{"id":1883,"date":"2013-11-20T21:46:28","date_gmt":"2013-11-21T00:46:28","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/entregue-esta-carta-para-aquela-prostituta"},"modified":"2013-11-20T21:46:28","modified_gmt":"2013-11-21T00:46:28","slug":"entregue-esta-carta-para-aquela-prostituta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/entregue-esta-carta-para-aquela-prostituta\/","title":{"rendered":"Entregue esta carta para aquela prostituta"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/pedra.gif\" align=\"right\" \/>Ando descrente em rela\u00e7\u00e3o ao amor, e isso \u00e9 ruim. Sinto um desconforto idiota ao lembrar das coisas rid\u00edculas que somos capazes de fazer em nome de um lance ou de um romance. \u00c9 como se eu vivesse num lugar onde s\u00f3 vale a pena existir se for com borboletas no est\u00f4mago, ouvindo Milton Nascimento e Fl\u00e1vio Venturini cantando Nascente. Seja o rapaz que desiste do Tinder ap\u00f3s se apaixonar loucamente por uma foto at\u00e9 a louca que corre atr\u00e1s do seu vi\u00favo numa viagem de dois dias a bordo de um \u00f4nibus. Pode ser que essa cren\u00e7a tenha a mesma dura\u00e7\u00e3o de um filme como As Pontes de Madison&#8230; Mas \u00e9 o que importa: nesse universo, rela\u00e7\u00f5es equilibradas fazem tanto sentido quanto cinzeiro em moto ou locadora de lingerie.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m pode ser que esse sintoma fique mais evidente em lugares como Penedo, terra do j\u00e1 extinto <a href=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/o-velho-barreiro-e-o-guardiao-da-meia-noite\/\" target=\"_blank\"><b>Guardi\u00e3o<\/b><\/a>. Imagino que, antes de fechar as portas daquela espelunca, a velha bruxa que mantinha o bar chegou ao alto de uma cachoeira, em algum lugar do parque nacional de Itatiaia, para despejar barris de retet\u00e9u &#8211; aquela bebida a base de vinho e &#8220;ervas arom\u00e1ticas&#8221;. Dessa forma, tudo o que um vivente precisaria para enlouquecer de paix\u00e3o plat\u00f4nica seria um copo d&#8217;\u00e1gua.<\/p>\n<p>E eu s\u00f3 consigo pensar que a doce Carol, jovem de beleza brejeira, sorriso f\u00e1cil e espontaneidade latente em sua pele, mergulha diariamente em uma piscina com retet\u00e9u diluido.<\/p>\n<p>Quando a conheci, estranhei seu olhar distante e algumas palavas confusas. Ainda eram efeito de uma decis\u00e3o esquisita, que come\u00e7ara numa discuss\u00e3o acalorada com a namorada. Pelo que entendi, ela vive uma dessas hist\u00f3rias impregnadas de farpas dentro e fora da cama. Mesmo para quem goste, paci\u00eancia tem limite. Naquela noite, deixou a enlouquecida falando sozinha, dirigiu seu Fusca 80 at\u00e9 a casa de uma amiga e, numa sinapse retet\u00e9lica, sentenciou:<\/p>\n<p>&#8211; Bora l\u00e1 no Ostra Azul, fofinha.<\/p>\n<p>Esse &#8220;Ostra Azul&#8221; n\u00e3o tem rela\u00e7\u00e3o alguma <a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=jo3m2ATiomY\" target=\"_blank\"><b>com aquele bar ficcional<\/b><\/a> norte-americano da s\u00e9rie Loucademia de Pol\u00edcia, onde o Sargento Harris e seu capacho Proctor d\u00e3o de cara com toda sorte de estere\u00f3tipos gays, sendo obrigados a passar a noite dan\u00e7ando o tcha-tcha-tch\u00e1 &#8220;El Bimbo&#8221;. Esse Ostra Azul \u00e9 um prost\u00edbulo na beira da estrada com todos os estere\u00f3tipos de quinta categoria poss\u00edveis: ambiente feio, escuro e mal frequentado, cheiro de cigarro, luzes piscando e m\u00fasica alta, mulheres medianas cobrando at\u00e9 R$ 150 &#8211; mas s\u00f3 papai e mam\u00e3e, sem nenhum extra.<\/p>\n<p>No meio das desajeitadas, uma morena minhom, roupa de princesinha, cabelos curtos, tatuagem no ombro. &#8220;Gat\u00edssima com tudo muito no lugar&#8221; como lembrou Carol, iluminava os arredores com seu jeito de boneca. Quando os olhares delas se cruzaram, foi como se todas as cores ocultas nos copos sujos de cerveja brotassem de uma vez. Ent\u00e3o aquela pequena criatura deslocada abriu um sorriso, silenciando a barulheira e dissipando a mistura de cheiros suados. Carol simplesmente n\u00e3o consegue descrever: disse apenas que nunca vai esquecer da express\u00e3o que mudou sua noite, sua vida.