamente necess\u00e1rio para qualquer cidad\u00e3o perdido, eu tenho um lado neur\u00f3tico que diz \u201cela te acha desnecess\u00e1rio e repugnante\u201d.<\/p>\n<p>Mas que merda! Caiu a B\u00e9lgica no Grupo H! N\u00e3o faz sentido. A Fifa desenhou esse cabe\u00e7a-de-chave para jogar em Minas, Rio e S\u00e3o Paulo. A bolinha gelada tinha que botar uma Alemanha ali. Mas a B\u00e9lgica?! Bom, j\u00e1 ouvi por a\u00ed que o time joga direitinho, \u00e9 esperan\u00e7a de uma partida bacana. Tomara que o H2 seja minimamente bacana. N\u00e3o vamos perder a esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Como na tarde em que vivi meu onze de setembro particular. Fui atr\u00e1s dela tempos depois da rasteira que levei. Estava decidido a reconquist\u00e1-la. Procurei pela Internet uma floricultura no Cor\u00e9u. Encomendei um buqu\u00ea de rosas sem mesmo saber se o cantinho existia. Deu certo: acertei o combinado antes de aparecer na janela do seu apartamento para uma serenata improvisada e chorar feito crian\u00e7a perdida nos seus bra\u00e7os.<\/p>\n<p>\u00c9 como se minha mente dissesse, naquele instante: \u201cj\u00e1 percebeu que, com ela em Belo Horizonte, voc\u00ea est\u00e1 vulner\u00e1vel, fraco, impotente\u201d?<\/p>\n<p>Mente idiota. O amor nos deixa assim em qualquer lugar do planeta. Mas algumas sinapses descontroladas sei l\u00e1 de onde conectaram uma cidade gostosa como Belo Horizonte ao sofrimento que, diria Vin\u00edcius, n\u00e3o devemos ter medo pois todo grande amor s\u00f3 \u00e9 bem grande se for triste. Isso n\u00e3o pode ser, t\u00e1 errado! Parem com tudo! Arg\u00e9lia \u00e9 o H2! ARG\u00c9LIA!!! Tenho um ingresso para ver B\u00e9lgica e Arg\u00e9lia no Mineir\u00e3o!!! Posso trocar por um mergulho em uma piscina com gilete e \u00e1lcool gel?<\/p>\n<p>Que castigo. Igual ao da \u00faltima vez que estive em Belo Horizonte. Desci em Confins naquela manh\u00e3 de 15 de dezembro, v\u00e9spera da defesa de mestrado dela. Queria aproveitar cada instante. Sentir o momento. Fazer diferente da minha banca, quando sem saber o quanto aquilo significaria um rito de passagem, uma celebra\u00e7\u00e3o, algo para ser sentido como a brisa do mar com os p\u00e9s na areia de Cassandoca, perdi a chance de comemorar como gostaria. Com ela ao meu lado. Naquela noite est\u00e1vamos juntos&#8230; Mas ela carregava aquele olhar distante, cortante.<\/p>\n<p>Dessa vez, a hist\u00f3ria seria outra. Imaginei chegar ao hotel na Savassi e correr para o Cor\u00e9u, simplesmente para ficar ao lado dela. J\u00e1 devia saber: planos existem para serem ridicularizados pelo imponder\u00e1vel.<\/p>\n<div align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/131208_bhdezdoze.jpg\" alt=\"Capas dos jornais locais naquele dezembro de 2011\" alt=\"Capas dos jornais locais naquele dezembro de 2011\"><\/div>\n<p>Havia chuva em todos os cantos de BH. S\u00f3 consegui cumprir o caminho entre o aeroporto e o centro da cidade ap\u00f3s  algumas tristes horas. Longe dali, ela estava molhada e tensa. Somatizou as sensa\u00e7\u00f5es como se sua performance determinasse o futuro de sua vida toda. S\u00f3 consegui encontr\u00e1-la por poucos minutos naquele Subway vazio. Entendi como nunca aquele seu jeito perdido: pensei nela e em todos os meus desejos que inclu\u00edam a sua presen\u00e7a. Veio uma mistura incontrol\u00e1vel de aus\u00eancias. Entrei em ruas e becos inacredit\u00e1veis para chegar naquela pracinha do Cora\u00e7\u00e3o Eucar\u00edstico. Voltei para a Savassi com a chuva, com a falta que ela me faz.<\/p>\n<p>A luz do dia 16 anunciou um clima mais ameno. Ainda \u00famido, mas no caminho certeiro, com incorre\u00e7\u00f5es impercept\u00edveis. Deu tempo de aproveitar minimamente aquela manh\u00e3 ao seu lado, ajud\u00e1-la com o pen-drive e os slides e lev\u00e1-la para aquele predinho da PUC, que remete a Escuela Mundial. Ela continuava tensa. Mas consegui me aproximar e dar um beijinho de sucesso.