<\/p>\n<p>Carol e a amiga sentaram, estavam absolutamente sem grana. &#8220;Tudo bem, eu te trago uma bebida&#8221;, sussurrou a mais desejada prostituta do Ostra Azul. Disse que se chamava Aline. Ainda sorrindo, pediu por um cigarro. Carol e a amiga estavam realmente sem nada. &#8220;Tudo bem, tamb\u00e9m vou te trazer alguns&#8221;, sentenciou, n\u00e3o sem estabelecer suas condi\u00e7\u00f5es pr\u00e9vias:<\/p>\n<p>&#8211; Mas eu n\u00e3o quero que voc\u00ea olhe para mulher nenhuma. Quero a noite toda s\u00f3 para mim. <\/p>\n<p>Carol e a amiga ignoravam um detalhinho: lugares assim n\u00e3o s\u00e3o como castelos de contos infantis. N\u00e3o existem guardas reais guardando a ponte, mas militares enigm\u00e1ticos que fazem bico atuando como le\u00f5es de ch\u00e1cara, prestando servi\u00e7o para quem det\u00e9m o poder do reino. No Ostra Azul, a cafetina ostentava a mais feia cara de mau poss\u00edvel para algu\u00e9m de seu naipe. Dessas que n\u00e3o tiram o olho do rebanho, rebaixando-as como gado mesmo. Carol ouviu falar que as mo\u00e7as s\u00e3o humilhadas e multadas pela megera caso saiam da linha &#8211; desde ficar sem salto alto at\u00e9 propor programa fora da casa. &#8220;Nossa, como ela se parece com a Preta Gil&#8221;, brincou. Talvez seja mesmo a filha do ex-ministro trazida do mundo bizarro dos Superamigos.<\/p>\n<p>Pois essa figura desempenhou bem seu papel de bruxa m\u00e1. Aproximou-se de Carol e, gentilmente, convidou-a para sair.<\/p>\n<p>&#8211; Quero ver essa mo\u00e7a trabalhar e voc\u00ea t\u00e1 aqui empatando foda. Caia fora antes que eu acabe com a sua ra\u00e7a. E nunca mais bote os p\u00e9s aqui. Se eu encontrar essa sua cara bochechuda outra vez, te mostro a minha navalha, sua safada!<\/p>\n<p>Aquela expuls\u00e3o discreta chamou aten\u00e7\u00e3o dos caminhoneiros pr\u00f3ximos \u00e0 porta. Uma puta nova, ou melhor, rec\u00e9m-chegada ao Ostra Azul, ficou horrorizada. Deve ter pensado algo como &#8220;onde eu vim amarrar meu burro&#8221;. Para sorte da Carol e de sua amiga (naquela altura p\u00e1lida de susto), o Fusca 80 pegou de primeira. Ca\u00edram fora.<\/p>\n<p>A partir daquela volta para casa, o mesmo inc\u00f4modo bagun\u00e7a a mente de Carol: uma louca lacuna sobre como seria bom viver tudo o que aquele encontro despertou. Pobre mo\u00e7a apaixonada, fisgada por aquilo que parece explodir qualquer desejo humano: desafios que se aproximam do imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8211; Ser\u00e1 que ela se lembra de mim? N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que tenha mexido s\u00f3 comigo. Eu sinto que ela quer que eu fale. Queria que ela soubesse como eu estou, mas n\u00e3o posso entrar mais l\u00e1.<\/p>\n<p>A n\u00e3o ser que&#8230; Plim!<\/p>\n<p>&#8211; P\u00f4, eu poderia entregar uma carta! Ai, se eu soubesse como escrever&#8230;<\/p>\n<p>A quem eu quero enganar propagando minha descren\u00e7a em hist\u00f3rias que tem tudo para dar errado? \u00c9 poss\u00edvel que um escudo besta, forjado na desilus\u00e3o, seja capaz de ignorar sentimentos desse tamanho?<\/p>\n<p>&#8211; Carol, pegue um papel e uma caneta. Eu te ajudo.<\/p>\n<p>Sem pensar ou respirar, tirou no meio da bagun\u00e7a um caderno e uma Bic preta. Pensei nas amea\u00e7as da cafetina, naquele olhar perdido, em todas aquelas sensa\u00e7\u00f5es&#8230; Podia escancarar um caminh\u00e3o de coisas, mas achei mais prudente manter a calma e singeleza. Escrevi de uma vez s\u00f3, n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o naquela paix\u00e3o para uma &#8220;vers\u00e3o dois&#8221;. Ficou assim:<\/p>\n<div align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/131121_cartacarol.jpg\" title=\"Sim, \u00e9 tudo verdade!\" \/><\/div>\n<p><tt><br \/>Oi, Aline! Antes de qualquer coisa, espero que voc\u00ea esteja bem. Sempre penso nisso, desde a primeira vez que nos vimos.<\/p>\n<p>Nosso \u00faltimo encontro foi lindo e, ao mesmo tempo, confuso. Eu n\u00e3o entendi o que aconteceu e, ainda hoje, estou grilada. N\u00e3o paro de criar hist\u00f3rias e pirar com a sua imagem.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sei como te dizer, nem sei se vamos nos encontrar de novo. Mas queria muito que isso rolasse. Minha vontade de te olhar nos olhos, falar tudo o que sinto e te ouvir muito... Isso s\u00f3 aumenta.<\/p>\n<p>Tomara que esse bilhete chegue a voc\u00ea, das m\u00e3os de algu\u00e9m que tamb\u00e9m quer ver tudo em paz. E depois, um dia, quem sabe, nossos sorrisos se encontrarem (sic) outra vez.<\/p>\n<p>Um beijo da Carol<\/tt><\/p>\n<p>Al\u00e9m de algumas falhas de revis\u00e3o, pensei comigo: &#8220;ficou t\u00edmida, discreta, nunca vou conseguir reproduzir o furac\u00e3o que essa mulher tem no peito&#8221;. Para minha surpresa, ela amou o texto. &#8220;Parece at\u00e9 que eu mesmo estou falando&#8221;, comemorou. &#8220;Ela vai se sentir especial. Isso vai tocar no cora\u00e7\u00e3o dela&#8221;.<\/p>\n<p>Naquela noite, caminhando pelas ruas de Penedo com os amigos, Carol tinha surtos provocados pela carta dobrada guardada no bolso, reaberta a cada instante para mostrar a um amigo &#8211; tamb\u00e9m era para absorver cada palavra a ponto de decor\u00e1-las. &#8220;N\u00e3o quero dinheiro, mas se eu tivesse, tiraria ela de l\u00e1 se ela quisesse e viveria longe&#8221;. S\u00f3 faltou Odair Jos\u00e9 sair do Restaurante do Fritz para cantarolar <a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=rBP9nAL00Nk\" target=\"_blank\">aquela famosa estrofe<\/b><\/a>. Ent\u00e3o eu me dei conta: sou mesmo um idiota que acredita no amor.<\/p>\n<p>&#8211; Carol, e se a gente fosse at\u00e9 l\u00e1? Eu entrego essa carta para voc\u00ea.<\/p>\n<p>Enquanto a apaixonada gritava &#8220;aaaiii, me leeeva naquele put\u00ea\u00ea\u00earo agooora!!!&#8221;, fui impedido por todos antes mesmo da minha mente voltar ao estado racional de praxe. Afinal, convenhamos: fazer com que essa carta chegue nas m\u00e3os de uma profissional do sexo sem passar pelo radar que a persegue \u00e9 uma miss\u00e3o digna de Tom Cruise. &#8220;E a essa hora da madrugada? O que voc\u00ea acha que ela est\u00e1 fazendo agora?&#8221;, questionou algu\u00e9m bem mais s\u00e9rio.<\/p>\n<p>Eu \u00e9 que sei? Servindo caf\u00e9?<\/p>\n<p>&#8211; T\u00e1 certo, n\u00e3o vai ser agora, mas um dia tem que ser. Eu s\u00f3 preciso entregar essa carta. Quero que ela saiba. S\u00f3 assim vou conseguir ficar em paz. Depois disso, tanto faz.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei o que se passou depois, mas a beleza do sentimento da Carol n\u00e3o tem data de validade. Pensando bem, nem sei se vale a pena saber da continua\u00e7\u00e3o: se nem os mais simples projetos sobrevivem ao imponder\u00e1vel, imagine este. Provavelmente o amor seja assim mesmo: fr\u00e1gil e precioso como uma flor nascida em qualquer canto in\u00f3spito. Talvez ele s\u00f3 exista assim, insano, sem normas ou receios, carregado de esperan\u00e7a. \u00c9 justamente ela que, ao mesmo tempo, alimenta nossos sonhos e nos faz movimentar a vida que, rotineiramente, batizamos de &#8220;realidade&#8221;.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o d\u00e1 para separar as coisas, podemos enlouquecer imerso em nosso excesso de romantismo, esperando a pr\u00f3xima rasteira que vai nos deixar sozinhos. Ou, sei l\u00e1, simplesmente abstrair, viver e n\u00e3o parar de amar do jeito que for.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ando descrente em rela\u00e7\u00e3o ao amor, e isso \u00e9 ruim. 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