<\/p>\n<p>&#8211; Eu gosto dessa sua cal\u00e7a.<br \/>\n&#8211; \u00c9. Tamb\u00e9m escolhi a camisa que usei naquele jantar do Chile.<br \/>\n&#8211; Eu sei.<\/p>\n<p>Evidente. Ela sabe tudo o que vai acontecer conosco. Sempre soube, seu bobo. Mas eu tamb\u00e9m sabia que, naquela manh\u00e3, bastava que ela aproveitasse e relaxasse. E foi maravilhoso. Eu me deliciei com cada minuto daquele instante. O trabalho dela foi lido e avaliado com profundidade, mas delicadeza. E ela se defendeu como costuma fazer: com coragem e l\u00e1grimas. Ao final, enquanto a abra\u00e7ava, ouvi algo que a define lindamente.<\/p>\n<p>&#8211; Obrigada por tudo. Por hoje. Pelas coisas boas que voc\u00ea representa na minha vida.<br \/>\n&#8211; Ei, foi incr\u00edvel! Eu \u00e9 que tenho que agradecer por estar aqui, viver isso contigo\u2026<br \/>\n&#8211; N\u00e3o. Eles massacraram meu trabalho. Detestaram. Odiaram.  Nenhum elogio. Ficou horr\u00edvel. Se tivesse nota, seria oito.<\/p>\n<p>Ela nem estava se referindo a B\u00e9lgica e Arg\u00e9lia, mas sim a um dos momentos mais sublimes que Belo Horizonte nem desconfia ter acontecido. Enfim, aquela postura dela, esse &#8220;s\u00f3 vale a pena se for perfeito e imaculado&#8221;, \u00e9 como um v\u00edrus modificado em nossa corrente sangu\u00ednea. Fortalece nossas defesas ao mesmo tempo que carrega a doen\u00e7a que pode nos derrubar. Assim sou eu em BH: um sujeito sem defesa.<\/p>\n<p>Come\u00e7aram a vir mensagens no meu celular. &#8220;B\u00e9lgica e Arg\u00e9lia! Sifudeu! Hahahahahaha! N\u00e3o vai chorar!&#8221;. Claro que esperava algo diferente no sorteio, mas a li\u00e7\u00e3o est\u00e1 posta. Podemos procurar pela estrada que nos leva a lugares especiais, uma busca que pode levar a vida inteira. Tamb\u00e9m podemos ligar o r\u00e1dio, lembrar do que vivemos e apenas dirigir, sem se aborrecer com as imperfei\u00e7\u00f5es humanas. Amanh\u00e3 nossos desejos v\u00e3o nos levar para outra estrada, com a velocidade das suas emo\u00e7\u00f5es. E ningu\u00e9m garante que essa trilha vai nos levar de volta para uma cidade marcada por alguma frustra\u00e7\u00e3o passada. Vai ser inevit\u00e1vel desacelerar, mas seria triste demais parar no acostamento ou desviar.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem tenha medo de voltar a um lugar que nos fa\u00e7a sofrer. Eu ainda n\u00e3o consigo ouvir Milton Nascimento cantar que &#8220;nada ser\u00e1 como antes amanh\u00e3&#8221; sem sentir um alvoro\u00e7o no meu cora\u00e7\u00e3o despeda\u00e7ado. Mas viver s\u00f3 faz sentido com aventura, e isso inclui enfrentar nossos fantasmas e conquistar novas lembran\u00e7as. Exatamente como, em alguma ideia boba do passado, botei o nome da companhia que realmente desejava ao meu lado no Mineir\u00e3o para assistir a esse B\u00e9lgica e Arg\u00e9lia.<\/p>\n<p>Enfim, encostei o carro no meu destino final e, por SMS, reforcei com meu novo convidado a inten\u00e7\u00e3o de encarar a aventura do pr\u00f3ximo 17 de junho.<\/p>\n<p>&#8211; Cara, B\u00e9lgica e Arg\u00e9lia vai ser o melhor jogo da Copa. E ainda tem as belgas.<br \/>\n&#8211; Exatamente. E voc\u00ea vai ter que ser forte para ouvir \u201cRua Ramalhete\u201d outra vez.<\/p>\n<p>\u00c9 isso. Vamos deixar tudo rolar, e o som dos Beatles na vitrola.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ouvi esses dias de uma amiga incr\u00edvel respostas indiretas para algumas das minhas perguntas imposs\u00edveis. \u201cAceitar o que n\u00e3o temos controle \u00e9 uma das coisas mais dif\u00edceis. \u00c9 reaprender espanhaa andar sozinho. Agora, para manter a sanidade, tudo que for diferente ajuda. Guarde longe dos olhos o que te trouxer lembran\u00e7as. 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